domingo, 17 de maio de 2020

José Albano - Poesia Dramática (Seleção)


POESIA DRAMÁTICA
__________________________



ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DE LOURDES

CORO DE PASTORAS
Violeta suave,
Santa Maria,
O teu pranto nos lave
De noite e dia.

Tu que em Belém nos deste
A graça suma,
Açucena celeste,
Tu nos perfuma.

Rosa d'amor primeva,
Casta e pudica,
Tu nos levanta, enleva
E glorifica.

E, até que enfim desponte
A alta ventura,
Corra a água desta fonte
Perene e pura.

***

PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS

DESCRENÇA
Ó moço peregrino, deixa o abrigo
Dessa gruta onde estás, e vem comigo

Se porventura queres provocar-me,
Farei que a tua audácia se desarme.

DESCRENÇA
Lutar é claramente o meu direito
E dele quanto posso, me aproveito.

Mas saiba o mundo todo que a Descrença,
Deus manda que a Razão também a vença.

RAZÃO
Depois de longes terras ter corrido,
Ao puro gozo elevo o meu sentido
E a ti declaro, ó Fé, com alma sincera
Que um Deus reside na celeste esfera.

DESCRENÇA
Nego.

Negas em vão, que â Virgem clara
À Razão milagrosamente ampara.

RAZÃO
Foi a serena estrela matutina
Cujo esplendor ainda me ilumina,
Que me mostrou na noite espessa e escura
A etérea luz que o coração procura.
O homem, quando primeiro os olhos deita
Na criação magnífica e perfeita,
Pergunta sempre donde vem o mundo,
Donde vêm o alto céu e o mar profundo?

DESCRENÇA
A criação não conheceu começo,
Mas sempre foi.

RAZÃO
A tal mentira avesso,
Não pôde o entendimento e jamais ousa
A origem duvidar de qualquer coisa.

DESCRENÇA
De que haja Deus, jamais me persuado,
O mundo por si mesmo foi criado.

RAZÃO
Ouve, não é possível que a confusa
Matéria antes de ser faça ou produza:
Medita, que verás como evidente
Nada pôde existir eternamente
Nem nada se criou, de tal maneira
Que uma só conjectura é verdadeira
Das três que a mente humana nota e estuda,
Que outra alguma não há que nos acuda.
Eis a verdade sempiterna e viva
Donde a santa doutrina se deriva:
Um Criador augusto e soberano
Criou o céu e a terra como oceano.

DESCRENÇA
E quem criou o Criador?

RAZÃO
Atende,
Para que a eterna luz se recomende
E esse vão pensamento logo passe
De que um Deus porventura doutro nasce.
E assim, parando o estéril argumento,
Sendo eu Razão que a Fé também sustento,
Aos que Esperança a Caridade impele,
Faço que um Deus supremo se revele
Sem princípio nem fim, soberbo e forte,
Mandando ao céu, à terra, à vida e à morte.

Foge, Descrença. E tu, Razão, venceste,
Auxiliada só da Mãe celeste
Que entre as sombras da dúvida nos guia
Com o suave nome de MARIA.

RAZÃO
Se falei bem, somente peço e rogo
Que o santo amor de Deus domine logo,
Pois é mais justo e o céu assim obriga
Que o sinta a Fé, mas a Razão o diga.

***

SOLILÓQUIO DE ADÃO

Dum profundo letargo me levanto
E ainda sinto um lânguido quebranto.
Sou, não era e contudo me parece
Que sempre fui. Oh quem fará que cesse
Este mistério tão remoto e escuro
Que em vão com o pensamento ver procuro,
Pois não sei apesar de todo empenho
Quem sou, aonde vou nem donde venho.

***

FALA DE MIGUEL

MIGUEL
Oh quão ditoso és tu que na alma sentes
As virtudes sublimes e excelentes:
A fé que vivifica e fortalece
A influição dum hino ou duma prece;
A esperança que pinta os mais risonhos,
Os mais suaves e os mais lindos sonhos;
E a caridade enfim que o peito abrasa
Na pura chama da celeste casa.
Ergue, pois, a Adonai os teus louvores,
Porque não serás digno, se não fores
Grato a quem tudo manda e determina
Na vida humana, angélica e divina.
E, porque tenhas a noção bem clara
De quanto o Criador em ti prepara,
Vê como em criatura tão pequena
Com sabia mão Ele dispõe e ordena
Na alma as três faculdades, e os sentidos
Cinco que se acham no teu corpo unidos.
Mas primeiro olha o espírito sublime
Em que a imagem de Deus se grava e imprime
Nele vês a memória que em traslado
Presenta aos olhos o prazer passado,

E logo o entendimento alto e profundo
Que nos define a natureza e o mundo,
Com a vontade livre e não sujeita
Que escolhe o bem e todo mal rejeita.
Agora atenta na matéria nua
Na qual a essência etérea continua:
Nela se encontra a vista com que notas
As coisas ou vizinhas ou remotas,
As sete cores e as mil formas várias
Em céu e terra, em plantas e alimárias,
Pelo ouvido percebes as suaves
E alegres vozes das canoras aves,
O murmúrio das ondas e o som brando
Dos zéfiros que em giro vão voando.
E pelo o olfato docemente gozas
O aroma d'açucenas e de rosas
E a fragrância sutil, leve e fugace
Que de violetas e cravos nasce.
E olha mais longe e admira aquelas frutas
Nas videiras, d'orvalho nunca enxutas,
Vê também a colmeia onde é composto
O doce mel que tanto agrada ao gosto.

E enfim, para que o tacto se conheça,
De leve toca nesta relva espessa,
Nesta de flores matizada alfombra
Que frondoso arvoredo cobre e ensombra.
Bem vês, Adão, em que o viver consiste,
Desde que os olhos atônitos abriste.
Dá graças, pois, a Deus, porque consagre
E confirme inda mais este milagre,
Pois um sublime espírito uniu todo
A um baixo corpo, feito só de lodo.

***

OS SETE DONS DO ESPÍRITO SANTO

MIGUEL
Ditoso Adão, eu te bendigo e louvo
E louvo o teu amor sincero e novo.
E em prêmio dele é bem razão que tenhas
Os sete dons divinos, já que empenhas
O teu esforço em só servir Àquele
Que sempre ao bem nos leva e nos impele,
Para que enfim no empíreo recebamos
A áurea coroa e os viridentes ramos.
E, para que a Adonai vivas sujeito,
Guarda a sabedoria no teu peito,
O intelecto e o conselho que te ampara,
A alta ciência, a fortaleza rara
E a piedade milagrosa e meiga
Que com o temor de Deus em ti se arreiga.
Ao céu cerúleo o teu olhar levanta,
Porque é lá que verás a pátria santa
E a morada estelífera e secreta
Onde todo desejo se aquieta.

***

HINO INAUGURAL

CORO
Louvemos Adonai alto e perfeito
E o seu nome sublime bendigamos
Ao som de tuba e lira saudosa.
E do mais fundo e mais interno peito
Erga, harmoniosíssimos reclamos
Tudo que entorno sente, vive e goza.
A música chorosa
Aos etéreos espaços se levante
E, ora grave, ora aguda,
Celebre a cada instante
Aquele que do empíreo nos ajuda;
Pois virtude não há mais meritória,
Senão que se repita
Esta infinita — e sempiterna glória.

Louvem-no o sol brilhante e a branca lua,
A noite escura e o luminoso dia,
As estrelas de prata e os astros d'ouro,
O fresco orvalho, a nuvem que flutua,
A umedecente chuva, a neve fria
E o verão deleitoso e duradouro.
Dos céus se abra o tesouro
E lá da parte onde se estão formando
Da nevoa os densos muros,
Venham descendo em bando
As mansas auras e os favônios puros.
E, ou quando surja a luz ou já não arda,
Seja com voz sonora
Bendito agora — e sempre quem nos guarda.

Louvem-no as fontes e águas cristalinas,
Os regatos e lagos prazenteiros,
Os caudalosos rios e oceanos,
Louvem-no os vales, montes e colunas,
Louvem-no as serras, louvem-no os outeiros,
Os campos e vergéis ledos e ufanos.
Os cedros soberanos,
Os salgueiros, carvalhos e ciprestes
Derramem mil louvores
E com as ervas agrestes
Esparjam doce aroma as lindas flores.
E pelas moitas que entre as veigas crescem,
Das fugidias aves
Os mais suaves — hinos nunca cessem.
Louvem-no os peixes e os répteis estranhos,
Os basiliscos e os dragões daninhos,

Os tigres e os leões feros e atrozes.
Louvem-no as águias, louvem-no os rebanhos
D'ovelhas e de castos cordeirinhos,
Os bravos touros e os corcéis velozes.
Sejam as várias vozes
Da criação numa só voz unidas
E juntas espalhadas
Nas aéreas guaridas
E nas terrenas e úmidas moradas.
Desde o alto céu até ó mar profundo
Tudo quanto nos ouve,
Bendiga e louve — o Criador do mundo.

Louvem-no em meigo e magoado treno
Adão sublime e os filhos da futura
Geração d'Israel soberbo e santo:
Ruben ditoso, Simeão sereno
E com Levi que só do templo cura,
Judá, coberto do purpúreo manto.
E ergam também o canto
Zabulon, Issacar e Dan, seguidos
De Gad que ao claro assento
Eleva ais e gemidos
Com Aser e Neftali em ritmo lento;
A quem José com Benjamin responde:
Qual eco em selva ou gruta
Diz o que escuta — e não se sabe donde.

Louvem-no em diviníssimas cadências
Os serafins, em flamas abrasados,
Os querubins e os tronos gloriosos.
Dominações, virtudes e potências
Gemam e juntamente principados
Com arcanjos e anjos digam os seus gozos.
Os sons maravilhosos
Partam e docemente irão subindo,
Contínuos e canoros,
E com prazer infindo
Suspirem sem cessar os nove coros.
E no universo soe eternamente
Uma voz sobre-humana,
Cantando hosana — a Eloá onipotente.

***

NASCIMENTO DE EVA

Nestes jardins que o Paraíso abarca,
Do homem Adão, primeiro patriarca,
Há de gerar-se nova criatura
Duma composição perfeita e pura:
Eva, a mulher sempre amorosa e branda,
Que obedece ao consorte com quem anda
E, delicada e débil, casta e honesta,
Menos força e mais graça manifesta
E, sendo semelhante e diferente,
As mesmas coisas doutro modo sente.
Esta há de ser aquela que se ufana
Duma Filha serena e soberana,
Luz e esplendor do céu, do mar, da terra
E de quanto o universo guarda e encerra,
Que, assim como da aurora nasce o dia,
D'Eva também há de nascer Maria.

***

EVA EM PROCURA DE ADÃO

EVA
Anjos do céu que estais aqui comigo,
Dizei-me onde se encontra o meu amigo.
Os olhos são mais lindos que as estrelas,
As faces mostram duas rosas belas
E os seus lábios encerram tal doçura,
Que. vencem qualquer flor singela e pura.
E, quando o seu sorriso voa entorno,
É como aroma deleitoso e morno,
E, quando a sua voz d'amores fala,
Os passarinhos vêm para escutá-la.
Anjos do céu que estais aqui comigo,
Dizei-me onde se encontra o meu amigo.

CORO
Como é formosa a criatura nova
Que o divino poder revela e prova,
Tão inocente, ingênua, tenra e branca,
Do seio saudosos ais arranca
E, em amoroso fogo toda acesa,
Sofre e não sabe ainda o que é tristeza.
Qual sol dourado sobre clara neve
Na fronte os crespos fios caem de leve.
Os olhos donde a luz raios envia,
Espalham mais fulgor que o próprio dia.
E das faces e lábios lentamente
Se derrama um aroma puro e ardente.
Bem como surge a aurora leda e grata
Ou como a lua na água se retrata:
Desta arte o olhar, cheio d'amor infindo,
Entre as louras pestanas vai luzindo.
Bem como a cotovia alegre canta
E o rouxinol suspira em mágoa tanta:
Desta maneira o seu falar é doce,
Como se acaso magoado fosse.
Como as auras tranquilas e serenas
Espalham nó ar fragrância d'açucenas:
Desta arte os seus suspiros, revoando,
Deitam olor delicioso e brando.
Como enxame d'abelhas que prepara
Os frescos favos d'ambrosia rara:
Deste modo na boca só lhe coube
Néctar que amor não deixa que se roube.
E também como a rola meiga e mansa
D'afagar os filhinhos não se cansa:
Desta arte, leve como uma asa d'ave,
Acaricia a sua mão suave.
Ditoso quem te amar, Eva formosa,
Pois nos teus braços brandamente goza
Doce prazer que nunca se define,
Por mais que nos encante e nos fascine,
E, embora dentro da alma se reserve,
Cada vez mais aumenta na alma, e ferve.

EVA
Anjos do céu que estais aqui comigo,
Dizei-me onde se encontra o meu amigo.
Em sonhos me ele veio não sei donde
Nem sei agora em que lugar se esconde.
Bem como a ovelha perde o cordeirinho
Que ao longe corre, mísero e mesquinho,
E com uma dor e desprazer tamanho
Em busca dele deixa o seu rebanho
E não sossega na áspera peleja,
Até que novamente o encontre e veja:
Desta maneira irei por toda parte,
O meu amado esposo, a procurar-te.

***

FALA DE ADÃO

ADÃO
Amar e não viver, senão amando,
Quem pôde imaginar gozo mais brando?
Quando brilha nos olhos a ternura,
Toda desfeita em luz serena e pura,
Quando nasce nos lábios a promessa
E o coração a suspirar começa,
Quando o sorriso fala e o beijo canta
Numa quietação suave e santa,
Amor não deixa mais que amor nos doa,
E alma com alma pelo espaço voa.
Vem, casta esposa minha, irmã formosa,
Aonde com a açucena cresce a rosa,
Aonde o cravo se une à violeta,
Antes que maio novos dons prometia.
Dize que me amas sempre, amiga minha,
Abril maravilhoso se avizinha
E docemente os verdes campos junca
De malmequeres que não morrem nunca.
Prendem-me os teus cabelos ao teu peito
E nunca este prazer seja desfeito.
De mil flores a vida se perfuma
E nunca cesse esta delicia suma,
Mas antes sempre noite e dia aumente
Cada vez mais constante e mais ardente,
Quando emudece a entrecortada fala
E o olhar vagos desejos assinala,
Quando amor faz que mais amor se adquira
E coração a coração suspira.

***

EPITALÂMIO

CORO
O glorioso dia, hora e momento,
Quando entre violetas e boninas
A mulher pareceu ao lado do homem.
No verde prado e no cerúleo assento
Não há flores mais frescas e mais finas
Nem astros que mais docemente assomem.
Os tempos não consomem
O etéreo gozo que nasceu com ela,
Nem o pudor constante
Que às vezes se revela
No súbito rubor do almo semblante.
E em nenhuma outra parte se depara
Coisa mais linda e pura
Que a formosura — milagrosa e rara.

A luz do sol lhe beija os olhos belos
E o chão que lhe sustenta o peso brando,
Disto mais alegria ainda sente.
Com os leves e longuíssimos cabelos
O vento brinca e o rio, murmurando,
Lhe dá pérolas claras da corrente.
Porém mais fortemente
Que fogo, terra, ar e água Adão sublime
Guarda no seio o afeto
Que entende e não exprime,
Tanto é sacro, inefável e secreto.
E mais ainda faz que ele se enleve
Cada rosa que nasce
Na lisa face — entre jasmins de neve.

Ei-los que se olham e já d'onda em onda
Soa dos ternos peitos o segredo,
Ei-lo que chega, ela, porém, se esquiva;
Ei-lo que espera em vão que ela responda,
E para quase, mas um riso ledo
Faz que o contentamento lhe reviva.
Então de fugitiva
Ela se torna mais mimosa e mansa
E assim, mole e benigna,
Enlanguesce e descansa
E a amar e a ser amada se resigna.
E, como em braços do álamo a videira,
Eva com Adão forte
Beija o consorte, — meiga e lisonjeira.

Ó ditoso himeneu, ó novo encanto
Que une dois corações num só desejo
E simultaneamente acende e acalma.
Ó momento d'amor suave e santo
E mais que todos grato e benfazejo
Cuja eterna lembrança fica na alma.
A viridente palma
Dê sombra em horas plácidas e amenas
E deste campo infindo
Brotem mil açucenas
E do alto venham mil jasmins caindo.
E, ou seja em verde vale ou verde outeiro,
Cantem as flores todas
As castas bodas — do casal primeiro.

***

LOUVORES DE MARIA

GABRIEL
Desde o alto céu até, à baixa terra
Nenhuma criatura guarda e encerra
Tanta virtude e encanto nunca visto
Como a Virgem que deu à luz o Cristo.
Filha do Pai e Mãe do Filho e Esposa
Do Espírito que nela se repousa,
Das três Pessoas derivando a graça
Que nunca diminui nem nunca passa.
Como a violeta amável e modesta
À verde alfombra os seus matizes presta
Quase que sem querer, mas um perfume
Tão suave e sutil em si resume,
Que outra cheirosa flor a não supera
De quantas faz brotar a primavera:
E como a rosa que, d'orvalho cheia,
Inclina a fronte e ainda se receia
D'olhar o sol que no cerúleo espaço
Espalha os raios d'ouro não escasso,
E, escondida entre a mole e imóvel erva,
No seio as raras pérolas conserva:
Desta maneira a Esposa, Mãe e Filha
Ante a santa Trindade surge e brilha.

CORO
E qual do girassol a flor estranha
Que, quando o louro dia as terras banha,
Os rubros resplendores vai seguindo
E à hora em que descem no oceano infindo,
Com sentimento e com amargura chora,
Até que nasça novamente a aurora:
Desta arte o coração, em mágoa posto,
Procura o brilho do formoso rosto
E a alma se torna dócil e tranquila,
Quando o sereno olhar no céu cintila.
E qual a cotovia em voo brando
Estende as asas pelo espaço, quando
O clarão da alva estrela matutina
As fugitivas nuvens ilumina,
E, toda cheia d'alegria e gozo,
Do alto derrama um som maravilhoso:
Assim a voz queixosa a cada instante
Em mansa melodia gema e cante
E o saudoso reclamo nunca cesse
Do amor ardente que no peito cresce.
E qual o beija-flor a flor deseja
Que mais mimosa e mais melíflua seja,
E errando voa entre purpúreos cravos,
Passionárias azuis e lírios flavos,
Até que chegue ao milagroso loto
Excelso, inatingível e remoto:
Não doutro modo o afeto casto e raro
À meiga Virgem pede brando amparo
E todo se desfaz, leve e risonho,
Num admirável e inocente sonho.

***

ORAÇÃO DE RAFAEL

RAFAEL
Pelo anúncio arquiangélico e jucundo,
Profetizando o Salvador do inundo
Que virá redimir de toda pena
A mesma gente indigna que o condena:
Pela visitação suave e grata,
Quando o louvor se espalha e se, dilata,
Glorificando a castidade pura
Donde há de renascer toda a ventura:
Pelo natal de Cristo que prevejo,
Com um inefabilíssimo desejo;
Quando retumbam no ar os novos hinos,
Versos d'amor e cânticos divinos:
Pela apresentação no excelso templo
D'Aquele cuja glória já contemplo,
Quando em tons magoados o profeta
Chora e lamenta a dor longa e secreta:
Pelo encontro do qual me maravilho,
Da saudosa Mãe com o meigo Filho,
Quando Deus faz que à terra se traslade
A etérea luz que ao bem nos persuade:
Na hora da tentação negra e sombria.

CORO
Roga por nós, ó Virgem Mãe Maria.

RAFAEL
Pela agonia do Messias no horto,
Na mais profunda mágoa todo absorto,
Erguendo ao Pai a angustiosa prece,
Para que nunca a humana glória cesse:
Pela flagelação dura e importuna
Do justo Salvador, preso à coluna,
No horrendo sacrifício levantando
Os olhos para o céu sereno e brando:
Pela cruel coroação de espinhos,
Quando os algozes feros e mesquinhos
Batem naquela fronte nobre e augusta
Que nenhum medo turva nem assusta:
Pela cruz santa que Jesus carrega,
Seguido pela gente bruta e cega,
Três vezes sopesando o lenho rude,
Sem que ninguém acaso o ampare e ajude:
Pelo momento doce e derradeiro,
Quando, pregado no áspero madeiro,
O Filho do Homem com ânsia mansa e calma
A Deus entrega entre suspiros a alma:
Na hora da tentação negra e sombria.

CORO
Roga por nós, ó Virgem Mãe Maria.

RAFAEL
Pela ressurreição de Jesus Cristo,
Dos olhos lacrimosos nunca visto,
Em alegria plácida e profunda
Transbordando de luz que os céus inunda:
Pela ascensão do Filho glorioso
Ao claro assento d'infinito gozo,
Quando o Padre celeste na áurea esfera
Entre ondas de esplendor o aguarda e espera
Pela vinda do Espírito sagrado
Aonde se reúne o grão senado
Dos discípulos castos e eloquentes
Os quais irão salvar nações e gentes:
Pela tua assunção maravilhosa,
Quando entre nuvens d'ouro, neve e rosa
Voas, pelos espaços transportada,
À região da eterna madrugada:
Pela coroação alta e sublime,
Quando a Trindade sacrossanta exprime
O triplo amor que se consagra e vota
A ti, Rainha egrégia e ainda ignota;
Na hora da tentação negra e sombria.

CORO
Roga por nós, ó Virgem Mãe Maria.

RAFAEL
Roga por nós, Virgem Maria, e escuta
Os contínuos suspiros de quem luta,
Em ti cuidando e só por ti gemendo
Neste combate formidando e horrendo.
Tu nos protege sempre e tu nos salva,
Ó para nós farol e estrela d'alva!
E se no eterno pensamento vives,
Dessa visão divina não nos prives,
Mas surge como o véspero flutua
Entre o dourado sol e a argêntea lua,
Do dia marca o derradeiro instante
E com o reflexo raro e rutilante,
Pousando aqui e ali, veloz e vago,
Treme de leve no cerúleo lago.

***

VITÓRIA DE MIGUEL

Anjos, ouvi a narração da luta
Contra a maldade e astucia baixa e bruta
E o sublime triunfo nunca visto
Para glória e louvor de Jesus Cristo.
E que também retumbe nó universo,
Depois de derrotado o arcanjo adverso,
Das armas e das tubas o ruído,
Saudando o vencedor nunca vencido,
E em toda parte celebrado seja
Miguel, invulnerável na peleja.
Já no terreno próprio e bem-disposto
Estão os combatentes rosto a rosto,
Quando ao som da trombeta que se espera,
Lúcifer salta qual veloz pantera
E, andando em roda, com a fina ponta
A Miguel ameaça que traz pronta-
A espada e juntamente pronto o escudo
E sem mover-se em pé, severo e mudo,
Somente os olhos do adversário fita,
Buscando ocasião que lhe permitia
Dar um seguro passo mais avante,
Na mão direita o gladio rutilante.
Em vão Lúcifer tenta desarmá-lo,
Miguel do medo não conhece o abalo,
Mas antes em coragem vai crescendo,
Cada vez mais feroz e metuendo.
Qual áfrico leão soberbo e forte
Irosamente espalha entorno a morte
E, erguendo aos céus o formidável uivo,
Erriça todo o pelo crespo e ruivo
E logo se arremessa sem detença,
Até que rompa, fira, abata é vença:
Tal o arcanjo belígero e robusto
Com ardente olhar infunde frio susto
No inimigo que, vendo força tanta,
Três vezes cai, três vezes se levanta
E por fim em letárgico repouso
Jaz aos pés de Miguel vitorioso.

***

VISÃO DA SANTÍSSIMA TRINDADE

CORO
Que visão majestosa se apresenta,
Subindo pelo espaço lenta e lenta?
A visão da amantíssima Trindade
Cujo ardor tios inunda e nos invade:
Deus Padre, o Criador onipotente,
Deus Filho, o Salvador da humana gente,
Deus Espírito santo e sempiterno,
O Glorificador que vence o inferno.
Quem nos dará ligeiras penas e asas
Para deixarmos as campinas rasas
E como cisnes que pelo ar vizinho
Vão revoando para o doce ninho,
Antes que em duro e doloroso trance
A águia cruel e pérfida os alcance,
Pousam numa enseada mansa e curva
Cujo claro cristal nunca se turva:
E também como cervos malferidos
Que abafam os tristíssimos gemidos
E, traspassados duma aguda seta,
Numa carreira célere e inquieta
Vão ansiosamente à fresca fonte
Onde não há perigo que os afronte:
Assim subamos para o sólio puro
Onde entre Deus e os anjos não há muro.
Então, do nosso Criador mais perto,
Veremos como num espelho aberto,
Do empíreo descerrando-se as cortinas,
Mais claramente as perfeições divinas:
A potência que cria o céu e a terra,
A sapiência que tudo abarca e encerra,
A bondade que toda mágoa abranda,
Para que dentro da alma não se expanda,
A imensidade que não tem limite,
A providencia que prever permite,
A justiça que pune, sendo boa,
Com a misericórdia que perdoa,
E com a beneficência que governa,
A infinidade e a caridade eterna.

MIGUEL
E dessa caridade que esperamos
A áurea coroa e os viridentes ramos.
Cantai, anjos, cantai com alegria,
Glorificai Eloá noite e dia.
E o saltério do amor maravilhoso
Exprima o nosso indefinível gozo,
Acompanhado em melodia amena
Com harpa e lira, com trombeta e avena,
Para que todos juntamente em coro
Louvemos Adonai imorredouro.

GABRIEL
Anjos, agora aos claros céus voemos
E lá nos claros céus descansaremos.

RAFAEL
Anjos, à alta mansão vinde comigo,
Deus nos espera no celeste abrigo.

***

APOTEOSE

MIGUEL
Qual íris, rutilando no áureo espaço,
Sobe num voo vagaroso e lasso:
Desta arte a Virgem Mãe surge sem susto
Diante de Adonai soberbo e augusto.

CORO
Salve, ó Senhora,
Cheia de graça!
Luz que nos doura,
Não se desfaça:
Mas docemente,
Plácida e pura,
No peito aumente
Rara ventura.

Ó tu, mais nobre
Dentre as donzelas,
Bem que se encobre,
Tu nos revelas:
Jesus, Menino
Meigo e risonho,
Mimo divino,
Divino sonho.

Mãe sempre amada,
Sempre querida,
Na madrugada
Da nova vida;
Cesse o teu breve
Voo indeciso:
Jesus te eleve
Ao Paraíso.

GABRIEL
Nasçam rosas gentis pelo caminho,
Corram brandos perfumes no ar vizinho,
Que todo o brilho já se manifesta
Da Virgem admirável e modesta.

CORO
Eis vem a Esposa
Cândida e calma
Em quem repousa
Encanto d'alma.
Rúbido pejo
O rosto inunda
Tão benfazejo

Em paz profunda.
Flor de laranja
Nas trancas cheira,
Mas não lha tanja
A aura ligeira.
E com agrados,
Tímida e inerte,
Cravos nevados
A mão aperte.

Salve, ó Rainha
Mimosa e mansa,
À alma mesquinha
Traze esperança:
Não transitória
Flor dum instante,
Mas alta glória
Inebriante.

RAFAEL
Já do seio de Eloá não se afasta
A Virgem meiga, encantadora e casta
E, como claramente vejo e advirto,
No céu mais do que o louro vale o mirto.

CORO
Juntas e unidas,
Em voos lentos
Vão duas vidas,
Dois pensamentos:
Aonde nasce
Como perfume
Bem não fugace
Que amor resume.

Ninguém na terra
Nunca se indigne
Contra o que encerra
Ânfora insigne:
Coração ledo,
Fechado cofre,
Guardas segredo
De quem não sofre.

Coração puro,
Supremo amparo
E forte muro,
Aos anjos caro:
Em alegria
Com os doces nomes
Jesus, Maria.

MIGUEL
Anjos do céu, cantai um canto novo
A Fênix santa que bendigo e louvo.

CORO
Vaso argênteo d'amor, donde o jucundo
Aroma se derrama pelo mundo,
Donde nascem virgíneas açucenas
Olorosas, melificas e amenas,
Os zéfiros fagueiros perfumando
Com o eflúvio mais sutil, mais leve e brando:
Ebúrnea torre de queixosas aves,
Do frágil ninho os sons altos e graves
Suavissimamente despedindo
Com um murmúrio saudoso e infindo,
Quando entre nuvens róseas surge fora
A reluzente e rubicunda aurora:
Áurea mansão d'inúmeras abelhas,
Beijando flores níveas e vermelhas,
De jasmim em jasmim, de cravo em cravo
Colhendo o néctar esquisito e flavo
Que da corola imóvel e tranquila
Entre ondas d'ambrosia se distila:
Porta celeste e resplendente, aonde,
Quando o dia claríssimo se esconde,
Durante a noite calorosa e calma
Úmidas folhas d'amaranto e palma
Se erguem, sorvendo o orvalho deleitoso
Em puro enlevo e lânguido repouso:
De ti, Maria, vêm as esperanças
Que para nós na láctea via alcanças,
De ti vêm os prazeres e as doçuras
Que para nós com afeição procuras,
Cheia de graça rara que convinha
A quem da corte angélica é Rainha.
A ti sobem os sôfregos desejos
Imensos, infinitos e sobejos
E lentamente as ilusões e os sonhos
Pelos ares cerúleos e risonhos.
Ó Mãe de Emanuel, sempre querida
De quem ao sumo gozo nos convida;
Por ti, Maria, os duros sofrimentos
Deixam de ser penosos e cruentos,
As longas-dores e os extremos danos
Deixam de ser ferinos e tiranos,
Ó Donzela seráfica e divina,
Em ti se encontra doce medicina:
Flor de Judá, Maria graciosa,
Lírio sem mancha e sem espinho rosa,
Salva-nos tu que és cândida e impoluta,
Os nossos hinos mansamente escuta
E com ternura meiga e benfazeja
Roga a Jesus amado que assim seja.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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