domingo, 2 de junho de 2019

O rio (Conto), de Oscar Lopes



O rio
Tive um sonho cruel esta noite, meu filho...
— Sonhos de nada valem, minha mãe.
— Mas o meu foi horrível. Acordei debulhada em prantos, o travesseiro ensopado de lágrimas.
— Um pesadelo... Estavas em má posição, com certeza.
— Vê como estou fatigada. Parece que saí de um tresnoite sem fim... Tenho os olhos fundos e amor­tecidos, a garganta seca, um tremor convulsivo na pele. Doem-me os ossos da cabeça e o meu coração está pesado.
— Leste alguma história triste?
— Não.
— Contaram-te, então, alguma cena de desastre.
— Também não, meu filho. O sonho veio espon­taneamente, como um aviso. Não sei, não vejo relação da vida real para ele.
— Talvez tivesses uma antiga impressão adormecida no cérebro...
— Não, não. Meu sonho foi tão feio, tão negro, que nunca pude imaginar coisa parecida com ele.
— Esquece-te disso. Olha que lindo dia faz lá fora, que luz ardente e que céu azul. Vem cá. Vem até a janela... Vê, lá ao longe, como o rio reflete o céu.
— O rio... Filho, abandona a janela, vem para dentro.
— Por que, minha mãe?
— Foi o rio o meu pesadelo. Sai. Vem: é horrível!
— Conta o teu sonho.
— Não tenho coragem...
— Não te impressiones. Conta...
— Pois bem, conto. É preciso contar para que não aconteça. Sorris? Achas-me ingênua... Não rias, filho. Escuta: sonhei que tinhas morrido afogado no rio...
— Ora, que ideia! Amanhã sonharás que morri de repente. E afinal, minha mãe, morrerei do que tiver de morrer. Não penses nisso, não acredites em sonhos.
— Queria fazer-te um pedido.
— Por que não fazes?
— Só se jurares cumpri-lo.
— Assim, não. Podes pedir qualquer coisa que não esteja ao meu alcance.
— Está.
— Pede.
— Não vás mais ao rio...
— Ora, que pedido! Como não ir ao rio, se é ele que me dá trabalho?
— Arranja outro meio de vida. Em terra...
— Que tolice! Não vejo nenhum perigo no que faço: chega um vapor, atravesso o rio numa lancha seguríssima e volto à terra. Onde está o perigo? Não penses no sonho que tiveste. Vê bem como é fácil meu trabalho. Ganho o bastante para vivermos. Por que abandonar uma casa séria, segura, onde sou estimado, onde tenho futuro, por um emprego talvez inferior e efêmero? Seria recomeçar a vida. Uma superstição vale tão grande sacrifício?
— Se eu te arranjasse coisa equivalente?
— Não. E depois, se eu tiver de morrer afogado, não haverá precaução que me furte a isso. Fica tran-"la, minha mãe.
— Deixa-me ver tua mão.
— Aí tens. Que é isso? Vais dar-me este anel?
— Toma. Fica com ele. Era de teu pai. Está muito bem no anular da mão esquerda. Este anel livrar-te-á dos males...
— Obrigado. É um lindo presente. Agora, esquece o sonho.
***
Correm sucessivamente os dias. A vida ribeirinha é calma e doce. Entre as duas margens rasas, pelas quais se estendem as povoações, rola, com preguiça, largo a perder de vista, o rio imenso. Terra adentro, envol­vendo as casarias, num cerco fantástico, alastra-se a pro­digiosa floresta, cheia de beleza e mistério, dadivosa e pérfida, guardando mortes e tesouros. Nas casas, escoa-se uma existência pacata. A fita lustrosa d'água serena, uma vez e outra é revolvida pela passagem de um navio que lança ferro em frente à cidade; ou as embarcações leves e ligeiras, em rápido surto, deixam no espelho líquido um rebojo manso que logo se desfaz em peque­ninas vagas fugitivas. A cabeça de um réptil que emerge abre círculos que se vão alargando mais e mais. Com os dias, correm sucessivamente os meses. E sobre as flo­restas, sobre as casas, sobre o rio, transluz a porcelana do céu tropical.
***
— Minha mãe, vou fazer hoje um delicioso passeio. Que pena não poderes vir também...
— Onde é o passeio?
— Perto.
— Na mata?
— Não, no rio.
— Ah! meu filho, no rio?
— Sim, que mal faz?
— Não, não vás.
— Por quê?
— Meu filho, porque faz hoje exatamente um ano que tive aquele sonho. Lembras-te?
— Ainda te lembras dele?
— Como não, meu filho, se nunca o esqueci um dia só...
— Esquece-te. Olha o rio como está manso e o tempo como está seguro. Vai ser um lindo passeio. Já viste o cutter novo?
— O de teu amigo? Sim, já vi. É nele o passeio?
——É. O cutter é muito seguro.
— Tão pequeno...
— Também o passeio é pequeno. Em meia hora teremos ido e voltado.
— Até onde vão?
— Até aquela ponta, vês?
— Vejo. Ë longe...
— Em dez minutos vai-se lá. Deixas?
— Tens realmente muita vontade?
— Muita. Não corro o mínimo risco.
— Não tens medo?
— Nenhum. O barco é forte. O tempo é bom. Ambos nós sabemos nadar. E é um instante.
— Lembra-te que faz um ano...
— Tolices... Nada acontecerá. Até logo.
—Já?
—Já-
— Tem cuidado. Não vás muito longe.
— Vamos apenas fazer a volta da ponta. Dá-me o meu chapéu desabado. O sol está ardente. Que lindo dia! Até logo, minha mãe.
— Meu filho, até logo.
— Como me beijas! Parece que vou para uma longa viagem.
— Até logo. Toma cuidado.
— Não haverá risco; o rio é meu amigo. Até já.
Uma asa de garça, leve, raspa a água do rio. É o cutter. Partiu nesse mesmo instante, para dobrar a ponta, ao longe. A vela inflada é como um seio túmido. O vento é bom e a água, arrufada, lampeja à luz. O cutter vai à bolina e já está a alcançar a ponta de terra. Olhos indiferentes seguem a marcha graciosa da em­barcação, que é uma asa de grande pássaro branco esfrolando a prata líquida da torrente.
***
Calma, quente, cheia de astros, a noite caiu. Dentro das casas, a gente repousa, após o labor diário. Numa sala humilde, que uma lâmpada fumarenta ilumina, há alguém que não descansa, alguém que, de bruços na janela, os olhos penetrando a escuridão da rua, há longas horas espera ver chegar alguém que tarda. No firma­mento alto, remoto, continua a ronda dos astros...
***
— Tenha coragem...
— Meu filho morreu!
— Isso que é?
— São as joias, os botões de ouro dos punhos, o alfinete...
— Meu filho, meu pobre filho...
— Chore, minha senhora, chore...
— Bem eu lhe disse... Um ano justo!
— Aqui está a carteira...
— Como foi? Conte-me. Eu terei coragem...
— Foi ao dobrar a ponta. O barco virou...
— E o outro? Também?
— Também...
— Mas, falta aqui o botão de um punho...
— E o anel que eu lhe dera no dia seguinte ao sonho, havia um ano...
— O anel que fora do pai...
— Não sei... Só me deram isso...
— E o corpo?
— Já o enterraram.
— Meu pobre filho... Mas o anel, hem?
— Não sei...
— O anel que estava na mão esquerda. Este botão é o do punho direito. Vê? Falta o outro... O do esquerdo... Meu filho...
— Tenha coragem... Venha para dentro... Eu lhe farei companhia... Faltava todo um braço ao corpo...
Um grande choro se desata, abundante, largo, ar­dente, choro que nunca mais devia cessar.


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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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