domingo, 27 de setembro de 2020

Recordação (Conto), de Guy de Maupassant

 

Recordação

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Como voltam a mim as recordações da mocidade sob a suave carícia do primeiro sol! É uma idade em que tudo é bom, alegre, encantador, embriagante. Como são de um sabor ideal as recordações de antigas primaveras!

Recordais-vos, velhos amigos, meus irmãos, desses anos de alegria em que a vida não era mais do que uma aurora triunfal e do que um sorriso? Recordais-vos desses dias de vagabundagem em redor de Paris, da nossa radiosa pobreza, dos nossos passeios nos bosques reverdecidos, da nossa embriaguez no ar azul dos cabarés, à margem do Sena, e das nossas aventuras de amor tão banais e tão deliciosas?

Vou contar uma dessas aventuras. Data ela de há uns doze anos e já me parece tão antiga, que me aparece agora como no outro extremo da minha vida, antes da volta do caminho, essa desagradável volta de caminho donde eu vi de repente todo o fim da viagem.

Tinha eu então vinte e cinco anos. Acabava de chegar a Paris; era empregado num ministério, e os domingos apareciam-me como festas extraordinárias, cheias de uma ventura exuberante, muito embora neles não se passasse nada de extraordinário.

Hoje bem poderiam chover domingos, que eu lamentaria sempre o tempo passado em que só tinha um por semana. Como era belo! E tinha só seis francos para gastar!

***

Acordei cedo, nessa manhã, com essa sensação de liberdade que tão bem conhecem os empregados públicos, essa sensação de libertação, de repouso, de tranquIlidade, de independência.

Abri a minha janela. Estava um tempo admirável. O céu, todo azul, estendia-se por sobre a cidade coalhada de sol e de andorinhas.

Vesti-me a toda a pressa e parti, tencionando passar o dia pelos campos, a respirar entre a folhagem, pois que eu sou de origem campônia e fui criado entre a erva e sob as árvores.

Alcancei o Sena para tomar o vapor que me levaria a Saint-Cloud. Como eu gostava daquela espera pelo barco sobre o pontão! Parecia-me que ia partir para o fim do mundo, para países novos e maravilhosos.

Pessoas endomingadas estavam já sobre ele, com trajos de passeio, fitas brilhantes e rostos rechonchudos de cor escarlate. Eu colocava-me à proa, de pé, vendo fugir o cais, às arvores, as casas, as pontes. E de repente, via o grande viaduto do Point-du-Jour que barrava o rio. Era o termo de Paris, era o princípio do campo, e o Sena, de repente, por detrás da dupla linha dos arcos, alargava-se como se lhe tivessem dado o espaço e a liberdade, tornava se de repente o belo rio pacífico que vai correndo através das planícies, aos pés das colinas bosqueadas, pelo meio dos campos, à beira das florestas

Depois de haver passado entre duas ilhas, o Andorinha contornou um outeiro em cuja verdura se dissimulavam muitas casinhas brancas. Uma voz "Bas-Meudon" depois mais longe: anunciou: "Sévres", e mais longe ainda: "Saint-Cloud".

Desci. E segui a passos apressados, através da pequena cidade, o caminho que vai ter ao bosque. Levara comigo um mapa dos arredores de Paris para não me perder pelos caminhos que atravessam em todos os sentidos aquelas pequenas florestas por onde passeiam os parisienses.

Logo que me vi à sombra, estudei o meu itinerário, que me pareceu de resto de uma simplicidade perfeita. Ia voltar à direita, depois à esquerda, depois à esquerda ainda, e chegaria a Versailles à noite, onde jantaria.

E pus-me a marchar lentamente, sob as folhas novas, sorvendo aquele ar saboroso que perfumam os gomos e as seivas.

Ia a passos curtos, esquecido das papeladas, da repartição, do chefe, dos colegas, dos maços de documentos, e pensando em coisas felizes que não poderiam deixar de me acontecer, em todo o desconhecido velado pelo futuro.

Por vezes, assentava-me, para olhar ao longo de um talude toda a casta de florinhas de que há muito tempo não sabia o nome. Reconhecia-as a todas, como se fossem justamente aquelas que vira outrora na minha terra. Elas eram amarelas, vermelhas, de cor violeta, finas, delgadas, montadas em altas hastes ou acachapadas na terra. Insetos de todas as cores e feitios, atarracados, alongados, extraordinários de construção, monstros assustadores e microscópicos, faziam pacificamente ascensões em pés de erva que vergava ao seu peso.

Depois, dormi algumas horas numa vala, e tornei a partir, repousado, fortificado por aquele sono.

Diante de mim, abria-se uma aleia encantadora, cuja folhagem um pouco rala deixava chover por toda a parte sobre o solo gotas de sol que iluminavam as margaridas brancas. Alongava-se interminavelmente, deserta e calma. Somente um pesado besouro solitário e sussurrante seguia por ela, parando às vezes para beber numa flor que pendia ao seu peso, e tornava a partir, quase no mesmo instante, para repousar um tudo nada, um pouco mais longe. O seu corpo enorme parecia ser feito de veludo escuro raiado de amarelo, levado por asas transparentes e pequeníssimas.

Mas de repente, avistei ao fundo da aleia duas criaturas, um homem e uma mulher, que caminhavam para mim. Aborrecido por ser perturbado no meu passeio tranquilo, ia a internar-me por entre os soutos, quando me pareceu que me chamavam. A mulher, com efeito, agitava a sua sombrinha, e o homem, em mangas de camisa, a redingote no braço, elevava o outro em ar de lástima.

Caminhei para eles. Eles caminhavam com passo apressado, muito vermelhos ambos, ela a passos miudinhos e rápidos, ele a longas pernadas. Lia-se-lhes no rosto o mau humor e a fadiga.

A mulher perguntou-me desde logo:

— O senhor pode dizer-me onde estamos? o toleirão de meu marido fez-nos perder, pretendendo que conhecia perfeitamente esta região.

Eu respondi com segurança:

— Minha senhora, vossa excelência dirige-se para Saint-Cloud e volta as costas a Versailles!

— Mas é justamente aí que nós queremos ir jantar.

— Também eu, minha senhora.

Ela disse por várias vezes, encolhendo os ombros:

— Deus! meu Deus! meu Deus! — com esse tom de soberano desprezo que as mulheres têm para exprimir a sua desesperação. Era muito jovem, bonita, morena, com um ligeiro buçozinho.

Quanto a ele, suava e limpava a testa. Era com certeza uma familiazinha de burgueses parisienses. O homem parecia aterrado, derrancado e desolado.

Murmurou:

— Mas, minha boa amiga... foste tu...

— Fui eu!... Ah! agora fui eu... Fui eu quem quis partir sem indicações, pretendendo que não se perderia? Fui eu quem quis tomar à direita, ao alto daquela encosta, afirmando que conhecia o caminho? Fui eu quem se encarregou de Cachou...

Não acabara ela ainda de falar, quando o marido, como se estivesse atacado de loucura, soltou um grito lancinante, que não poderia ser descrito em língua alguma, mas que pareceria isto: tiiitiiit.

A jovem pareceu não se admirar, nem se comover e continuou:

— Não, na verdade, sempre há criaturas muito estúpidas, e que tudo julgam saber. Também fui eu que o ano passado tomei o comboio de Dieppe, em vez de tomar o do Havre, dize lá, fui eu? Fui eu quem apostou que o senhor Letourner morava na Rua dos Mártires?... Fui eu quem não quis acreditar que a Celeste era uma ladra?...

E ela continuava com fúria, com uma velocidade de língua surpreendente, acumulando as acusações mais diversas, mais inesperadas e mais opressivas, fornecidas por todas as situações íntimas da existência comum, repreendendo o marido por todos os atos, todas as ideias, todas as suas maneiras de proceder, todas as suas tentativas, todos os seus esforços, a sua vida toda, desde o casamento até àquela hora.

Ele tentava detê-la, acalmá-la, e gaguejava:

— Mas, minha querida... é inútil... diante deste senhor... Olha que damos um espetáculo... Isso nada interessa a este senhor.

E voltava os olhos magoadamente para os bosques, como se quisesse sondar-lhes a profundeza pacífica e misteriosa, para atirar-se para o interior deles, fugir, esconder-se a todos os olhares: e, de tempos a tempos, soltava um novo grito, um tiiitiiit prolongado, sobre-agudo. Tomei aquele hábito por uma doença nervosa.

A jovem, de repente, voltou-se para mim, e mudando de tom pronunciou com voz singular:

— Se fosse de sua vontade, senhor, caminharíamos os três juntos, para não nos perdermos novamente e não nos expormos a dormir no bosque.

Eu inclinei-me; ela tomou o meu braço e pôs-se a falar de mil coisas, de si, da sua vida, da sua família, do seu comércio. Eram luveiros na rua Saint-Lazare.

O marido caminhava ao lado dela, continuando a deitar olhares de louco para a espessura das árvores, e gritando tiiitiiit de momento a momento.

Por fim, perguntei-lhe:

— Por que grita o senhor assim?

Ele respondeu com ar consternado, desesperado:

— É pelo meu pobre cão, que eu perdi.

— O quê? o senhor perdeu o seu cão?

— Sim, senhor, tinha apenas um ano.

Nunca tinha saído da loja. Quis trazê-lo para passear pelo bosque. Ele nunca tinha visto árvores nem pedras, nem folhas e ficou como doido. Pôs-se a correr e a latir e desapareceu na floresta. Sem contar que tem também muito medo do caminho de ferro, o que deve ter-lhe feito perder a cabeça. Por mais que o chamasse não voltou. Vai morrer de fome ali entre o arvoredo.

A jovem, sem se voltar para o marido, articulou:

— Se lhe não deixasses o cordel já isso não sucederia. Quem é estúpido como tu, não deve ter cão.

Ele murmurou timidamente:

— Mas, minha querida amiga, foste tu.

Ela tomou a palavra; e, olhando-o nos olhos como se lhos fosse arrancar, recomeçou a deitar-lhe em rosto repreensões sem número.

Caía a noite. O véu de bruma que cobre o campo ao crepúsculo, desdobrava-se lentamente; e uma poesia flutuava, feita dessa sensação de frescor particular e encantador que enche os bosques à aproximação da noite.

De repente, o rapaz parou, e apalpando o corpo febrilmente:

— Oh! lá se me foi.

Ela olhou para ele:

— Bem, que mais há?

— Não reparei que tinha a minha redingote no braço.

— E depois?

— Perdi a carteira... com todo o dinheiro dentro.

Ela estremeceu de cólera e sufocou de indignação.

— Não faltava mais nada. Oh que estúpido! Que estúpido me saíste! Parece impossível que eu haja casado com um tal idiota! Pois bem, vai procurá-la, e vê se a achas de qualquer maneira. Eu sigo para Versailles com este senhor. Não tenho vontade nenhuma de dormir no bosque.

Ele respondeu mansamente:

— Sim, minha amiga; e onde os encontrarei?

Tinham-me recomendado um restaurante. Indiquei-o.

O marido voltou pelos mesmos passos, e, curvado para a terra, que o seu olhar ansioso perscrutava, gritava tiiitiiit a todo o momento, afastando-se.

Levou muito tempo a desaparecer; a sombra, mais espessa, fazia-o esfumar ao longo da aleia. Dentro em pouco não se lhe distinguiu mais que a silhueta do corpo; mas continuou o ouvir-se por muito tempo o seu tiiitiiit tiiit, tiiit tiiit lamentoso, mais agudo à medida que a noite se tornava mais escura.

Eu, ia com passo vivo, um passo feliz, na doçura do crepúsculo, com aquela mulherzinha desconhecida que se apoiava no meu braço.

Procurava palavras galantes para lhe dirigir mas não as encontrava; fiquei calado, perturbado, encantado.

Mas de repente, uma grande estrada cortou a aleia. À direita num vale, vi nem mais nem menos que uma cidade.

Em que região estávamos?

Como passasse um homem interroguei-o. Ele respondeu:

— É Bougival.

Eu fiquei interdito:

— Como assim, Bougival? Tem a certeza?

— Ora essa. pois se eu sou de lá!

A mulherzinha ria como uma louca.

Propus-lhe tomar uma carruagem para ganharmos Versailles. Ela respondeu:

— Não é preciso. Acho o caso divertido, e tenho bastante vontade de comer. No fundo, estou bem tranquila; meu marido estará sempre bem, esteja onde estiver. É um benefício para mim o estar livre dele durante algumas horas.

Entramos pois num restaurante, à beira da água, e ousei tomar um gabinete reservado.

Ela alegrou-se com o vinho, posso garantir-lhes que muito razoavelmente, cantou, bebeu champagne, fez todas as loucuras... até mesmo a maior de todas. Foi o meu primeiro adultério.

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