segunda-feira, 8 de julho de 2019

A rebelião dos maranhenses ou A morte de Beckman (Conto), de Martins Pena


A rebelião dos maranhenses ou A morte de Beckman

O monopólio concedido aos negociantes de Lisboa em 1680 excitou o maior descontentamento entre os maranhenses. Os paraenses, pela sua parte, sentindo-se também lesados nos seus interesses gerais e particulares, fizeram uma representação às cortes de Lisboa. Porém os maranhenses, menos sofredores, formaram e executaram um projeto de sublevação. Manuel Beckman, homem valente e destemido, foi o chefe dos insurgentes.

Nas torres das igrejas da cidade de São Luís de Maranhão dava meia-noite; as ruas estavam silenciosas, uma só patrulha não se via nelas. O dia tinha sido abrasador, porém uma branda viração, depois que o sol entrou, veio mitigar o calor do dia. Aqui e ali abriam-se algumas janelas; mas as pessoas que as abriam, ou fosse receio de se constiparem, ou por outro qualquer motivo, depois de olharem cuidadosamente para um e outro lado da rua, as fechavam com precaução, e ainda depois de fechadas, escutavam com os ouvidos encostados nas tábuas se algum rumor perturbava o silêncio da noite.

Um homem que passeasse a estas horas podia conhecer, ainda que com dificuldade, que este silêncio da cidade era aparente. Do interior das casas ouvia-se às vezes um rumor surdo e um tinido de armas, e distinguia-se o som claro causado pelas varetas dos canos das espingardas; porém nunca se ouvia mais que uma pancada; sinal este que denotava precaução e receio de descoberta no manejo desta arma.

Em uma sala de uma das principais casas da cidade estavam vinte pessoas sentadas ao redor de uma grande mesa. Todas as janelas estavam fechadas; duas candeias nas extremidades da mesa alumiavam uma cena verdadeiramente sublime. Sobre a mesa estavam dispersas diferentes armas; um crucifixo, tendo a seus pés um missal, levantava-se no meio de todas estas armas de destruição: podia-se ler nos semblantes das diferentes pessoas que aí estavam que uma ideia fixa os preocupava, e que aí se debatia uma questão de vida ou de morte. À cabeceira da mesa, cercado de alguns papéis, estava o valente Beckman, tendo a seu lado três dos principais chefes da insurreição, depois dele. À sua direita, via-se Eugênio Ribeiro e Jorge de Sampaio, e à sua esquerda o hercúlio Manuel Serrão, homem capaz de abater um touro com um murro; seguiam-se depois os outros insurgentes.

– Maranhenses! diz Beckman, levantando-se, chegou o momento de mostrarmos a Portugal e ao Mundo inteiro que os Brasileiros sabem defender os seus direitos! Há quatro anos que El-Rei D. Pedro II concedeu aos negociantes de Lisboa o privilégio exclusivo de comerciarem com o Pará e Maranhão; há quatro anos que sofremos! Os paraenses fizeram uma representação às cortes; ela foi desprezada! A nossa também seria se a fizéssemos; assim, façamo-la com as armas na mão; aonde não chega o clamor da justiça, chega o da revolta!...

Maranhenses! Às armas!

– Às armas!! às armas!!! gritam todos, levantando-se.

– Eu me congratulo convosco, continua Beckman, depois de ter imposto silêncio, por ver o nobre ardor que anima os vossos peitos; porém, ouvi-me com atenção, para que as outras nações não digam que os maranhenses revoltaram-se como um bando de salteadores! Não! esta ignomínia não cairá sobre nós! Os maranhenses e todos os mais brasileiros defendem os seus direitos; mas não são salteadores!!... E sofrereis que este epíteto caia sobre nós?!...

– Não! não! não!! respondem todos tumultuosamente.

– Pois bem. Ouvi-me. Eis o nosso plano. O capitão-mor Baltazar Fernandes será preso depois de atacarmos o palácio e dispersarmos a sua fraca guarda. Esta tarefa pertence ao valente Serrão. E vós, senhor, continua Beckman voltando-se para Serrão, respondereis pela vida de Baltazar, e vigiareis para que não lhe seja feito mal algum. A Jorge de Sampaio e a Eugênio Ribeiro pertence o ataque do aquartelamento dos soldados portugueses; e a mim pertence o ataque do palácio do governador Telo de Menezes. Se nosso plano tiver bom êxito, convocar-se-á uma junta para depor o governador e o capitão-mor, para abolir o monopólio e expulsar os jesuítas. Merece este plano a vossa aprovação?!

– Sim! sim! merece!

– Eu contava convosco, não me enganei! Armemos-nos!!

Todos os conspiradores armaram-se com as diferentes armas espalhadas por cima da mesa. Serrão armou-se de uma forte trave que pesava, pelo menos, uma arroba.

– Agora juremos pelo Cristo que nos ouve, diz Beckman, de sermos fiel à causa que defendemos. Repitam comigo. Eu juro (continua ele, estendendo a mão sobre o missal, sendo acompanhado por todos nesta ação e palavras), eu juro combater, até a última gota de meu sangue, para defendermos os nossos direitos; e arda eu por toda a eternidade no inferno se for falso ao meu juramento!! Os nossos direitos, ou a morte!!!

Beckman, depois de fazer o juramento, abre uma janela e diz para os seus companheiros: – Eis o sinal da revolta!! Ele estende o braço fora da janela e dispara uma pistola de forte adarme.

Um grito unânime respondeu a este sinal:

– Às armas! às armas! às armas!!

Beckman, seguido de seus companheiros, sai para se reunir aos outros insurgentes.

***

Beckman, com o seu gênio infatigável, tinha arranjado a sublevação de modo que ela arrebentasse a um sinal dado: este sinal foi o tiro de pistola.

Repentinamente grande número de portas se abriram, e uma multidão de gente armada saiu por elas.

O silêncio da cidade tornou-se em um motim estrondoso: os sublevados armados, uns de espingardas, outros de pistolas, espadas, enfim, de tudo quanto servia de arma ofensiva, corriam atropeladamente para se reunirem a um ponto marcado pelo chefe. Eles já não ocultavam os seus intentos; do meio da multidão ouviam-se continuados gritos de – Abaixo o governador!... Morram os jesuítas!... Abaixo o monopólio!!

Beckman e os seus companheiros dirigiram-se para o lugar da reunião, e lá já acharam grande número de insurgentes: – Viva o nosso chefe! viva!! gritaram todos assim que o avistaram.

Beckman atravessa apressadamente por meio deles, e sobe para uma pequena eminência; e aí vê que ninguém faltou ao juramento. O campo estava atulhado de povo, e ainda chegava mais de todos os lados. – Maranhenses! exclama Beckman estendendo o braço para pedir silêncio: – Maranhenses! Chegou o momento de nos vingarmos da afronta que se nos têm feito; porém sejamos humanos. Nós devemos vencer com um braço e socorrer o inimigo com o outro! Se o governo português tomasse em consideração os nossos clamores, nós seríamos submissos; mas ele nos trata como desprezíveis colonos e os nossos vexames só servem de escárnio para ele!! Maranhenses! Eu já vejo a agitação em que estais; os vossos peitos já não podem conter tanta indignação, e o vosso ardor já suspira pelo momento do combate, este ardor é louvável, eu o partilho convosco. Maranhenses! Eis o nosso grito de guerra: – Os nossos direitos, ou a morte!!

– Os nossos direitos, ou a morte!!! repetem todos.

Beckman desce do lugar onde estava e divide os insurgentes em três divisões; a primeira ele entrega ao comando de Serrão; a segunda ao de Sampaio e Ribeiro; e a terceira, que era composta da melhor gente por ter de assaltar o palácio do governador, fica debaixo de seu comando. Cada uma das divisões segue para seu lado.

O governador-general dormia com grande quietação, quando um criado entrando apressadamente e com o terror pintado no semblante, acorda-o dizendo:

– Senhor! Senhor! Levantai-vos, nós estamos perdidos!

D. Telo acorda sobressaltado, assenta-se na cama, e manda ao criado que se explique.

– Eu dormia, diz o criado todo trêmulo, quando uma vozeria me fez acordar espantado; levanto-me, abro a janela, e vejo uma multidão correndo pela rua, e dando gritos de morra o governador!! O capitão da vossa guarda já estava acordado e tinha todos os soldados formados no pátio; a porta da rua ele tinha fechado temendo alguma invasão no palácio que não pudesse obstar com os poucos soldados que estão às suas ordens. O povo continua a correr e gritar!!... e nós estamos perdidos!

D. Telo veste-se apressadamente e manda chamar o capitão: este chega e confirma a notícia dada pelo criado. D. Telo ordena-lhe que conserve a porta fechada, e que poste soldados em todas as janelas. Esta ordem foi executada; e todos no palácio esperavam ansiosos o fim destes preparativos.

Uma hora se passou sem aparecer sinais de hostilidades; porém no fim de algum tempo ouve-se um rumor como o das vagas de um mar distante; pouco a pouco foi crescendo até que se tornou em um verdadeiro tumulto. Os insurgentes capitaneados por Beckman desembocaram na rua do palácio e em poucos minutos estavam todos defronte dele. Um silêncio de morte parecia reinar no interior do palácio e os mesmos insurgentes ficaram por alguns instantes silenciosos. Uma janela do palácio se abriu e D. Telo, com todas as suas insígnias de governador-general, apareceu: todos os rostos voltaram-se para ele.

– Que delírio é o vosso, maranhenses! diz o governador: Vós vos levantais contra a autoridade legal, e não sabeis... aqui foi ele interrompido pelos gritos de – Abaixo o governador!! Do meio da multidão dispararam, e a bala foi bater na ombreira da janela onde ele estava.

O governador retira-se apressadamente, e fecha a janela; neste mesmo instante todas as outras abrem-se, e um chuveiro de balas vem espalhar a morte entre os sublevados.

Beckman toma um machado de um dos que estavam a seu lado, e avança intrepidamente para a porta.

Os soldados continuaram a fazer fogo, porém a porta cedeu depressa aos repetidos golpes de machado dados por Beckman e seus companheiros. Os soldados ainda fizeram alguma resistência, mas o número os abafou.

D. Telo, conhecendo que toda a defesa era inútil, esperou os sublevados com dignidade; e quando estes entraram na sala em que ele estava, dirigindo-se a Beckman, que vinha à sua frente, disse:

– Vós vindes assassinar um fraco velho, eu me entrego nas vossas mãos; saciai o vosso furor!

– D. Telo, replica Beckman, nós não somos assassinos, a nossa missão não é de sangue, nós defendemos os nossos direitos, vós sereis respeitado, Lázaro de Melo com mais quarenta homens vigiarão sobre vós, e nenhum mal se aproximará de D. Telo de Menezes.

Beckman deixa no palácio Lázaro de Melo, seu pupilo, com uma forte guarda, e dirige-se com o resto dos companheiros para proteger a operação dos outros chefes, no caso de necessidade.

Ribeiro e Sampaio, ainda que com alguma dificuldade, assenhorearam-se do aquartelamento dos soldados.

Serrão encontra resistência antes de poder apoderar-se do capitão-mor: depois de ter arrombado a porta da casa, debaixo das pedras, cômodas, leitos que lançaram das janelas, sobe ele e seus companheiros, penetram no corredor; porém aí encontrou ele o colossal Nóbrega, amigo do capitão-mor, e um criado. Logo que o criado avistou Serrão, disparou sobre ele uma pistola, a bala passou entre a sua orelha e a cabeça, deixando um rastilho de sangue. Serrão ficou atordoado por um instante, e Nóbrega, querendo aproveitar a ocasião, caminha para ele com a espada levantada; porém aquele, recobrando alento, recua três passos e, levantando a trave, descarrega-a sobre a cabeça de Nóbrega e a faz em pedaços. O colosso caiu sem vida.

O capitão-mor ainda resistiu algum tempo; porém, desejando salvar a vida, entregou-se discrição.

Quando Beckman chegou a falar com os três diferentes chefes, já tudo estava concluído.

***

A rebelião foi tão bem organizada que o governador só teve notícia dela quando o povo, rompendo os diques da paciência, soltou o grito. Nós vimos nos capítulos antecedentes a sua marcha e o seu feliz êxito.

Logo que os chefes da rebelião puderam acalmar o povo exaltado pela sua vitória, convocaram uma junta dos três estados para reger o Maranhão.

Beckman sabia muito bem que o Maranhão não podia por muito tempo conservar-se independente. Uma grande parte da população era nascida em Portugal e esta havia, sem dúvida, de pugnar pelos interesses de sua pátria; se eles protegeram a rebelião foi porque o governo português feriu seus interesses particulares, concedendo privilégios aos negociantes de Lisboa, e ele também sabia que ao menor sinal de revés ficariam abandonados; o que em pouco tempo se realizou. A outra parte da população era composta de filhos do país descendentes de europeus; e de indígenas: os primeiros eram pouco numerosos, e os segundos só serviam de instrumento para uma revolução, e não para sustentar um governo qualquer.

Beckman via tudo isto; porém, esperava que a nova da rebelião havia de causar grande sensação em Lisboa, que o governo, conhecendo o espírito hostil dos maranhenses, melhoraria a sua sorte. O governo português ou havia de ceder à petição dos maranhenses, apresentada por seus emissários, ou havia de mandar um novo governador com novas tropas para abafar a revolta. No primeiro caso estavam as esperanças dos maranhenses realizadas, pois o monopólio e os jesuítas não pesariam mais sobre eles; no segundo, Beckman esperava que seria uma medida intempestiva, pois os maranhenses haviam de pugnar por seus direitos até a sua última gota de sangue, pois esta medida feriria os seus interesses gerais e particulares, e que esta oposição ensinaria ao governo português a ser mais prudente. Sampaio, Ribeiro, Serrão, ele e outros mais foram nomeados membros da junta provisória.

Três meses se passaram sem a maior novidade, a não ser o que alguém já tinha previsto, isto é, a deserção de muitos dos levantados. O governador e o capitão-mor estiveram presos todo este tempo, porém foram tratados com humanidade. Os jesuítas refugiaram-se nas províncias vizinhas.

***

Em uma sala de mesquinha aparência, sentada em uma cadeira de assento de couro e encosto alto, guarnecido de cabeças de prego dourado, uma bela rapariga lia o catecismo: repetidas distrações a desviavam de sua leitura; e, depois de um quarto de hora, ela tinha voltado a mesma folha seis vezes para poder compreender o que lia, tal era a sua preocupação. Leonor, assim se chamava ela, fecha o livro com impaciência e vai para janela; assim que aí chegou, seus olhos brilharam de prazer, o sangue subiu às suas faces, e pronunciou com prazer estas palavras: – Enfim!

Leonor esperava seu amante Lázaro de Mello; ela corre para abrir a porta, e Lázaro se precipita em seus braços.

– Minha Leonor!

– Meu Lázaro! Oh! que saudades me tens causado! Já te não lembras de mim, não é assim, ingrato?

– Esquecer-me de ti! Isto é impossível. Beckman, meu tutor e padrinho, reteve-me todo este tempo junto a si, para ajudá-lo a escrever diferentes papéis que dizem respeito à junta provisória. Eis, meu amor, o motivo de minha ausência. Tu me desculpas, não é verdade?

– Tu bem sabes que eu sempre te perdoo. Assentemo-nos, tu deves estar cansado.

– Ah! Leonor, se pudesse estar sempre junto de ti! Viver só para ti! Então eu seria feliz!

– Lázaro, se nisto consiste a tua felicidade, e se tu não és feliz, é porque não o queres.

É verdade que eu sou filha de um cuteleiro e tu és cavalheiro; porém eu sou filha única, e meu pai tem sabido ajuntar uma boa fortuna; muitas pessoas desejam a posse de minha mão; mas eu os desengano, porque só a ti amo. De que te serve, Lázaro, a tua nobreza sem dinheiro? tu és órfão: Beckman tem sido o teu benfeitor, ele também tem família, e tempo virá que tu lhe serás pesado..... mas que digo eu! Insensata! Lázaro, não me desprezes pelo que eu te digo! Eu não te quero comprar com a minha fortuna, oh! Não! Não era este o meu pensamento! Eu te amo, e então tudo quanto eu julgo capaz de te ligar a mim eu ponho em prática! Ah! Perdoa!

– Leonor, se dependesse só de mim o ser o teu esposo, há muito que o seria, porém uma vontade superior à minha a isto se opõe; e esta vontade, continua Lázaro com furor, e esta vontade é de Beckman! A política tem secado o seu coração! Ele não se compadece dos tormentos que eu sofro longe de ti, e não pensa senão na junta!... E que me importa a junta, que me importa a independência do Maranhão sem Leonor!!

– Egoísta! replica Leonor. Tu não te importas com os interesses da tua pátria?! Lázaro, eu não esperava estas expressões de tua boca; se queres que eu te continue a amar, ame também a nossa pátria; eu nasci no Maranhão, e no meu peito bate um coração brasileiro.


– Minha Leonor; perdoa os delírios de minha imaginação!... Eu vou-me lançar aos pés de Beckman: se ele for humano me há de ouvir. Adeus, eu vou ouvir minha sentença, porém, se ele me não ouvir! Que trema!! A minha ving..... Adeus! Adeus, Leonor!

Lázaro sai precipitadamente, deixa Leonor assustada com seu arrebatamento e encaminha-se para a casa de seu tutor. Beckman estava sentado à mesma mesa onde o vimos pela primeira vez; diferentes papéis o rodeavam, e ele, cansado de escrever, cruzou as mãos sobre o peito e lançava um olhar vago por todos estes papéis amontoados diante de si.

– Há apenas três meses, dizia ele com melancolia, que o povo corria entusiasmado pelas ruas desta cidade para abolir o infame monopólio, e em tão pouco tempo já este não se lembra nem de sua bela vitória, nem do desprezo ignóbil com que era tratado!... O povo!... o povo!! desgraçado de quem se fia na popularidade! Hoje panegirista de um governo levantado por suas próprias mãos, amanhã ele o calcará na lama, e levantará sobre a sua ruína um novo governo! Um homem pertinaz com uma ideia nova é tudo quanto basta para levá-lo atrás de si e fazer uma revolução, arriscando-se, é verdade, a ser vilipendiado ao depois por aqueles mesmos que mais o favoreciam... Arlequim!... Trabalhemos ainda alguns instantes, amanhã é dia de Junta.

Beckman puxa os papéis para junto de si e, quando os principia a ler, entra Lázaro.

– Senhor! diz este entrando.

– Que pretendes?

– Eu vos venho pedir uma graça.

– Se estiver em minhas mãos servir-vos, podes contar com ela.

– Eu amo a Leonor, e...

– É escusado continuares; por muitas vezes já vos tenho dito, que não consentirei em semelhante casamento.

– Ouvi-me, Senhor! diz Lázaro com a voz trêmula de raiva: ouvi-me!

– Lázaro, responde Beckman com brandura; eu desejo a tua felicidade, não o duvides! Pede-me outra qualquer coisa, e serás servido; porém esta não! Eu não faltarei ao meu juramento... Ouvi-me. Quando teu pai morreu tinhas apenas dois anos: no leito de morte, ele me disse estas palavras: “Meu amigo, a ti confio o meu tenro filho, tu o levastes à pia do batismo, tu serás o seu pai; e eu exijo de ti o juramento de não dares o teu consentimento para que meu filho se case, no caso de o querer, antes que tenha completado os 25 anos; e isto por motivos que eu levarei ao túmulo comigo”. Eu fiz o juramento que teu pai exigiu de mim; eu te tenho criado com a mesma afeição que as minhas duas filhas. Teu pai te deixou pobre, e eu te tenho feito uma posição no mundo; por pedido meu fostes nomeado capitão de um regimento; e eu farei tudo quanto for possível para tua felicidade, pois eu te amo como o meu próprio filho. Uma só coisa te tenho eu negado, e te negarei até que tenhas completado os teus 25 anos, o consentimento para o teu casamento.

– Este podia ser o parecer do meu pai; porém eu penso de outro modo.

– Mancebo; já vos disse que isto me é impossível.

– Senhor!!

– Torno-te a repetir: não pode ser.

– Oh! isto é muito!! E que me importa o vosso consentimento?! Eu passarei sem ele.

– Eu te irei arrancar do lado de tua amada, e mostrarei o meu direito.

– Direitos de um déspota! Oh! Os maranhenses foram felizes na troca!

– Lázaro de Melo! responde Beckman levantando-se com arrebatamento: Mede as tuas palavras, e não confundas os interesses sagrados da pátria com as tuas paixões particulares, aliás...

– Eu não vos temo! diz Lázaro fora de si: eu não vos temo!... Respondei-me pela última vez: ainda persistes em usares do direito que tendes sobre mim?

– Ainda!

– Adeus! Beckman! Neste momento esqueço-me de todas as obrigações que te devo! Ah! Tremei!

– Tu me ameaças?!

– Beckman, lembra-te do dia de hoje!!

Lázaro sai como um furioso da sala.

Beckman, depois de ficar algum tempo pensativo, assenta-se e diz sossegadamente:

– Mocidade, mocidade.


***

A nova da rebelião dos maranhenses causou grande inquietação em Lisboa. Receava-se que os franceses, tendo-se estabelecido em Caiena, quisessem renovar a tentativa de fundar uma colônia nas margens do Orelhana, renovando as suas pretensões sobre o Maranhão. Nesta crítica conjectura, resolveu el-rei mandar um novo governador, homem de talento, probidade e reconhecido talento. Gomes Freire de Andrade, que possuía todos estes requisitos, foi escolhido para o importante cargo. Depois de se ver contrariado por mil intrigas, conseguiu por fim plenos poderes de el-rei D. Pedro II; partiu a bordo da nau Conceição e a 15 de maio chegou à barra de Maranhão, onde ancorou. Beckman e seus sócios mandaram a bordo um ajudante para saber se era o novo governador ou um navio do pirata D. João de Lima. Gomes Freire o acolheu bem e manifestou as disposições mais favoráveis aos habitantes: disse que em Lisboa tinha conferido com Tomás Beckman, irmão do chefe dos levantados, o que fez crer aos sublevados que nada tinham a recear. O governador, aproveitando a ocasião, pediu ao oficial que levasse para terra duas pessoas que tinham sofrido muito durante a viagem, e a quem o ar da terra seria muito útil para restabelecer a saúde, o que foi atendido. Embarcou-se pois Francisco Teixeira de Moraes e Francisco da Mota Falcão. Este voltou a bordo e informou Gomes Freire que não havia na cidade preparativos de defesa, e que os habitantes estavam inteiramente confiantes no resultado das representações de seus procuradores de Lisboa. Mas Beckman, tendo resolvido excitar o povo e opor-se ao desembarque do governador, fez partir o procurador, o secretário e a junta para irem a bordo cumprimentar Gomes Freire, mostrando-se disposto a reconhecer a sua autoridade, mas persuadindo-lhe que quisesse demorar o seu desembarque até o dia seguinte, para dar tempo aos aprestos de o receberem dignamente; mas ele, descobrindo facilmente o ardil, disse-lhes que ia publicar uma anistia geral e que desembarcaria na maré imediata; e logo expediu dois oficiais com cinquenta soldados que se apoderaram do forte sem resistência. Beckman e alguns de seus sócios fugiram para o interior.

***

Uma tropa de 200 a 250 homens marchava silenciosamente por um pequeno e agreste atalho; não se ouvia senão a bulha dos pés dos homens nas folhas secas que cobriam o caminho, e o sussurro do vento entre as folhas das árvores. Já tinha dado meia-noite, uma escuridão completa cobria a terra; porém, o chefe da tropa a dirigia com segurança e sem hesitar, por entre o intrincado bosque e a escuridão da noite. Por espaço de uma hora marchou a tropa sem que se ouvisse a voz de um só homem; o chefe ia adiante, os outros seguiam um após o outro, por não o permitir mais a natureza do caminho. Iam sair do bosque para entrar  em um campo, quando a voz do chefe deu a ordem de fazer alto; todos pararam, e ele dirigindo-se à tropa em voz baixa:

– Meus companheiros, nós temos marchado até aqui sem que tenhamos sido percebidos por pessoa alguma; porém, até agora o bosque protegeu a nossa marcha; o mesmo não acontecerá quando atravessarmos o campo que está diante de nós; assim, atravessemo-lo com prudência. Curvemo-nos até o chão, e sigam todos o meu exemplo.

Ele bota as mãos no chão e, seguido de todos os outros, principia a atravessar o campo. Quem pudesse ver de uma certa distância todos estes homens andando a quatro pés havia de supor que era uma manada de carneiros que a noite tinha surpreendido no bosque. Eles tinham dado 20 a 30 passos, quando uma bulha de um dos lados do campo os fez deitar com a barriga sobre a terra. Um quarto de hora permaneceram nesta posição e, como não ouviram bulha de novo, o chefe deu ordem de continuarem a marcha. Nada mais os interrompeu até chegaram ao outro lado do campo.

O campo neste lugar se estreitava; à esquerda, corria um rio bastante impetuoso, e à direita um bosque que se estendia até as portas da cidade. Do outro lado do rio, havia também um outro bosque, que o acompanhava em todas as suas sinuosidades, ficando apenas um pequeno caminho entre o rio e o bosque à direita.

Logo que chegaram ao princípio desse caminho, Beckman (pois já é tempo de dizer o seu nome), depois de se ter levantado, olhou com atenção para todas as pessoas, como procurando alguém; porém, depois de procurar inutilmente quem ele desejava, voltou-se para o Serrão e diz: – Onde está Lázaro?

– Ele marchava na retaguarda, responde este.

– Mas eu não o vejo! Onde estará?!

– Há muito tempo que eu vos tenho dito que desconfio deste Lázaro; porém vós não me tendes querido dar atenção.

– Lázaro é meu afilhado, e não me trairá.

– Ele vos ameaçou, segundo me dissestes, em uma entrevista que teve convosco a respeito de um casamento; e isto já não dá muito boa ideia dele. Ameaçar o seu benfeitor!!...

Oh! Isto é infame!...

– Mocidade! Mocidade!

– Queira Deus, replica Serrão, que essa vossa incredulidade não custe a nossa ruína!...

Enfim, marchemos. 

A tropa entrou no caminho e principiou a marchar, tendo de um lado o rio, e do outro o bosque. Por meia hora nada a interrompeu; Beckman e seus companheiros já esperavam penetrar na cidade com facilidade, surpreenderem a guarda do governador, matar a este e, no meio do tumulto ocasionado por este acontecimento, excitar o povo a uma nova revolução, quando de dentro do bosque uma descarga bem dirigida de mosqueteira veio surpreendê-los no meio de suas esperanças.

– Traição! Traição! gritam espavoridos os companheiros de Beckman. Eles não sabem já o que fazem, a confusão se apodera deles: uns correm para um lado, outros correm para o outro. A confusão estava no seu auge.

– Camaradas! grita Beckman, que terror é o vosso?! Ataquemos o bosque; o inimigo aí está!!

Uma nova descarga, tão bem dirigida como a primeira, incute terror e pânico nas fileiras de Beckman; e principiaram a fugir debandadamente. Uma companhia de alabardeiros sai do bosque e os persegue. Uns caíam no rio e achavam a morte na sua impetuosa corrente, outros morriam com as alabardas enterradas nas costas. Eles já não procuravam defender-se, mas sim fugir; porém, o caminho era estreito, atropelavam-se, e todos querendo fugir ocasionavam a morte de todos. Serrão, com um pesado machado na mão, aproxima-se do chefe dos alabardeiros e faz a sua cabeça saltar fora do seu tronco; e vendo, do outro lado dos soldados, Lázaro que os tinha traído, gritou: “Espera, traidor!” e arremessa-se para ele; porém o gancho de uma alabarda o retém pelo pescoço, ele cai, sendo logo amarrado pelos soldados. Ribeiro, Sampaio e Beckman fizeram prodígios de valor; porém foi forçoso ceder ao número. Ribeiro e Sampaio foram feitos prisioneiros, e Beckman pôde escapar-se.

Os soldados do governador, comandados pelo traidor Lázaro, fizeram uma carnificina horrível.

Expliquemos a causa desta surpresa.

Lázaro de Melo, depois que ameaçou Beckman, procurou conciliar-se com ele, o que conseguiu facilmente. Neste tempo chegou o novo governador, e foi forçoso a Beckman fugir; Lázaro o acompanhou, esperando poder vingar-se em ocasião oportuna, e esta não tardou muito, quando Beckman, à frente de alguns de seus amigos, empreendeu uma nova insurreição. Nós acabamos de ver como ele conduziu esta expedição e o seu desgraçado fim; Lázaro os tinha traído, apartando-se deles por caminhos deles conhecidos; e fazendo conhecer ao governador o perigo que o ameaçava. Teve por prêmio o comando dos soldados mandados contra Beckman, o qual ele esperava ver morto para poder unir-se a Leonor. 

Seus intentos foram malogrados pela fugida de Beckman; mas conhecendo ele bem todas as localidades da casa de seu tutor, e onde supôs que ele se tinha refugiado, marchou com os soldados. Beckman foi preso na sua casa no meio de sua desgraçada família por aquele que, por muito tempo, fez parte dela.

***

O povo da cidade alvoroçou-se quando soube da prisão de Beckman. A expedição tinha sido feita com presteza e segredo, assim, não souberam desta notícia senão depois que o seu antigo chefe já estava preso. Esta notícia espalhou-se com a velocidade do raio, assim como o nome de traidor. A multidão estava defronte do palácio do governador; alguns gritos sediciosos se ouviram do meio dela; porém o temor os abafou logo. Grande número de patrulhas percorriam as ruas em todos os sentidos. Se no meio deste povo aparecesse um só de seus chefes, uma insurreição ainda mais sanguinolenta que a primeira havia de rebentar; mas eles estavam todos presos, e o povo não tinha quem os conduzisse; faltava uma voz poderosa que desse unidade às suas ações.

– Se algum dia encontrar o infame que atraiçoou Beckman, dizia um pedreiro para o seu vizinho: hei de enterrar o meu martelo em sua cabeça!

– E fazes bem, responde o vizinho: um ingrato, é capaz de todos os crimes. Oh! Atraiçoar o seu padrinho! não sei o que me retém aqui e que o não vá procurar para arrancar-lhe o coração!

– Infame! Malvado!

– Oh! Sim! Ele é bem malvado! diz uma mulher que ouvia a conversa dos dois: bem malvado! Desgraçada viúva! Desgraçados órfãos!

– Pois Beckman há de ser morto?! pergunta uma outra mulher.

– Ainda o duvidas?!

– Coitadas de suas infelizes filhas!... Se eu fosse homem havia de levantar-me contra esta barbaridade!

– Isto é fácil de dizer, mas não de executar. Quem nos há de dirigir? Os chefes estão presos e, além disso, vê quantos soldados vieram com o novo governador.

– É verdade! É verdade!

Estas e outras palavras se ouviam por toda a parte. Repentinamente o povo se agitou como as vagas do mar, e os gritos de – Morra, morra o traidor! se repetiam.

Lázaro queria atravessar a multidão para entrar no palácio do governador, porém logo que o avistaram, correram para ele como frenéticos, aos gritos de – Morra o traidor! Ele não teve remédio senão procurar na fuga a sua salvação.

O povo ainda ficou por algumas horas junto; porém, foi pouco a pouco retirando-se; à noite, já não havia pessoa alguma nas ruas.

Lázaro, vendo-se obrigado a fugir dos que o perseguiam, entra em casa de Leonor, onde ele ainda não tinha estado depois de sua traição. Leonor estava inquieta pela agitação que via na cidade e ainda ficou mais quando viu Lázaro entrar impetuosamente com o terror pintado em seus olhos.

– Leonor! Leonor! socorrei-me!

– Ah! O que é isto?!

– Eles me perseguem! Eles têm sede de meu sangue! Eles dizem que sou um traidor!! Ah! Sim, eu sou traidor!

– Tu, traidor!...

– Sim! Sim! Eu traí Beckman! Beckman, meu tutor e padrinho!! Tu foste a causa, Leonor!... Enquanto ele vivesse, eu não podia ser teu, e ele morto tu és minha! Leonor! Beckman vai morrer, ele está preso: e eu fui quem o prendi!... – Lázaro quer abraçar Leonor, seus olhos brilham como os de um louco, todo o seu corpo treme. O furor do povo contra ele lhe revelou toda a infâmia em sua alma e o temor se apoderou dele; e estes dois sentimentos o faziam delirar.

– Lázaro! Deixa-me! diz Leonor afastando-se dele.

– Deixar-te, eu!... Não!... Vês este sangue que cobre a minha mão? Pois bem, ele foi derramado por tua causa!

– Por minha causa?! Tu deliras?!...

– Leonor! Leonor, tende piedade de mim!

– Eu te amava como poucas pessoas amam, eu ainda te amo; mas fostes traidor! Tu derramastes o sangue de teus patrícios, a minha existência não se unirá mais à tua! Lázaro, antes de eu ser amante, era maranhense!

– Tu também me odeias?! Oh!

– Eu te amo como mulher, e te odeio como brasileira, e este sentimento prevalece. Lázaro, ide buscar o vosso tutor, ide restituir o pai às filhas, e depois vinde, que eu serei tua; porém, antes disso, não o esperes.

– Oh! Isto é impossível, o governador já lavrou a sua sentença.

– Sai de minha presença, traidor! diz Leonor com dignidade, porém com lágrimas nos olhos.

– Lázaro, diz ele, tu és um traidor! Todos te aborrecem!... Ah!... Leonor! Adeus! Adeus!...

Ele sai com impetuosidade.

Leonor, assim que Lázaro saiu, caiu sentada em uma cadeira, tapou a cara com a mão, e suas lágrimas correram por entre os dedos.

E Lázaro?

Logo que ele saiu da casa de Leonor, caminhou como um louco para onde tinha surpreendido os companheiros de Beckman. Não sabia para onde ia, um sentimento maquinal o dirigiu para este lugar. Seus olhos pareciam querer saltar fora de suas órbitas, seus cabelos voavam com o vento, seus vestidos completamente desarranjados, enfim, tudo nele denotava loucura.

A terra, no lugar da surpresa, ainda estava úmida com sangue. Apenas chega ali, ouve rumor no bosque, era uma cobra que se movia, porém supôs que alguém o perseguia e, olhando para trás, com o movimento que faz, escorrega-lhe um pé no mangue, e cai para a parte do rio; a não ser o ramo de uma árvore que pendia sobre o rio, ele se teria afogado; mas ainda não estava fora do perigo. O ramo em que ele estava suspendido por um braço era frágil e, com seu peso, dobrou. Ora, tendo o ramo dobrado, e dobrado muito, a cabeça de Lázaro ficou oito palmos abaixo da superfície da terra firme. O rio debaixo de seus pés faria um redemoinho, Lázaro a todos os momentos se aproximava dele.

Estendia o braço a ver se podia firmar-se na terra; porém inutilmente. O ramo principiava a estalar, seu braço já não podia suportar o peso do corpo: ele procura agarrar no ramo com a outra mão e, com o esforço que fez, o ramo estala e seus pés se aproximaram mais ao redemoinho. Lázaro viu diante de si uma morte inevitável; suas ideias principiam a abandoná-lo; um suor frio cobre todo o seu corpo; e crê ouvir milhares de vozes dizendo ao redor dele: “Traidor! traidor”!! Quase já ia abandonar o ramo; porém, lançando-se para um lado, vê – oh que horror! – um enorme jacaré com os olhos fitos nele!! Esta vista lhe dá novas forças; ele pode conseguir agarrar no ramo com a outra mão; seus pés procuram firmar-se na escarpa ribanceira, o suor corre em largas gotas de sua testa; seus nervos se endurecem; suas unhas se enterram no ramo. Com dificuldade pode firmar um de seus pés; espera escapar ao terrível jacaré, que olha para ele com impassibilidade; em último esforço, ele está quase a salvo; mas este último esforço acaba de destruir o seu apoio; o ramo cede, e Lázaro desaparece no redemoinho!! O jacaré deixa o seu lugar de observação e, com a boca aberta mostrando os seus temíveis dentes, com a cauda batendo alegremente na água, mergulha no lugar onde Lázaro desapareceu! Por algum tempo, a água se agitou na superfície, o lodo subia do fundo, como denotando um combate no seio do rio; o lodo principiou a subir com sangue; em pouco tempo o rio ficou vermelho... e depois tudo ficou quieto...

Assim morreu desastrosamente Lázaro de Melo! E possam todos os traidores morrer como ele.

Gomes Freire portou-se com moderação e generosidade. Depois de ter feito quanto dependia dele para salvar Beckman, assinou a ordem de execução com mão trêmula, que apenas se podia reconhecer a firma e, após a morte de Beckman, comprou os bens dele e os restituiu à inconsolável viúva a quem tinham ficado duas filhas solteiras. Beckman morreu com dignidade, assim como Ribeiro. Serrão e Sampaio conseguiram fugir.

Beckman morreu acompanhado das lágrimas de seus amigos e inimigos: assim é lastimado o verdadeiro patriota, o cidadão honrado; os seus mesmos inimigos choram a sua morte!

Lázaro de Melo morreu execrado de todos: assim morre o traidor!


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