12/29/2023

Comandante dos burros (Crítica, 1933), por Graciliano Ramos


COMANDANTE DOS BURROS

Quando Lampião esteve no município de Palmeira dos Índios, onde se demorou alguns dias mandando bilhetes para a cidade e sem poder entrar nela, trazia mais de cem homens que não se escondiam na capoeira nem transitavam em veredas. Corriam pela estrada real, muito bem montados, espalhafatosos, pimpões, chapéus de couro enfeitados de argolas e moedas, cartucheiras enormes, alpercatas que eram uma complicação de correias, ilhós e fivelas, rifles em bandoleira, lixados, azeitados, alumiando.

O major José Lucena, chefe do destacamento que perseguia bandidos, notando a pequena eficiência da sua tropa de peões, entendeu-se com os proprietários sertanejos, que lhe ofereceram cavalos e burros para o restabelecimento da ordem. Houve algumas escaramuças e Lampião deixou Alagoas, tomou rumo para o Rio Grande do Norte, entrou em Mossoró, onde Jararaca morreu e a cabroeira se espalhou.

Os burros se tornaram inúteis.

O major Lucena separou-os em dois lotes, mandou um deles para um engenho de Viçosa, o outro para uma povoação de Palmeira dos Índios.

Nesse tempo o sr. Álvaro Paes, que projetou e iniciou trabalhos excelentes de organização municipal, viajava todas as semanas pelo interior do estado. Foi um viajante incansável e chegou a conhecer perfeitamente as árvores e os homens do sertão. Um dia parou num povoado, com o intuito de ensinar aos matutos a cultura da pinha, da mamona e de outros vegetais que se desenvolviam bastante na imprensa da época. Estava tratando de convencer o maioral da localidade quando se aproximou dele um soldado com duas fitas, um botão fora da casa, chapéu embicado, faca de ponta à cinta. Continência e apresentação:

— Pronto, seu governador, cabo Fulano, comandante dos burros do major Lucena.

Era o encarregado de tomar conta dos animais que tinham servido para afugentar Lampião.

Esta história podia findar aqui, mas não serão talvez excessivas algumas palavras sobre a classe a que pertencia esse extraordinário comandante.

Horrível. Sujeitos insolentes, provocadores, preguiçosos.

A parte mais forte da nossa população rural está com Lampião — os indivíduos que dormem montados a cavalo, os que suportam as secas alimentados com raiz de imbu e caroços de mucunã, os que não trabalham porque não têm onde trabalhar, vivem nas brenhas, como bichos, ignorados pela gente do litoral.

Os que têm coração mole encontram-se, quando o verão queima a catinga, numa situação medonha. Três saídas: morrer de fome, assentar praça na polícia, emigrar para o Sul. Antes da morte, da emigração ou da farda, essas criaturas são maltratadas pelas diligências, que não querem saber quem é bom nem quem é ruim: espancam tudo.

O caboclo apanha bordoada sempre: apanha do pai, da mãe, dos tios, dos irmãos mais velhos; apanha do proprietário, que lhe toma a casa e abre a cerca da roça para o gado estragar as plantações; apanha do cangaceiro, que lhe raspa o osso da canela a punhal e lhe deita espeques nas pálpebras para ver a mulher, a filha e a irmã serem poluídas. E se um inimigo vai à rua e o acusa, o delegado manda prendê-lo e ele aguenta uma surra de facão no corpo da guarda, outra de cipó de boi no xadrez, aplicada pelo preso mais antigo, que recebe os quinhentos réis do torno e é o juiz da cadeia.

Suporta esses últimos tormentos resignado, quase com indiferença, porque enfim prisão se fez para homem e apanhar do governo não é desfeita.

Às vezes morre das sovas. Outras vezes atira-se para São Paulo, para o Espírito Santo, para algum lugar onde haja café. Ou espera que a lagarta coma o algodão e as cacimbas se esgotem.

Nesse ponto sente ódio a Deus e aos homens, que o tratam mal. Tem vontade de vingar-se. Pede um cartão ao doutor juiz de direito, vende o cavalo, arranja o malote e marcha para a capital, donde volta alguns meses depois, transformado, calçando perneiras, vestindo uniforme cáqui, falando difícil, terrivelmente besta, desconhecendo os amigos e perguntando o nome das coisas mais vulgares.

Abre as vogais escandalosamente, diz: Éxercito, sérviço.

Anda a peneirar-se, todo pachola, com o quepe de banda, a grenha aparecendo por baixo da pala.

Bebe, não trabalha, dorme demais.

À noite mete-se nos botequins dos bairros safados ou derruba as portas das meretrizes.

É mais ou menos casado com uma sujeita que lhe prepara a comida, lava a roupa e possui um baú de folha, um sagui e um papagaio.

Vai aos batuques de ponta de rua, sem ser convidado, e é bem recebido. Muita consideração. Mas quer dançar com todas as damas, e se alguma lhe mostra má cara, faz um barulho feio: apaga-se a luz e a festa acaba em pancadaria.

É vaidoso, cheio de suscetibilidades. Importância imensa. Em horas de aborrecimento sai à calçada do quartel, nu da cintura para cima, e grita:

— Esta terra não tem homem.

Como nenhum homem responde, torna a gritar:

— Apareça um. Ninguém aparece.

Vai para as encruzilhadas tomar as facas dos matutos. Os matutos que têm facas levam murros porque são desordeiros, os que não têm facas levam murros porque são mofinos.

Levam murros e sentem, como é natural, o desejo de ser soldados; o desejo de cochilar horas e horas, de papo para cima, sem obrigações, sem exercícios, sem a botina quarenta e quatro a apertar-lhes os calos; o desejo de beber vinho branco na feira e pisar os pés dos pobrezinhos que só têm armas fracas: o buranhém e a quicé de picar fumo; o desejo de comer em demasia; o desejo de tomar as mulheres dos outros; o desejo de comprar fiado nas bodegas, sem intenção de pagar.

Um cartão do doutor juiz de direito, do doutor promotor público ou do coronel chefe político tem muito valor.

Entrouxam a roupa e embarcam.

Quando voltarem, dormirão tranquilos, baterão nas prostitutas, beberão cachaça nas toldas, em companhia do inspetor e do subdelegado. E serão, com a ajuda de Deus, alguma coisa grande. Comandante de burros, por exemplo.


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2024. 

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