2/27/2023

Depois da Ceifa (Poesia), de Eugênio de Castro


DEPOIS DA CEIFA


FINS DE OUTONO

A tiritar de frio, em seu balcão,
Tosse o Príncipe louro, e as nuvens olha;
Sua coroa de nardos se desfolha,
Pelos canais, cantando os cisnes vão...

Correm pela erva plumas de pavão
Treme o lago, ao cair de cada folha
E dos repuxos a poeira molha
O moço, quando passa a viração...

Cerra os olhos, o Príncipe, cansado
De ver nas foscas nuvens, batalhando,
Plúmbeas Quimeras, em revoltas iras.

E no mosaico do balcão dourado,
Dos seus dedos exangues vão tombando
Os anéis cravejados de safiras...

 

INSCRIÇÃO
(Para o túmulo de uma donzela)

Num mirante que a hera revestia,
Passei a minha mocidade à espera
Desse, que em ledo sonho me aparecera,
E que em contínuos sonhos me aparecia.

Menina e moça, deslizar eu via
Moços mais lindos do que a Primavera,
Porém, ó mágoa! nenhum deles era
O que em contínuos sonhos me aparecia.

 A Morte me beijou, sendo eu tão nova!
 — Caminhante, que passas divagando,
Distraído entre as alvas sepulturas,

“Desfolha algumas flores sobre esta cova:
Es o noivo talvez que eu estive esperando,
Talvez eu seja a noiva que procuras...

 

A COROA DE ROSAS

A fim, oculto amor, de coroar-te,
De adornar tuas tranças luminosas,
Uma coroa teci de brancas rosas,
E fui pelo mundo fora, a procurar- te.

Sem nunca te encontrar, crendo avistar-te
Nas moças, que encontrava, donairosas,
Fui-as beijando e fui-lhes dando as rosas
Da coroa feita com amor e arte.

Trago, de caminhar, os membros lassos,
Acutilam-me os ventos e a geadas,
Já não sei o que são noites serenas...

Sinto que vais chegar, ouço-te os passos,
Mas ai! nas minhas mãos ensanguentadas
Uma coroa de espinhos trago apenas!

 

A CLEPSIDRA DE TEODORA

Junto do leito, a imperatriz Teodora
Uma clepsidra tem, obra do artista
Moeris, que, de a fazer, perdeu a vista
E que em funda miséria vive agora.

Sobre a clepsidra, uma risonha Aurora,
Abrindo a mão com graça nunca vista,
Deixa cair num prato de ametista
Uma pérola negra, de hora a hora.

De Teodora os dias sanguinários
Passam velozes, lestos, de fugida,
Quais do Bósforo, ao luar, as águas cérulas;

Osculando cocheiros e sicários,
Tão ligeira lhe vai correndo a vida,
Que ouve constantemente chover pérolas.

 

HIMENEU
(A Caterina Bárbaro Fórleo - Duquesa d’Este, por ocasião do seu casamento com o Conde de Santo Ângelo Limosano)

Antes do casamento, as noivas iam depor
as suas bonecas no altar de Vênus.

(História Romana).

Flameum: véu cor de fogo,
com que as noivas cobriam o rosto.

(Magnum Lexicon).

Por um véu, que do fogo tem a cor,
Oculta a pura fronte alabastrina,
No branco altar de Vênus, Catarina
Suas lindas bonecas vai depor.

Depois, soltando um hálito de flor,
Qual, entre flores, um veio d’água fina,
Sua voz se levanta, áurea e divina,
Pedindo proteção à Mãe do Amor.

Pasma a Deusa escutando voz tão doce,
Tão carinhosa e afável, qual se fosse
Um fumegar de languidos perfumes;

E vendo Catarina retirar-se,
Para o Olimpo corre e diz aos Numes
“Safo ressuscitou e vai casar-se!”

 

OFIR

I
Desde que o moço rei subira ao trono,
Sempre que se deitava p'ra dormir,
Duma sereia começava a ouvir
A argêntea voz, que lhe tirava o sono.

 — “Para ti grandes glórias ambiciono,
Vem comigo, se queres possuir
Uma ilha de luz, chamada Ofir,
Entre névoas vogando ao abandono!”

Ofir!... Ofir!... E o rei, olhando o mar
Julga ver, entre as névoas, cintilar
Da ilha o refulgente baluarte...

De nada valem rogos nem conselhos!
Chora a noiva do rei e os aios velhos,
Mas, à busca de Ofir, a frota parte...

II
Partiu e não voltou! Voltou somente
O pobre rei já velho e esfarrapado:
Mas ai! um outro rei vive sentado
No seu trono de prata refulgente.

 — “Sou o rei!” grita o velho inutilmente
Só o conhece um servo dedicado,
De cujas mãos recebe o anel gemado,
Que à noiva morta dera de presente.

O usurpador cobiça o lindo anel:
“ — Dá-me aquele barquinho, que além dança,
“Se esta joia desejas possuir...”

O usurpador aceita; e no batel
Entrando, o velho rei, cheio de esperança,
De novo parte demandando Ofir.

 

A SÁ DE MIRANDA

Muita vez, em espertinas amorosas,
Pensava (e um terror brusco me vestia!)
Que dos meus quentes beijos surgiria
Uma linhagem de almas lastimosas.

Hoje, porém, coroo-me de rosas,
Vejo dourado o mais escuro dia,
Quando penso em ser pai, e na alegria
De beijar do meu filho as mãos mimosas.

Ó Poeta! que o meu filho nasça e cresça,
Que o meu gênio envergonhe os soes de julho,
E que, daqui a séculos, o Céu

Permita que haja alguém que se envaideça
De proceder de mim, como eu me orgulho
De o meu sangue possuir gotas do teu!

 

O PASTOR DESTERRADO

I
Mandais-me perguntar, linda pastora,
Se são lindos ou feios estes prados;
Não vo-lo sei dizer, que meus cuidados
Al me não deixam ver que a vós, Senhora.

Qualquer campina achava encantadora,
Quando iam junto aos meus os vossos gados,
Mas hoje, Céus azuis, campos dourados,
Nada vejo na dor que me devora.

Se toda a luz que nestes olhos tinha,
No tempo de feliz desassossego,
Se toda aquela luz de vós me vinha,

Exilado nas margens do Mondego,
Longe da que, por louco, julguei minha,
Já sabereis, Senhora, que ando cego.

II
Em que emprego o meu tempo? Vou e venho
Sem dar conta de mim, nem dos pastores
Que deixam de cantar os seus amores,
Quando passo amostrando a dor que tenho.

É de tristezas o torrão que amanho,
Amasso o negro pão com dissabores,
Em ribeiros de pranto pesco dores
E guardo de saudades um rebanho.

Meu coração à doce paz resiste,
E, embora fiqueis crendo que motejo,
Alegre vivo por viver tão triste!

Amor se mostra nesta dor que abrigo,
Quero triste viver, pois vos não vejo,
Nem sequer muito ao longe vos lobrigo...

III
Os aziagos dias, os quebrantos,
As traições, as vinganças e os desprezos,
Já não sente seus golpes nem seus pesos
Aquele que perdeu vossos encantos.

São rosários de dor os tristes cantos
Que destes lábios solto em febre acesos,
E, sem luz, os meus olhos estão presos
Pelas grades de vidro dos meus prantos.

Vivo só, como os santos do deserto,
Dia a dia o sofrer se me renova,
E choro tanto que, do fim já perto,

Em breve, d’alto amor bem clara prova,
Os prantos, que por vós, Senhora, verto,
Nesta penha abrirão a minha cova...

 

VILANCETE

Quando estes olhos molhados
Por vós, Senhora, os topastes.
Com a boca os alimpastes...

Por tanto mal me quererdes,
Por tais desdéns me votardes,
E por tão mal me tratardes
Com tão lindos olhos verdes,
Os meus choraram, e ao verdes
Toda a dor que me causastes,
Com a boca os alimpastes...

Tão escaldado o pranto vinha
Que amoleceu, por meu bem,
A cera desse desdém;
Eu por bem salgado o tinha
Mas doce me foi asinha,
Quando, por vê-lo, mudastes
E com a boca o alimpastes...

Jamais quero ver suspenso
Deste pranto o borbulhar;
Quero viver a chorar,
Só p'ra ter o gosto imenso
De sentir o fino lenço
Com que vós, quando os topastes,
Os meus olhos alimpastes...

 

VILANCETE

O que seria de mim,
O que seria de vós,
O que seria de nós?

Nem pensar quero que um dia
Me podeis morrer, Senhora,
Tanto o vosso amor me doura,
Me acalenta e me inebria...
Se um dia vos visse fria,
Morta, da cor do marfim,
O que seria de mim?

Se não há da terra à face
Quem vos queira como eu quero,
Se é do meu amor sincero
Que a vossa alegria nasce,
Se eu um dia vos faltasse,
Se então vos vísseis a sós,
O que seria de vós?

Mas ai! bem mais duro espinho,
Desgraça muito maior
Seria a morte do amor
Que nos enflora o caminho...
Cuidado! o Amor é franquinho
E o Tédio é um monstro feroz..
O que seria de nós?

 

VILANCETE

Quando as naus iam à índia,
Se eram cem as que abalavam,
Vinte apenas regressavam...

Voltando ao Tejo, opulentas,
Com gemas, ouros e pratas,
Eram presas pelos piratas,
Quebradas pelas tormentas;
E ao fim de lutas cruentas,
Se eram cem as que abalavam,
Vinte apenas regressavam.

Com fé na vossa clemência,
Mandei-vos naus de esperanças,
Senhora de loiras tranças,
Martírio desta existência;
E no cais da paciência
Os meus dias suspiravam
Mas as naus não regressavam.

No mar das vossas friezas
Todas se viram quebradas,
Pobres naus! mais desgraçadas
Que as velhas naus portuguesas;
Que destas, se em más empresas
Muitas vezes se encontravam,
Ainda algumas regressavam...

 

A FONTE MILAGROSA

Uma tarde, fugindo da Judeia,
A Virgem-Mãe lavou o Deus- Menino
Numa fonte chamada Matureia.

De tocar no Deus róseo e peregrino:
E nas mãos virginais que o seguravam,
Houve a fonte um poder quase divino:

Por onde as suas águas marulhavam
Tudo de alegres galas se cobria.
E até as mortas flores ressuscitavam.

Ali perto, de incenso um horto havia,
Que a tal fonte fizera tão viçoso,
Que regado pelos anjos parecia.

Era dono do horto um duvidoso,
Que esse viço tirava não das águas
Mas do terreno forte e planturoso.

Para se convencer, por umas fráguas
A virtuosa veia desviou
Do horto, que ficou jardim de mágoas.

Embalde para ali canalizou,
Com trabalhos sem fim, outros ribeiros:
Tudo se lhe perdeu, tudo secou...

O incenso já não dava os brandos cheiros,
E o mole terreno fez-se areal queimado,
Que era uma chaga ali, entre os outeiros.

E — ó caso nunca em excesso celebrado!
No pedernal por onde as linfas santas
Iam agora em fio prateado,

Flores nasciam de belezas tantas,
Que dava pasmo o ver assim nascidas,
De pedras tão brutais, tão finas plantas.

Do duvidoso as dúvidas caídas,
Caiu em si, e ao horto fez voltar
As milagrosas Águas despedidas.

Mal se escutou no horto o seu cantar,
Logo tudo se encheu de relva e flores
E o brando incenso embalsamou o ar!

Este caso, ó Rainha dos Amores!
Acordou minha pálida memória
E deu-me do remorso as vivas dores.

No tempo em que em vós pus bem alta glória,
Que outra maior não tive que a de ter-vos,
Quando achava em ser escravo alta vitória;

Quando me achava livre em pertencer-vos,
E a noite se mudava em dia claro,
Se pela noite me era dado ver-vos;

Quando em vós encontrava luz e amparo,
Era a minh'alma um horto rescendente,
Brilhante, alegre, precioso e raro...

Do horto o viço e o aroma tão dormente
Vinham dos olhos com que o refrescáveis,
Claras fontes fluindo brandamente...

Mas não quis Deus que fossem perduráveis
Os benefícios que de vós lograva,
E a outra fui pedir o que me dáveis...

Vossos olhos, eu, louco, os enjeitava
E outros busquei a cuja luz mortal
Logo o meu lindo horto se crestava...

Por desprezar o bem, colhi o mal,
E, ambicioso, caí em tal pobreza
Que outra no mundo não topava igual.

Ó capricho fatal da natureza,
Que nos lanças em tanta insensatez
E que ao mais firme tiras a firmeza!

Caindo em mim, caí a vossos pés,
E por castigo tive o perdão brando,
Eu que merecera algemas e galés!

De novo o vosso olhar se ouviu cantando
Na minha alma, no meu pobre horto,
Que, em breve, suas galas foi cobrando.

Tudo se encheu de paz e de conforto,
De aroma, sol e musicas fagueiras,
Tornou-se vivo tudo o que era morto,

A treva em luz e os cardos em roseiras.

 

AO DIVINO JOÃO DE DEUS
(8 de março de 1895)

Quando, nos idos tempos passageiros,
Meus cordeiros guardava, e a minha altura
Fazia parecer grande a dos cordeiros,

Por um entardecer d'alma brandura,
Maviosa flauta ouvi, tão doce e branda
Que o seu encanto ainda em minh'alma dura.

Ouvindo assim tocar, fui-me em demanda
Do divo tocador, qual veloz cerva,
Ou como o doente que, dormindo, anda;

Porém, sentado na comprida erva,
Achei-te a ti, eu que encontrar julgava
Marsias, que teve a flauta de Minerva.

Águas e plantas tudo te escutava,
E até o meu rebanho, mais travesso
Do que um rancho de Títiros, parava!

Foi aí, nessas margens do Parmesso,
Que tu, subida glória das Camenas,
Por quem o mor apreço é pouco apreço,

Ale induziste a provar as mui amenas
Águas daquela fonte e me ensinaste
A articular os dedos nas avenas;

Foi aí, novo Orfeu, que me levaste,
Pelo Helicon, à fulgida morada
Das belas Aganípides, que honraste.

Foi desde aquela tarde bem-fadada
Que, entre os da minha idade tocadores,
Minha flauta encantou e foi cantada...

A ti, Sol dos arcádicos pastores,
E pois que eu devo o cobiçado tino
Com que em música torno o riso e as dores;

Fizeste-me o que sou, gênio divino!
Porquanto os que possuo merecimentos
Menos do engenho vieram que do ensino

Se pelos doces, languidos relentos,
Graças à minha flauta aliciante,
Fiz palpitar de amor lobos cruentos;

Se fiz parar o curso marulhante
Do Mondego, se fiz parar, no trevo,
Do meu rebanho cada rês saltante:

Se logrei enlevar em triste enlevo
As loucas Mimalônides joviais,
 — Se tudo isso fiz, a ti o devo!

Porém dos Deuses glória e dos mortais,
Se tanto te devia, estava escrito
Que devera dever-te muito mais!

A Ambição, monstro nunca assaz maldito,
Fez-me odiar a minha solidão,
Dum sereno pastor fez um proscrito.

Deixei a minha flauta, o meu bordão
E o meu rebanho, e fui-me a correr terras,
Que sepulturas d'almas virgens são.

De cidade em cidade, subi serras.
E lá de cima, olhando para baixo.
Só vi angústias, ódios, lutas, guerras...

Da Ambição me atraía o tredo facho,
Para o mal caminhava, cegamente,
Qual para o mar o ambicioso riacho.

Por babilônias, entre falsa gente,
Entre tristezas mil e mil perigos,
De tantos vícios ver, vi- me demente.

Debalde procurei leais abrigos,
Foi pago com traições o meu amor,
E só traições colhi dos meus amigos.

E cada vez o mal ia a pior!
A tal ponto que a minha dor agreste
Julguei-a das dores todas a maior!

Amigo! foi então que me apareceste
E me mostraste como tudo é vão
Sob a estrelada abobada celeste;

Seguindo o teu exemplo, foi então
Que eu o mundo deixei para voltar
Aos deliciosos prados da ilusão.

Aqui me vim esconder e recobrar,
Aqui, onde de novo pastoreio,
E onde outra vez Castália ouço cantar;

De novo bebo o mel do devaneio,
Minha boca, em vez de ais, solta canções,
A paz voltou suavíssima ao meu seio;

Quais semicrapos Aegipães brincões,
Meus sonhos, em frescor, humilham rosas,
Só alimento ideais aspirações:

Vivo calmo a cantar canções viçosas,
E a ouvir, sempre encantado, o bom Mondego,
Onde cantam Mondegides maviosas!

Sou de novo feliz! vivo em sossego!
De novo ostenta flores a seca haste,
De novo o mudo fala e vê o cego!

Graças te rendo, a ti que me ensinaste
A tanger minha avena, e que depois,
Vendo-me já perdido, me salvaste!

Cantem, quando pássaros os rouxinóis,
Sigam-te, como sombras, os Poetas,
Aclamem-te Rainhas, Reis e Heróis!

Que os teus pés, pisem só jasmins, violetas,
Seja-te o inverno doce primavera,
Realize-se tudo o que projetas!

Contigo ainda conversar quisera,
Meu rebanho, porém, vou deitar fora,
Que, de se ver sem mim, já desespera,

Aqui não posso ficar mais agora,
Pois meus olhos, cordeiros saltadores,
Balindo querem que eu, sem mais demora,

Os vá guardar no teu Campo de Flores!



FIGURINHAS DE TANAGRA

(PHYLLIS)

I - A MAÇÃ
Repara, Phyllis: a maçã dourada,
Que ainda há pouco na macieira ria,
Mostrando a cor divina da ambrósia,
 — Ei-la no chão caída, encarquilhada.

Onde está essa graça perfumada,
Que o ouro e o próprio sol escurecia?
A devorá-la, correm à porfia
As formigas, em turba alvoroçada.

Phyllis! vem reclinar-te no meu leito,
E deixa-me oscular teu níveo peito,
Teus braços, tua boca de romã!
Carícias te darei de ideal moleza...
Não me resistas mais... tua beleza
Passará como o viço da maçã.

II - O ESPELHO
A velha que ali vai com triste aspecto,
Os olhos murchos e fanada a pele,
É a sombra de Phyllis, flor cruel,
Que jamais quis deitar-se no meu leito.

Era um jardim de lírios o seu peito,
Sua boca adoçava o próprio mel;
Mas ai! beleza vã, beleza infiel!
Tanta graça e frescor, tudo desfeito..

Alguém a ouviu, quebrando o espelho fino,
Que lhe dei quando os seus olhos brilhantes
Viviam a ferir-me e a maldizer-me:

 — “De que me serves tu, disco argentino,
Se me não me vejo em ti qual era dantes,
E se, como hoje sou, não quero ver-me?”

 

PÍRAMO E TISBE

Os frutos da amoreira, a cuja sombra isto aconteceu 
se tornaram negros, sendo até ali brancos.

(Dicionário da Fábula).

Da amoreira, que o noivo lhe indicara,
Já Tisbe se acercava, quando, vendo
Uma leoa ali, fugiu correndo,
E voar deixou o véu com que se ornara.

Píramo, o esbelto herói, da sua cara
E doce amada o véu reconhecendo,
Logo com um punhal se mata, crendo
Que, Tisbe, a ruiva fera a devorara.

Chega de novo Tisbe — ó duro instante!
Dá com Píramo morto, e o seio ferindo,
Que era inveja das Musas e das Horas,

Morta cai, abraçada ao louro amante!
Chorando o triste fim de par tão lindo,
De luto se vestiram as amoras...

 

EPIGRAMA

Para onde me fugiste, ó meu viver tranquilo?
Não durmo, não descanso, e a todo o instante choro,
Desde que um dia vi a embriagante Psilo,
Grácil, dançando ao som dos seus crótalos d'ouro.
Almas! vivei quietas,
Não mais fiteis o Amor com trêmulo receio.
Do Amor as áureas setas
Ei-las todas cravadas no meu seio!

 

A LAÍS

À ciprina Laís, alva como os goelanos,
A Laís, que possui compridas tranças pretas,
Pelo meu escravo mandei, no dia dos seus anos.
Um cacho moscatel num cabaz de violetas.

Os amantes, que dão às suas namoradas
Fulgurantes anéis de riqueza estupenda,
Luminosos rocais e redes consteladas,
Hão de sorrir, bem sei, da minha pobre oferenda.

Pensei em dar-lhe, é certo, um precioso colar,
Ou um anel com mais luz do que o incêndio de Troia,
Mas reconsiderei de pronto, ao atentar
Que ainda ninguém viu dar joias a uma joia...

 

A CAMISA DE ALCIPE

Ninguém foi mais feliz do que eu, enquanto
De Xanto o lindo corpo agasalhava;
Só quando à lavadeira me mandava
E que eu vertia copioso pranto.

Mas em breve, voltava para Xanto
E a ventura de novo me amimava!
Por nada me trocara, se beijava
Seu fino colo de aprilino encanto!

Pobre camisa! chora, pois perdeste
As tuas mais preciosas alegrias!
Pobre camisa, que desgraça a tua!

Há três dias que Xanto não me veste!
Nos braços de Antenor, há já três dias
E três noites que Xanto vive nua!

 

A MEONIS

Não gosto de vinho; mas se me queres ver ébrio, 
chega os teus lábios à taça e apresenta-ma depois.

(Agathias).

Como da água foge um cão danado,
Assim do vinho eu fujo, desde o dia
Em que, bebendo taças à porfia,
Como um morto, caí emborrachado.

A vista desse ciato dourado,
Só a vista! me turva e me agonia,
Porque o estou vendo, ó Meonis fugidia,
Cheio dum vinho pálido e aloirado.

Mas se a boca chegasses, ao de leve,
Ao licor que me é tão odioso.
 — Rápido como as ondas do Peneu,

Dum trago o beberia, ó flor de neve,
Achando-o como o néctar delicioso
Porque nele acharia um beijo teu!

 

O DEDAL DE HELADIA

Estava a formosa Heladia costurando,
A sombra deste murmuro arvoredo,
Quando caí um dia do seu dedo
E vim pela relva fora rebolando.

De balde me andou ela procurando,
Não deu comigo oculto no relvedo...
Foi-se... e eu fiquei neste cruel degredo,
Onde vivo gemendo e soluçando...

— Moço que estás sentado nessa fraga,
E com a lira os zéfiros comoves,
Leva-me a Heladia, que deprime o dia!

Da tua generosa ação em paga,
Ó gracioso mancebo, talvez proves
Seus lábios de violetas e ambrósia.

 

A LÂMPADA

A lâmpada de argila, que ali vês,
Junto daquele Amor fundido em cera,
Arquias, amigo meu, não a cedera
Pela mais gorda e mais lustrosa rês.

Para a cobrar, daria nove ou dez
Cabras do meu rebanho, se a perdera,
E uma palavra nunca mais dissera,
Se, de tê-la, o penhor fosse a mudez.

Sem de leve hesitar, rejeitaria
Quanto em troca me dessem: mel dourado,
Ouro em barra, marfim, prata brilhante!

Não julgues que lhe quero em demasia.
Pois foi à sua luz que eu vi, pasmado,
O corpo nu da glacial Rodante.

 

EPIGRAMAS GREGOS
(Imitações)

De Maleagro:
Tens visco, meu amor na boca de cerejas,
Cheio de fogo tens o olhar com que me excitas
Prendes os que beijas,
Queimas os que fitas.

De Cillactor:
Um beijo dado
É uma delícia, um favo de doçura;
Mas se é comprado
O heléboro vence em amargura.

De Paulo, o Silenciário.
Em tudo o que o rodeia, o homem danado vê
A imagem do animal, que o esmordaçou, ferino:
Devo danado estar, ó pálida Cloé,
Pois vejo em toda a parte o teu rosto divino!

Do mesmo:
Dispamo-nos, amor! Nua, abriga depressa,
No meu, teu corpo, que é um jaspe da Lacônia:
A gaze que te cinge, acho-a bem mais espessa
Que as muralhas brutais, que cercam Babilônia!

De um Anônimo:
Enquanto és nova, gozal alia-te ao prazer!
A beleza é fugaz, amiga, não te iludo:
Basta um estio só, um só! para fazer
Dum cabrito gentil um bode cabeludo...

De Lucílio:
Bianor, que primou na arte de pintar
Tem vinte filhos... Zeus! que berros, que gemidos-
O pobre não sofreu! Mas... coisa singular!
Entre os vinte não há dois que sejam parecidos....

Do mesmo:
Quando, vaidosa, pinta as farripas grisalhas,
Temístonoe, que tem a idade de três gralhas,
Em tenra moça não se metamorfoseia
Mas sim em deusa... Olhai: parece a velha Rea!

Do mesmo:
Tendo visto uma noite o seu médico em sonhos,
Diofante, que hoje vive em martírios medonhos,
Nunca mais se tornou a levantar do leito,
Muito embora trouxesse um amuleto ao peito.

Do mesmo:
Demóstenes possui um espelho que lhe mente.
Se o espelho não mentisse, aquela feia harpia
De certo o quebraria
Em vez de o consultar continuadamente.

Do Imperador Trajano:
Se acaso o teu carão o ruivo sol defronta
E a tua boca enorme abres no mesmo instante,
Aos que vão a passar, do teu nariz a ponta
Indica a hora, como um ótimo quadrante.

De Amieno:
Liberto enfim dos mundanais vaivéns,
Seja-te leve a terra, ó maldizente!
Seja-te leve sim... para que os cães
Possam desenterrar-te facilmente!

 

ODES DE HORÁCIO

Et tenuit nostras numerosus Horatius aures,
Dum ferit Ausonia carmina culta lyra.

Ovídio.

A LEUCONOE
Leuconoe, andas mal se o escuro fim defrontas,
Que os Deuses nos darão; babilônicas contas
Não faças. O melhor é desprezar a sorte!
Quer nos dê Jove mais invernos quer a morte
Nos dê neste, que esfalfa entre escolhos maninhos
O mar tirreno, sê prudente, filtra os vinhos
Coarcta o sonho: ao falar, ciosa a vida nos foge...
Que importa o dia de amanhã? Gozemos hoje.

A LÍDIA
Quando gabas, ó Lídia! o pescoço rosado
De Telefo e também os seus braços de cera,,
Nesses instantes, ai! a bílis, que exaspera,
Quase faz estourar meu fígado abrasado.
Foge- me a cor do rosto, e da cabeça o tento,
E pelas faces sem cor, furtivo, deslizando,
Das lágrimas o curso indica o fogo lento
Que me vai cá por dentro o coração minando.

Sinto-me em brasas, Lídia, ao achar, na brancura
Dos teus ombros, sinais duma avinhada orgia,
Ou se, à flor dessa boca, o meu olhar espia
Do moço desvairado, a funda mordedura.
Acredita-me, Lídia! há de ser fugidio
O amor de quem tortura essa boca formosa,
Esses lábios gentis que a Mãe do Amor ungiu
Do néctar, que possui, com a parte mais preciosa.
Três vezes, e ainda mais! felizes, os amantes
Que um forte laço nunca deixa de apertar,
E cujo amor, alheio às questões irritantes,
Só poderá morrer quando a morte os levar.

A CLOÉ
Evitas-me, Cloé, qual veado mimoso,
Que procurando vai, em cerradas boscagens,
A inquieta mãe, candidamente receoso
Das auras e folhagens.
Tremem-lhe o coração e as pernas, quando fita
As folhas que de abril a viração esgarça,
Ou se acaso um lagarto, ao perpassar, agita,
Todo verde, uma sarça.
Leão getúlio não sou, nem tigre que, em daninha
Fúria, te siga afim de te despedaçar:
Deixa enfim tua mãe! és uma mulherzinha,
Precisas de casar!

A VÊNUS
Da amada Cripre sai, tu cujo arbítrio impera
Em Gnido e Pafos, e, p'ra tua habitação,
Vênus! elege a linda casa de Glicera,
Que, ao invocar-te, queima incenso em profusão.
Traze o Menino, que anda eternamente a arder,
Mercúrio, as Ninfas e as três Graças, sem que odiável
Cinto as oprima... e não te esqueças de trazer
A Mocidade, que sem ti é pouco afável.

A ÁLBIO TÍBULO
Álbio! ao lembrar-te de Glicera, essa traidora,
Não chores tanto nem recites com tristura
Versos cheios de dor, só porque um moço agora,
Mais novo do que tu, entontece a perjura.
Por Ciro, arde de amor Lícoris, que tem fino,
Lindo rosto; Foloe manda que a desamparem
De Ciro os olhos... e amará o adulterino
Quando aos lobos da Apúlia as cabras se ajuntarem,
Ordens de Vênus são! Para se distrair,
Compraz-se Vênus nestes jogos odiáveis,
E a uma canga de bronze é-lhe doce jungir
Corpos e almas que são irreconciliáveis.
Linda dama enjeitei eu próprio, ao suportar
Da liberta Mirtale os grilhões (peso brando!),
Mirtale tão hostil como o Adriático mar
Que da Calábria vai os golfos escavando.

AO SEU ESCRAVO
Da Pérsia a ostentação não a posso tragar.
Quando cascas da tília as atam, são-me odiosas
As coroas; meu rapaz, é inútil procurar
Os sítios onde estão medrando as tardas rosas.
Nada ajuntes ao mirto, ó servo diligente:
Fica-te a fronte pelo mirto bem coroada,
Quando me enches a taça; e esta fronte igualmente,
Quando estou a beber sob a fresca latada.

 

CANTO AMEBEU

HORÁCIO
Enquanto te agradei, ó Lídia! e nenhum moço,
Vencendo-me, cingia
Teu nevado pescoço,
Mais feliz do que o rei da Pérsia então vivia.

LÍDIA
Enquanto a todas me preferias com ardor,
E até mesmo a Cloé me achavas superior:
Eu, Lídia, que pertenço a uma ilustre família,
Com tal glória vivi, que me invejara Ília.

HORÁCIO
Hoje adoro Cloé, flor na Trácia nascida,
Insigne citarista e suave cantora;
Por ela, sem receio, abandonara a vida,
Se. ao morrer, lhe tornasse a vida duradoura.

LÍDIA
De Ornítio, natural de Túrio, o filho queima
Meu coração, que por seu turno queima o dele;
Chama-se Calais: duas mortes com fleima
Eu aturara, p'ra dar vida a esse donzel.

HORÁCIO
Que farias se o Amor, que nos uniu outrora,
Ao seu jugo de bronze agora nos unisse,
E se, depois de eu despedir Cloé, a loura,
A ti, que eu desprezei, minha porta se abrisse?

LÍDIA
Embora Calais vença em luz os espaços.
Embora sejas como a cortiça erradia
E iroso como o Adriático, em teus braços
Viveria feliz e feliz morreria.

A CLÓRIS
Do pobre Íbico, ó esposa!
Um termo põe enfim à tua corrupção,
Às vis ocupações dessa vida ascorosa.
És velha, vais morrer: não te entremetas, não,
Nos brincos das donzelas,
Não vás enevoar as cândidas estrelas.
O que a Foloe vai bem, não te vai bem a ti:
Deixa que tua filha invada, com ardor,
Dos mancebos a casa, em doido frenesi,
Qual bacante inflamada ao rufo do tambor;
O amor de Noto a faz andar num corrupio
Tal, que parece até uma cabra com cio.
Entretém-te a fiar, Clóris, a lã das rezes
Da Lucéria imortal: já não te ficam bem
As liras, da roseira a flor purpúrea, nem
Os banquetes em que se esgota o vinho e as fezes.

A DIANA
Virgem, que estás guardando as montanhas e as matas,
Deusa triforme, que, três vezes invocada,
Ouves a jovem mãe e da morte a arrebatas
Quando sofre no leito, ao parir, angustiada:
O pinheiro que ensombra o meu casal, dedico-o
A ti, e, bem contente,
Dum varrasco, que já ensaie o olhar oblíquo,
Com o sangue hei de aspergir o seu tronco, anualmente.

A VÊNUS
Até há pouco, fui olhado com paixão
Pelas donzelas, e com glória combati...
O alaúde, que já cumpriu sua missão,
E estas armas marciais, deixo tudo hoje aqui,
Neste muro, que da marinha Mãe do Amor
À esquerda fica. Amigos meus: tochas luzentes
E alavancas também, vinde-as aqui depor
E os arcos sempre hostis às portas resistentes!
Deusa que tens de Chipre a ilha bem-ditosa,
E Mênfis, que jamais viu a sitônia neve,
Com o açoite divinal fustiga a orgulhosa
Cloé... Porém, rainha, açoita-a bem de leve... 



EPÍLOGO

Das pirâmides reais ultrapassando a ponta,
Mais durável que o bronze, um monumento fiz;
Nem a chuva voraz, nem os ventos hostis,
Nem do tempo o fugir, nem os anos sem conta.
O abalarão! Não morrerei inteiramente!
Uma parte de mim fugirá certamente
A Libitina; e sem na idade achar quebranto,
No porvir, minha lama há de crescer enquanto
Subir ao Capitólio o Pontífice, ao lado
De muda virgem. Lá, onde o Áufido irado
Brame, e onde Dáuno governou a dura grei
Dum agreste país, dir-se-á que fui eu quem,
Ilustrando o meu berço, a eólia feição dei
A poesia latina. O Melpomene, vem,
Vem, favorável mas justamente altaneira,
Com os louros délficos cingir-me a cabeleira!


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023. 

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