domingo, 9 de junho de 2019

Uma flor entre o gelo (Conto), de Júlio Diniz



Uma flor entre o gelo

CAPÍTULO 1

No tempo em que comecei a ir ao teatro estavam muito em moda os dramas em cinco atos com o complemento de uma farsa.

As plateias, os camarotes, as galerias e até a fleumática orquestra, depois de carpirem, com não fingida sensibilidade, as infaustas e tenebrosas aventuras do herói ou da heroína do primeiro dos espetáculos exibidos, acalmavam o sobressalto nervoso, que de tão continuados sustos lhes ficara, rindo, a bandeiras despregadas, à custa do velho iludido, tipo predileto da veia cômica de então.

O amor extemporâneo de um velho, os seus ciúmes insofridos, os seus acessos de cólera quase epiléticos e a intriga combinada contra ele entre a ingênua, vítima principal dessa paixão incômoda; o amante preferido e o criado astuto que dirigia o enredo, tentado pela bolsa recheada do galã e pela mão nívea da lacaia, propícia aos amores da ama: — tal era de fato o eterno e inesgotável tema glosado, com mais ou menos variantes, pelos Plautos e Terêncios da época.

A moda viera não sei se da Itália se da Espanha, mas generalizava-se rápida e extraordinariamente.

Beaumarchais foi um dos que a seguiram em França e com extrema felicidade; outros modelaram por os dele esses tipos genéricos, sem os quais quase não se concebia comédia, e, por mais desgraciosos que lhes saíssem os arremedos, tinham a certeza de os verem bem acolhidos.

O nosso Antônio Xavier não se pode dizer dos mais infelizes na tentativa; o seu Manuel Mendes, de popularíssima memória, bem mereceu os aplausos que o público tão generoso lhe prodigalizou.

Por muito tempo as plateias saboreavam estes acepipes teatrais, sem que da repetição se enfastiassem.

Eram já tão seus conhecidos os personagens que custou deveras a desabituá-las deles; como que se não entendiam com outros.

Queriam-se com o seu Pantalião ou Lançarote, tutor decrépito, desastradamente apaixonado por uma ingênua pupila, que só tinha a malícia indispensável para o enganar a cada momento; reviam-se na figura elegante dos Leandros e Florindos, cujos conceituosos requebros e pieguices amorosas escutavam com ouvidos complacentes; as jovialidades e astúcias do criado, os seus diálogos equívocos com a lacaia, as suas arlequinadas e tramoias a bem da causa comum, tudo saudavam com a mais decidida e clamorosa simpatia.

A ação seguia entre aplausos contínuos o curso regular.

Cada esforço que o velho fazia para o bom êxito dos seus projetos amorosos pervertia-lho a fatalidade em desserviço deles, e na cena final, quase sempre a das escrituras, quando se preparava para dar a batalha decisiva que devia coroar-lhe a constância, não desmentida entre desenganos e reveses, todos, até o próprio tabelião, se conspiravam contra ele, o malfadado via, no meio de risadas gerais, passar a pupila para os braços do amante, que, nesse momento solene, deixava cair o nariz de papelão, valioso auxiliar da última façanha.

Entrava-se em explicações, patenteava-se à vítima a trama minuciosa da intriga e ela acabava por perdoar e, o que mais é, tomava à sua conta o moralizar o fato.

Redobravam os aplausos; o casamento final justificava os meios, nem sempre demasiado lícitos, empregados para o fazer vingar; os espectadores retiravam-se satisfeitos, e tendo por essa forma afugentado as disposições para pesadelos e sonhos angustiosos que o drama lhes produzira, ceavam bem e dormiam melhor.

Ora sucedia já então um caso extraordinário comigo; era que, ao contrário da maioria, senão da unanimidade dos espectadores, não excetuando até os incursos no mesmo ridículo que se pretendia corrigir assim, dava-me para ter pena do velho em vez de me rir das suas tribulações.

A plateia conseguia suavizar as impressões penosas do drama com as jocosas peripécias de uma paixão... macróbia; a mim ficava-me uma melancolia interior, mais duradoura e sentidamente formada; a alucinação do veterano, à voz do que a proveniente da catástrofe do quinto ato.

Não obstante os acessórios caricatos de que autores e atores sobrecarregavam esses tipos, para os quais de tão inexorável severidade era a Tália da época, eu achava-lhes não sei que de interessante e, direi até, poético, que ofuscava tudo o mais, e não me deixava rir.

Rir, porquê? Não era antes para magoar e comover o drama psicológico que, através de episódios risíveis, se desenvolvia ali? A história de uma paixão sem futuro, funesta ao coração que a alimenta, não é mais digna de lágrimas que de escárnio?

Debaixo das vestes de polichinelo, que o público iludido saudava de gargalhadas e apupos, eu não via mais do que um desgraçado; através da máscara truanesca do comediante parecia-me a cada passo divisar um olhar de tristeza que me vinha direito ao coração.

Que querem? Mau é que se façam dessas abstrações; o efeito é depois inevitável.

Experimentai por vós; não vos lembreis da casaca esguia, do calção engelhado, do sapato de monstruosa fivela, do impertinente rabicho da cabeleira, da colossal caixa do tabaco, todas as noites tirados do guarda-roupa do teatro para adornarem esses tipos, e auxiliarem o efeito cômico da produção — muita vez mais devido a tais acessórios do que ao sal que a temperava — não atenteis nas rugas profusa e burlescamente distribuídas pela mão exercitada do caracterizador; ou, melhor ainda, concebei, se podeis, aquela alma independente de todos os desfavoráveis acidentes corpóreos, e ao vê-la lutando com uma dessas paixões violentas, devoradoras, que são a sua máxima manifestação de vigor e de vida; e humilhada, ridicularizada, escarnecida, porque o corpo, que a subjuga, envelheceu primeiro do que ela; porque regelou o sangue enquanto o espírito se inflamava em impetuosas lavaredas; porque se enrugou a cara, quando o coração se expandia com maior força de afetos; dizei depois, em consciência, se tendes ânimo para vos rirdes desse espetáculo!

E a prova de que o ridículo está todo nos acessórios, de que é mais para comover e impressionar dolorosamente do que para alegrar o fenômeno moral que em tese absoluta condenavam às risadas da plateia, é que, pouco tempo depois, via-se no teatro um amor de velho, com todas as exaltações, com todas as esperanças, com todos os receios e desesperos de um amor de rapaz, e, apesar das barbas brancas do amante ancião, ninguém se sentiu disposto a sorrir.

Para salvar do ridículo a Rui Gomes da Silva do drama de Vítor Hugo, bastaram as vestes negras e severas do fidalgo espanhol da corte de Carlos V, as armaduras de cavaleiro pendentes da sala de armas, a galeria de retratos de uma longa série de heróis seus antepassados; o amor não conseguiu apequenar esse vulto, que a velhice, o orgulho e a firmeza de caráter faziam terrivelmente grande. E contudo não passava de um velho apaixonado o altivo rival de Hernani.

Na sua presença, porém, os espectadores estremeciam em vez de sorrir; fácil lhes seria prever que essa mesma paixão, olhada ainda por outro aspeto, os poderia fazer chorar.

Por que não? Pois comove-nos o desespero impotente do cego, rodeado das magnificências da natureza, que pressente sem as poder gozar e para compreender as quais tinha alma superior do clarim arrebatado em ardor marcial, e que se ergue impetuoso para correr ao chamamento da pátria, esquecendo por instantes que o braço mutilado já não pode suster a espada, que tantas vezes gloriosamente brandiu; o desalento do poeta, cujos sublimados anelos o alheiam da vida real, que no seu positivismo o sacrifica, que morre como Chaterton, consumido pelo fogo do próprio gênio, impossível de existir num a sociedade ainda não organizada para o conter em si; interessam-nos todas estas lutas, todos estes antagonismos, todos estes conflitos em que se desvanecem ilusões; assistimos atentos a todo o embate solene de afetos encontrados, simpatizamos com todas as aspirações reprimidas e instintos naturais subjugados por alheias resistências, e só havemos de ser inflexíveis e só havemos de rir ao vermos aquele outro triste e doloroso combater da alma com o corpo; só nos não há de comover a mágoa, o desespero dessa jovem cativa, olhando através das grades de uma velha prisão o céu azul, os prados verdes e as flores perfumadas que a enamoram?

Insultá-la-emos quando, como o rouxinol aprisionado, se despedaçar em delírio de encontro aos ferros que a retêm?

É uma grave injustiça. O espetáculo é mais dramático do que geralmente o têm querido fazer.

Há nos variados episódios da mitologia pagã situações comoventes que estas me fazem recordar. A cada passo, ali, o amante, no auge de uma paixão violenta, perseguindo como louco pelos desvios e recessos das florestas a ninfa fugitiva, no momento em que julga possuí-la, em que já estende os braços para lhe enlaçar a cintura e aproxima os lábios ardentes para oscular-lhe as faces, afogueadas de cansaço e de pejo, sente um estranho torpor adormentar-lhe os membros, um frio glacial circular-lhe nas veias e súbito o coração, ainda em alvoroços de amor, é comprimido pela rigidez do lenho que o invade; os braços, que agita aflito, alongam-se-lhe em ramos; os cabelos, que o horror levanta, transformam-se-lhe em folhagem e vigorosas raízes, prendendo-o ao solo, tornam permanente a imobilidade que o susto começou. Mas os instintos de amor que o perdem não se apagam após a transformação; a nova árvore, conservando latente o fogo que lhe deu a origem, experimenta um doloroso estremecimento todas as vezes que a ninfa — outrora esquiva — vem agora recostar-se lânguida à sua sombra e, cheia de uma confiança mais para desesperar do que todos os passados terrores e apreensões, se entrega aí descuidada a gratos sonhos de amor.

Pobre alma namorada! A forma que reveste é agora a sua eterna condenação, nem de esperanças se pode nutrir, já, a triste! escravizada pela matéria, concentra o seu padecer, pois nem manifestá-lo lhe é dado.

O que deviam sentir esses malfadados heróis do variadíssimo poema mitológico, os mesmos desesperos, os mesmos desalentos, as mesmas angústias, sentem na realidade aqueles em quem a caducidade do corpo precedeu a do espírito, que, rico de aspirações juvenis, é vítima delas, porque até o revelá-las lhes é defeso.

E se o vaso já gasto estala então sob a pressão do forte impulso a que pretende resistir, nem ao menos comiseração há de inspirar o que sucumbe assim? Dolorosos infortúnios estes!

As poucas cenas que se seguem esboçam ligeiramente a história de um desses malfadados de que o mundo se ri por hábito, como de outras tantas coisas sérias, que deviam merecer-lhe a compaixão e o respeito até.

Se a conseguir narrar, sem que um sorriso, obedecendo a esse hábito, apareça nos lábios do leitor, terei realizado o meu principal intento.


CAPÍTULO 2

Não sei o nome da localidade onde o fato se passou. Lembra-me só que era no Outono, nessa quadra de melancolia, em que desmaia o azul nos céus, em que o verde das selvas empalidece e os ventos arrebatam em turbilhões rápidos, ao longo das avenidas, onde já rareiam as sombras, a folhagem seca, que crepita sob os pés do caminhante.

Corriam impetuosas nas levadas as águas que fertilizam os vales. A hora do crepúsculo fazia mais que nunca pensar. Com as primeiras nuvens do Sul, numerosos bandos de andorinhas intimidadas atravessavam os ares, procurando climas onde lhes sorrisse ainda a Primavera.

O sítio era ameno, próprio para se gozar dali esse belo espetáculo da natureza. Uma colina elevando-se graciosa do meio de uma amplíssima e vicejante bacia. No vale, que a cerca, tudo em mosaicos de verdura; prados extensos, veigas, devesas, choupais a banharem-se na água, arroios serpeando por entre a relva, espraiando-se além em pequenos lagos, despenhando-se ruidosos dos açudes, e ora a esconderem-se por detrás de umbrosos cômoros, ora, patentes na planície, a retratarem as rosas, as últimas borboletas errantes, as nuvens e o rosto alegre das lavadeiras.

Pela encosta entrelaçavam os ramos vigorosos carvalhos seculares, cujo tronco rugoso e carcomido revestiam as heras e os musgos; de espaço a espaço, cortava o caminho um desses gigantes derrubados, nutrindo dos restos já sem vida a vegetação nascente que lhe rompia do seio; os olhares da corrente, ocultos por um denso tecido de fetos, de giestas e de tojos, denunciavam-se apenas pelo ruído da água, descendo no leito pedregoso; ouvia-se o rastejar do réptil, fugindo ao rumor das passadas, mas difícil seria igualmente percebê-lo entre as folhas soltas e crestadas que alastravam o chão.

Em cima, na planura onde conduziam os tortuosos caminhos que ladeavam a colina, erguia-se, de entre a espessura dos álamos sussurrantes, uma pequena capela, que, sustentando a cruz sobranceira às franças das mais elevadas árvores, parecia estender a todas as várzeas e povoados que domina dali a influência salutar e benéfica desse símbolo da redenção.

Quando, ao declinar da tarde, soavam do alto da torre lateral os toques da ave-maria, em todas as aldeias abrigadas junto à base da colina, nas mais pobres choupanas como nas mais fartas herdades do vale, nenhuma cabeça ficava por descobrir, nenhuns lábios deixavam de murmurar reverentes a saudação angelical; e se os ventos levavam o som harmonioso e plangente do pequeno sino até às longínquas cordilheiras de serras que, como indistintas massas azuladas, limitavam circularmente aquele horizonte vastíssimo, os serra-nos, dispersos com os rebanhos pelos pascigos, ou encerrados nas choças colmadas das montanhas, volviam saudosos as vistas para o ponto branco donde lhes chegavam aos ouvidos aqueles sons quase a esvaecerem-se e recordavam-se suspirando da devota romaria que todos os anos os levava ali, junto do altar da milagrosa Senhora da Saúde, sob cuja invocação fora levantada a capela.

As romarias! as romarias! gratas recordações, únicas talvez, daquela pobre gente da serra! As horas rápidas de gozo, que um só desses dias de festa lhes dá, compensam-lhes de sobra as continuadas fadigas da vida tão trabalhada e penosa. Em tomo à pequena ermida, onde cada ano afluem de tão longe essas piedosas peregrinações de devotos, parece esvoaçar de contínuo uma turba de espíritos alados que nos segredam histórias de tantos amores, nascidos ali e ali santificados, junto ao altar onde as dádivas votivas dos menos esperançados se amontoam, a velar pelo seu destino e propiciar-lhes o céu.

De quantas incertezas, de quantas esperanças, de quantas alegrias e apreensões não sois vós sabedoras, despidas paredes desses templos singelos, onde faltam os ornamentos da arte e as suntuosidades do culto, mas que as crenças populares engrandecem e as lendas tradicionais, que de velhos a crianças se transmitem, perfumam de poesia! Que de orações fervorosas, rude mas eloquente linguagem daquelas almas de crenças robustas, têm sussurrado no estreito recinto desses muros! que olhares de místico enlevo erguidos até à imagem do altar, à qual o grosseiro da escultura parece aumentar ainda o prestígio!

E não vos hão de fitar saudosas as vistas dos romeiros, rústicas ermidas, depositárias dos mais ardentes votos da sua alma? árvores que as rodeais, poderiam desconhecer-vos no horizonte ou confundir-vos com outras os olhos do pastor errante ou do lavrador curvado, quando o coração lhes diz que sois vós, vós que de longe lhes acenais, com as ramas agitadas, como para os alentar no trabalho com a esperança de um outro dia de gozo?

A fantasia voa-lhes como as aves a ocultar-se na espessura desses bosques, onde com elas volteia namorada pelas mais solitárias moitas e pelas arborizadas margens dos ribeiros.

Destes lugares celebrados assim pela devoção e simpatia popular, poucos tão ricos de tradições piedosas como a colina em cujo cimo estava, como dissemos, erigida a capela da nossa Senhora da Saúde.

Cada família dos arredores tinha a sua lenda de milagres a referir-lhe. Uma romagem à Senhora no dia consagrado passava por a suprema medicina. Não havia mal que aquela intercessão não remediasse, ou fosse doença verdadeira ou, o que é pior, desses males de coração que ainda são mais pertinazes, que ainda fazem mais padecer. Diziam-no as inúmeras histórias que aos serões as velhas contavam às crianças para lhes robustecer a fé e algumas das quais tão singulares e miraculosas eram, que até do púlpito as repetiam os pregadores.

A fama estendera-se e tanto que de ano para ano aumentava a afluência dos ansiosos do benefício; muitos dos quais, convencendo-se de que não menos capaz do milagre devia ser aquela atmosfera salutarmente vivificada por uma abundante vegetação, por ali se deixavam ficar, associando assim a higiene com as devoções.

Por isso, o viandante, que agora seguia as pitorescas veredas, pelas quais o monte era em diversos sentidos irregularmente cortado, via, em toda a extensão da encosta, a aparecerem-lhe e desaparecerem-lhe sucessivamente por entre a verdura casas de risonha aparência, dispersas ou reunidas em graciosos grupos, com as paredes alvíssimas, as portas verdes e os telhados vermelhos e cercados de bonitos jardins, tão recendentes de perfumes na Primavera, que aromatizavam em redor todos os caminhos.

A maior parte destas casas era habitada por uma população flutuante de valetudinários ou convalescentes que procuravam vigorar forças, respirando a pleno seio o ar purificado e livre das montanhas e dos bosques.

Pela manhã, quando as névoas começavam a dissipar-se e, por entre a folhagem das árvores, o Sol penetrava mais fomentador de vida e ia evaporar o orvalho que ainda roçava as ervas dos caminhos, viam-se subir a colina, a passos vagarosos e com frequentes pausas, esses pálidos doentes, que pareciam renascer só ao receberem aquelas auras embalsamadas pelos perfumes das flores, e suavizadas pelos primeiros calores da manhã.

Era o velho quebrantado e trêmulo, parando a meio caminho da ladeira que subia, a fitar o céu, como se de antemão procurasse decifrar o problema que em breve teria de resolver; o mancebo, inquieto e pensativo, de aspirações ardentes e subidas e em tão alto grau que no empenho de as realizar lhe faleceram as forças e no forte da luta sentia-se sucumbir; a virgem, meiga e melancólica, como uma das mais ideais criações oceânicas, errante por entre as árvores seculares ou pendida à borda das correntes, escondendo uma lágrima ou simulando um sorriso, manifestações diversas na aparência e ambas denunciadoras tantas vezes de uma grande tristeza interior; a mãe, jovem e doente, em tomo à qual brincava um bando de crianças alegres e cheias de vida, ignorando, as inocentes, que todo o seu destino, que as suas alegrias ou as suas dores no futuro dependiam agora daquelas árvores, onde se balanceavam risonhas, daquelas virações que lhes açoutavam os cabelos soltos e anelados.

Assim pois o lutar da vida e da morte era o que por toda a parte se via. Contrastes de esperança e de desalento, antíteses de sorrisos e de lágrimas formavam a feição mais característica do quadro.

O cair das folhas, o desenflorar da relva, os gemidos das aves, e as sombras errantes que as nuvens projetavam pelos campos, tudo parecia harmonizar-se tristemente com o pensar interrogativo do velho, com o suspirar do mancebo, com as lágrimas da donzela e com o braço convulso da mãe, cingindo ao seio, num frenético movimento, as cabeças louras das crianças que lhe somam.

Era a vida a declinar; a consciência de um fim próximo a reprimir aspirações a um longo futuro de mais prazeres e gozos.

Vacilantes entre um passado risonho e um porvir tenebroso e incerto, entre a saudade do que foi e o medo do que há de ser, esses pobres desconfortados sorriam ainda, animavam-se, davam uns aos outros esperanças que não sentiam em si.

Às vezes desaparecia de entre eles um rosto conhecido, fechava-se uma casa.

Resolvera-se para esse o problema, terminara a incerteza. Ou o arrebatara a morte aos seus mistérios ou o restituíra a saúde às suas alegrias. E, conforme uma ou outra dessas soluções, assim o desalento ou a esperança se divisavam por dias no rosto dos companheiros que ficavam.

Letras gravadas nos troncos das árvores atestavam as recordações saudosas dos que tinham passado ali. Os sovereiros e as faias eram os confidentes silenciosos de muita paixão secreta, de muita ilusão desvanecida, de muito coração despedaçado. Quantas lágrimas eles teriam sentido correr, ao receberem aquelas enigmáticas memórias de um ser ausente que chorava também ou, amarga ideia e quase sempre mais verdadeira, que se esquecia e por isso mesmo mais amado era ainda! Mistérios do coração!

Estas letras, destinadas a durar talvez mais do que a mão que as gravava, documentavam muita história triste, dramas ignorados, cujo último ato se representara nesses sítios, que assim conservavam dele os derradeiros vestígios.

Nas paredes caiadas da capela do monte o lápis reproduzira memórias iguais às que se viam gravadas nos troncos e outras menos concisas, que mais facilmente traíam o pensamento que as ditara.

Inscrições inumeráveis, irregulares, amontoadas, por vezes ilegíveis, cobriam-nas até à altura a que podia atingir o braço.

Frases cortadas, exprimindo muito, mas deixando ainda mais a adivinhar; confrontações de nomes, que denunciavam uma história inteira; dúvidas formuladas, indício de violentos e terríveis estados da alma; apóstrofes ímpias, ditadas pelo desespero; cânticos reverentes, inspirados pela resignação e pela fé... — de tudo se via ali. A elegia junto à ode; a saudade e logo após a esperança; o ceticismo que fazia estremecer e a crença consoladora, expressos por todas as formas, concebidos dos modos mais variados, narravam eloquentemente a história do coração humano nos mais solenes momentos da sua vida tumultuosa e apaixonada.

Era mais do que curiosa a leitura daquele álbum singular; era instrutiva e altamente filosófica.

Se se pudessem reunir todos esses fragmentos dispersos, completar as frases interrompidas, preencher as lacunas, adivinhar o nexo misterioso de certas ideias, aparentemente sem relação lógica que as fizesse dependentes, ter-se-ia instituído um profundo estudo psicológico e a mais perfeita análise dos afetos que dominam a existência do homem.

Por mais de um motivo se tomava pois curioso o lugar onde as exigências da narração me obrigaram a transportar imaginariamente o leitor.


CAPÍTULO 3

Rompera alegre a madrugada de um dos mais belos dias do Outono. O orvalho gotejava ainda das folhas das árvores sacudidas pela brisa matinal, e as gotas límpidas e oscilantes pareciam metamorfosear-se em rubis, safiras e esmeraldas ao refratar os raios da luz solar.

Era encantador o aspeto da colina naquela manhã; semelhava a donzela que, brincando, desenfiou o seu colar de brilhantes e os soltou em desordem pelos cabelos, pelo seio e pelo regaço, donde, ao menor movimento, lhe rolam até caírem no chão.

Os primeiros calores do dia erguiam já dos vales o cendal de névoas que os envolvera, e, dissipando-as na atmosfera, temperavam de tintas mais suaves o azul-escuro do céu.

Sobrepostas às serranias que limitavam o horizonte, divisavam-se grandes massas de nuvens, cujos reflexos à luz oriental lhes davam a aparência dos altos gelos que coroam as cristas das montanhas.

Iludidas por estes simulacros de Primavera, as próprias plantas pareciam renascer. A seiva afluía-lhes de novo aos ramos despidos e, desenvolvendo-lhes os gomos, revestia-as de folhas, desabrochando-lhes os botões enfeitava-as de flores, e os insetos, surgindo uma vez ainda do letargo incipiente, adejavam em torno à corola umedecida que lhes patenteava os nectários.

Sorria a natureza ainda, mas havia o que quer que era meigo e melancólico naquele sorrir. Eram como as alegrias plácidas do enfermo, vítima de uma doença fatal, a quem a mais efêmera remissão faz conceber os prazeres da convalescença, mas sem que o possa iludir.

Ameaças permanentes no meio desta tranquilidade geral eram, no horizonte, as nuvens, como aguardando só por um sinal para invadirem o espaço, e um rumor longínquo e monótono que de vez em quando os ventos traziam aos ouvidos, como o grito de fera aprisionada — a voz profética do mar pregoando tormentas durante a bonança que momentaneamente reinava.

A vida do campo manifestava-se toda nas eiras e nos celeiros, onde se entesouravam as riquezas do lavrador.

Risos, cantares, vozerias confusas, com que por toda a parte na planície se acompanhavam os diferentes trabalhos das colheitas, chegavam, como mal distinto burburinho, ao alto da colina, onde em compensação reinava o silêncio solene e imponente, silêncio não absoluto, porque falam os bosques e as torrentes, porque falam as aves e os insetos; mas em que se não ouve a voz humana — o silêncio da solidão.

De fato a colina podia dizer-se deserta.

 Era cedo ainda para o passeio matinal da pequena colônia de enfermos que a habitava.

O doutor Jacó Granada recomendava-lhes que evitassem os nevoeiros da manhã, e poucos ousariam infringir as ordenações do velho médico, que no tocante a execução dos seus preceitos dava provas de uma intolerância despótica.

Jacó Granada era um destes homens singulares que desde a primeira entrevista nos deixam uma impressão profunda e indelével, e cujo trato continuado, a não se lhe opor convenientemente uma vontade inflexível e uma grande força de caráter, tende a deixar-lhes um predomínio tal sobre os ânimos, que difícil é mais tarde subtrair-se qualquer, que por algum tempo se lhe sujeitou, a tão poderosa influência.

Se o poder magnético, tal como o concebem os mais crédulos e ardentes apologistas da fantástica arte de Mesmer, fosse uma realidade e não uma simples criação de visionários, decerto possuiria Jacó Granada essa faculdade superior no grau mais elevado.

A inegável influência moral de caracteres como estes sobre os menos rijamente temperados explica, e até de alguma sorte justifica, a origem dessa singular doutrina, que a aura popular, favorável a todas as ideias novas e extravagantes, tão extraordinariamente propagou.

Em Jacó Granada auxiliava ainda a influência dessas qualidades morais um conjunto de caracteres fisiognomônicos que não podia deixar de ferir a imaginação menos sujeita a impressões desta ordem.

Os lineamentos predominantes da raça israelita, da qual a família dele originariamente procedia, desenhavam-se-lhe acentuados nas feições angulosas e expressivas, imprimindo-lhe um cunho de nacionalidade cuja interpretação não podia enganar.

Sobre a cara, estreita mas elevada, alvejavam-lhe em raras e desornadas madeixas as mais formosas cãs que ainda adornaram uma cabeça de ancião. Os lábios, delgados e deprimidos nos ângulos por contração habitual, denunciavam longos hábitos de reflexão e de reserva, que efetivamente lhe estavam na índole. No nariz havia completa e absoluta conformidade com o do tipo judaico, e os olhos pequenos, mas de uma vivacidade de fogo, exprimiam a inteligência e sutileza de espírito que um conhecimento ulterior não desmentia nele.

Era excessivamente magro e um tanto curvado pelas fadigas do estudo e pelo peso de sessenta anos de vida trabalhada por incessantes esforços físicos e intelectuais; não obstante, nunca deixara de observar os mesmos hábitos laboriosos, que eram já para ele imperiosa necessidade.

Ao romper do dia o jornaleiro encontrava-o nos caminhos com o vestido negro e singelo, no qual conseguia combinar certa severidade com um não estudado desalinho, e correspondendo sempre às saudações por uma frase invariável ou um simples e distraído movimento de cabeça.

Os cuidados de que Jacó Granada rodeava os seus doentes, ainda que salutares, pesavam como um jugo, impertinente até para os de ânimo mais dócil e submisso. Quem se confiasse à ciência do velho facultativo tinha de depositar previamente nas mãos dele toda a liberdade de ação e de pensamento durante o tempo porque se prolongasse a moléstia.

Exigia que o doente pensasse pela cabeça do médico, que não formasse uma só resolução sem expressamente lhe ser autorizada pelas prescrições regulamentares que para cada qual instituía.

A completa resignação da vontade própria na sua, a inteira abstenção de tudo quanto fossem perguntas ou objeções sobre o tratamento seguido, a cega observância dos preceitos, aparentemente mais insignificantes, que tivessem sido aconselhados por ele, eram as condições fora das quais se não encarregava de tratamento algum; e, à menor infração, declinava de si a incumbência, para nunca mais a assumir.

Este despotismo médico valia ao doutor Jacó uma clientela numerosíssima e inspirava uma confiança ilimitada na sua medicina.

Escutavam-no e obedeciam-lhe como a um oráculo e os mais ousados tremiam de contrariá-lo ou de lhe fazer sequer uma dessas observações, às vezes tão absurdas, que todo o doente se julga autorizado para dirigir ao seu assistente.

As formas ásperas e sarcásticas com que Jacó Granada respondia às mais tímidas interpelações, nas quais via sempre uma tentativa de revolta, tiravam a vontade de as reproduzir.

Ora, para os homens que têm de viver com as multidões, este procedimento é sempre fecundo em resultados.

Apresentar-nos perante elas como dominadores, como espíritos fortes não dispostos à menor concessão, é de alguma sorte revelar-lhes a consciência da nossa superioridade e desarmá-las para a resistência; pelo contrário, encará-las tímidos, aceitar-lhes observações, respeitar-lhes repugnâncias, afagar-lhes tendências e simpatias, é fazer confissão de fraqueza, estender a cabeça ao jugo dos caprichos delas, o suficiente para nos desprestigiar e quebrar-nos as forças para o momento da ação.

Ou por índole ou por cálculo, havia Jacó Granada evitado o desprestígio e exercia sobre a sociedade que o rodeava um império absoluto.

Era por isso que os doentes daquela pequena colônia médica confiada à sua direção não tinham ainda ousado aventurar os primeiros passos sobre a relva úmida dos caminhos, não obstante o aspeto convidativo da manhã, e contentavam-se, limpando o vapor condensado pelo frio nos vidros das janelas, em olhar através deles, com os rostos descorados, para aquelas árvores que de fora os seduziam.

Desta escrupulosa observância de um dos seus preceitos higiênicos se podia convencer por os próprios olhos o inflexível doutor, que, ao contrário dos doentes e em oposição com as prescrições que instituía, havia muito passeava nas ruas irregulares e relvosas da alameda que circundava a capela.

Não obstante a satisfação que desta fiel obediência parecia dever resultar-lhe, não eram desanuviadas naquele momento as feições do velho médico.

Uma profunda preocupação de espírito revelava-se-lhe nas rugas mais acentuadas que lhe sulcavam longitudinalmente a cara, na maior contração dos lábios e na rapidez e irregularidade do andar, interrompido por pausas súbitas e movimentos impacientes.

Às vezes soltavam-se-lhe do peito, que se elevava em agitação febril, suspiros mal reprimidos; e os punhos cerravam-se-lhe em contrações nervosas; outras, um profundo desalento abatia-lhe a cara e os braços descaíam-lhe como desfalecidos ao lado do tronco.

De vez em quando parava, parecendo absorvido na contemplação de um objeto qualquer, como se nele descobrisse alguma coisa de misterioso e estranho que o confundia; abaixava-se rapidamente para apanhar uma flor cortada e esquecida no chão e logo depois arrojava-a de si com enfado visível; corria com ansiedade para a árvore, em cujo tronco divisava uma inicial aberta de véspera e cedo afastava-se dela, como se a observação o contrariasse. Qualquer pequeno ruído o fazia voltar em sobressalto; parava perturbado, depois, sacudindo a cabeça por um movimento cheio de frenesim, recaía mais profundamente ainda na turbação anterior. Palavras sem nexo, imperceptíveis, incapazes de lhe trair o pensamento, saíam-lhe dos lábios e faziam-no estremecer, como se outro as pronunciasse.

Ora, para quem conhecesse ou julgasse conhecer o doutor Jacó, era muito para estranhar o seu estado extraordinariamente febril naquela manhã.

A impassibilidade profissional que a opinião comum se apraz em atribuir a todos os médicos, reunia de fato Jacó Granada um temperamento naturalmente apático, um sangue-frio nunca desmentido nos lances mais patéticos e comoventes.

Gozava entre os colegas de uma reputação de alma empedernida, que ele se não dava ao trabalho de desvanecer.

Viam-no sorrir no momento em que, sob os golpes vagarosos e intrépidos do seu escalpelo, os operados se estorciam em convulsões desesperadas; observavam-lhe as feições inalteráveis quando, à cabeceira do amigo agonizante, percebia no sucessivo decair do pulso e na decomposição do rosto o termo iminente de uma vida que se lhe supunha cara. Tinha sempre a mesma dureza de maneiras, a mesma franqueza, às vezes cruel, para com todos, qualquer que fosse a idade, o sexo e a condição. Não sabia de carícias para as crianças, de delicadezas para as mulheres, de afabilidades para os pobres, de contemplações para com os tímidos, de respeitos para a velhice. Todos eram doentes para ele e ele para todos médico e nada mais; mas o médico que diagnostica, que receita, que opera, e não afaga, não lisonjeia, não consola os doentes; que, sabendo-se necessário, não ambiciona tomar-se desejado; que não recua no emprego de um meio salutar pela lembrança do padecimento que suscita; que vela pela saúde dos seus enfermos, mas zomba da sensibilidade deles.

Costumara-se a fazer o bem como o cumprimento de um dever de que a razão o convencera, mas supunham-no incapaz de experimentar aquela suave satisfação que de tal prática resulta às almas mais delicadas.

Vivia só, não conhecia um único parente, evitava relações íntimas, afugentava-se pela maneira glacial com que recebia as tentativas dos poucos que as procuravam.

Tinha sempre um sorriso de zombaria para os padecimentos morais, em cuja existência não acreditava.

Para ele tudo eram lesões, tudo órgãos alterados, tudo perturbações materiais. À medicina psicológica dos médicos espiritualistas devia os seus melhores epigramas. Não havia doença de poeta ou de amante platônico para a qual não formulasse.

Era um desapiedado adversário desse vaporoso fantasma que persegue atualmente as mais delicadas organizações femininas — o nervoso; ou o recebia com um sorriso de cético, ou instituía contra ele uma ordem de meios curativos capaz de aterrar inimigos muito mais reais e palpáveis.

Inteiramente indiferente ao conceito público, não observava as modas em coisa alguma, não se justificava de arguições, nem recebia conselhos.

Finalmente, tinha a reputação de grande médico, mas de homem insociável e de verdadeira alma de mármore.

Era pois excepcional aquela profunda inquietação.

Fundira-se o gelo daquele ânimo impassível?

Houvera enfim um estímulo que despertara essa sensibilidade, entorpecida até então?

Assim parecia.

Quem o visse agora pela primeira vez hesitaria em receber como verdadeiro o conceito que geralmente se fazia do seu caráter e que acabamos de esboçar aqui.

Não é dos temperamentos frios e impassíveis essa excitação febril, esse movimento sem causa, sem norma, sem pensamento regulador que o agitava; antes se revelava em tudo isso uma poderosa sensibilidade, ou nova nele ou pelo menos ignorada.

Por muito tempo durou ainda o estado de inquietação e sobressalto, que tão excepcionalmente revelava naquela manhã o fleumático doutor Jacó.

Corriam os momentos consagrados por ele de ordinário às tarefas clínicas, e, como se uma força irresistível o retivesse ali, prosseguia naquela marcha rápida e desordenada, só interrompida de vez em quando por gestos e movimentos mais desordenados ainda.

Mudando, porém, quase sem consciência do que fazia, a direção ao passeio, e encaminhando-se para um dos lados da capela que até então lhe ficara oculto, estremeceu e instintivamente recuou alguns passos, como se uma súbita e terrível aparição lhe surgira dali.

Depois, com os olhos fitos, os lábios entreabertos e o corpo inclinado, permaneceu em suspensão quase extática, e que formava notável contraste com a turbação anterior.

Quem assim lhe absorvera tão profundamente a atenção era uma mulher jovem, de estatura esbeltamente elevada e de formas airosas, realçadas por as amplas dobras de um vestuário elegante, a qual naquele momento parecia atentamente ocupada em acrescentar, na parede da capela, mais uma inscrição, às tantas que existiam já.

A descoberta impressionaria Jacó Granada por ver nela uma flagrante infração de preceitos médicos, cometida por uma das mais rebeldes doentes da colônia?

Com dificuldade se convenceria que fosse essa a causa de tão extraordinária surpresa quem nesse momento lhe estudasse a fisionomia com alguma atenção.

De fato era notável a mudança.

O ar de sombria severidade que lhe era habitual desvaneceu-se como por encanto e um sorriso, fenômeno raro naquele rosto carregado, suavizando-lhe a dureza típica dos contornos, pela primeira vez o mostrou capaz de uma expressão de afabilidade e de brandura que ninguém conhecia nele.

No olhar havia chamas que contradiziam a frieza de que fazia ostentação, nos lábios uns visos de bondade a protestarem contra a velha reputação da rispidez que adquirira.

Era uma metamorfose completa.

A mulher que, sem o saber, se tornara o objeto deste silencioso exame e a causa talvez de uma profunda revolução naquele espírito que se julgava morto para as impressões violentas, continuava, no entretanto, escrevendo com uma rapidez que parecia querer acompanhar a dos pensamentos que lhe acudiam.

Afirmar-lhe, a beleza, mas desistir da tenção de a caracterizar, é o mais que pode fazer quem não possuir o segredo de certas fisionomias que nos impressionam, que nos entusiasmam por não sei que fatal influxo que parece irradiar-se delas. Está o mistério na palidez diáfana do rosto? No quebrar voluptuoso de uma vista cheia de languidez? No ondeado elegante de tranças negras e macias? Na inexprimível melodia de certas inflexões de voz? num arfar de seio prometedor de delícias? Quem o pode dizer? A influência sente-se; não explica.

O belo que a arte, em qualquer das suas manifestações, consegue realizar ainda se estuda, ainda de alguma maneira responde às interrogações analíticas do artista filósofo.

O pintor consegue pelo estudo entrever o mistério que faz grandes as obras dos mestres; o músico, o segredo de harmonia das mais sublimes composições da sua arte.

Mas o belo da natureza é mais independente dessas leis que a meditação sobre os grandes modelos pode descobrir e que há muito a arte formulou. Vemos aí a cada passo dissonâncias que agradam e arrebatam; combinações de cores em que a vista, mau grado as leis do colorido artístico, se repousa deliciada; fisionomias que seduzem, a despeito dos reverenciados moldes gregos, que a arte admira como a suprema manifestação da beleza humana e que a natureza infinitas vezes com felicidade despreza.

Descrever fielmente uma dessas belezas misteriosas, analisá-la feição por feição, é tentativa infrutífera.

Do todo é que procede o encanto, uma vista única o concebe, um estudo minucioso desconhece-o.

Pintam-se as flores, mas os perfumes subtraem-se ao pincel; ora a beleza feminina tem como as flores o aroma que inebria; a mais exata descrição não o pode reproduzir.

E a beleza de Valentina mais que todas, tão dependente como era da vida que a animava, seria palidamente concebida pela cópia mais fiel.

O que nela mais fascinava era de fato a quase cintilação daquele olhar eloquente, as caprichosas contrações dos lábios, os movimentos graciosos da cabeça, que ora inclinava lânguida, ora erguia com vivacidade nervosa, o rubor intenso e a profunda palidez que alternadamente à menor causa lhe invadiam as faces, todos estes efeitos de um caráter por natureza móvel, de uma sensibilidade extrema que a primeira observação revela, mas que páginas inteiras não bastariam para descrever.

Dir-se-ia a personificação de um capricho, mas de um desses caprichos que, se com exigências nos revoltam, com atrativos nos desarmam. Na volubilidade das feições, no arrojo do penteado, nas graças do vestir negligente, na leviandade com que tratava as coisas sérias e sisudez que lhe mereciam outras insignificantes e pueris, denunciava-se a todo o momento aquela índole essencialmente feminina.

Confiando-se aos cuidados médicos do doutor Jacó, era pois de prever que, por impulsos desse gênio indomável, se revoltasse contra a vontade despótica que ele pretendia exercer sobre todos os seus doentes.

Efetivamente ninguém lhe tinha ainda mostrado uma tal insubordinação, mas também ninguém encontrara ainda da parte do médico israelita tão absoluta tolerância.

Só Valentina se atrevia a discutir com ele o valor de algumas prescrições, só ela abusava dos epigramas sobre médicos e medicina, que Jacó Granada de ninguém escutava impassível, como fervoroso crente que era na realidade da sua ciência.

O fanatismo médico que anatematizava Rabelais, Molière, Bocage e a turba menos famosa dos que todos os dias insulsamente lhes parodiam e parafraseiam os epigramas, despojava-se da sua severidade para acolher com um sorriso as alusões satíricas de Valentina, que fazia do seu ceticismo gala.

Esta condescendência excepcional no doutor fora já detidamente comentada nos círculos onde se discutiam os sucessos mais notáveis daquele monótono, mas salutífero viver de aldeia.

Os espíritos mais malignos aventuravam insinuações, tanto mais jovialmente recebidas quanto menor era a plausibilidade delas.

Riam-se do engraçado da suposição como de um disparate irrealizável; mas a fama de inflexibilidade e dureza de Jacó Granada nem de leve se sentia abalada pelo roçar destes gracejos que lhe voejavam em tomo.

Abriu-se uma exceção a respeito de Valentina. A natureza humana havia de revelar a sua fraqueza originária alguma vez.

Todas as invulnerabilidades são como as de Aquiles; há sempre um calcanhar que as atraiçoa.

Mas uma simples condescendência, um assomo de delicadeza para com uma mulher jovem e elegante, não contradiz uma reputação que mil provas solidamente firmaram.

As imunidades de que Valentina gozava acabaram por ser olhadas com o indiferentismo com que recebemos todos os fatos consumados. Ninguém contudo se sentia com forças para repetir a experiência.

Um dos motivos de revolta mais frequentes em Valentina eram as ideias um pouco materialistas do seu facultativo.

Com grande espanto e quase terror dos que a escutavam, a cada passo se arvorava em defesa dos padecimentos morais, em cuja existência Jacó Granada parecia não acreditar.

— Desafio-o, meu caro doutor — disse-lhe ela uma vez, armando-se de um dos seus sorrisos mais provocadores — desafio-o a que me aponte com o dedo a lesão física que me trouxe aqui ou me diga ao ouvido a droga medicinal que me deve curar. Rio-me interiormente sempre que o vejo tomar-me o pulso, inspecionar-me a língua, auscultar-me o palpitar do coração e sentar-se para formular. Eu sei mais da minha doença do que lhe podem ensinar todos esses livros de grande formato que folheia até altas horas.

Creia-me, doutor, se quiser ser médico eminente, estude menos anatomia do coração ou espiritualize-a. Olhe que nem todos os padecimentos dele são aneurismas ou lesões semelhantes...

Estas palavras, que noutra boca teriam provocado uma explosão no gênio irascível e intolerante do clínico, foram desta vez acolhidas com um sorriso singular, como até ali ninguém tinha ainda observado nos lábios do doutor, e seguido de um silêncio reflexivo, muito parecido a completa abstração.

Desde o momento em que pela primeira vez colheu este animador resultado, Valentina declarou-se emancipada da salutar mas pesada tutela do velho médico.

É assim que a vimos infringindo com todo o sangue-frio uma das prescrições do doutor, e ainda desta vez a tolerância excepcional do ríspido facultativo para com ela não fora desmentida.

Não era com mudas estupefações e arroubamentos quase extáticos que Jacó Granada costumava receber os delitos desta natureza.

O fato, com outro qualquer, obrigá-lo-ia a romper num acesso de indignação, que mais se lhe coadunava com a índole do que aquele transportado enlevo em que ficara absorvido.

Um movimento inesperado de Valentina fê-lo enfim instintivamente recuar; a não ser isso, alheio a tudo o mais que o rodeava, o que o poderia chamar a si?


CAPÍTULO 4

Procurou então o abrigo das árvores, para dali, sem ser reconhecido, poder continuar a observá-la.

Valentina, ignorando-se espionada, entregava-se em plena liberdade ao trabalho de composição literária, no qual parecia empenhar todas as suas faculdades.

Ora escrevia com velocidade, como se a ideia, logo ao despontar, se modelasse imediatamente na forma desejada; outras vezes, interrompia-se e inclinava a cabeça, como se lutando interiormente com uma dificuldade imprevista; mas a impaciência natural daquele espírito não lhe permitia longa hesitação; afastava-se então da capela com gesto de enfado, para voltar de novo, forçando a vontade, que por instinto se revoltava contra toda a espécie de sujeição.

Jacó Granada não perdia um só desses movimentos: seguia-os com avidez.

Uma poderosa fascinação parecia ter-se apoderado dele.

Dir-se-ia arrebatado em êxtase do fervoroso culto.

Não seriam pois infundadas as inocentes alusões que a tolerância sem exemplo do velho doutor para com Valentina havia suscitado?

Rebentariam enfim os afetos daquele terreno árido? Agora, que as neves da velhice lhe branquejavam na cara, é que se derreteria o gelo que tanto tempo lhe pesara no coração?

Talvez ele próprio se interrogasse sobre a estranha comoção que o dominava, nova para os seus sessenta anos de vida isolada, e hesitasse em determinar-lhe a causa.

Recuava talvez naquele momento diante da explicação que a consciência lhe murmurava e queria iludir-se sobre a fatal influência a que cedia.

Grandes deviam ser os combates interiores que se travavam naquela alma forte de toda a vida acumulada durante uma juventude vazia de afetos.

O rosto recebia o reflexo dessa luta, assumindo alternadamente as mais diversas expressões; ora iluminavam-no os raios da esperança, outras vezes assombrava-o uma nuvem de desalento.

Preparava-se talvez mais uma vítima para o longo martirológio moral, menos que o outro celebrado em panegíricos, menos recompensado pela compaixão mundana; porque, quando a vista do sangue, o flagelar das carnes e o estalar dos ossos não fala aos sentidos da multidão, não há sentimentos para compreender provações, lágrimas para chorar infortúnios, às vezes não menos dolorosos.

Os mártires obscuros das paixões morrem contendo em si mesmo os instrumentos da sua tortura. É o próprio coração que cingem do cilício angustiante; é interior a lavareda que os consome; lá dentro se lhes prepara a cicuta que os há de abrasar. Por isso só almas delicadamente perspicazes lhes assistem ao suplício, só delas, e bem poucas são, podem esperar os lamentos e as simpatias; das outras, em vez de lágrimas, recebem muitas vezes os risos; em vez de alentos, motejos.

A multidão piedosa chora à vista das chagas sangrentas do Cristo, mas não compreende as intensas amarguras morais daquele espírito divino que via a negação das suas sublimes ideias de paz e de amor no suplício a que sucumbia; aflige-a a coroa da irrisão pelo pungir dos espinhos que a formavam; mas não suspeita que outra angústia, mais acerba ainda, despertava no Mártir em quem a cingiram.

Almas martirizadas, padecei sofrendo, sucumbi sem um queixume; rir-se-iam de vós se vos lamentásseis.

Vossos infortúnios não são compreendidos; mais vale ocultá-los, como se tivésseis de envergonhar-vos deles.

Jacó Granada devia saber que tal seria o futuro daquela paixão — e era paixão o que sentia em si? — se um dia aquelas revelações, tímidas ainda, do coração comovido chegassem a pronunciar o segredo que ele mesmo tremia de suspeitar. O amor valer-lhe-ia uma condenação. Ceder-lhe — era perder-se; resistir — seria possível?

Jacó Granada lutava como um desesperado, porque tinha consciência do perigo. Mas a atração era poderosa, a fascinação enlevava-o, arrebatava-o.

A força com que resistia devia tomar mais impetuosa a queda, se afinal chegasse a fraquear.

Absorvido por estes pensamentos, agitando no espírito a tremenda questão que o preocupava, permaneceu imóvel a contemplar Valentina, até que a viu caminhar, afastar-se, sumir-se por entre as árvores da alameda. Então, como se acordando sobressaltado de um profundo letargo, olhou em roda de si e correu, com uma ansiedade de alucinado, para o lugar onde observara essa encantadora visão.

Foi sob o domínio de um estranho desassossego que pôde ler as seguintes quadras, que aí encontrou escritas:

Fugi, andorinhas; em mais longes plagas
Buscai outras praias, florestas e céu.
Que é triste o bramido que soltam as vagas,
E um vento pressago nos bosques gemeu.

Fugi, namoradas das flores e estrelas,
Olhai: estes campos sem flores estão,
E cedo os espaços, à voz das procelas,
Sinistros, cerrados, sem luz ficarão.

Fugi, apressai-vos, alados viajantes,
Em bandos ligeiros os mares cruzai.
Por Outros países, por selvas distantes,
Mais flores e aromas, mais luz procurai.

Deixai estes montes de neve coroados,
As selvas despidas, e as folhas sem cor,
As grossas torrentes e os troncos quebrados
E os vales cobertos de denso vapor.

E quando, mais tarde, na verde campina
As rosas voltarem com viço a florir,
E as serras, despidas da intensa neblina,
Virentes, formosas se virem surgir;

E quando deslizem na praia arenosa
Mais lentas, mais brandas, as vagas do mar,
E das laranjeiras de copa frondosa
Caírem as flores no chão do pomar;

E quando fugirem, informes, pesadas,
As nuvens sombrias que se erguem do sul,
Correndo dispersas e em flocos rasgadas
Nos plainos imensos de um límpido azul:

Voltai; nova quadra de amores vos chama,
Dos climas distantes para estes parti;
Então tudo é vida, já tudo se inflama,
Há luz, há perfumes, faltais vós aqui!

Voltai, que de novo serão florescentes
As selvas, os prados, o monte, os vergéis;
Quietas as brisas, as águas dormentes
Nos lagos tranquilos de novo vereis.

Só eu, que vos sigo com vistas saudosas
Ao vosso desterro, dos mares além,
Já quando no prado brotarem as rosas,
Talvez não reviva com as rosas também.

Ai, não, não revivo, que o vento do Outono,
Gemendo angustiado nas brenhas do vaie,
Convida-me ao leito do plácido sono
E as nênias entoa do meu funeral.

Eu morro! Na chama do sol que declina
Bem Sinto o presságio de um próximo fim.
Se um dia voltardes à nossa colina,
Ó doces amigas! lembrai-vos de mim;

Daquela que, triste, vagando no olmedo
O adeus da partida vos veio dizer.
Quem sabe das campas o oculto segredo?
Talvez vossos cantos eu possa entender.

Talvez que, ao ouvir-vos a queixa sentida
Quebrando das noites a triste mudez;
À sombra dos cedros da escura avenida
Acorde, a escutar-vos ainda uma vez.

O doutor Jacó acabou de ler estas quadras, aparentemente ditadas por uma intensa melancolia e por o desalento quebrantador daquele espírito juvenil, e, como se quisesse obedecer a um pensamento fugitivo antes que a reflexão lho fizesse abandonar escreveu imediatamente por baixo do último verso desta poesia, que não pudera ler com indiferença, as seguintes linhas:

“Voltarão as andorinhas e as flores e os sorrisos e as esperanças voltarão com elas. O desalento aos vinte anos! o desalento quando se é jovem e bela! Efêmera ficção.

Enquanto se pode alimentar uma esperança, enquanto não é irrisório todo o fantasiar futuros, a desventura é uma nuvem passageira e através dela radia sempre a aurora de uma existência melhor. Lamentar infortúnios imaginários e ter os olhos fechados para os infortúnios irremediáveis que com uma palavra se fez nascer! Não. É preciso ao menos que o saiba. Mitigue-lhe o mal que a ilude o saber que há males maiores. Escute. Há um homem que a ama, que lhe votou o mais verdadeiro culto que ainda sentiu no coração. E este sentimento, de que se ufana por ser o mais puro, o mais sagrado de quantos tem alimentado, esta paixão, que devia ser a sua glória, causa o seu maior tormento. Desde que a confessasse, em vez de o respeitarem por a ter concebido tão elevada, tão nobre, tão ideal, condená-lo-iam ao desprezo e ao escárnio. Gloriando-se interiormente dela, o desgraçado não ousaria proclamá-la. A fatalidade persegue-o. Sufocar essa paixão que o devora e sucumbir sem a esperança de que um dia o poderão lamentar!

A morrer por ela e o mundo a rir-lhe na sepultura, se suspeitasse a causa que o arrastou ali!

Ele não olha com saudade para as andorinhas que panem, para as flores que murcham, para o sol que declina; não as desejaria tornar a ver, nem que o viessem evocar da campa, quando gozasse já do único sono tranquilo que lhe resta agora dormir.

Este, sim, que é verdadeiro infortúnio! Peça à imaginação que lhe faça conceber essa tortura e, se tem um coração generoso, chore por ela; mas não procure conhecê-la, seria obrigada a rir e, rindo, a cometer uma impiedade.”

Acabando de escrever estas palavras, Jacó Granada abandonou aqueles sítios com a precipitação de um criminoso que se afasta do lugar do delito.


CAPÍTULO 5

Dias depois escrevia Valentina a uma das suas amigas a seguinte carta:

Minha querida:

Deves supor-me mona. Um silêncio de meses depois de partir para a aldeia autoriza um necrológio. Pois enganas-te; vivo, vivo como nunca vivi, como nunca supus que se vivia no mundo. Eu bem suspeitava que havia de existir algures uma outra vida melhor para mim do que a que passávamos aí; o contrário disto era dotar o autor da criação de um poder imaginativo inferior ao dos nossos romancistas, cujos planos de vida me agradavam mais; confesso-o. De fato existia. Tive a felicidade de encontrá-la. Estou salva!

Os ares livres, o cheiro balsâmico dos pinheiros, a pureza das águas, a sadia simplicidade da cozinha campestre, os hábitos regulares, vigílias moderadas, sonos convenientes, dirás tu, quase disposta a fazer as pazes com a higiene, essa impertinente que nos amargurava a existência, clamando contra os nossos mais queridos passatempos e formulando absurdas regras de bem viver.

Não te iludas porém. Olha que nada disso me salvou.

Sentia-me definhar no meio dessa feliz combinação de circunstâncias salutíferas e não obstante o uso moderado que fazia das drogas medicinais.

Se eu bem sabia que a minha doença não estava no pulmão, não estava nos nervos, não estava no sangue, como eles dizem!

O doutor Jacó, esse talmude encarnado, que me fitou logo à primeira vez um olhar que parecia não dever encontrar obstáculo até o mais íntimo da alma, como se enganava também!

Queria reconstituir-me o sangue, dizia ele; esta agitação febril que me atormentava acalmaria depois; mas dizia-me isto tão distraído, que parecia não acreditar muito na opinião que formulava.

Sabes que mais? A respeito dos médicos, como de outras muitas coisas, os romancistas e dramaturgos tornaram-me o gosto muito difícil de contentar.

Onde está esse ideal do médico que sabe curar com uma palavra, com um gesto, sem ser por intermédio de um récipe, de umas pílulas ou de um xarope? O médico que aprendeu a calcular o valor de uma comoção de espírito, que faz uso conveniente das qualidades morais dos seus doentes? Em parte nenhuma. E eu que tinha a simplicidade de acreditar na verossimilhança dos lances curativos, deixa-me assim chamar-lhes, que observava nos teatros! Foi uma outra ilusão que perdi. Paciência.

Jacó Granada não forma exceção à regra.

É um homem abominável no seu positivismo este doutor! Para ele tudo são congestões, hipertrofias, inflamações, que sei eu?...

Seria capaz de sangrar um poeta no ardor de composição literária, a título de uma congestão cerebral.

Ora eu é que não podia aceitar para mim semelhante ideia de lesão. Repugnava-me.

Por que me interroga só o pulso? dizia-lhe; por que me não interroga o pensamento, a imaginação? Não sabe que tenho vinte anos? Não sabe que penso, que sonho, que concebo e que a diferença entre as minhas concessões e a realidade me pode fazer padecer? Não vê que é toda afetiva a minha doença? Quer curar-me com ópio, com ferro, com tônicos e calmantes? Olhe o que faz. Não se lhe importe com o meu sangue, importe-se com o meu espírito, com as minhas fantasias, com as minhas crenças.

Complete a sua ciência. Os seus livros de medicina não lhe falam de uma doença que consiste apenas em anelos não realizados? Dê a isso um nome grego e terá feito então uma descoberta.

O velho médico ouvia-me calado. Ou não me entendia, ou pensava ainda na lesão orgânica de que à força me queria fazer presente, e nem atenção me dera.

Mas eu dizia-lhe a verdade; e a prova... Ouve:

Lembras-te daquelas heroínas dos contos de fadas que tanto nos entretinham em crianças? Eram umas princesas muito bonitas, muito ricas, muito sábias, mas vítimas de uma doença desconhecida. Vinham os médicos de todas as panes do mundo, visitavam-nas os sábios mais afamados, os cofres de el-rei, seu pai, traziam dos mais longínquos países as drogas medicinais que a ciência aconselhara; e ninguém lhe atinava com a moléstia, e nada lhe realizava a cura. A menina definhava-se a olhos vistos, já nem sabia sorrir. Era uma cerração de tristeza aquela que nenhum raio de sol atravessava.

Um dia porém... Recordas-te do que acontecia? Era o ponto culminante do interesse. Chegava um pastor, um Adônis em beleza, desculpa-me a referência mitológica, de rosto imberbe, de cabelos louros, de sorrir angélico, e com um pomo silvestre, um ramo de flores do campo, ou com os sons rudes da sua flauta pastoril, fazia o milagre. Trazia o sorriso aos lábios da menina, o colorido às faces desmaiadas, a vida ao coração desfalecido... ai, ao coração sobretudo. Já ela erguia a cabeça, que até ali pendera em morbidez, já não procurava a solidão, já não aborrecia o mundo, os enfeites, as riquezas. Mas fora o pomo, o ramo de flores, os sons da flauta que produziram o fenômeno? Qual! Fora o mesmo portador, o pastor desconhecido que um oculto pressentimento trouxera ali. Amava, está explicada a cura. Restava inclinar-se do alto do seu trono para estender a mão agradecida ao simpático salvador, ajudá-lo a subir os degraus, e sentá-lo ao seu lado, trêmulo de sobressalto e de amor, e... era uma vez um príncipe.

Eis a minha história também, feitas as devidas alterações no que diz respeito à beleza, à sabedoria e jerarquia da heroína. Pelo menos, se não é ainda a minha história inteira, pane dela se realizou já.

Imagina que parti daí perdida. Parecia-me que tudo estava a findar para mim. Era um mal interior que me ralava, que me inquietava, que me impedia repousar. Impacientavam-me as distrações, sufocava-me a atmosfera das salas de baile e dos teatros, aborrecia-me a sociedade, sorria-me a ideia da solidão de um claustro. Tenho a alma morta, dizia eu comigo, como lhe há de sobreviver o resto? Olha que acreditava sinceramente que me tinha morrido a alma.

Suscitei apreensões nas minhas amigas. Lembra-me que me impuseste a medicina com desusada severidade. A medicina! Eu bem sabia o que ela viria fazer, mas obedeci. Ares! Ares! — exclamou ela — julgo que para se ver livre de mim, como de quem suspeitava poucas probabilidades de vitória. Ares! ares! — repetiste tu e o coro das pessoas que se interessavam por mim. Foi-me forçoso condescender.

Dias depois rendia preito e homenagem à pouco tratável ciência do doutor Jacó Granada, atual superintendente da minha saúde.

Respirei a plenos pulmões o ar que me aconselhavam; rompi com os meus hábitos de indolência para saudar as madrugadas, realmente bonitas, que se gozam daqui; soltei os cabelos às brisas salutares, embalsamadas pelos aromas dos campos, mas a vida da natureza, cujo contágio procurava, não se me comunicou. Era o mesmo desfalecimento, a mesma impaciência, a mesma inexplicável mobilidade.

Forçava-me a sorrir, a gracejar, divertia-me a educar convenientemente o caráter inflexível do meu facultativo; mas cá dentro tinha o mal que me pungia.

Uma manhã... atende agora, que chegou o momento solene; uma manhã impressionaram-me tão dolorosamente os sinais de decadência, que, não obstante a amenidão do dia, eu por toda a parte reconhecia o campo que, precisando de dar expansão àquela melancolia para que me não matasse, fiz versos.

Para outra vez tos enviarei; deixei-os escritos na parede de uma capela, único sistema de publicidade que está em voga por aqui. Despedia-me das andorinhas que eu via partir, e despedia-me para sempre porque um pressentimento me dizia que o Outono me seria fatal.

Quem me observava, enquanto eu escrevia? Não sei. Mas, dias depois, voltando ao sítio onde me acometeu este acesso literário de desesperação, vi que alguém mo havia comentado. Li. Suspeitas o que era?

Uma declaração de amor. Sou amada, ouves? Compreendes? Amada e por um homem que não conheço. Há na sua existência um mistério; seu amor, que ele diz nobre, puro, com o qual se engrandece, de que se orgulha, não o pode revelar porque o mundo o condenara à irrisão. Tanto maior é a pureza dele, tanto maior seria o escárnio que atraíra sobre si se o revelasse. Aí tens um enigma; sabes decifrá-lo? Tenho pensado muito nisto e, olha, julgo que adivinhei.

É a história da princesa.

É algum pobre rapaz, entusiasta como um poeta, tímido como uma criança, mas de origem obscura e a quem aterra o meu apelido aristocrático.

Julga-me tão alta, tão elevada nos meus pergaminhos, que me riria do seu amor como de uma irreverência censurável.

Concebes uma loucura assim? Os soberbos são eles que, nobilitados pela inteligência, nem por causa do amor a sujeitam ao que julgam uma humilhação!

O meu interessante incógnito! Se soubesse com que vontade eu rasparia os meus pergaminhos nobiliários para escrever neles aquela declaração de amor!

Alma de sensitiva, cujos delicados instintos têm vigorado na solidão destas devesas: imaginação exaltada pelo contemplar das estrelas, que parece cintilarem aqui mais animadas, e dotadas de não sei que inteligência para nos compreender; ele, a ingênua criança, treme do mundo que não conhece, receia manchar a alvura das suas penas de cisne na lama em que patinham esses gansos que lha invejam!

Como se o amor não fosse a corrente límpida que lhe havia de restituir a nitidez! Incrédulo! Ama-me e desconfia de mim! Ele que me salva... porque estou salva, disse-to, e por ele, por ele só! — ele, que me salva, julga que me envergonharia do seu amor! Oferece-me um culto reverente, sincero, apaixonado, ideal, e teme que eu desvie a cabeça do incenso que me inebria! O mundo! o mundo! pois repara-se lá no mundo quando se ama? Se as harmonias do coração nos arrebatam, pode lá ouvir-se o sussurrar da multidão!

Vais julgar-me louca se te disser que o amo.

É verdade; não o conheço, não suspeito sequer quem seja; mas imagino-o. Deve ser belo; porque a alma pura tem reflexos de que depende o que há na beleza de mais ideal.

Triste de quem os não percebe, fere-os uma cegueira que os pode encaminhar ao precipício; deve ser belo, assegura-mo a candura daqueles sentimentos, o ideal daquele amor.

Sei que o amo, adivinho que o hei de amar. Por isso estou salva; por isso te disse que vivia como nunca, como nem sabia que se vivesse.

Estava cansada de galanteios, precisava de amor.

As flores artificiais das salas de baile iludem-nos por momentos, mas a ausência de perfume atraiçoa-as e logo se patenteia a arte que as teceu; mas as flores, como a violeta, em vão se ocultam na relva das campinas, denuncia-as o aroma que exalam e são essas as que nos seduzem.

Sabê-lo também como eu, tu, a quem não iludem as adulações dos bailes.

Estes elegantes de casaca, de cabelos frisados, de luva branca, que se meneiam, que se torcem, que envergam, e adejam, como importunos mosquitos, em volta das nossas cadeiras, sibilando-nos insulsas galantarias; que nos falam no tempo ao ouvido, para se darem aparências de intimidade; que nos fazem o favor de uma risada da moda a cada sensaboria que pronunciamos; esses leões terríveis que, carregando o sobrolho, imaginam ter fascinado uma mulher...; ninguém lhes pode querer mal, coitados, mas também quem os poderá tomar a sério?

Aí está explicada a minha isenção até o dia em que recebi esta prova de um misterioso amor.

Compreendes como se pode amar por inspiração, não é verdade? Não te rirás desse sentimento que a leitura daquelas linhas me inspirou, pois não?

Então digo-te mais; digo-te que o animei. Ontem mesmo, em seguida às suas palavras escrevi estas que formulam um convite, o qual espero me não será rejeitado. Submeto-as à tua censura.

— Quem possui sentimentos que na sua consciência o nobilitam não pode envergonhar-se deles. Se eu fiz nascer o mal, tenho o direito a conhecê-lo. E não possui a liberdade de recusar-se à confissão inteira quem não hesitou ao exprimir as primeiras queixas. Preciso um nome. Não sei de distâncias que prevaleçam quando a correspondência de afetos trabalha por anulá-la: rio-me dos preconceitos que o mundo respeita; e quando um sentimento é verdadeiramente nobre, tenho faculdades para lhe apreciar a nobreza e sensibilidade bastante para lhe não poder ser indiferente.

Fiz mal escrevendo isto? Pode ser, mas não me arrependo. Quero alentar essa alma tímida que me votou um culto desinteressado, mostrar-me aos seus olhos tal qual sou e... — por que não direi tudo, a ti que és a minha melhor confidente? — quero amá-lo. Se o meu amor lhe pode dar a ventura, hei de torná-lo venturoso.

Espero que em breve te comunicarei o resultado da minha entrevista. Julgo-a inevitável.

Diz-me se tens os mesmos pressentimentos da tua

Valentina.


CAPÍTULO 6

 A noite estava tépida e tranquila, como se fora uma noite de Estio. Os raios de luar esplêndido, internando-se pela espessura das árvores, desenhavam no chão das alamedas ornatos irregulares, que apenas um ligeiro tremor agitava.

Os últimos clarões do crepúsculo apavonavam ainda o ocidente, onde acabara de esconder-se a estrela da tarde.

Muitos dos doentes do doutor Jacó, aproveitando-se da excepcional temperatura daquela noite de Outono, passeavam a conversar por entre as árvores, ou contemplavam silenciosos os variados efeitos da luz nos acidentes do terreno.

Valentina, afastando-se de toda a companhia, fora sentar-se nos degraus da capela, junto da qual a vimos pela primeira vez. Na fisionomia, na atitude, na distração com que parecia fitar o disco luminoso da lua, por entre as folhas dos álamos, denunciava-se-lhe uma profunda inquietação. A mesma influência sob cujo domínio escrevera a carta que no capítulo antecedente reproduzimos ainda se não tinha desvanecido.

A mão oculta que lhe havia dirigido aquela veemente confissão de um amor sem esperança era-lhe desconhecida.

Ao primeiro convite não respondera o misterioso escritor.

O caráter de Valentina não lhe permitia porém desistir facilmente de uma resolução formada. Recuar depois dos primeiros passos era um sacrifício para que se não sentia de ânimo.

Depois, a fantasia criara-lhe um romance, um desses devaneios dos vinte anos, em que todo o nosso imaginar se concentra; paraíso de luz e de flores, fora do qual tudo se nos mostra árido e obscuro. Já não podia aceitar a realidade, depois de alguns momentos passados em livre devanear.

Insistiu e a novo emprazamento obteve uma resposta formada apenas por estas palavras:

Veja que me pede um sacrifício imenso. Não sabe o que promete. Assim, ainda posso iludir-me; depois... a confirmação das minhas suspeitas ser-me-ia fatal.

Esta resposta não era de natureza a modificar a tenção da caprichosa convalescente, antes lhe exacerbou a impaciência natural, sob cuja inspiração escreveu as seguintes palavras no mesmo lugar onde toda esta singular correspondência havia sido arquivada:

Um culto sem fé! Como posso acreditá-lo? Duvidar dos meus sentimentos e querer que não duvide da sinceridade dos seus! Hoje saberei o que devo julgar. Aqui hei de estar uma vez mais ainda — a última, se esperar em vão. Procurarei esquecer-me depois.

Quando de tarde Valentina voltou a este lugar, uma só palavra resumia a resposta que esperava:

Virei.

E era por isso que, à medida que iam correndo os momentos e aproximando-se a entrevista que ela havia exigido, uma vaga preocupação se lhe apoderava do espírito, como se só agora ponderasse na importância do passo que com tanta leviandade havia dado.

Encontrar-se a sós com um homem desconhecido, que procurava ocultar-se e temia o mundo, como se estigma indelével estivesse chamando sobre ele o desprezo ou quem sabe se o castigo, fora uma grande imprudência!

E tal vulto tomavam às vezes estas apreensões no ânimo de Valentina, que, ferida de terror, erguia-se como para fugir destes lugares, donde julgava ver já levantarem-se espectros assustadores.

Em breve porém lhe somam de novo as impressões que afagara.

Nada devia recear.

Acaso a tinha perseguido esse homem, quem quer que ele fosse? Não a havia antes evitado? Não fora ela que o constrangera a vir?

Que podia suspeitar daquela timidez de criança? Daquele pobre coração que esmorecia à lembrança de que podiam escarnecer-lhe o culto de que se ufanava. Esta ideia tranquilizava-a e então voltava a fantasia a pintar-lhe com as mais risonhas cores o futuro da sua paixão nascente.

Já a faziam sorrir os primeiros terrores, já se lhe despojava de sombras pavorosas a alameda e de novo esperava com ansiedade o momento da entrevista.

Nestas continuadas alternativas que gera a incerteza, entre a confiança e o susto, entre sorrisos e terrores, correram para Valentina alguns minutos mais, até soarem nove horas na torre da pequena capela.

Aproximava-se o momento. Mais uma vez o coração lhe bateu em sobressalto, reproduziram-se-lhe os receios e as apreensões; mas pouco tempo durou esta íntima impressão. Era a última incerteza.

O estalar de folhas secas sob os pés de alguém que caminhava fê-la voltar a cabeça.

Uma figura elevada, que se destacava em escuro sobre o fundo iluminado pelo luar, estava diante dela e como que hesitando em aproximar-se mais.

Valentina guardou algum tempo silêncio. A face do recém-chegado, oposta como ficava aos raios da luz, não pôde ser por ela reconhecida.

Aquela aparição repentina e silenciosa, como a de um espectro sinistro, suscitou em Valentina uma espécie de pavor supersticioso, que lhe não permitiu interrogá-la.

— Eis-me aqui — disse por fim aquele vulto, com uma voz que apesar de sumida, Valentina julgou conhecer. E, sem lhe dar tempo de recorrer à memória, voltou, por um movimento súbito, o rosto aos ralos da lua, que iluminaram as feições bem características de Jacó Granada.

Valentina levantou-se surpreendida sem saber ainda o que pensasse do que estava vendo.

— O doutor Jacó aqui!

O recém-chegado guardou silêncio.

— Ah! já sei — disse Valentina, como se lhe ocorrera afinal um pensamento que a satisfazia. — Já sei. Vem lembrar-me que os nevoeiros da noite me podem ser prejudiciais. Ora! Doutor, esses cuidados são-lhe mais necessários a si do que a nós outras, organizações jovens, onde, se o mal não nasceu cá dentro, há vida de sobra para neutralizar todos os elementos conjurados. Repare, não me tem sentido renascer as forças? Iluminar-se-me o olhar? Renovar-se-me o sangue? Não vê que estou curada? De hoje em diante declaro-me livre da sua tutela. Entrego-lhe as suas credenciais. Deixe-me em paz gozar das belezas de uma noite assim. Isto é também uma necessidade. O doutor não compreende como isto pode ser uma necessidade? Nem eu lho sei explicar. Creia ou recorde-se; se teve um passado que lhe dê dessas recordações. Vá, vá, deixe-me só, doutor. Tome para si os conselhos higiênicos que dá aos outros. Então? E fica! e não responde!... Que veio fazer aqui?

— Pois não exigiu que viesse? — redarguiu ele com uma voz cujo ligeiro tremor revelava a imensa ansiedade que lhe angustiava o coração.

Valentina fitou-o por algum tempo com um olhar de estupefação.

— Deus meu! Pois era... — E uma gargalhada estridente, nervosa, prolongada, terminou a frase que começara a formular.

A palidez de que naquele instante se cobriram as faces do velho médico, foi tão intensa, ao ouvi-la rir assim, que nem a meia obscuridade do lugar a pôde encobrir. Era a palidez de um cadáver.

Com uma voz sufocada, dilacerante, como só a têm os desesperados, apenas soluçou, deixando pender os braços com desalento:

— Estou condenado!

— Mas enfim que significa esta cena? — perguntou Valentina com certo desabrimento, porque, ela também, sentia desvanecer-se-lhe uma ilusão.

Jacó Granada ergueu a cabeça com um gesto impetuoso e, fitando Valentina com o olhar chamejante e desvairado, disse-lhe, numa vivacidade que semelhava ao delírio:

— Significa que a amo! Estremece? Surpreende-a esta palavra na minha boca? Bem conheço o sentido desse olhar que levantou para os meus cabelos brancos; não sei como não se riu outra vez! Embora. Há de ouvir-me, já que exigiu que viesse. Ah! compreende enfim porque eu devia sufocar este amor, compreende porque devia ocultar este segredo até de si? Era para que uma gargalhada não me viesse despedaçar o coração, como essa acaba de o fazer. Está tudo terminado para mim! Um pressentimento me dizia que isto havia de acontecer. Iludi-me; vim. O meu Deus, como me pude eu iludir! Saberá tudo agora, Valentina; ria-se depois, mas conheça inteiro o infortúnio de que se ri. Sim; é verdade, sou velho; há muitos anos, há muitos, que me alvejam as cãs na cabeça e a cara se me inclina desfalecida; mas se me sinto jovem na alma! se neste corpo cansado e gasto há um espírito de maior alento que do que o dessa juventude que a seduz! A descrença, o egoísmo, o interesse, a ausência de nobres aspirações, de sentimentos generosos, de concessões elevadas, eis o viver das almas decrépitas, e eu, Valentina, desde que a vi, perdi o sentido dessas paixões mesquinhas, ídolos a que sacrificam os homens da sua época, cujo amor aceitaria sem uma gargalhada. Responda, diga se pelos instintos não sou mais jovem do que eles. Nenhum a poderia amar como eu a amo, saiba; nenhum faria desse amor uma religião como eu; nenhum se perderia por ele, como eu decerto me perco. Bem vê que me não é possível a salvação!

E os soluços interromperam-lhe a voz ao dizer isto.

Por alguns momentos conservou a cabeça escondida nas mãos; ao levantá-la corriam-lhe as lágrimas pelas faces descoradas.

Valentina não rompeu este silêncio de momentos.

Jacó Granada continuou em tom mais abatido:

— Perseguiu-me a fatalidade toda a minha vida! Não conheci carinhos de mãe na infância; não conheci extremos de amante na juventude. Na idade das aspirações, não as tive; quando devia viver para o sentimento, era a razão que dominava em mim; os anos do amor consagrei-os sem uma saudade ao estudo; enquanto os meus companheiros corriam com alegre irreflexão para os prazeres, eu procurava o trabalho com corajosa tenacidade. Veja, conceba os risos desta juventude. Acabaram por me abandonar todas as afeições, essas poucas afeições superficiais que me restavam. Respeitaram-me, não me estimaram. Como era um homem útil, tinha quem me lisonjeasse, quem me obedecesse, mas ninguém, repare, Valentina, para o desconforto desta existência, ninguém que me desse afetos! A solidão que se fez em volta de mim exacerbou o que havia no meu caráter de sombrio; estava quase a odiar os homens... Um dia, porém, senti que acordava no meu coração um sentimento adormecido, e acordava com toda a exaltação, com todas as tendências da juventude. Concebi o amor com a pureza, com o ideal que pode verter na concessão um coração ainda virgem; concebi-o como um culto, como o augusto mistério de uma religião que pela primeira vez se me revelava.

A minha alma passou por uma completa transfiguração; novos instintos, novas faculdades parecia nascerem para ela. Mas... as rugas que me sulcavam a cara impunham-me a obrigação de sufocar a explosão iminente das paixões que se insurgiam tumultuosas. Que importava a pureza delas? — apontar-me-iam para os meus cabelos brancos e mandar-me-iam que os respeitasse. Calei-me; foi então que verti em silêncio as mais amargas lágrimas da minha vida.

Pela segunda vez a comoção dominava Jacó Granada a ponto de lhe interromper a corrente de palavras que uma veemente paixão lhe estava ditando; depois continuou:

— A velhice descrente, invejosa, avara, egoísta, cínica, pode ainda encontrar indulgência; desculpam-na e respeitam-na muitas vezes; mas a velhice amorosa, fascinada por uma dessas visões encantadoras, votada a um desses cultos ferventes que nobilitam as almas, essa não tem misericórdia a esperar; condenam-na ao escárnio, à irrisão, e tanto mais puras e elevadas são as aspirações desse amor, tanto mais amarga, desapiedada, é a humilhante perseguição que lhe declaram; é então que o assalteiam de chascos e de apupos. Sabia-o! e por isso me ocultava, por isso lutei para que ninguém descobrisse em mim o que me ia no coração. Porque eu amava-a loucamente, Valentina, e amo-a!... Oh! deixe-me ainda dizer-lho. Nada mais lhe peço. É já agora a única consolação a que aspiro. Ouça-me e ria depois, se a comiseração lhe não gelar nos lábios o sorriso. É a última vez que lhe falo. Amo-a perdidamente. Os afetos que os outros repartem com a mãe, com os irmãos, com os filhos, entesourei-os eu, anos e anos, para lhos tributar agora! Despreze-os, mas conheça primeiro de que grandeza são. Este amor tem o respeito do amor filial, a dedicação do amor fraterno; havia de rodeá-la das carícias que os filhos recebem da mãe que os estremece, e, ao mesmo tempo, ele adivinharia os extremos, a exaltação de uma paixão de amante. Sacrificar-lhe-ia tudo, a minha vida, a minha vontade, os respeitos do mundo. Por que me despreza? Oh! não repare nestes cabelos brancos; far-lhos-ei esquecer à força de dedicação e de afetos. Não me disse que viesse? Pois não me assegurou que possuía faculdades superiores às do vulgo? Que direito tinha para fazer nascer ilusões, como as que eu, louco, cheguei a alimentar, se não confiava que poderia corresponder a esse amor verdadeiro, que animou assim? Se havia de acolher-me com a gargalhada motejadora e cruel, para que me arrastou aqui? Diga, fale. Não vê que enlouqueço? Uma palavra ao menos que me tire dos ouvidos o som daquela gargalhada. Valentina! comove-a a partida das andorinhas, o definhamento da flor, e não tem coração para sentir este tormento? Vê? choro, choro, e parece que se me exaure a vida nestas lágrimas. Não aliviam, abrasam-me! Ó Valentina! Valentina! Tenha piedade desta razão que se perde.

E pronunciando entre soluços estas palavras que lhe saíam dos lábios como uma impetuosa torrente, caiu de joelhos aos pés de Valentina, que olhava com gesto de comiseração.

— Creia que aprecio a nobreza dos seus sentimentos — disse-lhe ela em tom grave e triste. — Tenho orgulho de os haver inspirado, mas penaliza-me ao mesmo tempo. Que quer? É uma fatalidade, disse-o ainda há pouco. A alma que eu ambicionaria encontrar era decerto uma alma assim, mas... — acrescentou com uma expressão de rosto onde não pôde totalmente dissimular um reflexo de sorriso — cheguei... tarde, bem vê. — E fitou os olhos na cabeça encanecida do apaixonado velho.

O sentido destas palavras não podia ficar um enigma para Jacó Granada.

— Tarde! — repetiu ele, levantando-se e com uma entonação de amargura que contristava ao ouvir. — Tarde! — E mal soube disfarçar um sorriso ao pronunciar essa palavra cruel! — Se não sente compaixão, para que a simula? Acabe de consumar a obra. Não basta repudiar este amor; tenha coragem, é preciso escarnecê-lo. Vá, aí anda essa turba de ociosos, procure-a. Conte-lhe a minha loucura, fale-lhe na minha ridícula credulidade, diga-lhe que um velho ousou falar-lhe de amor, que não hesitou em rojar-lhe aos pés a dignidade da sua velhice. Pois vacila? O velho que ama! o velho que ama! É a eterna fábula da juventude, que nem coração tem para amar. Patenteei-lhe a minha alma; agora que a conhece, ria-se dela. Não será a única a rir; mas é a única a martirizá-la, creia. Que importa a mim que os outros a acompanhem? Os outros! a multidão! o mundo! Nem já entendo as palavras. O mundo para mim está aqui dentro; e atormenta-me, rala-me, mata-me. Já vê que se enganou, mentiu-me. Os meus sentimentos são nobres, disse-o ainda agora, não é verdade? mas, recorda-se do que escreveu? Se tem faculdades, para lhe apreciar a nobreza, falta-lhe o que é mais, a sensibilidade para lhe não ser indiferente. Adeus! e repare que não é um simples adeus o que lhe digo assim. Adeus!... E já não choro! Pior! Tinha precisão de chorar. Sinto em mim um fogo que me abrasa. Adeus! Procure um coração para o qual não chegasse... tarde: mas juro-lhe, Valentina, que outro como este que desprezava... Adeus; adeus!

E, apoderando-se subitamente das mãos de Valentina, beijou-as com um tal ardor que a fez estremecer e fugiu desorientado do lugar onde esta cena se passara.

Aquela noite foi para Valentina uma noite de agitação e insônia; parecia-lhe a cada momento escutar as palavras apaixonadas desse desgraçado que vira aos seus pés e cuja figura, pálida e abatida, se lhe representava na imaginação e quase lhe fazia sentir remorsos.


CONCLUSÃO

No dia seguinte havia grande alvoroço em todas as habitações da colina. Um fato extraordinário, misterioso, comentado mais ou menos extravagantemente, reunia os grupos, animava as conversas, e quebrava a costumada monotonia daquele plácido viver. O sucedido não era para menores efeitos; o doutor Jacó Granada havia desaparecido.

Formavam-se conjeturas, procuravam-se vestígios, recordavam-se circunstâncias insignificantes, aventavam-se explicações, mas a obscuridade do fato era completa.

Só Valentina, ainda que não pudesse julgar do destino do doutor Jacó, imaginava a causa provável do sucesso e, pela exaltação de espírito que ultimamente conhecera no velho médico, sentia a esse respeito não infundadas apreensões.

Alguns dias reinou a incerteza. A confusão era completa. Alteraram-se os hábitos mais regulares. Não se falava, não se pensava em outra coisa. Os próprios doentes esqueciam os seus padecimentos, o que a muitos bastou para os curar.

Era uma anarquia inocente. Finalmente, uma manhã, o correio de Lisboa pôs fim a todas as conjeturas. Os periódicos e as cartas particulares anunciavam que o doutor Jacó havia sido encontrado nas ruas da capital, mas em tal estado de espírito, que fora recolhido ao hospício dos alienados.

Foi geral a consternação ao receber-se a notícia. Muitas lágrimas sinceras se verteram naquele momento, porque o doutor Jacó era verdadeiramente estimado.

Nesse mesmo dia Valentina abandonou a aldeia, que, depois do sucedido, se lhe tornara insuportável pelas amargas recordações que lhe trazia.

Aos leitores que desejarem saber particularidades sobre a loucura do doutor Jacó ofereço o seguinte extrato de uma carta do facultativo que o observou:

A mania predominante do enfermo é a descoberta da pedra filosofal. A elaboração de um elixir de longa vida preocupa-lhe o espírito e conserva-o num contínuo e fatigador trabalho mental.

Ouvimo-lo falar em Paracelso, em Cagliostro, em Basílio Valentim e Arnaud de Villeneuve e não sei quantos mais nomes de ilustres alquimistas.

Com a primeira pessoa que se lhe aproxime, pratica sobre os arcanos daquela seita afamada, exaltando-lhe a ideia, e expondo-lhe as teorias, com um fogo e uma vivacidade que no meio das aberrações de um espírito perturbado revelam ainda verdadeiros clarões de uma grande inteligência.

Há dias encontrei-o repetindo estas palavras, que depois me disse serem da Taboa Smaragdina de Hermes:

Apartarás com cuidado e engenho a terra do fogo, o sutil do denso; o fogo sobe da terra aos céus, desce outra vez sobre a terra e tira a sua força tanto do superior como do inferior. Assim possuirás a glória do mundo inteiro, fugirão de ti as trevas. E a virtude fonte de toda a virtude...

Interrompe a cada passo estes solilóquios para exclamar que fará ele enfim o grande achado, a grande obra, que há de ser jovem então, que remoçará. E esta ideia lança-o num acesso de hilaridade característica. Exaspera-se quando lhe negam o que exige para as suas fantásticas elaborações.

É aos velhos que com especialidade se dirige.

Promete-lhes juventude, alegria, consideração, e amores.

A extravagância destas promessas, o ardor das suas palavras então, moveriam o riso se a alma não se sentisse comovida perante as desordens daquela inteligência, onde parece descobrirem-se os vestígios de uma poderosa e malograda paixão.

— O absoluto — exclama ele nesses momentos — vos restituirá as seduções da juventude, desgraçados velhos! Nunca mais, nunca mais vos repetirão, como a mim, aquelas palavras: Vim tarde!

Estas duas palavras são as que efetivamente mais vezes o ouvem pronunciar, acrescentando:

— Não haverá mais tarde nem cedo, perante o eterno, o absoluto.

Então animam-se-lhe as feições e um sorriso singular.

Esta exaltação incomoda a quem a vê. Eu, habituado como estou a estes espetáculos, confesso que o não posso olhar sem estremecer, e conservo disso por muito tempo uma impressão penosa. As vezes encontram-no com o rosto oculto entre as mãos e chorando como uma criança; sai desses acessos para perguntar se as andorinhas já voltaram. É singular a comoção que experimenta à vista destas pequenas aves.

Deste estado recai no de um desespero tão violento que é necessário vigiá-lo muito de perto para que não cause mal. Em tudo isto reconheço os efeitos de alguma paixão íntima de que este desgraçado foi vítima. A sorte dele parece-me desesperada, e, no definhamento em que vai, é de presumir que, a recuperar a razão, seja só para reconhecer o instante final.

E Valentina?

Conservou por algum tempo a memória do doutor Jacó; mas enfim tinha vinte anos, imaginação e futuro.

Em tais circunstâncias as impressões são tão efêmeras!

Na última carta em que falava dele à sua amiga, terminava assim o período respectivo:

“Finalmente, era uma bela alma. Não há dúvida.

Para o ter amado, bastar-me-ia... ter sido contemporânea da minha avó.”

A observação parece um tanto cruel; mas qual das leitoras jovens seria mais benigna?

Depois que soube os incidentes desta pequena história, cada vez mais se confirmou a minha convicção de que é antes para comover do que para rir o espetáculo de um velho apaixonado. E o que eu julgo que nós todos devemos pedir a Deus é que não dê longa vida ao coração, se isto de paixões tem alguma coisa com ele, para que não seja o último a morrer.

---
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...