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1/21/2020

"O Despertar" (Poema), de Alfred de Musset



Poema: "O Despertar"
Autor: Alfred de Musset
Tradutor: Joaquim Serra
Ano: 1868
Revisão ortográfica: Iba Mendes (2020)


O DESPERTAR
(ALFRED DE MUSSET)

Desperta, ó minha bela,
Que, embaixo da janela,
Do teu ginete as vozes
Estrugem, quais trovões!
Dos lestos picadores,
Nas mangas de mil cores,
Apoiam os pés ligeiros
Os rápidos falcões!

São prontos os teus pajens.
Que belas equipagens!
As plumas dos sombreiros
Flutuam tão gentis!
Conduzem as hacaneias
A destra, pelas rédeas,
E trazem em punho e cinta
Venábulos e fuzis!

No prado pula e brilha
Veloz, leve matilha;
São galgos que farejam
A fera no covil!
Desperta, minha amada,
Te espera o teu ginete;
Serena a madrugada
Raiou no céu de anil!

Agora que te vestes,
Que linda te preparas,
Esconde as pomas raras,
Teus seios de marfim...
E deixa os olhos cúpidos,
Em meio dos adornos,
Adivinhar as formas,
Os túmidos contornos,
Nas pregas do cetim!

Compõe o teu toucado,
Arranja esses cabelos,
Em fúlgidos novelos,
Em flácidos bandós,
Mas crê, que o lindo ornato,
Não os torna mais brilhantes,
Do que quando os desato
Assim que estamos sós!

Esconde os teus encantos,
Nas dobras da mantilha,
Os teus primores tantos,
Que fazem delirar!
Vem! deixa que eu te eleve
Bem como uma criança,
E no selim, de leve,
Eu vá te colocar!

1/20/2020

"Namouna", de Alfred de Musset



Poema: "Namouna"
Autor: Alfred de Musset
Tradutor: Joaquim Serra
Ano: 1868
Revisão ortográfica: Iba Mendes (2020)

NAMOUNA
(ALFRED DE MUSSET)

(Fragmento)

O sofá em que Hassan estava deitado,
Era coisa no gênero formosa:
Pele de urso, de um urso delicado,
Sedoso como o arminho, ou como a rosa.
Hassan guardava um ar nobre e ousado,
Estava nu como Eva não culposa.

Como nu! me dirão, que história é essa?
Começa o poema nu, como isto finda?
Perdão, Senhor, o conto meu começa
Quando o herói sai do banho, em pelo ainda.
Concedam-lhe o perdão, feita a promessa
Repito: — estava nu, qual mão bem linda!

Nu qual prato, qual muro de uma igreja,
Como discurso vão da Academia...
A leitora não core, atenda e veja
Que, banida a nudez, ninguém diria
Que o SEU colo e a sua perna fazem inveja,
Pois se afirma o que vê-se à luz do dia.

Embora alegue o instante que entra em sege,
Que passa a ponte em dia de rajada,
Que a perna e p pé a roupa mal protege,
E que explica de mais um pé de fada...
Quanto a mim imagino que se almeje,
Que o resto diga o amante, oculte nada.

Onde o crime de estarmos à vontade,
Quando o calor referve e está daninho?
Acredite a leitora que, em verdade,
Estar na cama nu é um gostinho...
Se fosses minha o viras... ó deidade!
Gritarias um pouco, mas baixinho...

O que prezamos nós no ente querido?
Broche de ouro, pulseiras, brincos, pente?
Serão sedas, bordados do vestido?
Não, o que se ama em vós sois Vós somente.
Os enfeites são armas, praz à gente
Tomar armas depois de ter vencido.

Tudo é nu a não ser a hipocrisia,
Assim no imenso Céu, na terra imensa;
A infância, a divindade, a lousa fria,
As almas que de Deus gozam a presença,
E, portanto, o herói desta poesia
Continua a estar nu, se dão licença.

Reina silencio: a náiade peneira
Gotas finas, que vão escorregando
Sobre a pele do moço, em quanto brando
É o ruído da água na banheira,
A sair fugitiva, se escoando
Ao som da cantilena da torneira.

Já o sol se deitara no poente,
Era em setembro, um mês aqui bem feio,
Mas belíssimo em terras do Oriente.
Hassan fechou com o pé a porta à meio.
E, fumando ópio e aromas, feliz ente!
O sono convidava sem receio!

Bem que fosse de talhe sem grandeza,
Era homem valente e mui bem feito;
O semblante adornado de beleza,
Indicava o valor daquele peito.
Procurando fazê-lo mais perfeito,
A mãe, como que o fez com vagareza.

Era muito indolente, mas teimoso,
Delicado, macio, a pele fina,
Barba escura e gentil, mãos de menina,
Nobre aspecto viril, gesto nervoso.
Seus olhos tinham luz quase divina,
E os cabelos... eu fico silencioso.

Na Tartária dispensam tal usança,
Ele a moda adotou sendo estrangeiro,
Pois que tinha por pátria a bela França.
Hoje rico, ontem rude aventureiro,
Renegou do passado, e ao mar ligeiro,
Lançou família e pátria, única herança.

Ele era folgazão — mas de venetas,
Mau vizinho — , excelente camarada,
Muito fútil — , dizendo coisas certas,
Alma ingênua — , porém muito estragada,
Sincero horrivelmente — , mas em tretas
Amestrado... Recordam a serenada

Que canta Don Juan sob a janela?
 — Que canção tão travada de tristeza
Melancólica e terna que é aquela! —
Mas, ao canto acompanha com estranheza
A guitarra, num tom, numa presteza
Que parece zombar da canção bela!

A letra acaricia o instrumento,
Que pérfido maltrata a langue trova,
Como que faz ridículo o juramento
Zombando dos afetos que ele prova!...
Agrada essa ária assim. É coisa nova
O amar e trair num só momento?

Chora-se rindo — ás vezes o culpado
É a um tempo inocente; — a alma perjura
Pôde sincera ser — e o braço armado
Não c tirano sempre. — A criatura
É do bem e do mal uma mistura,
E Hassan como os mais era formado.

Na força da expressão era um bom moço:
Muito bom, muito moço, era excelente;
Mas, querendo uma coisa, era insistente,
Far-se-ia tão duro como osso!
Variava de gostos com alvoroço,
Era o oceano mudado em continente!

Sendo muito volúvel, quem diria
Que odiasse o imprevisto na sua vida!
Uma mosca no chão não pisaria,
Mas, se achasse-a no copo ou na comida,
Levava à pau a súcia que o servia!
Boa ou má era esta alma assim fundida?

Depois d'isto me cantem a ladainha,
Que a alma humana nos sirva de modelo;
Que estudemos o homem ao descrevê-lo!...
A alma humana de quem? A da vizinha?
Mas essa tem um molde menos belo
Que o molde onde vazaram-te, alma minha!

A vida é feita assim; esta que eu passo,
Inda endiabrada, é vida, eu o atesto...
Dizem que eu me retrato traço à traço
Neste herói; eu afirmo que isso é falso.
Tomo o nariz aqui, ali um gesto,
Deste a barba, de outro eu tomo o resto!

“Então criais um monstro, uma quimera,
Fazeis filho sem pai”... A graça é fina!
Quem diz isto, meu Deus, não considera
Nesta obra tão minha e tão divina!...
E, est pater quem nuptiae... Não quisera
Vir agora falar língua latina!

11/01/2017

Um romance desconhecido (Conto), de Alfred de Musset


Um romance desconhecido (lenda alemã)

Tradução publicada na "Revista da America", início do século XX. Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Contaram-me na Alemanha uma lenda, ou uma balada, como quiserem, que guardei, não porque contenha coisa muito notável, mas pelo seu horrível desenlace.  Infelizmente não a traduzi; não fiz mais do que procurar lembrar-me mais ou menos do assunto e do estilo. 

Em uma cidade alemã, pouco distante das margens do Reno, viviam os dois irmãos Van Buck, que passavam, com justiça, por hábeis gravadores. 

Acostumaram-se a ir quase todas as noites, depois de jantarem, a casa de um velho ourives seu vizinho. Este honrado homem que se chamava Thomaz Hermans, recebia-os em sua oficina, ao calor do lume com um grande cachimbo na boca.

Não eram muito animados os serões que passavam os três; os dois irmãos eram de um natural bastante taciturno, e o ourives, ainda que tivesse o olhar animado, contudo os trabalhos a que se entregava durante o dia preocupavam-no bastante para tornarem-no distraído e pouco acessível. 

Todavia, os três se entendiam perfeitamente e nem por isso se estimavam menos pela conformidade de gênios; era raríssimo que, ao passar de noite pela oficina de Hermans, não se apercebesse através dos vidros as cabeças dos três amigos em redor de uma lâmpada, e, a maior parte do tempo, de uma grande jarra com cerveja. 

Uma noite (havia pouco tempo), o velho Hermans mostrou-se mais alegre que de ordinário. 

— O que é isso? perguntaram-lhe os gravadores; por Deus, que tendes uma nova alegria estampada no semblante. 

— Meus filhos, replicou o velho ourives, amanhã minha filha sai do convento; está terminada sua educação, e me vês, meus dignos amigos, meus queridos vizinhos, com uma alegria que até me dá vontade de dançar sobre esta mesa. 

É preciso notar que o honrado Hermans queria tanto bem aos padres como a uma peste. Porém uma irmã velha, rica e devota, exigira que a sobrinha entrasse para um convento, e com pesar consentiu nisto o sábio calculista. 

— Sim, meus filhos, haveis de vê-la: que cócegas sinto nas mãos para afagar-lhe as faces! 

Os gravadores apertaram-lhe afetuosamente a mão, e o resto do serão passou-se falando-se na senhorita Guilhermina. Como estará bonita! dizia o velho. 

Nesse dia a jarra da cerveja foi substituído por uma garrafa bem rolhada e lacrada, e ficou combinado que no dia seguinte os dois vizinhos lá iriam jantar. 

Tiveram a precaução de não faltar. Vestidos com seus trajos domingueiros, dirigiram-se ao lusco-fusco, à casa de seu velho amigo e sentaram-se à mesa quase imediatamente. Apenas Thomaz Hermans deu um formidável murro na mesa capaz de quebrar os vasos, a fim de manifestar seu contentamento. A jovem com passo tímido e braços descabidos, sentou-se, toda ruborizada entre os dois moços. 

O jantar correu silenciosamente, apesar dos esforços que empregava o ourives, o qual depois de haver esgotado em primeira explosão de alegria, viu-o obrigado a contentar-se em olhar sorrindo para sua querida filha. 

Os gravadores conservaram uma atitude fria, e entraram a olhar-se. 

À noite quando voltaram para casa, deitaram-se sem trocar uma palavra, contra o costume, que era discorrer sobre os acontecimentos e trabalhos  do dia, e como dormiam no mesmo quarto prolongavam a conversação até hora muito adiantada da noite. 

Os dois irmãos Van Buck amavam-se ternamente; viam-nos em todos os lugares, no passeio, nas festas, em casa e que preferiam a tudo. Tinham o mesmo talento, e o trabalho de um era firmado às vezes pelo outro. Dir-se-ia que a fisionomia de um estava esculpida na do outro. Nunca se vira sob as abóbadas celestes mais bela união. Era, pois, muito de estranhar que evitassem a conversação, e olhar. Teriam dado motivo de mortificação ao seu bom vizinho? 

Assim passou-se a noite, sem que nenhum deles pregasse olho. A luz iluminava a casa, e cada momento volviam-se nos leitos, suspirando.

Era evidente que ambos haviam recebido ao mesmo tempo um profundo golpe: amavam Guilhermina. 

Passou-se uma semana sem trocarem um aperto de mãos. Um silêncio pertinaz reinou na oficina, e cada um deles, curvado na prancha de cobre, não voltava a cabeça um só instante. 

No último dia dessa triste semana, estava o velho Hermans sentado no umbral da porta, em frente de sua filha. 

— Não me tinhas dito, querido pai, que veríamos todas as noites os dois irmãos Van Buck? 

— É verdade, respondeu o ourives, que há oito dias não aparecem! É singular! 

— Porventura serei eu a causa? disse Guilhermina. Desde que cheguei deixaram de aparecer.

A estas palavras pronunciadas ingenuamente, o ancião inclinou a cabeça e conservou-se por muito tempo calado. 

— Oh minha filha! minha querida filha, exclamou por fim, levando aos seus ressequidos lábios a mão roliça e mimosa da jovem. Esses monges ensinaram-te sem dúvida a detestar o amor; ensinaram-te porém eles a resistir-lhe? Oh! por Deus! não contarás a teu velho pai algumas noites de verão? 

Guilhermina por única resposta, sacudiu a cabeça e sorriu. 

— É doce teu sorriso, meu anjo, tão doce como mel. Permita Deus que nunca se troque em lágrimas. 

— Ah! meu pai, me julgais tão bela para ser tão desgraçada?

Nessa ocasião apareceram-lhe os dois gravadores. Guilhermina retirou-se logo que chegaram.

— Vimos tua filha Hermans, disseram eles, e perdemos o sono. Falemos com franqueza; queres um de nós para genro? Perguntai-lhe a qual prefere ela e desse será legítima esposa. Nossas oficinas estão tão cheias de operários como as tuas; é magnífica a nossa freguesia. Vê o que decides? 

O ourives estendeu-lhes as mãos. 

— Peço-vos três dias. É muito? disse ele. Já vejo que estais apaixonados. 

— É verdade, responderam os gravadores; amamos tua filha, não é preciso deixar-nos tempo de amá-la, sem esperança de curarmo-nos deste amor. 

Apenas à noite a jovem ousou levantar os olhos. Sabia qual o escolhido. 

No dia seguinte o Velho Hermans endereçou aos dois irmãos uma carta concebida nestes termos:

“Minha filha viu-os ambos; estimará Tristão como esposo e Henrique como irmão. Oxalá esta confissão que lha arranco com trabalho, seja por vós recebida como deve sê-lo. Vosso velho amigo espera-vos para estreitar em seus braços toda a sua família.”

Estavam estes nobres corações convencidos de que aceito um o outro deveria calar-se para sempre. Tais são, infelizmente os pactos que se fazem antes de conhecer a sorte. Henrique, que havia tomado a carta do ourives para lê-la, não pôde terminá-la; largou-a sobre a mesa, e pálido como a neve, caiu sobre um escabelo. 

No entanto, continuaram vivendo juntos o em boa harmonia. Dirigiam-se ambos, como de costume, à casa do ourives. O afortunado noivo fazia a corte à sua futura esposa. O próprio Henrique esforçava-se por manifestar alegria, e somente a palidez que se lhe via no rosto contrastava com a calma que afetava. 

***

Um dia em que os dois irmãos se dirigiam para casa, pararam no meio de um bosque, fatigados de andarem e deitaram-se no musgo. 

— Tristão, disse Henrique Van Buck, há muito que me reconcentro; é necessário que te abra minha alma. É impossível que cases com a filha desse ourives. 

— Meu irmão, replicou Tristão, é assim que te recordas das leis da honra? 

— Sei que falto a estas leis; refleti muito sobre elas antes de falar-te; mas olha-me, já não vivo, conheço que a morte aproxima-se, e, apesar disto, sinto que o pouco sangue que me resta nas veias queima-me como fogo. 

— Vejo, respondeu Tristão, julgas que não sofro muito vendo-te reduzido a tal extremo? Ah! perco talvez toda a minha alegria, porém que remédio posso eu dar a teus sofrimentos? 

— Nenhum, meu irmão, não te peço senão um favor, e suplico-te, que mo concedas. Não te cases com essa jovem antes de minha morte. 

— De tua morte! exclamou Tristão. 

— Sim, meu querido Tristão, assim é necessário. Exijo que me dês a tua palavra, pois se eu fosse obrigado a firmar o teu contrato... 

— Não, meu irmão, é impossível que morras em tal desespero. Queres que te prometa uma coisa que só ao lembrar-me gela-me o coração? 

Ao dizer estas palavras, Tristão olhou para o irmão e viu a palidez da morte em seus lábios. 

— Querido Henrique! exclamou, prefiro ceder meus direitos a deixar-te morrer assim. Casa-te com ela, eu te peço, e me transporei para o outro lado dos mares. 

— Que eu me case! exclamou Henrique. Acaso podes transmitir-me com os teus direitos o amor que ela consagra-te? É preciso que um de nós morra, acrescentou com voz sombria. Sua mão tremia e brandia a faca. 

— Sim, respondeu Tristão. 

Ambos se levantaram maquinalmente. 

— Só vejo um meio, disse Henrique. 

Ambos empunharam as facas e puseram-se em guarda. Porém habituados a esgrimir juntos suas  armas e conhecendo todo o jogo, rara vez se alcançavam. Durou uma hora inteira, atiraram-se furiosos golpes, descansando de vez em quando com as costas já retalhadas por profundas feridas. 

Durante uma dessas pausas ouviram os tambores dar sinal que os habitantes da cidade já se recolhiam. Era a hora em que tantas vezes haviam entrado juntos, com os braços entrelaçados, alegres ou tristes, e os pés cobertos de poeira, conversando sobre seus mais secretos pensamentos. Toda a sua juventude desenvolveu-se-lhes ante os olhos. 

O sol estava quase a declinar; seus raios deslizavam por entre os velhos pinheiros, sobre a colina coberta de folhas secas. O rocio da tarde molhara a vegetação, e as aves saudavam a noite. Tristão voltou a cabeça; viu no vale os campanários da cidade natal que saíam da neblina e o rio estender-se sobre o brado como uma serpente branca no ervaçal.

Comoveu-se; deu um passo para o irmão e estendeu-lhe à mão. Porém apoderou-se de seu espírito uma debilidade moral; encostou-se a uma árvore, escorregou e caiu.

Henrique completava com horror os últimos esforços de seu irmão para recobrar a vida; queria arrastar-se até ele, mas não podia mover-se. Banhado em sangue, de pé e imóvel, vacilava como um homem ébrio.

Estes infelizes tiveram uma mãe que os amava muito. Do fundo do vale, no crepúsculo, uma forma vaga pareceu destacar-se de improviso, adiantou-se até eles. Subia lentamente a colina, e ao passo que se aproximava, os filhos reconheceram que era sua mãe.

Na ocasião em que o espectro aparecia visível, o que estava de pé, deixou por um último esforço o lugar em que estava pregado, e foi arrojar-se nos braços do que jazia por terra. 

Assim os dois, cobertos de sangue e de lágrimas, expiraram em um último abraço.