12/06/2020

A rosa branca (Conto), de Júlia Lopes de Almeida

 



A rosa branca 

A viúva do comandante Henriques dizia a toda a gente que, das suas duas netinhas, dava preferência à primeira; demonstrando pela segunda uma simpatia medíocre.

Comentava cada um a seu modo aquela excentricidade de velha romântica. O verdadeiro motivo, porém, consistia em ser a neta mais velha extraordinariamente parecida com a família Henriques, enquanto que a mais moça pertencia toda à família do pai, um provinciano feio. Ângela, que era a primeira, recebia continuamente presentes da avó; a outra, a Inês, olhava com melancolia para aquelas doces manifestações de amor, perguntando mentalmente em que desmereceria ela da ternura da mãe de sua mãe? 

Acostumaram-se todos com aquela injustiça, menos a pobre Inesinha, que chorava muitas vezes às ocultas, chamando-se desgraçada!... 

Com o tempo veio a necessidade de Ângela entrar para um colégio. 

A avó lamentou-se, tornando-se ainda mais indiferente para a pobre Inês e atirando-lhe para cima todas as culpas; era ela quem quebrava a louça que se sumia do armário; era ela que fazia enxaquecas à mãe com a bulha dos seus sapatos insuportáveis; era ela quem arrancava as plantas do jardim e quem roubava os doces do guarda-prata; era ela quem batia nos animais, quem riscava os móveis, quem enchia de trapos e de papéis o chão, quem impacientava as criadas e pedia dinheiro às visitas. 

Ela era o demônio! E, na sua opinião, seria muito mais sensato mandá-la de preferência para o colégio, como pensionista, e deixar em casa a Ângela, a quem se oferecia para pagar os mestres. 

O alvitre não foi bem recebido. E Ângela teve de partir para Itú, lugar escolhido para a sua educação. 

Na véspera, à noite, recaindo a conversa sobre assuntos de pressentimentos e de superstições, Ângela teve a fantasia de dizer à avó: 

– Olhe, vovó, todas as manhãs há de ver no seu oratório uma rosa branca. Será o meu pensamento que há de vir visitá-la. No dia em que a rosa estiver meio murcha, será um sinal de que eu estou doente; e se ela não aparecer, será porque eu morri! 

– Deixa-te de tolices! Não quero que minha filha leve de casa semelhantes ideias! Acreditarás por acaso nisso? 

– Não, mamãe... eu estava brincando... Descanse que a rosa branca não há de vir! 

Do seu canto, a pobre Inês observou que o olhar da avó se tornara angustioso, turvo como a água onde se refletisse uma nuvem negra. A pobre senhora acreditava em sonhos e em fantasmas; sabia histórias complicadas e extravagantes; coisas extraordinárias que ela queria impor à fé ou à incredulidade dos outros! Já agora, se a rosa branca não surgisse todas as madrugadas aos pés da Virgem das Dores, ela havia de supor que a sua Angelita tinha ido fazer companhia aos querubins. 

E enquanto a sua preferida dizia descuidada e risonha: “Eu estava brincando...” a outra lia-lhe no olhar toda a inquietação e tristeza! 

A despedida de Ângela foi dolorosa para o coração da avó; a pobre senhora levou o dia inteiro a chorar, encerrada no quarto, e, quando consentiu em ir ao chá, notaram todos a extraordinária alteração da sua fisionomia. Estava impaciente, frenética, olhando de soslaio para a pobre Inês, com quem várias vezes ralhou sob qualquer pretexto: 

 – Menina, isso são modos? Tire a mão da mesa! 

E continuava depois, voltando-se para uma visita:

– Tanto tem a Angelita de ajuizada e de boa, quanto esta tem de insensatez e mau gênio! Pudera! Fazem-lhe todas as vontades! Eu nunca vi! 

A mãe acudiu em defesa da filha, e a questão prolongou-se, até que a avó, desesperada, exclamou: 

– A outra foi aos onze anos de pensionista para o colégio; pois bem, esta tem nove, e aposto em como nem daqui a três anos irá acompanhar a irmã! Injustiças é que me revoltam. 

Inês ouvia humilhada e triste aquela troca de palavras, consolando- -se com a doçura do olhar da mãe, que caía sobre ela como uma bênção. 

No seu pequeno quarto, em frente à cama vazia da irmã, Inesinha procurava em vão adormecer. Revolvia-se entre os lençóis, olhava para o teto, onde a luz da lamparina punha sombras, e lembrava-se do olhar da avó, quando a Ângela falara na rosa branca! Ah! por que lhe quereria tanto mal a sua avó? No entanto, procurava fazer-lhe as vontades, e tinha-lhe até muita amizade! Realmente, a Ângela era tão boa! E tão bonita! 

Sim, ela também achava natural que a velhinha preferisse a outra... Mas seria razoável que a deprimisse sempre, e assim... diante de gente de fora? Tentava dormir: fechava os olhos e punha-se a rezar:  – Ave, Maria, cheia de graça!... E a rosa branca? Ah! se a vovó não a encontra no oratório... é capaz de chorar! Fazei, virgem Maria, com que nasça uma rosa branca a vossos pés! 

Se fosse eu que estivesse no colégio, a vovó estaria contente! Por que será que não gosta de mim? É verdade que eu lhe tenho feito mal, mas sem ser por vontade... entornei-lhe chá quente na mão... quebrei o seu espelho novo; mas o que com certeza ela não me perdoa, é eu ter batido na Ângela! Coitadinha da Ângela! Ela não se queixou... quem teria visto? Mas se eu não lhe batesse, ela matava o gato da vizinha, e depois? Sim! A vovó tem-me raiva desde esse dia... mas eu tenho dado tantos beijos na Ângela! Pobre da minha irmã, que saudade ela hoje terá da sua caminha! 

Apesar dos meus beijos, a amizade da vovó não voltou. Mamãe sempre me diz que não julgue eu isso, que a vovó adora-me! Como o saberá? Mas a mamãe não mente; logo que diz, é porque é. 

Com as mãozinhas cruzadas sobre o peito, toda envolvida na sua longa camisa de dormir, Inês lutava com a insônia, e, para afastar os pensamentos, recomeçava a dizer: Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco... 

No entanto, antevia as mãos trêmulas da avó, procurando em vão a rosa branca entre as dobras do veludo azul do manto de Nossa Senhora. Depois as lágrimas caindo-lhe às duas pela face engelhada... E tinha pena, e tornava, cheia de fé, a suplicar:

 – Virgem Maria! Fazei com que nasça uma rosa branca a vossos pés! 

A luz da lamparina foi-se tornando pálida à proporção que os vidros da janela se iam iluminando pela claridade exterior. Inês ergueu-se. Nunca tinha visto amanhecer, mas o seu fito era outro; foi cautelosamente a janela, abriu-a e olhou. Nuvens cor de rosa enovelavam-se sob o céu azul; no alto, mostrava-se a lua, estreita como um fio de luz arqueado, e um pouco abaixo entrebrilhava uma grande estrela esbranquiçada e fria. Os pássaros cantavam; havia uma frescura leve toda embalsamada de aromas. 

Inês espreitou o oratório. 

– Nada! A lâmpada acesa, bruxuleante, difundia a sua tênue chama sobre um ramo de flores artificiais! Voltou à janela do seu quarto, ao rés do chão; vacilou um momento, mas, armando-se de coragem, saltou-a, e correu para um recanto do jardim, onde várias roseiras ostentavam as suas belíssimas flores. 

À hora do almoço, a avó apareceu risonha e tranquila, com o olhar abrandado por uma misteriosa doçura d’alma. Passaram-se dias, durante os quais a pobre senhora achou sempre no seu oratório a prometida rosa branca, que era, a seu ver, a visita do pensamento da adorada netinha! Cada vez mais terna para a ausente, tornava-se mais ríspida para a Inês. A pequenita andava agora mais abatida e magra, chegando a inspirar cuidados à família. 

A história da rosa era ignorada por todos; a avó guardava o segredo da visita de Ângela, egoisticamente, conservando as rosas, mesmo depois de murchas, num cofrezinho dourado! 

Um dia, estavam todos à mesa, quando o jardineiro se foi queixar de que todas as noites ia alguém roubar uma rosa branca a uma das roseiras de mais estimação do jardim! 

Da rua não entrava ninguém; aquilo era coisa de gente da casa; pedia providências. 

Inês tornou-se rubra; a avó estremeceu, e o dono da casa, um colecionador fanático, prometeu um tiro a quem, sem seu consentimento, lhe arrancasse as rosas do jardim. À noite verificou a existência de um formoso botão. No dia seguinte o botão havia desaparecido! 

Aquela persistência exasperou-o. Começaram as indagações. A avó julgou de seu dever intervir, contando o fato que se passava consigo, e aconselhando paciência. Era a mão invisível de um ente sobrenatural e piedoso, que vinha, mensageiro da sua Angelita, trazer-lhe a flor prometida!

 Essa revelação desorientou-os. A pessoa era então, evidentemente, de casa, e tão íntima que entrava nos quartos da família! Houve ameaças.... Entretanto, a doce rosa branca, aquietadora dos sustos da avó, aparecia todas as manhãs, fresca e orvalhada, sob o manto estrelado da mãe de Deus! 

As criadas começaram a supor fantasmas, a asseverar que os viam, e de tal forma que a própria Inês entrou de ter medo! 

Uma noite deitou-se resolvida a faltar a sua caridosa lembrança; a avó que tivesse paciência e apreensões e lágrimas, – ela não se arriscaria nunca mais para poupar-lhe esses desgostos! E ficou, como na primeira noite, nervosa, imaginando a decepção da velha! Passou por fim ligeiramente pelo sono; acordando, viu tamanha claridade na janela, que supôs ser já dia. Saltou do leito, e, sem meditar, levada pelo hábito, ainda quase a dormir, pulou para o jardim, arrastando na areia a sua camisola branca e magoando no chão os pezinhos descalços. 

A lua, em todo o esplendor, espalhava a sua luz aveludada; estava tudo silencioso, silencioso!

 Inês, no meio do caminho, ao ar fresco, compreendeu o seu engano: levantara-se alta noite! A bulha dos seus passos naquela solidão horrorizou-a. Ah! Era a hora dos fantasmas, e ela não ousava olhar para trás! Caminhava sempre, com os lábios secos e os olhos muito abertos! Foi com um movimento nervoso que arrancou da haste a triste flor piedosa, não ousando observá-la, porque, quando a violência do puxão a roseira balançou os seus botões nevados, afigurou-se lhe ver uma dança macabra improvisada no ar por estranhos e pequeninos espectros! Correu então alucinada para casa, saltou para dentro, e, sem tomar as precauções do costume, entrou no oratório precipitadamente atirou aos pés da Virgem a doce rosa branca, murmurando ao mesmo tempo, com a voz alterada pelo medo: 

“Salve, Rainha... Mãe de misericórdia... vida e doçura... esperança nossa!” 

Não acabou. Transida de medo e de frio, cairia no chão... se dois braços não a amparassem meigamente. 

Eram os braços da avó, que a cobria de beijos, repetindo-lhe: 

– Como tu és boa, minha adorada Inês! Como tu és boa!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...