domingo, 8 de setembro de 2019

Catulo e a modernização do Rio de Janeiro (Resenha)



Catulo e a modernização do Rio de Janeiro

Repercute, ainda, em todas as camadas sociais a morte de Catulo da Paixão Cearense, o grande bardo sertanejo. As manifestações de reverência à memória do cantor do "Luar do Sertão" continuam a se fazer sentir. Justo, portanto, que se rememore, em pinceladas largas, o fim do século XIX e o alvorecer do século dos nossos dias, quando Catulo, integrando a notável equipe de boêmios, de menestréis que escreviam os seus poemas de angústia, de amor, de esperança e vida nas noites trepidantes de boêmia, sentia, como todos da roda alegre, as vestes e as frontes banhadas pelo orvalho da madrugada.

O Rio de Janeiro, então, com os seus cafés repletos, povoados de mocidade, com orquestras animadas, refletia perfeitamente a agitação de uma cidade que se fixava nos alicerces de um grande futuro. Os últimos dias do século dezenove e os primeiros do século XX estabeleceram o meridiano que separaria o Rio de Janeiro — cidade antiga, dos quiosques, das ruas estreitas e pouco ventiladas; para o Rio — cidade moderna, estuante de iluminação, de largas avenidas, enfim, o Rio — cidade maravilhosa. E foi nesse período de transição, quando as picaretas do progresso enchiam de poeira sufocante os gritos dos conservadores epicamente retrógrados, é que Emílio de Menezes, Olavo Bilac, Patrocínio, Pardal Mallet, Paula Ney, Coelho Neto, Catulo e outros cantavam os seus poemas maravilhosos, ostentando a púrpura divina da inteligência cintilante, sob as aclamações dos admiradores que os cercavam. E quase sempre a madrugada tranquila e sangrenta de luz os vinha surpreender nas mesas dos cafés transformados em berços da inspiração poética. Alguns deles mais vividos, outros ainda iniciados na longa carreira das letras e na fugaz aventura da boêmia, porém todos irmanados num só desejo: viver, viver boemiamente, construir algo de belo tomando como tema a própria vida que eles dissipavam ao sabor das noitadas alegres.

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Enquanto o pequeno grupo traçava diretrizes para a literatura nacional, enchendo as prateleiras das livrarias, povoando de anedotas e trocadilhos magníficos a cidade, os centros do mundanismo, havia, desgraçadamente a se firmar no atraso, a modalidade de comércio.

A cidade era suja e monótona. As rodas das vitórias, dos tílburis e dos "troleys" riscavam as lajes que constituíam o calçamento das ruas. O bondezinho puxado a burros era um convite ao sono. Nas sinuosas vielas, nas ladeiras imundas, os indolentes e alcoólatras inveterados estabeleciam as bancas do baralho onde tinham começo e fim o vício, a delinquência, a honra...

O comércio daquela época... Com raríssimas exceções, era profundo e paradoxalmente pouco comerciável. Atrás dos balcões indiferentes à higiene, rapazolas esquálidos, subalimentados, de mau humor permanente e doentio, corriam de um lado para outro sob o comando vigilante e inamistoso de patrões suarentos e bem nutridos que aconchegavam ao peito, com requintes maternais, o peso fraudulento, o amigo maior da sua prosperidade. Não havia horário certo para o funcionamento do comércio. Altas horas da noite, sob a luz bruxuleante de lampiões fumarentos, o pobre caixeiro ainda se desdobrava em energias na arrumação das prateleiras, atendendo fregueses retardatários.

Naquela época não se admitia o trabalho feminino no comércio. Mormente no balcão. Devia dedicar-se, exclusivamente, aos misteres do lar. Esgrimindo as suas agulhas de tricô passava a carioca a espiar através das vidraças a agitação de uma cidade atrasada e onde o comércio era o seu melhor reflexo.

Afora as casas de modas das ruas do Ouvidor e Gonçalves Dias, nas confeitarias, cafés, livrarias ali também localizadas, tudo o mais era a verdadeira antítese do que hoje se compreende por comércio. Aquelas vias públicas e mais os largos de São Francisco e Carioca, eram os pontos preferidos para o desfile da elegância feminina. Senhoras e senhoritas, de saias rodadas e leques pomposos, de gigantescos e complicados chapéus, faziam o "footing" durante a tarde, enchendo o ar daquelas ruas do aroma inebriante de essências raras. À porta das confeitarias, dos cafés, ao longo das calçadas os rapazes da época, e também os senhores de atitudes graves, de cabelos grisalhos e colarinhos "guilhotinescos", assistiam ao desfile mundano da alta sociedade.

Estava o Rio de Janeiro vivendo os últimos lances do século dezenove. O calendário desfolhava-se monotonamente, porém, com o alvorecer do século vinte vinham as esperanças do progresso, das conquistas da sabedoria humana. Resta uma pergunta. Quem sabe se não foram nas calçadas das ruas do Ouvidor e Gonçalves Dias que os reformadores se inspiraram, ou melhor, se imbuíram da necessidade de rasgar novas ruas, de decretar guerra aos lampiões, ao comércio imundo dos quiosques, etc.?

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Nos salões de Botafogo, nas grandes mansões de São Cristóvão e Laranjeiras o piano mantinha o seu prestígio. Dentro da noite calma os acordes do "minueto", da "polca" ecoavam. Já nesse período o violão, instrumento considerado violador dos princípios da boa ética familiar, tangido dos meios da alta sociedade, era dedilhado nos bailes públicos, nos bares, etc. Foi aí que surgiu Catulo da Paixão Cearense. Cantando modinhas, rimando com perfeição, trouxe até o Rio de Janeiro a poesia dos nossos irmãos sertanejos. Seu nome foi se tornando conhecido e pouco a pouco conseguiu penetrar, com o seu amigo violão, os umbrais das grandes casas residenciais.

O Rio de Janeiro vive essa época o momento decisivo da sua evolução. Água em abundância é colocada à disposição da população. Cientistas incompreendidos traçam os rumos da higiene da cidade. As picaretas começam a tarefa da demolição das casas anti-higiênicas e sombrias. Rasgam-se novas avenidas. Os trilhos dos bondes elétricos são assentados. O asfalto cobre de negro o calçamento de paralelepípedos. Os teatros anunciam grandes companhias. O "Lírico" recebe a visita dos mais famosos cantores do mundo. Claudia Muzzio, Caruso, Tita Ruffo e outros arrancam aclamações frenéticas. As campanhas políticas atingem ao auge do entusiasmo. Patrocínio eletriza multidões com a arrogância das suas palavras. Rui Barbosa enche de orgulho a nacionalidade com o fulgor da sua inteligência e com o fascínio da sua cultura.

Que é isso senão o Rio de Janeiro, centro irradiador da cultura nacional, de braços abertos para o progresso, para as maravilhas do conhecimento humano, berço de um país em marcha para as conquistas universais?

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Hoje, o, Rio de Janeiro é a cidade maravilhosa. Suas avenidas bem traçadas, a majestade arquitetônica dos seus prédios, o rendilhado das suas praias, seus pontos pitorescos arrancam exclamações embevecidas dos visitantes.

Cultua-se a memória dos seus líderes do passado, dos construtores da nossa cultura, dos menestréis boêmios que dissipavam a sua inteligência nas noitadas alegres.

Desapareceram os quiosques, os bondinhos de burros, os armazéns iluminados pelos candeeiros fumegantes onde os caixeiros esquálidos sentiam a apavorante aproximação da tuberculose.

O Rio é, atualmente, uma grande cidade. Que diferente é o seu comércio de hoje daquele do tempo do "onça!" Tem organização de trabalho, atenção para com o público, honestidade nas transações. Quem não se embevece, por exemplo, com a ordem e a atenção das graciosas vendedoras das Lojas Americanas, que foram, praticamente, as pioneiras do trabalho feminino, entre nós, proporcionando à mulher vencer as barreiras dos  preconceitos sociais e conquistar mesmo, em vários pontos, a preferência para certos, cargos. Sempre amáveis, prontas a sugerir e a esclarecer as conveniências da compra da freguesia, são verdadeiras sentinelas em defesa da boa ordem, do conceito do nosso comércio. Assim como nas Lojas Americanas, outras casas também mantém uma equipe de jovens alegres e graciosas para atender o público. Nas formosas e ricas vitrinas do centro da cidade o transeunte percebe o dedo mágico e feminino do bom gosto na arrumação, na apresentação da mercadoria exposta à venda.

Há exceções, sem dúvida, que são anomalias que o tempo há de corrigir.

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Catulo, autor do Marrueiro, poema encantador de ternura cabocla; cantor do Luar do Sertão, síntese maravilhosa das belezas da nossa terra, foi um grande amigo da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Aqui repousam os seus restos mortais. Por isso, pelo grande amor que devotou a esta cidade, é que seus filhos cultuarão através dos tempos a sua memória, a memória do grande bardo sertanejo

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Jornal "A Noite", 19 de julho de 1946.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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