domingo, 17 de maio de 2020

José Albano - Poesia Lírica (Seleção)


POESIA LÍRICA_______________________

ODE À LÍNGUA PORTUGUESA

Língua minha, se agora a voz levanto,
Pedindo à Musa que me inspire e ajude,
Somente soe em teu louvor o canto,
Inda que a lira seja fraca e rude;
E tudo quanto sinto na alma, e digo,
Já que na alma não cabe,
Contigo viva e acabe — só contigo.

Língua minha dulcíssona e canora,
Em que mel com aroma se mistura,
Agora leda, lastimosa agora,
Mas não isenta nunca de brandura;
Língua em que o afeto santo influi e ensina
E derrama e prepara
A música mais rara-e mais divina.

Língua na qual eu suspirei primeiro,
Confessando que amava, às auras mansas
E agora choro, à sombra do salgueiro,
Os meus passados sonhos e esperanças;
Na qual me fez ditoso em tempo breve
Aquela doce fala
Que outra nenhuma iguala — nem descreve.

Língua em que o meu amor falou d'amores,
Em que d'amores sempre andei cantando,
Em que modulo os mais encantadores
E deleitosos sons de quando em quando
E espalho acentos inda nunca ouvidos
De mágoas e de gozos,
Queixumes amorosos — e gemidos.

Sempre e sempre te eu veja meiga e pura
Naquela singeleza primitiva,
Naquela verdadeira formosura
Que farei que no verso meu reviva.
E, se apenas um pouco se revela
Desse encanto jucundo,
Há de mostrar ao mundo — quanto és bela.

Outros andam o teu sublime aspecto
D'ornamentos estranhos encobrindo
Sem saber o que tens de mais secreto,
De mais maravilhoso e de mais lindo:
Em ti já não se nota o mesmo agrado
E eu não te reconheço,
Se o teu valor e preço — é rejeitado.

Quanta e tamanha dor me surge e nasce
De nunca ouvir aquele antigo estilo,
Mas eu fiz que ele aqui se-renovasse,
Para que o mundo enfim pudesse ouvi-lo.
E com todo o poder d'engenho e d'arte
Foi sempre o meu desejo
Ver-te qual te ora vejo — e celebrar-te.

Ah! como assim me enlevas e me encantas,
Ora chorando e rindo, ora gemendo;
E, se te outros ofendem vezes tantas,
Embora solitário, eu te defendo:
Eu te defenderei sem ter descanso
E em luta não inglória
Tu verás que a vitória — e a palma alcanço.

E em pago disto peço que me imprimas
Maior ternura na alma e não ma agraves;
Dá-me versos dulcíssimos e rimas
Eternas, peregrinos e suaves:
Dá-me uma voz melodiosa e amena,
Para que noite e dia
Diga a minha alegria — e a minha pena.

E não quero um som alto e retumbante
Para cantar d'amor ao inundo atento,
Pois não há língua que d'amor não cante,
Mas, nenhuma traduz o meu tormento;
Nenhuma se conhece que traslade,
Afora tu somente,
Do coração doente — a saudade.

***

SONETO I

Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura,
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.

Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas tão pouco dura,
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.

Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia
E só com saudades, me atormento;

Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento,
Senão de ter cantado o que sofria.


SONETO II

Ditoso quem foi sempre desamado
Nem nunca na alma viu pintar-se o gozo
Que lhe promete estado venturoso
Para depois deixá-lo em triste estado.

Já me de todo agora persuado
De que não pôde haver brando repouso
E do afeto mais doce e deleitoso
Se gera às vezes o maior cuidado.

Não quero boa sorte nem sonhá-la,
Pois logo passa, apenas se revela,
Com uma dor que outra nenhuma iguala.

Mas quem desconheceu benigna estrela,
Se não teve a alegria d'alcançá-la,
Nunca teve o desgosto de perdê-la.


SONETO III

Amar é desejar o sofrimento
E contentar-se só de ter sofrido
Sem um suspiro vão, sem um gemido
No mal mais doloroso e mais cruento.

É vagar desta vida tão isento
É deste inundo enfim tão esquecido,
É pôr o seu cuidar num só sentido
E todo o seu sentir num só tormento.

É nascer qual humilde carpinteiro,
De rudes pescadores rodeado,
Caminhando ao suplício derradeiro.

É viver sem carinho nem agrado,
É ser enfim vendido por dinheiro
E entre ladrões morrer crucificado.


SONETO IV

Mata-me, puro Amor, mais docemente,
Para que eu sinta as dores que sentiste
Naquele dia tenebroso e triste
De suplício implacável e inclemente.

Faze que a dura pena me atormente
E de todo me vença e me conquiste,
Que o peito saudoso não resiste
E o coração cansado já consente.

E como te amei sempre e sempre te amo,
Deixa-me agora padecer contigo
E depois alcançar o eterno ramo.

E, abrindo as asas para o etéreo abrigo,
Divino Amor, escuta que eu te chamo,
Divino Amor, espera que eu te sigo.

***

CANTIGA I

Nestes sombrios recantos,
Nestes saudosos retiros
Desliza um rio de prantos
E corre um ar de suspiros.

(VOLTA)

Tenho na alma dois moinhos,
Um é d’água, outro é de vento;
Ambos juntos e vizinhos
Estão sempre em movimento.
E giros tantos e tantos
E tantos e tantos giros
Dão ao primeiro os meus prantos
E ao segundo os meus suspiros.


CANTIGA II

Passarinho lisonjeiro
Cuja voz o espaço invade,
Se vives em liberdade,
Passo a vida em cativeiro.

(VOLTAS)

Vejo-te voar nos ares
Alegre, as asas batendo,
E o motivo não entendo
De tanto me lastimares;
Pois a não ser prisioneiro
Ninguém, a mim, me persuade;
Pela tua liberdade
Não troco o meu cativeiro.

Preferes o teu estado
E o meu destino prefiro;
Voas livremente em giro,
Trazem-me em grilhões atado.
Só no dia derradeiro
Hei de me soltar, pois há de
Ser-me morte a liberdade
E é-me vida o cativeiro.

Mas, se me tens em desprezo,
Ainda assim te perdoo;
Sobe pelos céus em voo
E deixa-me à terra preso.
E isso tudo eu te requeiro
Que no canto se traslade:
Louva a tua liberdade,
Que eu louvo o meu cativeiro!

***

ESPARSA I

Há no meu peito uma porta
A bater continuamente;
Dentro a esperança jaz morta
E o coração jaz doente.
Em toda parte onde eu ando,
Ouço este ruído infindo:
São as tristezas entrando
E as alegrias saindo.


ESPARSA II

Colhes rosas no jardim
E desfolhas malmequeres
Porém, se bem me quiseres,
Olha e tem pena de mim:
Quando em mim os olhos pões,
Vês que em tormentos insanos
Ando a colher desenganos
E a desfolhar ilusões.

ESPARSA III

Amor me faz esperar,
Esperança me faz rir,
O riso me faz chorar,
O choro me faz sentir;
O sentir me faz sofrer,
O sofrer me causa dor,
A dor me dá um prazer
E o prazer cantos d'amor.

(MOTE)
Olha para os olhos meus,
Que os meus olhos te dirão
As penas do coração.

(GLOSA)

Tu me não ouves gemer
Em tortura e desprazer,
Mas há tristezas mortais
Neste meu peito e jamais
Deixarei de padecer.
Os sonhos, voando aos céus;
Já me disseram adeus —
E a escura mágoa sem fim,
Se ainda a não viste em mim,
Olha para os olhos meus.

Cuidados, tormentos vis
Que humana língua não diz,
Desassossego sem paz,
Tudo isto neles verás
E quanto sou infeliz.
Hás-me conhecer então
Esta dura condição;
Talvez chegues a chorar,
Vendo o profundo pesar
Que os meus olhos te dirão.

A dor que há dentro de nós,
Às vezes é tão atroz,
Que no suplício cruel
A boca se enche de fel
E a garganta perde a voz.
Quero, pois, soltar em vão
Suspiros que na alma estão,
Porém, se falar não sei,
Nos olhos te mostrarei
As penas do coração.

 ***

VILANCETE

Com lembranças do meu bem
Sozinho estive a chorar
Entre o sol-posto e o luar.

(VOLTAS)

Na hora mais triste que sei
Das horas que vêm e vão,
Saudosamente espalhei
Suspiros do coração;
Pois que me nascia então
Uma mágoa singular
Entre o sol-posto e o luar.

E eu dizia: “O sol morreu;
Não me vê gemendo assim,
 A lua, oculta no céu,
Não sente pena de mim.
 O dia teve o seu fim
 E a noite está por chegar
Entre o sol-posto e o luar.

Já chorei muito a sofrer
Saudades longe de ti,
Porém nunca em desprazer
Senti o que sinto aqui!
E desta arte conheci
Quanto é mais triste — chorar
Entre o sol-posto e o luar.

***

TROVAS COM ECO

Debaixo desta alta fronde
Ninguém me ouvirá gemei"
Com a tristeza e desprazer
Que dentro da alma se esconde.

(Eco)
Onde?

Chorai, olhos meus, chorai,
Que eu não abafo o que sinto;
No coração quase extinto
Quanto tormento me vai!

(Eco)
Ai!

Eco saudoso e brando,
Que tens compaixão de mim,
Se sabes gemer assim,
Andas acaso penando?

(Eco)
Ando.

Dura sorte o céu te deu,
Mais eu sou mais desgraçado,
Pois quem por ordem do lado
Tem pesar igual ao meu?

(Eco)
Eu.

***

COPLAS

Que me roubou o amor cego?
O sossego.
E esta vida triste e escura?
A ventura.
E o fado cruel e iroso?
O meu gozo.
Comigo os dias quem passa?
A desgraça.
A chorar quem me condena?
Uma pena.
E quem me traz desmaiado?
Um cuidado.
Desta arte, em queixas desfeito,
Contra o meu destino brado,
Trazendo dentro do peito
Desgraça, pena e cuidado.

Desta arte vivo entre a gente

Onde está o céu risonho?
No meu sonho.
Onde o gosto benfazejo?
No desejo.
Onde a paz serena e mansa?
Na esperança.
Desta arte já não maldigo
O bem que se não alcança,
Pois tenho ainda comigo
Sonho, desejo e esperança.

***

ENDECHAS

Quantas vezes choro
Sem saber por quê
E o pranto sonoro
Se ouve e não se crê.

Em nenhuma parte
Vejo mal ou bem,
Nem prazer que parte,
Nem pesar que vem.

Mas noites e dias,
Tardes e manhãs
Voam fugidias
Estas queixas vãs.

Risos sem começo,
Lágrimas sem fim:
Se tanto padeço,
Que será de mim?

Duma pena ignota
Mágoa singular
Que se sente e nota
Pelo suspirar.

Pois, se os olhos seco
E não choro mais,
Inda se ouve um eco
De saudosos ais.

E em qualquer retiro
Destes que bem sei,
Sem querer suspiro
Onde já chorei.

Onde acharei pranto
Para tanto dó?
Ai que já não canto,
Desde que vivo só.

Mas para lamentos
Haverá razão?
Cuidados cruentos
Nunca tornarão.

Estas queixas mansas
Que espalhando estou,
São talvez lembranças
Do que já passou.

Mas a dor fugindo
Cessa e já não é;
Surge amor infindo
Com esperança e fé.

A alma se traslada,
Voa para o céu,
Doce pátria amada
De quem já sofreu.

Um anjo me guia,
Me leva e conduz
Para ver Maria,
Para ver Jesus.

Onde tudo é gozo
Que não vejo aqui,
E serei ditoso,
Já que padeci.

Onde em brando riso
Tudo se desfaz
E a dor suavizo
Em serena paz.

Onde a primavera
É meiga e gentil
E um bem que se espera,
Se transforma em mil.

Onde num desmaio
Doce e encantador
Entre abril e maio
Nasce o eterno amor.

Onde se ouve a pura
Voz celestial,
Bem como murmura
Fonte de cristal.

E a fragrância amena
Pelo espaço azul
Vence a da açucena
Nos jardins do sul.

Onde se prepara
Ao coro fiel
A mais santa e rara
Hóstia d'Israel.

Doce manjar d'alma
Que o Senhor bendiz,
Me alenta e me acalma
E me faz feliz.

E como duma ave
Os suspiros meus
Em queixa suave
Vão aos pés de Deus.

Dos olhos sentidos
A lágrima cai,
Sobem os gemidos
Aos pés do meu Pai.

Todo me enche e invade
Lânguido prazer,
Em felicidade
Deixai-me morrer.

No mundo mesquinho
Tudo é só pesar:
Ao meu pátrio ninho
Deixai-me voar.

Onde veja o amante
E perpetuo bem
E com os anjos cante
Glória a Deus. Amém.

---
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020) 

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