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11/22/2017

A Raposinha Gaiteira (Conto), de Adolfo Coelho


A Raposinha Gaiteira

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez uma raposa que tinha por compadres um grou e um lobo.

Grous, são umas aves com pernas muito altas e bico comprido e que aparecem, no inverno, no Ribatejo e no Alentejo. Certo dia lembrou-se o grou de convidar a raposa para que fosse cear com ele umas papas de milho; a raposa foi mas nada pôde comer, pois o grou apresentou-lhe as papas dentro de uma almotolia e como a raposa não tivesse bico o grou comeu as papas todas. Mas, espera aí, não sabes o que é uma almotolia? Almotolia é uma espécie de garrafa feita de folha de flandres e onde se coloca azeite para servir à mesa. Ah, também não sabes o que é folha de flandres? Ora, folha de flandres é o mesmo material de que são feitas as embalagens de atum e das quais, dantes o meninos faziam barcos. Bom, mas voltemos à história: passados dias, a raposa, para se vingar, convidou o grou também para comer papas, mas desta vez comeu ela tudo, pois tinha deitado as papas numa laje e o grou não pôde comer. A raposa tomou tal fartadela que nem podia andar, e como tivesse de fazer uma viagem, pediu ao compadre lobo que a levasse às costas, pois estava muito doente. O lobo isso lhe fez e a raposa ia dizendo pelo caminho:

Raposinha gaiteira,
Farta de papas
Vai à cavaleira.

O lobo perguntava-lhe:

— Que dizes tu, comadre?

— Ai a minha barriga, ai a minha barriga — respondia a raposa.

Assim foram caminhando até que o lobo caiu no logro que a raposa lhe pregou e então, reparando que estavam perto de um poço, disse para a raposa:

— Ah! Tu assim me enganaste! Disseste-me que estavas muito doente e vais cantando pelo caminho:

Raposinha gaiteira,
Farta de papas
Vai à cavaleira.

Pois bem, fica neste poço para não me tornares a enganar.

E atirou a raposa ao poço. A raposa meteu-se dentro de um balde que estava na borda do poço para se tirar água, ora com um, ora com outro; de que se havia de lembrar a raposa?
Disse ao compadre:

— Olha, tu fizeste muito bem em me deitar ao poço, porque estão cá embaixo coisas muito bonitas; se tu queres ver, mete-te nesse balde que aí está em cima; vens ver o que cá está e depois voltas.

O lobo caiu novamente no logro; meteu-se no balde e foi abaixo; e ao mesmo tempo que ele ia descendo, vinha subindo o balde em que estava a raposa. Esta, logo que se viu em cima, disse para o lobo: “Fica para aí para não seres tão tolo que te fies nas matreirices que as mais raposas tão matreiras como eu te queiram impingir.”

E foi-se cantando pelo caminho fora:

Raposinha gaiteira,
Farta de papas
Vai à cavaleira.

A Afilhada de Santo Antônio (Conto), de Adolfo Coelho


A Afilhada de Santo Antônio

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia um pai que tinha muitos filhos a ponto de ser compadre de quase toda a gente da sua terra, pois iam ser padrinhos dos filhos dele. Nasceu-lhe mais uma filha e ele foi por um caminho fora na intenção de falar ao primeiro homem que encontrasse para padrinho da menina. Sucedeu que encontrou um frade, que logo lhe disse que estava pronto a servi-lo. Batizou-se a menina e o padrinho pôs-lhe o nome de Antônia e disse ao compadre:

— Educa a tua filha o melhor que puderes, pois quando ela tiver treze anos virei buscá-la para a colocar bem.

Passaram-se os treze anos e o pai, vendo que o padrinho não vinha buscar a filha, resolveu mandá-la servir para uma casa e ia já a caminho da cidade com ela quando lhe apareceu o padrinho e lhe disse:

— A tua filha vai servir para casa do rei, mas é preciso que ela de hoje em diante se chame Antônio em vez de Antônia e troque os seus vestidos por um fato de homem, pois de outra forma corre risco a sua formosura na casa do rei.

Assim se fez e Antônia foi para o serviço da rainha na qualidade de pajem. Então o padrinho disse-lhe:

— Porta-te bem sempre e quando te vires nalguma aflição diz: “Valha-me aqui o meu padrinho.” Crescia Antônia em esperteza e formosura e todos no palácio julgaram que ela era rapaz. A rainha começou a agradar-se muito do seu pajem e, vendo que ele não lhe correspondia, tratou de meter muitas intrigas ao rei para ver se conseguia que este despedisse o pajem do seu serviço. Um dia foi ela dizer ao rei que Antônio tinha dito que era capaz de numa noite separar todo o joio da grande porção de trigo que estava nos campos pertencentes ao rei. Este chama Antônio e ele respondeu que tal não dissera, mas que ia ver se era capaz dessa empresa. Foi então para o campo e disse:

— Valha-me aqui o meu padrinho. Apareceu-lhe o padrinho e disse-lhe:

— Vai-te deitar sossegada que pela manhã tudo estará pronto. E assim foi.

Ficou o rei muito satisfeito e a rainha sentindo cada vez mais paixão pelo pajem a ponto de lhe dizer que, se ele não lhe correspondesse, iria fazer com que o rei o mandasse embora do palácio.

Antônia só respondeu:

— Faça Vossa Majestade o que quiser, eu não posso amá-la sem ser desleal ao meu rei.

Foi então a rainha ter com o rei e disse-lhe:

— Eu deitei ao mar o meu anel de brilhantes e Antônio disse que era capaz de o ir apanhar. Foi Antônia à presença do rei e respondeu que tal não dissera, mas que iria ver se apanhava o anel. Então chamou pelo padrinho e logo ele lhe apareceu e lhe disse:

— Vai pescar e o primeiro peixe que apanhares abre-o e dentro estará o anel. Antônia assim fez e levou o anel à rainha.

A rainha, desesperada, foi ter com o rei e disse-lhe:

— Antônio disse que era capaz de ir à moirama buscar a nossa filha que está cativa dos moiros. Antônia disse ao rei que era capaz de lá ir. Partiu e no caminho disse:

— Valha-me aqui o meu padrinho.

— Vai, os guardas do castelo onde está a princesa hão de estar a dormir quando tu chegares; tu entras, tiras a princesa e nada mal te acontecerá. Aqui tens esta verdasquinha; hás de bater com ela três vezes na princesa, a primeira à saída da moirama, a segunda no meio do caminho e a terceira à entrada do palácio.

Antônia fez tudo como o padrinho lhe ensinara e levou a princesa para o palácio. Ora a princesa era surda-muda e a rainha disse ao rei que Antônio dissera que era capaz de dar fala à princesa. Então o rei disse:

— Antônio, se me deres fala à princesa, casarás com ela.

— Valha-me o meu padrinho. Apareceu-lhe o padrinho e disse-lhe:

— Pergunta à princesa porque é que tu lhe bateste com a verdasca que eu te dei e ela te responderá.

Foi Antônio diante do rei e da rainha e perguntou à princesa:

— Por que te dei com a verdasca
À saída da moirama?
— Foi porque a minha mãe
Três vezes te levou à cama.
— Por que te dei com a verdasca
Quando vinhas no caminho?
— Foi porque Santo Antônio
É que era teu padrinho.
— Por que te dei com a verdasca
À entrada do palácio?
— Querias que soubesse
Que és fêmea e não macho.
  
O rei ficou encantado com tais maravilhas e, sabendo quanto a rainha lhe era desleal, não a quis mais por mulher e casou com Antônia, que desde esse dia começou a usar os vestidos de rainha e foi sempre muito boa, pois Santo Antônio nunca deixou de a proteger.

Mais vale quem Deus ajuda, que quem muito madruga (Conto), de Adolfo Coelho


Mais vale quem Deus ajuda, que quem muito madruga
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez dois almocreves e iam a dizer um para o outro: “Qual vale mais, quem Deus ajuda ou quem muito madruga?” Um dizia que era quem Deus ajudava, outro que era quem muito madrugava. Foram mais abaixo e encontraram o diabo a cavalo e perguntaram-lhe:
 
— Ó senhor! Qual vale mais: quem Deus ajuda ou quem cedo madruga? O diabo respondeu:

— Quem cedo madruga.

O almocreve que dizia que mais valia quem cedo madruga disse para o outro que lhe desse o burro com as fazendas que tinha apartado, mas este disse-lhe:

— Deixa-me ir mais abaixo.

Foram mais abaixo e encontraram um homem que lhes disse também que mais valia quem cedo madrugava; enfim ninguém lhe disse que mais vale quem Deus ajuda.

O almocreve tomou posse do que era do companheiro e este disse:

— Ai, senhor! Eu agora onde me hei de ir recolher que estou aqui desamparado? E nisto foi para debaixo de uns pinheiros e disse:

— Agora ainda não fico aqui; está acolá uma luzinha tão longe a reluzir; vou-me acolá ficar debaixo daquela casa.

Foi, mas o que encontrou foi uma mina; meteu-se nela e vieram depois os diabos para cima da mina e disseram uns para os outros:

— Está ali um poço novo e andam há um ror de tempo para tirar a água a fazer barulho com picão e se pegassem e dessem no fundo uma pancada muito pequena, a água saía logo toda como uma levada; e o dono dá quatro cruzados em prata a quem lhe fizer sair a água. Ai, está a filha do rei tão mal; está um ror de médicos à roda dela e não a curam; se se pegasse numa bacia de leite e se voltasse a princesa de pernas para o ar com a boca na bacia saía logo a cobra que ela tem, que lhe faz mal.

O almocreve, que estava a observar, foi de manhã ter com o dono do poço; desceu ao fundo; deu a pancada e logo saiu a água. Recebeu os quatro cruzados e foi-se para a terra do rei. Chegou à porta do palácio e disse aos criados que queria falar ao rei.

— Então você que quer?

— Digam lá ao rei que eu venho cá dar saúde à princesa.

Respondeu um criado:

— Estão lá um ror de médicos e não lhe dão saúde e você é que lhe há de dar saúde!...

Mas, enfim, resolveram-se a ir dizer ao rei que estava ali aquele homem. O rei chamou-o e ele foi lá acima e começou a apalpar a princesa como médico e mandou vir uma bacia de leite, e mandou pôr a princesa de pernas para o ar com a boca na bacia de leite, e saiu-lhe de dentro uma cobra e a princesa ficou boa.

O rei tinha prometido dar a princesa a quem a curasse; perguntou ao almocreve se queria casar com ela ou se queria metade do rendimento do rei e um cavalo para andar a cavalo; ele respondeu que queria dinheiro para ficar rico toda a sua vida. O rei assim fez.

O almocreve depois encontrou o outro que lhe tinha ficado com o burro e lhe disse:

— Ó homem, tu estás tão rico e eu estou tão pobre; tu de cada vez te aumentas mais.

— Olha, faz como eu fiz; vai para aqueles pinheirais; está lá uma mina; mete-te debaixo; hão de vir lá os diabos e escuta o que eles disserem.

O homem assim fez. Os diabos vieram e disseram uns para os outros:

— Ai, que cheira aqui a fôlego vivo.

E nisto vieram abaixo e bateram muita bordoada no almocreve, que morreu.

João Pequenito (Conto), de Adolfo Coelho


João Pequenito

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Havia noutros tempos um homem que tinha três filhos e, como fossem muito pobres, disse-lhes um dia: “Meus filhos, é tempo de ir correr mundo em busca de fortuna, pois eu nada tenho que lhes deixar quando morrer.” Então os filhos despediram-se do pai e partiram para muito longe, indo ter à corte de um rei turco muito mau. Logo que lá chegaram, pediram agasalho por aquela noite; o rei mandou-os entrar no palácio e, como ele tinha três filhas, mandou que deitassem os três rapazes nas camas das filhas e que lhes pusessem na cabeça umas carapuças de prata, que era para quando eles estivessem a dormir lhes ir cortar a cabeça.

Lá pela noite adiante o rapaz mais novo, que se chamava João Pequenito (apelido que lhe puseram por ele ser muito baixinho), levantou-se e tirou a carapuça da cabeça e das cabeças dos irmãos; pô-las nas cabeças das filhas do rei e fugiu do palácio mais os irmãos, escapando assim à morte.

O rei turco, de noite, foi para matar os rapazes e matou as filhas.

Quando os rapazes já iam muito longe, disse o João Pequenito: “Agora é preciso separarmo-nos e cada qual busque a sua vida.” O João Pequenito foi ao palácio de certo rei e pediu para que o tomassem para criado. O rei nomeou-o seu jardineiro e ele de tal maneira se soube haver que o rei estimava-o mais que todos os outros criados. Entre estes começou a reinar muita inveja a ponto de irem dizer ao rei que o João Pequenito tinha dito que era capaz de ir furtar uma bolsa de moedas que o rei turco tinha debaixo da cabeceira. Chamou o rei o João Pequenito e disse-lhe o que os criados tinham dito e ele respondeu que sim, que iria, e disse mais: “Mande Vossa Majestade dar-me um navio para eu ir à corte do rei turco e verá de quanto eu sou capaz.”

Foi o João Pequenito; subiu pela parede do palácio do rei turco, entrou pela janela e quando o rei dormia tirou-lhe a bolsa de debaixo do travesseiro e fugiu.

O papagaio do rei turco começou a gritar:

— Ó rei, olha que o João Pequenito leva a tua bolsa de moedas. 

— Deve ser esta a voz do papagaio.

O rei foi ver à janela, mas ele já ia longe; o rei ainda lhe perguntou:

— Tornarás cá, Pequenito?

— Tornarei, tornarei — respondeu ele.

E foi todo contente levar a bolsa ao rei seu amo.

Passados dias, foram dizer ao rei que o João Pequenito dissera que era capaz de ir furtar a coberta de campainhas que o rei turco tinha na cama. De novo é o Pequenito interrogado e lá volta à corte do turco, furta a coberta e foge. O papagaio do rei turco gritava:

— Ó rei, Ó rei, olha o Pequenito, que leva a tua coberta de campainhas. O turco foi à janela e perguntou:

— Tornarás cá, Pequenito?

—  Tornarei, tornarei.

Chegou o Pequenito ao palácio do seu amo com a coberta e o rei cada vez estava mais agradado dele por ver a sua valentia.

De novo os criados foram dizer ao rei que o Pequenito dissera que era capaz de ir furtar o papagaio do rei turco. O Pequenito, logo que isto soube, aprontou-se e foi. Furtou o papagaio e este gritava pelo caminho:

— Aqui d'el-rei, que me levam furtado. E o Pequenito gritava:

— Aqui d'el-rei, que furtado me levam.

Chegado o Pequenito ao palácio, novos trabalhos o esperavam.

Disseram ao rei que o Pequenito dissera que era capaz de furtar o próprio rei turco e de o trazer para o palácio. Então o rei disse-lhe:

— Se tu fores capaz de me trazer aqui o rei turco, casarás com a princesa minha filha. O Pequenito respondeu:

— Dê-me Vossa Majestade um exército de homens e alguns navios e verá de quanto é capaz o Pequenito.

Aprontou-se tudo e o Pequenito arranjou uma grande caixa e foi ao palácio do turco e quando ele estava a dormir envolveu-o na roupa da cama; desceu com ele pela janela, meteu-o na caixa e à frente do exército lá o levou para a corte do rei seu amo. Este quis logo que o Pequenito casasse com a sua filha; fizeram-se grandes festas e o Pequenito mandou ir para o palácio o seu pai e irmãos, dando-lhes altos cargos na corte. E assim acaba esta história de que:

A certidão está em Tondela 
Quem quiser vá por ela.

O Colhereiro (Fábula), de Adolfo Coelho










O Colhereiro

 Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Houve noutros tempos um colhereiro que tinha por costume ir a uma mata muito longe da sua casa para apanhar madeira para fazer colheres.

Certo dia, quando ele estava cortando um pedaço de um castanheiro muito antigo, notou que no tronco havia um grande buraco. Cheio de curiosidade, o colhereiro quis ver o que havia dentro, mas mal tinha entrado quando lhe apareceu um mouro encantado, e com voz medonha lhe disse: “Já que te atreves a penetrar no meu palácio, ordeno-te que me tragas aqui a primeira coisa que te aparecer ao chegares a tua casa, e se não cumprires fica certo que morrerás dentro em três dias.”

Foi-se o colhereiro para sua casa, onde tinha três filhas muito lindas, e uma cadelinha que sempre o vinha esperar à entrada da porta.

Nesse dia, porém, contra o seu costume, quem lhe apareceu à entrada da porta foi a filha mais velha. Então ele, chorando, contou à filha tudo o que lhe tinha acontecido e pediu-lhe que fosse ela, senão que o mouro o mataria e ficavam ela e as irmãs sem amparo.

A filha aprontou-se logo para ir e depois de ter abraçado as irmãs partiu para o palácio do mouro.

Deixamos agora o colhereiro com as duas filhas e vamos ver o que faz o mouro à outra filha.

Logo que ela chegou, deu-lhe as chaves de todas as salas do palácio e deitou-lhe ao pescoço um cordão de ouro fino com a chave de uma sala, proibindo-a de entrar nela, pois se lá fosse morreria. Um dia em que o mouro tinha saído a infeliz rapariga, cheia de curiosidade, quis ver o que estava na tal sala. Entrou e viu muita gente com as cabeças cortadas; ela, toda horrorizada, fechou a porta e pôs outra vez a chave ao pescoço; mas o mouro, quando voltou ao palácio, foi ver a dita chave e viu que ela tinha uma mancha de sangue. Então, sem dar uma só palavra, cortou a cabeça à pobre rapariga e foi deitá-la na mesma sala aonde ela tinha entrado.

Voltando ao colhereiro, sabereis que ele foi ter com o mouro para que lhe desse notícias da filha, e ele lhe respondeu: “Vai buscar a tua filha do meio para vir fazer companhia à que cá está, pois ela anda muito triste com saudades dela”.

Trouxe o colhereiro a filha, e a ela sucedeu-lhe o mesmo que tinha sucedido à sua irmã. Restava ao colhereiro só a filha mais nova, mas como o mouro lhe ordenasse que lha levasse também, levou-lha. Logo que ela chegou, o mouro fez-lhe as mesmas recomendações que tinha feito às outras irmãs. A rapariga, como haviam feito as irmãs, entrou na sala dos mortos e viu-as degoladas, mas notou que elas ainda estavam quentes e teve desejos de as tornar à vida.

Na mesma sala havia um armário contendo pucarinhos com o sangue dos mortos; então ela, vendo dois pucarinhos com o nome das irmãs, pegou nas cabeças delas, juntou-as aos corpos e despejou-lhes o sangue no pescoço e logo as irmãs tornaram à vida. Depois recomendou-lhes que não falassem que ela havia de arranjar meio de as mandar para casa do pai. As irmãs recomendaram-lhe que limpasse a chave para o mouro não saber o que ela tinha feito. Voltou o mouro a casa e de nada desconfiou, e começou então a amar muito a rapariga a ponto de se deixar dominar por ela. Um dia pediu-lhe ela que fosse ele levar uma barrica de açúcar ao seu pai, pois estava muito pobre; o mouro disse logo que sim. Ela então meteu uma das irmãs dentro da barrica e disse ao mouro que fosse depressa, que não parasse no caminho que ela o ia ver do mirante.

O mouro partiu, e ela ordenou à irmã que fosse dizendo pelo caminho estas palavras: “eu bem te vejo” para o mouro julgar que era ela que lhe falava do mirante. A rapariga dizia: “Eu bem te vejo, eu bem te vejo” e o mouro respondia: “Lindos olhos que tanto vedes; correr, correr...", e corria, corria até que chegou a casa do pai; largou a barrica e voltou para o palácio.

Passados dias, quis a rapariga mandar outra barrica ao pai, e da mesma forma mandou a outra irmã. Restava só ela; ora, isso era mais difícil; mas como era muito esperta, de que se havia de lembrar?! Fez uma boneca de palha, vestiu-lhe os seus vestidos, pô-la no mirante; meteu-se na barrica, depois de ter dito ao mouro que fosse depressa, que ela ia vê-lo do mirante. Pelo caminho foi sempre dizendo: “Eu bem te vejo, eu bem te vejo.” “Lindos olhos que tanto vedes; correr, correr.” — dizia o mouro. Assim voltaram as filhas todas para casa do seu pai; e o mouro voltou ao palácio e foi-se abraçar à boneca de palha julgando ser a rapariga, e caiu do mirante abaixo morrendo logo rebentado; o palácio e o castanheiro desapareceram, pois tudo era obra de encanto.

O Conde Encantado (Conto), de Adolfo Coelho


O Conde Encantado

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma avó tinha uma neta a quem queria muito mal, e um dia disse-lhe que a havia de queimar em vida e mandou-a buscar lenha para aquecer o forno. A menina foi, muito triste, e em vez de apanhar a lenha foi caminhando, caminhando, até que avistou um palácio; aproximou-se dele e bateu; depois apareceu um conde e perguntou-lhe o que ela queria. A menina respondeu que ia ver se a queria para criada e o conde respondeu que sim. Vivia a menina muito feliz no palácio, até que ele disse-lhe um dia que se sentia muito doente e por isso que ia para casa de sua mãe para se tratar; que de vez em quando a viria visitar, mas que era preciso que ela pusesse na janela uma bacia com água para ele se lavar e uma toalha para se limpar; e recomendou muito à menina que não chegasse à janela porque podia passar algum homem da terra dela e ir dizer à avó que a tinha visto.

Punha a menina a toalha todos os dias na janela, e o conde vinha transformado em passarinho; lavava-se na água e entrava em casa, aparecendo à menina já transformado outra vez em homem.

Um dia a menina ficou mais um bocado à janela, e nisto passou um homem da terra dela, viu-a e foi contar à avó da menina que a tinha visto e que ela tinha na janela uma bacia com água e uma toalha.

Então a avó disse ao homem que fosse ele deitar no fundo da bacia uma roda de navalhas bem afiadas, mas que a neta não percebesse. Foi o homem lá pôr as navalhas e, quando o passarinho se foi lavar na água, cortou-se todo nas navalhas e limpou-se à toalha deixando-a toda ensanguentada; depois foi-se embora sem aparecer à menina.

Passaram-se muitos dias sem a menina ter notícia do conde e, como ela visse a roda das navalhas na bacia e o sangue na toalha, andava muito triste por se lembrar que o conde teria morrido. Finalmente, o conde mandou por um criado dizer à menina que estava muito doente e que era preciso que ela o fosse ver, mas que levasse uns fígados de rolas, para com eles o curar.

Partiu a menina sozinha por esses caminhos, pois a casa da mãe do conde ficava muito longe daqueles sítios; quando anoiteceu, deitou-se debaixo de uma árvore, esperando que aparecesse alguma rola para lhe tirar os fígados. Quando amanheceu, já a menina tinha apanhado algumas e depois foi pedir a um pastor que lhe ensinasse o caminho para o palácio da mãe do conde.

Chegada ali, pisou os fígados das rolas em um almofariz e começou a tratar o conde com eles, de forma que em pouco tempo já ele estava bom. Então o conde disse à mãe que queria casar com a menina. Só ela tinha feito com que acabasse o seu encanto, pois nunca tinha conseguido arranjar os fígados de rolas para o curar.

Casaram e tiveram muita fortuna.

Os Meninos Perdidos (Conto), de Adolfo Coelho


Os Meninos Perdidos
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Um pai tinha um filho e uma filha e costumava mandá-los ao mato buscar lenha. Um dia os meninos foram e perderam-se no caminho. Depois de terem caminhado muito, avistaram uma luz; foram-se aproximando e viram junto da luz uma casa; entraram e viram uma bruxa que estava fritando filhós; a bruxa tinha só um olho, no meio da testa e por isso não viu logo os meninos. Ora os meninos, como iam com muita fome, tiraram com muito jeitinho as filhós, e a bruxa, julgando ser o gato que as tirava, dizia:

Sape, gato lambão,

Logo te dou teu quinhão.

E continuava a fritar; e os meninos, vendo o engano da bruxa, deram uma gargalhada. Ela então olhou para eles e disse: “Sois vós, meus meninos? Vinde cá.” Pegou nos meninos e meteu-os dentro de uma arca de castanhas, recomendando-lhes que comessem bastante até estarem bem gordinhos. Os meninos iam comendo as castanhas, e a bruxa disse-lhes um dia:

— Metei o dedinho pelo buraco da fechadura para eu ver se já estais gordinhos.

Os meninos, em vez de meterem os dedinhos, meteram o rabo de um ratito que tinham achado na arca. A bruxa disse ao vê-lo:

— Ainda estais muito magrinhos; continuai a comer.

Passado tempo, tornou outra vez a dizer aos meninos que deixassem ver os dedinhos e eles não tiveram remédio senão mostrar-lhos, pois já não tinham o rabo do rato. Então a bruxa disse-lhes:

— Agora já podeis sair da arca, pois já estais bem gordinhos.

Depois disse aos meninos que fossem buscar lenha para aquecer o forno; e deu-lhes um pão, recomendando-lhes que comessem só o miolo, mas que não o partissem; deu-lhes também uma cabaça de vinho, dizendo-lhes que o bebessem sem lhe tirar a rolha; deu-lhes mais dois punhados de tremoços, dizendo-lhes que os comessem e deitassem as cascas pelo caminho, para depois se guiarem por elas quando voltassem para casa.

Partiram os meninos para o mato; no caminho encontraram uma velhinha que lhes perguntou para onde eles iam. Os meninos contaram-lhe tudo o que lhes tinha sucedido e disseram-lhe que tinham fome, mas que não sabiam como haviam de comer o pão sem o partir.

Então a velhinha fez-lhes um buraquinho no pão, tirou o miolo e deu-o aos meninos; depois fez também um buraquinho na cabaça para os meninos beberem o vinho e disse-lhes que fossem apanhar a lenha, que ela os esperava no caminho. Voltaram os meninos do mato e encontraram outra vez a velhinha, que lhes disse:

— Meus meninos, a bruxa vai aquecer o forno para vos assar; ela há de dizer-vos que danceis na pá e vós haveis de dizer-lhe: “dançai vós primeiro que é para nós aprendermos.” Depois ela dançará, e vós direis: “Valha-me Nossa Senhora e São José” e deitai-a no forno.

Levaram os meninos a lenha; a bruxa aqueceu o forno e disse aos meninos:

— Dançai aqui na pá.

— Dançai vós primeiro para nós aprendermos.

A bruxa pôs-se a dançar na pá e os meninos disseram:

— Valha-me Nossa Senhora e São José e deitaram a bruxa para dentro do forno.

A bruxa deu um grande estoiro e morreu, e os meninos voltaram para casa de seu pai e levaram o dinheiro que a bruxa tinha em casa.

A Cacheirinha (Conto), de Adolfo Coelho


A Cacheirinha

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez um homem que tinha muitos filhos e era muito pobre, e como não tivesse em que ganhar pão para lhes dar, foi para criado de certo rei, para ver se assim podia sustentar melhor os filhos.

Ao fim de um ano de serviço, disse ele ao rei:

— Senhor, peço que me deis a paga do meu serviço, pois quero ir viver com os meus filhos e mulher, de quem estou separado há um ano.

Então o rei disse-lhe:

— Não te pago em dinheiro, mas leva essa mesa, e toda a vez que queiras comer dirás: “Põe-te, mesa”, e terás comer para ti e teus filhos.

Foi-se o homem muito contente e no caminho teve fome, e então disse: “Põe-te, mesa” e logo apareceu a mesa coberta de ricos manjares.

Comeu o homem à farta, e dos sobejos ainda repartiu com algumas pessoas pobres que encontrou no caminho. Como porém anoitecesse, o homem foi pernoitar a uma estalagem, e à vista do estalajadeiro ordenou à mesa que se pusesse, e logo apareceram novamente ricos manjares. O estalajadeiro, vendo isto, esperou que o homem estivesse dormindo, e trocou a mesa por outra igual no feitio, mas que não tinha o condão daquela.

Levantou-se o homem de madrugada, pegou na mesa às costas e foi para casa da mulher e dos filhos. Ao chegar ali, disse:

— Meus queridos filhos e minha querida mulher, já não precisamos de trabalhar para comer, pois el-rei deu-me uma mesa que nos apresenta comer todas as vezes que eu quiser.

Então a mulher e os filhos, que estavam cheios de fome, disseram que lhes desse de comer; mas debalde o homem dizia: “Põe-te mesa, põe-te mesa”, que a mesa não se punha.

Lembrou-se então ele que talvez o estalajadeiro lha tivesse trocado, e voltou à estalagem, mas ele negou e tornou a negar, que tal não tinha feito. Foi-se o homem ter com o rei e contou-lhe o sucedido. Então o rei deu-lhe uma peneira e disse-lhe:

— Quando quiseres dinheiro, dirás: “Peneira, peneirinha” e cair-te-á dela dinheiro em vez de farinha.

Foi-se o homem ainda mais contente do que da primeira vez, mas como fosse outra vez pernoitar à estalagem, e o estalajadeiro visse que ele tirava dinheiro da peneira, fez o mesmo que tinha feito à mesa; o homem, ao chegar a casa, viu que tinha sido novamente logrado. Voltou a queixar-se ao rei; ele deu-lhe uma cacherinha. Vocês não sabem o que é uma cacheira, mas eu explico. Cacheira é um pau ou uma moca. Esta cacheirinha era um pau pequeno. Voltemos à história: disse o rei:

— Vai à estalagem com esta cacheirinha, e diz: “Desanda cacheirinha”, e enquanto o estalajadeiro não te der a mesa e a peneira, manda-a sempre desandar.

Foi o homem e fez o que o rei lhe disse, e o estalajadeiro, maçado com pancadas, deu a mesa e a peneira ao homem. Voltou este todo alegre e contente para sua casa com as três prendas que lhe dera o rei. Quando os filhos, ele e a mulher tinham fome, logo tinham comer; quando precisavam de dinheiro, também o tinham, e quando os filhos faziam alguma coisa mal feita, também o pai mandava desandar a cacheirinha, e assim educou os filhos muito bem, e quando eles chegaram a ser homens foi oferecê-los ao rei, para irem servir a pátria, e foram uns valentes soldados.

A Romãzeira do Macaco (Conto), de Adolfo Coelho


A Romãzeira do Macaco
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era uma vez um macaco que estava em cima de uma oliveira a comer uma romã; sucedeu que caiu um grão da romã para a terra em que estava a oliveira e, passado pouco tempo, nasceu uma romãzeira. Quando o macaco viu a romãzeira nascida, foi-se ter com o dono da oliveira e disse-lhe:

Arranca a tua oliveira para crescer a minha romãzeira.

Responde o homem:

Não estou para isso.

Foi-se o macaco ter com a justiça e disse-lhe:

Justiça, prende o homem para que arranque a oliveira, para crescer a minha romãzeira.

Responde a justiça:

Não estou para isso.

Foi-se o macaco ter com o rei e disse-lhe:

Rei, tira a vara à justiça, para ela prender o homem, para ele arrancar a oliveira, para crescer a minha romãzeira.

Responde o rei:

Não estou para isso.

Foi o macaco ter com a rainha:

Rainha, põe-te mal com o rei, para ele tirar a vara à justiça, etc.

Responde a rainha:

Não estou para isso.

Foi-se ter com o rato:

Rato, rói as fraldas à rainha, para ela se pôr de mal com o rei, etc.

Responde o rato:

Não estou para isso.

Foi-se ter com o gato:

Ó gato come o rato, para ele roer as fraldas à rainha, etc.

Responde o gato:

Não estou para isso.

Foi-se ter com o cão:

Ó cão, morde o gato, para ele comer o rato, etc.

Responde o cão:

Não estou para isso.

Foi ao pau e disse-lhe:

Pau, bate no cão, para o cão morder o gato, etc.

Não estou para isso.

Foi ter com o lume:

Lume, queima o pau, para ele bater no cão, etc.

Não estou para isso.

Foi ter com a água:

Ó água, apaga o lume para ele queimar o pau, etc.

Não estou para isso.

Foi ao boi:

Ó boi, bebe a água para ela apagar o lume, etc.

Não estou para isso.

Foi ao carniceiro:

Carniceiro, mata o boi para ele beber a água, etc.

Não estou para isso.

Foi ter com a morte:

Ó morte, leva o carniceiro, para ele matar o boi, etc. A morte ia para levar o carniceiro e ele disse-lhe: Não me leves que eu mato o boi. Disse o boi:

Não me mates que eu bebo a água.

Disse a água:

Não me bebas que eu apago o lume.

Disse o lume:

Não me apagues que eu queimo o pau.

Disse o pau:

Não me queimes que eu bato no cão.

Disse o cão:

Não me batas que eu mato o gato.

Disse o gato:

Não me mordas que eu como o rato.

Disse o rato:

Não me comas que eu roo as fraldas à rainha.

Disse a rainha:

Não me roas as fraldas que eu ponho-me de mal com o rei.

Disse o rei:

Não te ponhas mal comigo que eu tiro a vara à justiça.

Disse a justiça:

Rei, não me tires a vara que prendo o homem.

Disse o homem:

Justiça, não me prendas que eu arranco a oliveira.

E o homem arrancou a oliveira e o macaco ficou com a sua romãzeira.