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11/30/2017

Diálogo com uma águia (Conto), de Antônio Patrício


Diálogo com uma águia
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Fui jantar ontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguém. Tudo deserto. Quando eu desci do restaurante, a acender um Laferme com preguiça, caía a tarde de outono em vitrais ricos para além das ramarias a despir-se. Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo ao acaso, fui estacar nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águia velha. Há que tempos conheço este mostrengo, num abandono de asilo, de ar pedinte, com asas que diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutro de miséria!... Uma águia isto, este espantalho! A decadência reles de estas asas que tanta vez olhei com indiferença, nem eu sei bem porquê, impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeu sol de olhos abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois de carnagens e aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirar a um meio-bife, como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve uma forma assim aquela águia que saboreou Prometeu numa montanha!

A gaiola está sórdida, está imunda. Antes estivesse empalhada num museu, ou no quarto de trabalho de um zoólogo, sócio da Academia, homem de estudo, que ao voltar da rua ou da glória, lhe pendurasse do bico o chapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um calafrio, que pronunciara alto este “coitada”, com uma voz que a mim mesmo surpreendeu pela inflexão perturbante de quinto ato. Olhei a águia. Vi-a encolher-se toda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma dor aguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corar dos pés ao coco, e com uma voz que não era a voz da fábula, sem nada de lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata, arrastada e roufenha, quase gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:

— Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim isso aí fora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...

Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcaça de águia a falar alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei naquele instante; mas o dolorosíssimo desprezo com que ela me chamou isso aí fora, com que ela ouviu que um isso a lamentava. Deitei fora o cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdém escondendo a irritação que me excitava, e premindo a bengala contra o queixo, retorqui-lhe benévolo e grosseiro:

— Não percebo o seu desprezo, não me atinge. Eu não disse “coitada” pra ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é lamentável. Para mais, conforme vejo no letreiro, foi um comendador que a ofereceu... E a gaiola...

— Que tem? Falta de estilo?

— Está cheia de excrementos. Está indecente.

— Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sobre o granito cariado duma esfinge... Cenários, digo-lho eu, literatura...

Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta estirpe, de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste poleiro onde agora a ouvia perorar num claro entardecer de intimidade, com idílios de guardas e criadas, raros bebes jogando às escondidas e um homem a varrer as folhas secas. Coçava-se a hesitar, com o bico baixo. Sacudiu as longas asas poeirentas e com uma voz de sono, começou:

— De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das minhas ancestrais, como agora se diz, fez viagens épicas na Judeia, e num crepúsculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira de nuvens, viu pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo desceu ao morro numa gula tão doida, que ensanguentou no ar de seda as asas bravas... Rasgou o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida, doida, na alucinação desse manjar patético, de martírio divino e desespero. Porque ela ouviu a confidência do Herói meigo... Mas não posso contar-lha, nem mais pio! É um segredo de família, é o meu segredo.

Amuei, retorqui num tom mimalho:

— Mas então, se não podia contar, para que me falou nisso? Eu sou de uma curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.

— Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segredo herdado e não traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E quer agora o senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o pagou) violar o murmúrio que tem séculos, e é a última vibração daquele espírito que vestiu de nebulosas toda a Vida... Sabe que mais? Estou já arrependida de falar.

— Não se zangue. Juro-lhe, juro-lhe que não digo nada a ninguém. Se soubesse o que eu sei!... Segredos de família, dramas... dramas...

Esperei um instante ansiosamente. A águia inteiriçou-se, sem me olhar, bicando longes de memória, de saudade:

— Não sei que tenho hoje. Velhice, morte próxima talvez, pressentimentos... Quando essa avó longínqua cravou as garras no peito desse Réu, e lhe bicou o coração e bebeu sangue, sentiu que enlouquecia, que era outra... Como se ferisse uma irmã, teve remorsos; fixou os olhos bêbedos de sol nos olhos dele, refrescou-lhe com as asas a cabeça, empastada em suor, de um verde lívido...

A cruz que estremecia, ficou hirta. E foi então, foi então que Ele lho disse...

— Mas o quê? O quê? Diga depressa.

— O segredo, senhor, o meu segredo.

— Mas qual é afinal? Quere torturar-me...

— Renegou-se a si mesmo. Retratou-se! Disse o remorso de não ter vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser virgem, de morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu, o de um cadáver... As estrelas que nasciam no céu dúbio eram pro Moço Hebreu pólen dourado, e a sua alma moribunda abria toda como os hortos ideais da Galileia... O peito arqueou-lhe mais, contracturado... Queria largar a cruz para poder dar-se, à terra desse cerro, a alguma forma, a um corpo de mulher, a alguém, a alguém...

A voz da multidão pela ravina era um marulho de ressaca mui confuso, e Ele sentiu entre pragas e risadas, entre os lamentos e os insultos que silvavam, sentia vozes de mulher... ouviu, ouviu-as... Só elas Ele ouviu, ouvia sempre... Queria falar ainda, quis falar-lhes e pedir-lhes perdão do que lhes disse, com parábolas mentirosas de doçura e com olhos de lago sem desejo... Esvaía-se em sangue, ia azulando. Foi então que a minha avó num voo lento, lhe emoldurou nas asas côncavas a Face... e que ela ouviu, senhor, e que ela ouviu...

Calou-se um instante imóvel no poleiro. Reparei. Era o guarda que passava.

— Já não sei onde ia. Estou com febre. Ah! No que ouviu a minha avó naquele instante... Quando eu penso nisso, quando penso... Imagine, se pode, ora imagine... Ele que era um Adivinho, Ele o Vidente, num desses instantes de gênio que abrem séculos, previu, previu bem claramente, como se mentiria à Vida em nome dele, a morte da Beleza e da Alegria, a Tristeza e a Doença em nome dele, séculos e séculos de vida envenenados por o sangue de amor que Ele vertera, e iria embebedar os homens muito tempo, para sempre talvez, talvez para sempre. Sentiu então que a querer salvá-los, os perdera... Certo, esse instante de dor sempre ignorado foi o maior de dor que alguém viveu. E como Ele a diria, como...

— Em que língua falou? Foi em hebraico?

— Foi na língua das asas que Ele o disse. Não lha posso ensinar, já me não lembro. Quando me engaiolaram, esqueci-a. Mas que impressão lhe faz o meu segredo? Se os homens o soubessem, seria Ele na verdade o Redentor...

— Sim, sim. É bem justo o que me grasna. Shelley tê-lo-ia amado como irmão, e Nietzsche, o próprio Nietzsche...

— Bem sei. Esse afirmou com pompa lá pro Norte, que Ele decerto se teria retratado se tão cedo o não crucificassem. Foi minha mãe que o disse a Zaratustra. Zaratustra ouviu mal, não disse tudo. A verdade é assim, como eu lha conto. Parece que os homens riram do filósofo, acharam tudo isso uma tolice...

— Acharam...

— E afinal esse Hebreu crucificado, no instante supremo de tortura, quando para além das nuvens o esqueciam, chamava só por Pan, o grande Pan! Se os homens soubessem isto e o entendessem, teria o grande Pan ressuscitado. Seriam brancas estas pobres asas.
— Brancas? Por quê?

— Durante séculos tivemos asas brancas, todas nós, águias da minha estirpe. Foi só depois que Pan morreu, que elas ficaram pretas, como luto. Quem se lembra de Pan por estes tempos?...

— Os que sabem amar, os que ainda amam.

— Os que sabem amar!... Esse Hebreu mesmo só conheceu o Amor no alto da cruz. Viveu como um fantasma transparente, com sonho nas artérias e nos olhos... Só escoado em sangue, no madeiro, viu nos olhos da minha avó sanguissedenta, dois espelhos do Amor, irmão do sangue...

— Conhecem lá o amor aves de presa!

A águia crispou as garras no poleiro e casquinou um riso muito seco, que soava sem timbre, como tosse. Depois mudou de aspecto. Começou a tremer, toda friorenta, as asas como andrajos mais pendidas, e nos olhos de febre, muito fitos, uma grande saudade que varava.

— O amor das águias... o amor das águias...

— Que tem? Está comovida. Conte-me o seu amor. Sou todos ouvidos.

— O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Já não posso dizer-lho. Vai tão longe!... Sou uma velha tonta, sem memória, um farrapo de penas para escárnio. Nem olho o sol em face há muito tempo. O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Coisas sem forma... nuvens... nostalgias...

Fez uma pausa. Parecia mais adunca, mais mirrada.

— No convés de um navio abandonado, amei no mar do Norte, aos vagalhões, noites e noites, bêbeda de espuma... Havia a bordo um marinheiro morto. Lembro-me bem. Que noites! Que mar alto!...

Tive um ninho e filhos pequeninos, num jardim vago, ao sol da meia-noite... Que silêncio! Sentia-o a passar por entre as garras...

Ensandeci de gozo no deserto... Ouvi a Esfinge falar, ouvi a Esfinge, quando o sol lhe fendeu todo o granito, pôs ranhuras de dor nos olhos átonos, e escancarou a boca em rictos duros... O que eu ouvi à pobre?

Soluçava!... Eis o enigma afinal, o grande enigma, à hora das miragens, do delírio, quando o sol enraivece, é só desejo, e o deserto urra no silêncio, e as areias escaldam e o ar zune... Amei... amei... amei na terra toda... Desfraldei o desejo, cravei garras. Olhei o mar saciada e compreendi-o.

— Tem saudades do mar, aí na gaiola?

— Como um marinheiro preso... doidamente... O que eu viajei, o que eu viajei por sobre a espuma!... Sei as lendas do mar como ninguém. Contou-mas numa rocha um corvo antigo. Como sabe, os corvos vivem séculos... Sabia-as todas esse velho amigo... naufrágios e terrores... dramas da névoa... O mar! O mar! O que eu amei no mar! Mas o senhor não compreende, o senhor não sabe. Que sabem do Amor os homens todos?... Foi esse Hebreu, sem querer, que os desgraçou. Fizeram ao Desejo o que fazem às águias quando podem... Está como eu o Desejo: engaiolaram-no! Fizeram do Amor isto... um dever! Um dever... um dever... um dever triste! Empalaram-no em leis, codificaram-no. Até fizeram isso... o casamento! E vivem em gaiolas, os seus lares! Raça de escravos! Se esse Hebreu os visse...

— A senhora é uma águia, não percebe... Eu não posso explicar-lhe a Sociedade...

A águia olhou-me com um desprezo frio.

— O quê? Não sei? Sei mais do que Balzac. Eu li-o todo em casa de um burguês. Vivi lá dez anos de amarguras. Estive presa primeiro no quintal. Depois cortaram-me as asas e soltaram-me. Soltaram-me mutilada pelas salas... Canalha! O que eu odeio os homens... As crianças, veja o senhor os anjos!... arrancavam-me as penas, espetavam-me o corpo com agulhas, e um dia um criado, na cozinha, tentou picar-me os olhos às risadas, a rir, a rir... como só riem homens. Sofri dez anos entre essa canalha. Era uma gente séria, muito séria. Vi a Família, a Tradição, vi tudo. Não queira argumentar, não diga nada. Sou uma águia, mas conheço os homens.

— De acordo. Eu não duvido. Não quero discutir, não argumento. Mas falamos do Amor, e apenas digo que há ainda quem ame sobre a terra... gente da minha espécie... homens... homens... O amor, há de a senhora concordar, não é um monopólio de asas nômades... Um bípede implume também ama. É raro, eu sei, amor genuíno, é raro. Mas existe ainda, afirmo-lho eu, existe ainda...

— Que novidade! Pois não lhe disse já que li Balzac? E viajei, e vivi mais do que pensa.

Parou um instante, o olhar cismático, sem foco:

—... Uma vez, num céu da Andaluzia, vi num jardim mourisco dois amantes. Senti o cio encrespar-me as asas largas e desci pros ver de perto na luz de ouro... Era na paz de uma cidade morta. Pousei num dos ciprestes do jardim. Tinha uma taça de alabastro esverdinhada, e uma água glauca que cheirava a febre. Era junto da taça que se amavam, sob a garra do sol, loucos de raiva. Fiquei queda a aspirá-los muitas horas. Que corpos fortes! Eu achava-os lindos. Dormi na torre da igreja, numa gárgula, e de manhã voltei pros ver ainda. E assim dias e dias... Uma vez demorei-me, vim mais tarde, e encontrei-os imóveis e enlaçados. Tanto tempo os vi assim e tão imóveis, que pensei: estão talvez mais que adormecidos... Desci. Bati-lhes com as azas nos cabelos. Cravei as garras devagar nos seios dela... Estavam mortos! Julguei então enlouquecer de gula. Devorei, devorei, até à noite... Lembro-me que sorvi os olhos dela. Estavam secos de amor. Eram cinzentos...

— Que horror! O que a senhora fez!...

A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente. Depois, com grande enfado, foi dizendo:

— Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a vida... e com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços, castram os desejos, adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder, morder bem fundo... e beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos; amordaçam o instinto, os imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde não entre sol, sombra de lua... Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não fecundam a amar, são fabricados: são produtos de indústria os homens de hoje! Chamam a isto Civilização. Não vivem por viver: tem deveres a cumprir, obrigações... E tudo isto em códigos, sistemas, em religiões, teorias, em morais!... Para os que tentem ser homens a valer, há prisões, há leis, há toda a Ordem! Existem já na terra há muitos séculos, e ainda não começaram a viver... ou, se viveram, foi na Pré-História ou na Pré-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!

— Mas pare um instantinho, ouça, ouça...

— Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o Guia, o grande Guia, que os levou a isso que são hoje...

Atalhei, como quem aponta um cúmplice:

— A culpa foi desse Hebreu de quem falamos. Talvez se o seu segredo se soubesse...

— Não foi só dele, foi de muitos outros... Antes dele e depois..., de muitos outros.

Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe as penas. Estava outra. Via-a transfigurar-se com espanto.

— O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem ilusão. Quando há pouco lhe disse o meu segredo, dei-lhe a entender que se ele se soubesse, havia na verdade um Redentor, os homens viveriam sobre a terra. Tive pena de si que é um desgraçado. Sempre lho digo agora: era inútil! Conheço bem os homens por meu mal. O segredo do Hebreu que lhe contei, não é um caso único: é de sempre. À hora de morrer — a uma águia, aos lençóis ou ao travesseiro, todos os homens têm como esse Hebreu, um segredo supremo a revelar. É apenas isto: a confissão de que morrem sem viver.

Continuou depois com o bico alto:

— Os homens são uma espécie condenada. São bastardos de planta e de fantasma. Quem disse isto? Não sei... estou sem memória. Raça de escravos vis, raça de escravos! E para fugir à Vida o que inventaram! Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e pedras, fecham-se em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais desgraçados, mais fracos, mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se embrulham mais em roupas, põem mais vidros nos olhos, tem mais medo... E cada dia fogem mais à vida! Que imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!

Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saiu-me estrangulada, rouca, em sobressaltos, brusca, sem fluência:

— A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e terríveis, mas há outras também que não entende, que não pode entender, sim, que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido com os homens mas é águia... e águia ficará até morrer.

Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quase incapaz de articular palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me:

— O quê? O quê? O que é que eu não entendo?

Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe este lugar comum, como se estivesse a falar com um jornalista:

— Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!

Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e recair depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim sem fala ainda algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela por fim veio em arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:

— A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que fizeram? A Harmonia social, esse concerto que é de rasgar os olhos e os ouvidos. A fome, a revolta, o desespero... A raiva de saber, de analisar, de fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o culto da dor, esse onanismo!... A impotência em tudo, a impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras, enluvada, um ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela força; a caridade que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os cultos, a escravidão aos deuses e às ideias... A Harmonia social... essa gaiola onde vivem a uivar os homens todos!

Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas eriçavam-se de fúria.

— Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!

Não é o ódio celular, contraturante; não é o ódio animal todo de instinto; não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi canalizado, por seitas, por classes, por partidos, em dogmas, preconceitos, covardias. Nos outros animais o ódio é orgânico! Todo o combate é sempre pela Vida. O dos homens é anêmico, misérrimo, e defende o dever, o preconceito, as taras de domínio e servidão, e até mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida, sistematizando. É o ódio da paródia de viver, do fantasma de Vida que eles vivem!...

Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para opor-lhe, para aniquilar nesse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me: a Arte, a Arte, toda a minha quimera de mãos postas!

Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe para gaiola:

— E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...

Teve farpões de escárnio ao responder-me:

— A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem, não é assim? Ora se eles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a cada instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia de paródia, um espetro de espetro... miserável! Querem com tintas imitar o céu, e transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se aos haustos, com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção; recebe-se nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sede dele... É o que faz um sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem nunca! Toda a terra é feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e as sementes... Só os homens que se cobrem para evitá-lo; que nas cidades gastam horas a vestir-se; que tem por céu só um paninho côncavo a que chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o filtram nas igrejas por vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que tem medo da morte às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só os homens, absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com tintas, com carvões, com paus de cor!...

Que macacos absurdos, que macacos!

Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora, hierática, estranha, convulsiva.

— E nem poupam o mar nem as searas, as penedias trágicas, as rosas! Metem o mar nuns centímetros de lona, e com medo que as marés vão sufocá-los (a águia ria, ria como louca) mandam emoldurá-lo, encaixilhá-lo!...

Prendem-no assim nas salas, nas alcovas. Oh! A Arte dos homens! Coisa imensa! A paródia da Vida... paralítica! Mas vá alguém dizer-lho! Vão dizer-lho! Ainda os antigos cegavam as estátuas... Estes abrem-lhes olhos, bem abertos, a refletir... o quê? A vida deles, a paródia de vida que eles vivem e que andam a imitar ainda por cima!...

A noite começava a entrar nas coisas. Um grito de pavão varou o parque, assustou os jardins que adormeciam, e um instante no ar, teve saudades... Uma angústia sem nome andava esparsa, caía das árvores grisalhas, que pareciam à escuta, com terror. Em frente o chorão vergava mais, quase rasava a terra com doçura, em curvas de um encanto nazareno. Uma sereia aguda de vapor, já a sair a barra certamente, mugiu como um agouro de naufrágio. A treva ia afogar toda a gaiola. Não via bem a águia, mal a via. Só os olhos e as asas muito vagas... Era um fantasma de águia àquela hora, mas crescia em mim desmesurada, como um ser de fábula e tragédia, oráculo sarcástico e sinistro, lendo o horóscopo num poleiro reles, como se rasgasse a esperança com as garras. Afinal era eu a sua presa, e ouvia-a passivo a torturar-me.

— A Arte dos homens! Que mentira triste! Em vez de serem belos como estátuas, derrancam mais os corpos para erguê-las! Até modelam sonhos e quimeras!...

Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento, flutuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que quando ele prega, durante o inverno em que ele é todo gênio, metem-se em casas grandes, bem fechadas, para ouvir sons, sons, imensos sons... Chamam a isso Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens, perseguiu-me. Nem aqui na gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos horas, no coreto. Enche-me mais de raiva e de miséria. A música das águias como é outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de ser esta carcaça reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!... Sobretudo no mar, no grande mar... O que eu viajei nos temporais a ouvi-la! às vezes partíamos no vento em turbilhões, asas e asas, nômades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a rasgar-se, e os nossos gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas nunca ouvidas, a voz de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio... Certos instantes únicos, supremos, em que ele se ouve, o temporal hesita, e um pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, esse silêncio!... Nas meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter melodias, ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo, sereníssima... Punha medo com o rumor das minhas asas às nuvens que dormiam extasiadas, e auscultava a noite pelo céu, até ouvir a manhã vibrando toda, quando o ar é uma orquestra miriadaria e os homens dormem nas alcovas mornas...

Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa arenga evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que memórias épicas passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o meu senso crítico se foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma fúria aguda de vingança, de esfrangalhar essa carcaça oráculo, varar-lhe os olhos com a ponteira da bengala, acabá-la de vez, estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura, pondo raivas de morte nas palavras:

— Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade, minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho de a esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa na gaiola? A si e a esse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a essas feras? Quem lhe dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das crianças, e a há de empalhar depois de morta?... Você é uma águia tonta, dementada, que a escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim faz-nos rir mais. Grasne por aí; rebente a divertir-nos!...

Parei para tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua forma heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero besta em que eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um títere grotesco. Era o mais infernal dos casuístas, essa águia impossível de ferir, feita de sombra, emoldurada em sombra, presa nessa gaiola e mais distante que se esgarçasse as asas nas estrelas. Enquanto assim pensava, ei-la que fala:

— Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O homem alastra pela terra como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e garras, a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de miséria. E as feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas de ferro, à luz elétrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da força mutilada e doente. Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes risca, dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas jaulas, sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as pupilas de ouro marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se heroicos porque os chicoteiam, mesmo quando eles tremem de sezões, mesmo quando eles morrem de saudade!... Não há amor de asas num rochedo à névoa, que o terror dos homens não errice!... Antes disto, porém, já os adoraram. No Egito, em tardes de colheita, o voo das íbis riscava no ar do Nilo curvas em que eles viam profecias... E outros como Ísis, como Anúbis, sucumbiram no tédio de ser deuses, e depois das pompas rituais, de oferendas, de orações, de sacrifícios, são os servos misérrimos do homem, domesticados já, civilizados!

Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que abriam de desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem o sangue nem a seiva: vão pervertendo tudo, corroendo! Até que um dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um sábio, e cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas, para que os homens mobíliem os palácios, para que tenham poleiros nas gaiolas... Os areais, as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se extasia, terão motores, instalações fabris para utilizar a raiva das marés, em quê, deus-sol?... a enriquecer indústrias... Todo o azul será viúvo de asas, e os filhos das águias e das feras nascerão em gaiolas e em jaulas! Ah! Mas também nada haverá mais triste do que os filhos dos homens, as crianças... A inocência, essa graça animal, de flor e de ave, que eles chamam divina... os imbecis! não mais existirá nos filhos deles, refletindo nos olhos já doentes, a farsa de viver, como nos velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se? Nos braços do amor, do amor deles, em que um olhar de mulher lembra um naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a ser sempre a força de um destino! A terra será a catedral do sofrimento, fim da farsa sinistra que eles vivem, a inventar anestésicos e dores!

Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo, certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quase paralítica, consola-me pensar que nenhum deles será nunca o que eu fui, asas e garras, vivendo pro desejo pelo instinto, e em nomaderias de vertigem, amando tudo, tudo, a terra toda, na luxúria suprema e inconsciente, de viver, de viver só por viver!

Fez uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos de delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o meu destino.

Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que um crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.

— Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...

Lambeu-me um calafrio de vertigem.

Era demais, meu Deus, era demais! Não era já o meu orgulho em chaga, enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo terror era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria de alma toda, era mostrar-lhe o coração dos homens para que ela o visse bem e tão patente, como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Para convencer daria tudo, tudo. Procurava um meio, sem achar. Sentia a inanidade das palavras. Com uma ideia súbita falei-lhe:

— Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.

Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra. Eu continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:

— Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas. Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A noite arqueia ao peso das estrelas... Uma palavra sua e abro-lhe a porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...

O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fosse fadiga ou tédio. E num bocejo vago, interrogou-me:

— Vai abrir-me a gaiola... mas pra quê?...

— Pra quê?! Para que antes de morrer domine o espaço... para sentir a vertigem do infinito...

— Eu?!... repetiu numa fleuma desdenhosa. Eu?!... Sair deste poleiro, da gaiola? Não sou doida varrida por enquanto. Sair da minha casa, do conforto para incerteza da noite, pro mistério?... Sou uma águia mas vivi entre homens. Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me arranca as asas velhas? E se chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem com as garras enluvadas eu me atrevo... Nem que me cubra as asas de impermeáveis...

Nem com um water-proof, nem assim...

A águia ria, ria doidamente. Crispei as mãos nos arames, exasperado, e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de confissão, quase febril:

— Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros, imagina...

É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: ouça! ouça!

Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me, acredite. Quero também dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar, contar-lhe tudo...

Bateu as asas com um ruído seco, e num timbre fatídico de corvo, com uma voz de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:

É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao travesseiro.

Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda à esperança, pus-me a gritar para gaiola, tontamente:

— É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu, escute... Queria ser forte e belo, queria...

Falei, falei, falei... Não sei que disse.

Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideias, raivas, desesperos. Parei por fim.

Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o vulto de sombra sobre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi então uma sineta banalíssima, a pôr-me fora secamente: era já tarde. Olhei ainda a gaiola, despedi-me, atirei-lhe para lá um “adeus” surdo. Ao passar na jaula do leopardo, senti um cheiro mau a carne podre. Vi-lhe o vulto enigmático de esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os olhos de ouro fulvo, fuzilando. Se aquele me falasse, o que diria!... Atravessei o parque silencioso, como numa balada, com terror. Vi nas acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado por folhagens onde um langor de outono se esfolhava, e à saída já, para me acalmar, molhei as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.

Achei-me enfim na rua, longe dela.

Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada, disse-me adeus um coco conhecido: dobrava a esquina um elétrico apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.

Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso mais falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.

O precoce (Conto), de Antônio Patrício


O precoce
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se reuniam no seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade meiga, como se dessa cabeça de precoce, ungida de sossego, dos seus olhos de adivinho, de um veludo grande e calmo, se exalasse paz, uma paz clara, em que tudo se perdoasse e se esquecesse.

Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia, para contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente ao doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara fina um pouco vaga, como a de todos os que vivem no silêncio como outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma figurinha de mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de carícia, todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga. Adoravam-no. Mas agora, martirizado de dores, a consumir-se dia a dia, as mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um móvel estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite, a sombra vinha,— tremiam no silêncio, tinham medo, como se disfarçadamente a Morte entrasse, viesse de mansinho para gelá-lo.

Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguém se voltava, logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a porta de soslaio, como se esperassem alguém, uma visita...

Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as coisas mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam como folhas secas e nos olhos de todos havia uma expressão de adeus. Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo a dobra do lençol, de veias altas, intumescidas de ternura, e pousarem numa geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção louca, religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar, numa oração. É que essa criança era a sua própria alma, presa naquele leito como um passarito enfermo, abrindo para ela olhos enormes, como para decorar bem, antes de partir; e dizendo de quando em quando: “mamã, minha mamã”, num rumor de asa cansada.

Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, boca de lábios finos, mento curto, bussolado em covinhas, que a magreza já quase que delira. Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e qualquer coisa, o mais simples aspecto, o distraía como numa visão inconsciente.

Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre, doente, a tremer todo, e quando o pai o interrogou, só pôde dizer “que não era nada, que não tinha nada”. Mas à noite, quando a mãe ia a deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num choro brusco, e mal pôde pedir entre soluços, de mãos postas, para não voltar... para não voltar mais ao colégio.

— Sossega, meu filhinho. Quem te fez mal? Que te fizeram? Não voltas mais, não voltas mais. Que te fizeram?...

— Vi bater num menino.

E outra vez o choro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho de arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais resolveram que tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse. Ao cair das tardes, com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em pouco tempo, por entre confidências que eram beijos, ele aprendeu maravilhado a ler. O seu amor cresceu ainda, como regado de gratidão. Dizia “mamã” como quem reza.

Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal; chamavam-no, e como ele era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa grande ternura protetora. Ele não ia, desculpava-se. Preferia ficar junto dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.

— Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.

Ele erguia os seus olhos de veludo:

— Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom para mim.

Raro saíam. Às vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz para ver o mar. Voltavam ao anoitecer. Falavam pouco.

— Gostas do mar, Milinho?

— Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.

Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o pequenino teve tosse e cuspiu sangue.

— Que te dói? Dói-te o peito?

— Pouco, mamã. Não se aflija. Não há de ser nada.

O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma conferência larga. E foi então que o terror abriu sobre ela as asas côncavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada instante, para ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, para senti-lo. A tosse dele feria-lhe também o peito; transia-a toda, como um dobre. Vestia-se à toa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros filhos, família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe importavam agora, se o seu filhinho estava mal?

E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava a sorrir, muito feliz, como se fosse um ser de conto preso num lindo encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguém o achar melhor, foi-se esvaindo o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da esperança, galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com toda a carne e toda a alma.

O casamento tinha sido, para sua índole delicada de romântica, uma decepção dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises, não sofreu violentamente. Foi um espairecer lento da ilusão; todo o seu sentimento que morria como uma planta à sede; e ela curvara a cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que se esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um pouco animal, foi-a acalmando; o seu passado de sonho estava longe, nas águas mortas da memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os sobressaltos de nervos de outros tempos, uma vida normal e clara, no seu lar, entre os seus. Era uma renúncia sem tortura, inconsciente.

Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do marido vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na memória, na mesma cinza neutra, pardamente. Vivia como se fosse a própria sombra. Já não esperava ter mais filhos. Quando soube que ia ser mãe ainda uma vez, teve a emoção maior da sua vida. Certo, ela foi sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e muito. Mas agora era diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais que os outros: era o filho dela e do seu sonho... Ressuscitou em si mesma: renasceu. O seu sangue rezava nas artérias promessas que antes não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que esse filho era a compensação que Deus lhe dava, quase um milagre, a flor inesperada em que o seu sonho redivivo iria abrir.

A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num automatismo frio e resignado, fora uma provação, tinha passado: e os seus nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida sufocara, calcado em resignação, morrendo à sede, renasciam a vibrar de esperança, davam-lhe uma beatitude transcendente.

O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino abençoado, com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar que ele lhe desse, pressentiria um evangelho novo como um beijo a correr-lhe toda a alma... Tudo mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos filhos, ao marido, que interpretava a estranheza dos seus modos como a mudança de caráter, os caprichos que muitas mulheres têm naquele estado. Se a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões, isolava-se, desaparecia de repente, como alguém que vive para um segredo e receia que os outros lho desvendem. Parecia mais alta, enlanguescida, com grandes olhos sempre a olhar para dentro, como tem certas aves e os mármores.

Em solteira, nunca fez confidências às amigas. Tecia a sua teia no mistério. Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam bem o seu caráter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si mesma e sem vaidade, deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo de pureza à flor de um lago. Mesmo no seu isolamento da província, onde vivera com os pais até casar, lia pouco e sempre os mesmos livros: vidas de santas, lendas de conventos. Exaltava-se com eles, tinha fé em qualquer coisa que Deus lhe reservava. Durante os serões lentos, costurando, cismava que nascera para freira. Toda a sua energia, a sua força, abrasava o seu sonho, era interior: e quando batiam à porta da sua alma, ela saía distraída, resignada, a obedecer aos seus passivamente. Esperava contudo um não sei quê. O Destino dissera-lhe um segredo. E sem contar a ninguém o que pensava, vivia como uma eleita: estava à espera... Os seus vinte anos em flor eram para ele.

Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a casarem. Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a anestesia na sonolência banal dos seus cuidados.

Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz. Ele era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o. Quando viu que aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga, continuava nos seus braços abstraída, com um olhar desencantado e quase triste, compreendeu que fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um lindo fruto: erguendo o braço. Tentou então insinuar-se pouco a pouco, interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se, desistiu. Como não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o apaixonava, contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lealdade e de doçura, desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu lar, e vivendo para ele, para os filhos, e para aquela vida inviolada que desfocava os seus olhos noutros céus... Como porém tudo mudara agora!

Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e o médico lembrou que para acalmar, era melhor uma mudança de ares, uma temporada na aldeia ou à beira-mar. Partiu então para o Minho, para a quinta, e como nem o marido nem os filhos podiam nesse tempo acompanhá-la, levou consigo apenas as criadas, dizendo que preferia ficar só na grande paz do campo, a sossegar.

Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança que subia com as seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que dourava o ar.

Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes quando os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar, e à hora das regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes, quando as estrelas vêm, tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros, e nos paus, pobres poetas líricos, os sapos piam comovidamente. Nunca sentira tanto a natureza.

E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora suprema, querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã que o sol rompesse para descer aos homens...

Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos palácios de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a olhar as joias, os anéis, a pedras preciosas esparsas na sua mesa de doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas, encantados...

Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por quanto tempo?... Para o distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e deu-lhos, e como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe também os que traziam. Mas quando iam nessa noite a despedir-se, ele ficou tão triste ao entregá-los, que o tio Eduardo propôs que lhos deixassem e todos imediatamente consentiram.

— Fica com eles, Milinho, guarda-os, guarda-os.

— Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...

— São todos teus, são todos teus, meu filho.

Então em roda todos confirmaram a mentira de amor que o alegrava.

Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de grandezas. Mas nesta tarde, ou porque o conto mais o impressionasse, ou porque estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais negros, magoavam-se fitando as pedrarias, esse baile de cores e de reflexos que pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dele os contagiasse, tinham fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os olhos fascinado.

— Que lindo, mamã, veja que lindo!

Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos que asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais longe deu Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse a vibrar até ao quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E ele, erguendo os braços de repente, deixou-os ir caindo sobre as joias, cobriu-as com as palmas das mãozinhas, puxando-as contra o peito avaramente:

— São todas minhas, não é? São todas minhas...

— Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sobre elas com esforço, como se fosse para as beijar, branco de cera, e repetiu ainda extasiado:

— É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguém. São todas minhas.

Espalhou-as um pouco sobre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a olhá-los, e sorrindo à ideia que tivera, disse baixinho:

— Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante, largos demais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num desespero mudo, a arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o ajudaram. Levantaram-lhe as mãos quentes de febre, e enfiaram-lhe os anéis nos dedos ósseos, que ele ergueu quanto pôde, deslumbrado.

— Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma ave-maria, vou rezar.
Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados, a sua vozinha disse a ave-maria num timbre muito fino de carícia, como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de palavras, desses que tem no outono, a horas mortas, certas folhas de arbusto a despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já lágrimas nos olhos. Ninguém tinha coragem para falar.

A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Ele tirou os anéis devagarzinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e deitou-se para baixo fatigado.

— Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.

E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa, todos queriam quebrar esse silêncio, feito de sonho e de apreensões de morte, que avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:

— Esteve hoje um dia lindo, quase quente. Temos à porta a primavera. Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu passeio.

— Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?

— Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, há de ir para o quintal brincar com os manos. Sabes que a tua árvore, a magnólia, já está cheia de flores muito brancas?

— Ó mamã, mamã, deixe-ma ver, — pediu ele erguendo a cabeça de repente.

— Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.

Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha colada contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da sua árvore, erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e afilados, as flores mais brancas que há na terra.

Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre, levantaram-se todos para partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e ao apertarem-lhe as mãos — adeus Milinho!— ele olhou-os desta vez mais devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em longes de meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria ao dizer:

— Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...

Essa criança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia, encheu-os de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados, que saíram da alcova, que partiram, ouvindo dentro deles o crocito — nunca mais! para sempre! never more!— desse corvo fatídico, de lutos, que Poe revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia morrer. Qualquer coisa de lindo ia morrer...

No entanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e dizia feliz, como em segredo:

— Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais pertinho...

— Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa longamente.

— Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de si!

— Deus há de te sarar. Verás, verás...

— Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou partir...

— Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.

— Vou-me embora, vou, para muito longe... Não faço falta a ninguém. Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...

— Se tu gostas de mim, não digas isso.

Ele tornou mais lento, resignado:

— Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fosse assim... sempre doente, sem sair do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...

— Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho, dorme, dorme...

— Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas suas.

Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarzinho, aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o cabelo, deu-lhe um beijo na testa, muito leve.

Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A noite vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem. Como o pai disse recolher mais tarde (uma entrevista no clube para negócios) mandou deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao seu filho. Como dormia bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de salvá-lo. E numa exaltação, quase feliz, encostou-se à vidraça a olhar a noite.

A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobrezinho! Como ele gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um luar assim. Fazia-lhe tão bem: acalmava-a toda. Via ao longe, no rio, as mastreações, e distinguia as vergas, o velame, a luz dos estais à popa, nictitando. Vilanova, a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado empoalhados, e a névoa que se erguera pouco a pouco, era já na colina ao luaceiro uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes, muitas luzes, como se Deus atirasse com amor, às mãos-cheias de estrelas sobre a terra. Toda a mole granítica da Sé, galvanizada a lua, se animara: corria luar nas veias dessas pedras, morenas do sol de tantos séculos, e toda a catedral se eterizava como se as gárgulas aladas das cimalhas acordassem para tentar um voo último. A casaria mesmo, estava absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de lua, gnomos, rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas de toucar por sobre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa assunção para Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das igrejas, e os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua, andava esparso, como um filtro de sonho, transcendente, propiciando, amando, perdoando.

Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no encantamento sortilégio da noite, a esperança subia a aluciná-la despertando o sonho místico de outrora. Aquela figurinha não mentia: os seus olhos de mago eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam, como naquela noite, há já três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus olhos, as mãos do tio Eduardo e da tia Olívia, no silêncio que em roda se fizera. Assim os dois souberam que se amavam, e ficaram a olhar o pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha sete anos ainda então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de médium, reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua voz de concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de oráculo — criança, diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de destinos, em cuja atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se, como um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma boca de perdão.

Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as pálpebras, ao peso das quimeras debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar nas mãos, subiu-lhe aos seios... Se a beleza da noite, transparente, este aquário em que a lua abria as veias e a vida da terra ia boiando num abandono de ninfeia aberta, fosse afinal uma cilada dela, um disfarce da Morte para roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível que ela viesse assim, essa maldita, na feeria argêntea dessa noite, com a foice escondida em musselinas, silenciário carrasco sem memória, correndo em passos de êxtase e de opala, e matando com um hálito de gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual um beijo era grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua entrar na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi até junto dele, ficou queda. Que imensa paz nessa carinha meiga! Pôs-lhe a polpa dos dedos sobre a testa. Estava muito suado como sempre. Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho estava a sonhar com as fadas de algum conto, onde, como ele às vezes lhe contava, a boa fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo corria bem. Para que assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus nervos! E ao voltar-se de novo para a noite, teve remorsos de ter medo dela, de ter desconfiado loucamente que esse luar de perdão espargelado fosse um cenário infame de traição, contra aquela flor — a pobrezinha! que era seu filho e Deus ia salvar.

Voltou para junto da vidraça, ainda trêmula, a sossegar nesse esplendor silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe dourava agora os olhos rasos, o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma ideia súbita rezou. Não podia dizer a quem rezava, se rezava a Deus ou ao luar... Mas Deus era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que ele vinha para curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo para sará-lo como um beijo de Deus a essa criança.

Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz, misterioso, corria os cortinados de mansinho, para que ele chegasse mais depressa junto ao leito, a sorrir e a chorar, toda contente. Ele vinha, ele entrava sempre e sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamá-lo, as suas mãos de mãe, de veias altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já despertava os móveis, seus amigos, a que ela queria como a confidentes. E doida de feliz, quase riu alto ao ver-se no espelho enluarado. Dizia-lhe baixinho: “entra, entra...” Já a cadeira de braços estava empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em gamas sonolentas. Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus este luar... E que sossego agora, que sossego!... Até a bica do tanque se calara. Havia uma atmosfera de milagre, o seu sonho de mística era certo. Os seus pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o pequenino. Por isso Deus descera no luar: era ele, era ele, estava ali... Isto era bem verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a rir perdidamente, num timbre de histeria muito seco.

De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisá-lo, era um pecado... Fugiu então para zona ainda escura, olhou o pequenino adormecido. Pareceu-lhe que sorria extasiado. Sentiu uma alegria semilouca, um excesso de esperança a sufocá-lo. Por fim ajoelhou-se junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada em lágrimas; mas rindo sempre, sempre, a segredar-lhe: “Entra, entra, entra...” Ele vinha, ele vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. Debruçou-se então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes, numa beatitude arrepiada. Foi esperar o luar do outro lado, as mãos nas grades da cama, à cabeceira. Ele dormia sempre, o pequenino, uma mão escondida no pescoço, a outra sobre a dobra do lençol. Curvou-se para ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. Tocava os pés da cama: ia subir!... “Sobe, sobe, sobe” ia dizendo. O seu pobre coração endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as mãos: “lá vem, lá vem. Bendito seja Deus, sempre bendito”.

Havia um clarão no couvre-pieds agora. Uma larga lágrima, redonda, foi lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se viu o veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaiu-a. A mãe vergou-se sobre ele: “meu filhinho”, pôs-lhe as mãos em carícia sobre as fontes que um suor muito frio perolava, e ia beijá-lo, quando ouviu três vezes, como um fio de voz, já muito longe: “mamã, mamã, mamã...” E fechou para sempre os seus olhos febris de grande gênio triste depois dessa palavra suprema que era toda a sua fé.

O luar chegara enfim à cabeceira!

Só quando ele esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que lhe erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida, o pequenino!— recaírem inertes sobre a roupa, compreendeu o crime, o crime imenso.

— Vinha no luar a Morte... no luar...

Voltou-se então num desespero último, para o expulsar, para o pisar sob os seus pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o seu sangue. Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o quarto: água lustral de lua, alma de lua, no chão, no ar, em toda a parte... O seu sangue gelava-se nas veias. Não podia lutar, era impossível. Ele invadira a alcova, asfixiara-a. Estava tudo perdido, tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu ao desamparo, sem sentidos.