sábado, 8 de outubro de 2022

Resenha do livro “Insônia”, de Graciliano Ramos

 

Por: Paulo Marçaioli


“Insônia” – Graciliano Ramos
Editora Record.
 

“O realismo de Graciliano não é orgânico nem espontâneo. É crítico. O “herói” é sempre um problema: não aceita o mundo, nem os outros, nem a si mesmo. Sofrendo pelas distâncias que o separam da placenta familiar ou grupal, introjeta o conflito numa conduta de extrema dureza que é a sua única máscara possível. E o romancista encontra no trato analítico dessa máscara a melhor fórmula de fixar as tensões sociais como primeiro motor de todos os comportamentos”. (BOSI, Alfredo. “História Concisa da Literatura Brasileira”. Ed. Cultrix).   

O gênero literário em que o escritor alagoano Graciliano Ramos mais foi bem sucedido é o romance. 

Seu primeiro livro publicado foi “Caetés” (1933), que já adianta algumas das temáticas recorrentes do escritor: a figura de protagonista marcado pela rejeição social, por sentimentos de culpa e sendo descrito e caracterizado pelo monólogo interior. Na maior parte das vezes, a história é contada em primeira pessoa, com uma forma que economiza adjetivos, dando realismo à narrativa. 

Nos seus livros subsequentes, São Bernardo (1934), Angústia (1933) e “Vidas Secas” (1938), as sondagens psicológicas dão um salto qualitativo. Seria até mesmo impróprio qualificar estes romances como representativos do modernismo regionalista que tiveram como expoentes Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amado Fontes, e outros. Mesmo no livro “Vidas Secas”, que trata da saga de retirantes da seca nordestina, a ênfase se dá nas cogitações dos personagens, e sua relação conflituosa com o meio social. Enquanto na literatura de José Lins do Rego e Jorge Amado se verifica uma harmonia e fio de continuidade entre as personagens e o ambiente do engenho ou das cidades do nordeste, em Graciliano Ramos observa-se movimento oposto: inadequação do pequeno funcionário público diante dos figurões do Estado e da realidade citadina (“Angústia”); a brutalização de Paulo diante da sua condição de Fazendeiro (“São Bernardo”); a  opressão do soldado amarelo (outra figura representativa do Estado) em face de Fabiano (“Vidas Secas”). 

Se quisermos, por o outro lado, situarmos Graciliano Ramos dentro do movimento literário regionalista, seria possível fazê-lo mediante dos aspectos de sua obra. 

Em primeiro lugar, a capacidade de fazer do regional, o universal, ao apresentar personagens cujos dilemas dizem respeito ao homem em geral, viabilizando histórias de caráter atemporal. 

Em segundo lugar, o retrato de alguns aspectos do período histórico dos anos 1930/1945, quando a modernização do país promovida pela Era Vargas enseja histórias que diziam respeito àquele período da História do Brasil. O início de um processo de longa duração de transição demográfica da cidade para o campo. As arbitrariedades institucionais típicas de regimes políticos autoritários. A permanência do favoritismo nos meios intelectuais, acentuando as rejeições de personagens do baixo escalão do Estado e da imprensa. 

Menos conhecidas do público são as obras de contos do escritor alagoano. 

A primeira edição de livro deste gênero apareceu em 1947 pela Editora José Olympio, reunindo contos esparsos do escritor. Estas histórias apareceram em publicações de 1937 (um ano após a liberdade concedida após Graciliano Ramos ter sido preso, acusado de comunista) até 1945. Todas elas escritas quando o autor já residia no Rio de Janeiro, trabalhando na imprensa. 

Os contos do nosso escritor não se voltam exatamente ao contar histórias, mas descrever os pensamentos de personagens, os seus monólogos interiores que, indiretamente, contam algo de sua trajetória. 

No conto “O Ladrão” temos uma descrição do que se passa na cabeça do protagonista quando se arrisca assaltar uma casa, mesmo sem ter muita experiência no ofício. 

“Subiu um degrau, parou arfando, subiu outros, experimentando a sensação de enjoo. A casa mexia-se, a escada mexia-se. A secura da boca desapareceu. Dilatou as bochechas para conter a saliva e pensou no queijo, nauseado. Adiantou-se uns passos, engoliu o cuspo, repugnado, entortando o pescoço. 

- Tem de ser. 

Repetiu a frase para não recuar. Apesar de ter alcançado o meio da escada, achava difícil continuar a viagem. E se alguém estivesse a observá-lo no escuro? Lembrou-se do sujeito da loja da fazenda. Talvez fosse ele o dono da casa, estivesse ali perto, vigiante como um gato”. 

Contos como “O Relógio de Hospital” e “Paulo”, têm algo de autobiográfico. As histórias retratam o personagem preso ao hospital ou em casa, imobilizado pela doença e eventualmente delirando diante da morte. Passagens que remetem à prisão de Graciliano, marcada pela indefinição quando aos motivos da detenção, sem perspectivas de desfrutar a liberdade, como os doentes descritos na ficção. O mesmo pode ser dito do conto “A Testemunha”, que expressa a ineficiência da jurisdição criminal: o personagem do conto é convocado para uma audiência para apresentar testemunho de um crime que não presenciou. 

Quando da publicação de “Insônia” (1947), o escritor já tinha se consagrado pelos seus primeiros romances mais conhecidos. No ano de 1952, Graciliano faria uma viagem à União Soviética, ocasião que deu ensejo a um livro relatando a viagem, publicado postumamente. 

Graciliano Ramos morreu no dia 20 de Março de 1953 no Rio de Janeiro. 

Em 1980 seus familiares doaram o Arquivo Graciliano Ramos ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, reunindo manuscritos, documentos pessoais, correspondências, fotografias, traduções e alguns livros.

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