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5/08/2019

O menino sem olhos (Conto), de Consiglieri Pedroso



O menino sem olhos
Uma mãe teve dois filhos. 
Eles foram pedir esmola, que não tinham nada. 
Ela deu-lhes um farnel e perguntou-lhes se queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar cada um o seu farnel. 
O mais velho disse que era melhor cada um levar o seu farnel. 
Assim foi. 
No caminho o irmão mais novo perguntou ao irmão se era melhor comerem cada um do seu farnel ou comerem primeiro um e depois o outro. 
O mais velho disse que era melhor assim. 
Assim foi. 
No primeiro dia comeram ambos a comida do mais novo. 
No segundo dia, eram já horas de almoçar, disse o mais novo: 
– Ó irmão, vamos agora comer? 
O mais velho respondeu-lhe: 
– Não, que ainda é cedo. 
Depois ia comendo e o mais novo não comia nada. 
Ao jantar, o mesmo; enfim, o irmão mais novo já levava tanta fome que lhe tornou a pedir ao menos um bocadinho de pão. 
O mais velho disse-lhe: 
– Se me deixares tirar um olho, dou-te. 
O mais novo, como estava desesperado com fome, obrigou-se a deixar tirar um olho. Mas o irmão mais velho tirou-lhe o olho, mas não lhe deu o bocadinho de pão. 
O mais novo tornou a pedir-lhe ao menos metade. O irmão disse-lhe: 
– Pois só te dou metade se me deixares tirar o outro olho. 
Depois o mais velho foi-se embora e deixou o irmão ali só e desamparado. 
O menino, vendo-se cego, deixou-se por lá andar a ver se encontrava alguém que o guiasse no caminho. 
Chegou abaixo de um monte e ouviu cantar a água de um rio, e ali parou dizendo consigo: 
– Nada, daqui não passo eu, que, como não veio nada, posso meter-me ao rio e morrer afogado. 
Conheceu que era noite e foi indo às apalpadelas e encontrou uma árvore e abanou com ela, e ouviu cantar as folhas e depois trepou para cima e ali ficou naquela árvore. 
Próximo à árvore estava uma ponte, onde costumava ir o demônio com as bruxas fazer audiência. 
Daí a pouco vieram todas, conforme é costume, e estavam perguntando umas às outras o que tinham feito naquele dia. 
Uma delas respondeu ao demônio que tinha cortado as águas à capital da França, onde que ao fim de três dias morreria tudo à sede. 
O demônio perguntou-lhe o que tinha ela feito para cortar essas águas. 
Diz ela: 
– Eu, no espaço de quatro a cinco léguas, por onde passa a água, encantei uma cobra e meti-a no canal da água, onde a cobra está presa de cabeça e rabo dentro de um anel, e a água está presa no meio do rolo da cobra. 
O demônio perguntou: 
– Então não haverá outra vez remédio para soltar essa água para a cidade? 
A bruxa disse: 
– Há, mas eu não digo a ninguém. 
O demônio disse: 
– Então, nem a mim? 
A bruxa respondeu: 
– A ti sim, como mestre. O remédio é havendo quem se aventure a lá ir com uma lança de ouro e tirar o anel que está dentro da cobra sem a ferir; tanto corre a cobra para o monte, como a água que vem da fonte. 
O menino, que estava em cima da árvore, aprendeu isto tudo. 
Uma outra bruxa disse: 
– Eu também enfeiticei o rei da Itália, que está encarangado (entrevado, perro dos nervos do corpo) de todos os membros do corpo que se não pode mover para lado algum. E toda a família real morre desta aflição. 
O demônio perguntou: 
– Então, que lhe fizeste tu para ele estar assim encarangado? 
Respondeu a bruxa: 
– Cosi os olhos a um sapo, com a mesma linha apertei o sapo de pés e mãos e tudo, e meti-o debaixo da cama de Sua Majestade. 
O demônio perguntou: 
– Então não haverá remédio para dar outra vez saúde a este rei? 
A bruxa disse: 
– Há, havendo quem vá daqui à Itália ao jardim do rei, que tem um marmeleiro em cima de um chafariz, e havendo quem lhe colha o primeiro ranco (arranco, ramo), que faz um S em cima do chafariz, e lhe aguçar a ponta do feitio de uma lança, e pescar com ela um peixe azul que anda dentro do tanque, e derretê-lo numa bilha que não tenha levado nada, e levantando o pé esquerdo do leito do rei e tirando o sapo que está metido debaixo, e descosendo-lhe os olhos e desamarrando-o de modo que não se fira o sapo, e deitando depois o sapo ao jardim. Estando o peixe derretido, dar depois uma untura ao rei, e daí a pouco logo o rei está com a sua saúde, mas decerto o rei morre porque eu não o conto a ninguém. 
O menino, que estava em cima da árvore à escuta, aprendeu tudo. 
Depois uma outra bruxa disse ao demônio: 
– E tu, o que é que fizeste? 
O demônio respondeu: 
– Eu já fiz obra maravilhosa, já fiz com que tirasse os olhos um irmão ao outro; também já há três dias que tenho feito com que uns bem-casados se deem mal. 
A bruxa perguntou-lhe: 
– Então que fizeste tu para um irmão tirar os olhos ao outro? 
O demônio respondeu: 
– Atentei-o para o mais velho não dar um bocadinho de pão ao mais novo sem lhe tirar os olhos. 
A bruxa perguntou: 
– Então não haverá remédio para esse menino ficar outra vez com vista? 
O demônio disse: 
– Há, mas como o há de ele saber se eu não conto a ninguém? 
A bruxa disse: 
– Mas deves contá-lo a nós, como nós te contamos tudo a ti. 
O demônio então disse: 
– Está aqui perto uma árvore, cortando-lhe três folhas e cuspindo-lhe três vezes, antes de amanhecer, e pisando estas folhas na mão, com o sumo da folha e com cuspo da boca, untando as capelas dos olhos (pálpebras), aí se fica com a vista natural. 
– E para se darem outra vez os bem-casados como se davam? 
O demônio respondeu: 
– Indo a uma igreja matriz, colhendo uma bilha de água benta da pia do batismo, colhendo umas ervinhas que lhes chamam os cristãos alecrim. 
A bruxa perguntou: 
– Então, que fizeste tu para esses casados se darem mal? 
O demônio respondeu: 
– Aqui ao cimo deste monte moravam uns bem-casados, e eu fui-me meter debaixo da cama. O homem, quando entrava de fora para dentro, olhava para debaixo da cama e via-me lá e figurou-se-lhe que era um homem e começou logo a maltratar a mulher de más palavras. Assim se começou de dar mal, julgando que a mulher andava amigada. A mulher não fazia senão chorar e dizer que tal coisa não fazia. 
A bruxa perguntou: 
– Então, não haverá outra vez remédio para eles ficarem bem? 
O demônio respondeu: 
– Sim, então já te não disse que em ir buscar a bilha de água benta da casa em cruz, quando me lá vir, que eu fujo, e assim se tornam eles a darem-se bem?
Nisto, o menino, que estava em cima da árvore, aprendeu tudo; depois pegou nas folhas da árvore, que era a mesma onde ele estava, e fez o que disse o demônio. Depois ficou logo com vista. 
Assim que foi dia, desceu pela árvore abaixo e tratou logo de procurar a casa dos malcasados. 
Fez tudo quanto o demônio disse e eles ficaram bem. 
Dali passou à França e desencantou a cobra e deu água à cidade. 
O rei de França deu-lhe logo uma porção de dinheiro. 
Depois foi para a Itália e fez também o mesmo que a bruxa tinha dito ao demônio. 
Quando o peixe estava derretido, o menino falou para o rei e disse: 
– Real Senhor, tenha a bondade de mandar todos os médicos embora, que Vossa Real Majestade hoje ainda os há de ir visitar a casa. 
O rei assim fez. 
Depois o menino esfregou-o com o óleo do peixe e ficou o rei logo curado. 
Depois que o rei se achou bom, levou o menino para o palácio e depois casou com a filha do rei. 
O rei morreu e ele ficou senhor do reinado. 
Nisto, o irmão mais velho andava pedindo pelo mundo; foi andando de terra em terra, até que foi dar ao reino do irmão, mas sem saber. 
Um dia estava o rei à janela mais a rainha e viu aquele homem e conheceu que era o irmão e disse para a sentinela que estava à porta do palácio: 
– Ó sentinela, prenda-me aquele homem e traga-mo cá à minha presença. 
Neste momento foi-se o rei fardar com as suas insígnias como rei e sentou-se no trono. 
A sentinela levou o preso à presença do rei. 
Depois o rei começou a perguntar ao homem de que terra era ele. 
O preso estava sem saber o que havia de dizer. Afinal lá contou a sua vida. Depois o rei perguntou-lhe: 
– Que é feito da tua mãe? 
Ele disse: 
– Eu não sei, porque desde que saí de casa não tornei lá a voltar. 
– E que é feito de teu irmão? 
– Então Vossa Majestade conhecia meu irmão? 
O rei disse que sim e perguntou-lhe porque é que ele lhe tinha tirado os olhos. 
O irmão começou a negar. O rei disse-lhe então que bem sabia que tinha sido por tentação do diabo e que ele era o seu irmão. 
Depois ficou no palácio com o rei, que lhe perdoou.

12/01/2017

A menina e o bicho (Conto), de Consiglieri Pedroso


A menina e o bicho
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Era uma vez um homem que tinha três filhas.
Eram todas muito amigas dele, mas havia uma que ele estimava mais.
Foi um dia à feira e perguntou às filhas o que é que elas queriam de lá. Uma delas disse:
— Um chapéu e umas botas!
A outra disse também:
— Um vestido e um xale!
Mas a que ele estimava mais não lhe disse nada.
O homem, muito admirado, perguntou:
— Ó minha filha, tu não queres nada?
— Não quero nada, disse ela. Quero que meu pai tenha saúde!
— Tu hás de também pedir uma coisa, seja o que for, que eu trago-ta! respondeu o pai.
Ela, para que o pai a deixasse, disse então:
— Quero que meu pai me traga um corte de goraz em campo verde.
O homem foi para a feira, comprou todas as coisas que as filhas lhe tinham pedido, e não fazia senão procurar o corte de goraz em campo verde. Mas não o encontrou. Era coisa que não havia. Por isso vinha muito triste para casa, porque era a filha que ele mais estimava.
Quando vinha andando, aconteceu-lhe ver luzir uma luz no caminho, porque já era noite.
Foi andando, andando, até chegar àquela luz.
Era um pastor, que estava ali numa cabana. O homem chegou-se a ele e perguntou:
— Sabe-me dizer que palácio é aquele, e se me podiam dar agasalho!
O pastor respondeu muito admirado:
— Oh! senhor, mas... naquele palácio não habita ninguém; aparece lá uma coisa, e todos têm medo de lá estar!
— Deixá-lo, disse o homem, não me hão de comer, e como não tem ninguém, vou lá dormir esta noite!
Foi. Encontrou tudo iluminado e muito rico e, entrando mais para dentro, viu uma mesa posta. Quando se ia a chegar à mesa, ouviu uma voz dizer:
— Come e vai-te deitar naquela cama que ali está, e pela manhã levanta-te e leva o que está em cima daquela mesa, que é o que a tua filha te pediu, mas, ao fim de três dias, hás de ma trazer aqui.
O homem ficou muito contente por levar à filha o que ela tinha pedido, mas ao mesmo tempo ficou triste pelo que a voz lhe tinha dito.
Deitou-se e ao outro dia levantou-se, foi direito à mesa e viu o corte de goraz em campo verde; agarrou nele e foi para casa.
Apenas chegou, começaram as filhas de roda dele:
— Meu pai, que é que nos trouxe? Deixe ver.
O pai deu-lhes tudo quanto trazia.
A outra filha, a que ele estimava mais, perguntou-lhe só se ele tinha saúde. O pai respondeu-lhe:
— Minha filha, venho contente e ao mesmo tempo triste! Aqui tens o teu pedido.
A filha respondeu-lhe:
— Oh! meu pai, eu tinha-lhe pedido isto, porque era coisa que não havia; mas porque é que vem tão triste?
— Porque tenho de levar-te ao fim de três dias aonde me deram isto!
E contou tudo o que lhe tinha acontecido no palácio e o que a voz lhe tinha dito. A filha, quando ouviu tudo, respondeu:
— Não esteja triste, meu pai, que eu vou, e há de ser o que Deus quiser!
Assim foi. Ao fim de três dias o pai levou-a ao palácio encantado.
Estava tudo iluminado, a mesa posta e duas camas feitas.
Quando entraram, ouviram uma voz dizer:
— Come e deixa-te estar três dias com a tua filha, para ela não ter medo.
O homem esteve os três dias no palácio. No fim, foi-se embora, ficando a filha só.
A voz falava com ela todos os dias, mas não se via ninguém.
Ao fim de uns poucos dias, a menina ouviu cantar um passarinho no jardim. A voz disse-lhe:
— Tu ouves o passarinho a cantar?
— Ouço, sim, disse a menina; é alguma novidade?
— É tua irmã mais velha que está para casar. E tu queres ir? perguntou a voz.
A menina, muito contente, disse:
— Eu quero, sim; e tu deixas-me ir?
— Eu deixo, tornou a voz, mas tu não voltas!
— Volto, sim! — disse a menina.
A voz deu-lhe então um anel, para ela se não esquecer, e disse-lhe:
— Olha que ao fim de três dias vai um cavalo branco buscar-te; há de bater três pancadas: a primeira é para te vestires, a segunda é para te despedires e a terceira é para te montares. Se às três não estiveres em cima do cavalo, ele vem-se embora e deixa-te lá!
A menina foi. Houve uma grande festa, e a irmã casou-se. Ao fim de três dias, foi o cavalo branco bater três pancadas. À primeira a menina começou a vestir-se, à segunda despediu-se e à terceira montou a cavalo.
A voz tinha dado à menina um caixote de dinheiro para levar ao pai e às irmãs, e por isso elas não queriam que ela tornasse para o palácio encantado, porque já estava muito rica.
Mas a menina lembrou-se do que tinha prometido, e apenas se viu em cima do cavalo foi-se embora.
No fim de certo tempo tornou o passarinho a cantar muito contente no jardim. A voz disse-lhe:
— Tu ouves o passarinho a cantar?
— Ouço, sim, disse a menina, é alguma novidade?
— É a outra tua irmã que está para casar. E tu queres ir? perguntou a voz.
A menina, muito contente, disse:
— Eu quero, sim; e tu deixas-me ir?
— Eu deixo, tornou a voz, mas tu não voltas!
— Volto, sim, disse a menina.
A voz disse, então:
— Olha que se ao fim de três dias não vieres, ficas lá, e serás a rapariga mais desgraçada que há no mundo!
A menina foi. Houve uma grande festa, e a irmã casou-se. Ao fim de três dias veio o cavalo branco. Deu a primeira pancada, e a menina vestiu-se; deu a segunda, e a menina despediu-se; deu a terceira, e montou a cavalo e foi para o palácio.
Passados tempos tornou o passarinho a cantar no jardim, mas muito triste, muito triste.
A voz disse-lhe:
— Tu ouves o passarinho?
— Ouço, sim, disse a menina, é alguma novidade? É, sim, é o teu pai que está para morrer, e não morre sem se despedir de ti!
— E tu deixa-me ir? perguntou a menina, muito triste.
— Deixo, sim, mas desta vez é que tu não voltas!
— Volto, sim, disse a menina.
A voz disse-lhe:
— Não voltas, não, que as tuas irmãs não te deixam vir! E tu e mais elas, serão as raparigas mais desgraçadas deste mundo, se não voltares ao fim de três dias!
A menina foi, o pai estava muito mal e não podia morrer, mas apenas se despediu dela, morreu.
As irmãs, como ela tinha perdido a noite, deram-lhe dormideiras e deixaram-na dormir.
A menina pediu muito que a acordassem antes de vir o cavalo branco.
As irmãs que fizeram? Não a acordaram e tiraram-lhe o anel do dedo.
Ao fim de três dias veio o cavalo. Bateu a primeira pancada, bateu a segunda, bateu a terceira e foi-se embora, e a menina ficou.
Ela andava muito satisfeita com as irmãs, porque não tinha o anel e já não se lembrava de coisa nenhuma.
Daí a uns poucos dias, começou a fortuna a andar para trás, a ela e às irmãs.
Até que uma vez as duas disseram-lhe:
— Mana, tu não te lembras do cavalo branco?
A menina lembrou-se, então, de tudo e disse a chorar:
— Ai que desgraça a minha! Ai, que me desgraçaram! Que é do meu anel?
As irmãs deram-lhe o anel, e a menina, com muita pena, foi-se logo embora. Chegou ao palácio encantado, mas viu tudo muito triste, muito escuro e muito fechado.
Foi direita ao jardim e encontrou um bicho muito grande, estendido no chão. O bicho, apenas a viu, disse-lhe:
— Retira-te, tirana, que me dobraste o meu encanto! Agora serás a rapariga mais desgraçada do mundo, tu e as tuas irmãs!
O bicho estava a acabar e, assim que disse isto, morreu. A menina voltou para as irmãs, muito triste e a chorar muito, meteu-se em casa sem comer nem beber, e dali a dias morreu também.
As irmãs, essas ficaram cada vez mais pobres, por terem sido a causa disto tudo.