sexta-feira, 25 de março de 2016

As jararacas tupiniquins

As jararacas tupiniquins

"Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo. A jararaca está viva. Como sempre esteve".

Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso no diretório central do Partido dos Trabalhadores (PT), em março de 2016.


Jararaca é uma denominação comum a várias espécies de cobras peçonhentas do gênero Botrops, daí seu nome científico Bothrops jararaca.

Em seus “Tratados da terra e gente do Brasil”, escritos entre os anos de 1583 e 1601, o Padre Jesuíta Fernão Cardim descreve da seguinte forma esta espécie de víbora: “...têm grandes presas na boca, escondidas ao longo do queixo, e quando mordem estendem-no como dedo de mão, têm a peçonha nas gengivas, têm os dentes curvos, e nas costas deles um rego por onde lhe corre a peçonha. Outros dizem que a têm dentro do dente, que é furado por dentro. Têm tão veemente peçonha que em 24 horas, e menos, mata uma pessoa; a peçonha é muito amarela como água de açafrão; parem muitos filhos, e algumas se acham treze na barriga.”

Outro que também se ocupou em descrever este gênero de serpente foi o historiador Gabriel Soares de Sousa. Em seu “Tratado Descritivo do Brasil” (de 1587) escreveu ele: “Pelos matos e ao redor das casas se criam umas cobras a que os índios chamam jereracas; as maiores são de sete e oito palmos de comprido, e são pardas e brancacentas nas costas, as quais se põem às tardes ao longo dos caminhos esperando a gente que passa, e em lhes tocando com o pé lhes dão tal picada que se lhes não acodem logo com algum defensivo, não dura o mordido vinte e quatro horas. Estas cobras se põem também em ramos de árvores junto dos caminhos para morderem à gente, o que fazem muitas vezes aos índios, e quando mordem pela manhã tem a peçonha mais força, como a víbora; as quais mordem também as éguas e vacas, do que morrem algumas, sem se sentir de quê, senão depois que não tem mais remédio. Têm estas cobras nos dentes presas, as quais mordem de ilhargas; e aconteceu na capitania dos Ilhéus morder uma destas cobras um homem por cima da bota, e não sentir coisa que lhe doesse, e zombou da cobra, mas ele morreu ao outro dia; e vendendo-se o seu fato em leilão comprou outro homem as botas e morreu em vinte quatro horas com lhe incharem as pernas; pelo que se buscaram as botas, e acharam nelas a ponta do dente, como de uma agulha, que estava metida na bota; no que se viu claro que estas jararacas têm a peçonha nos dentes. Essas cobras se criam entre pedras e paus podres, e mudam a pele cada ano; cuja carne os índios comem.”

Os relatos acima, escritos em tempos remotos e sem os pormenores  da Ciência,  abordam o mesmo assunto levando em conta apenas aquilo que se conhecia da realidade empírica da serpente denominada jararaca. De tais enxertos conclui-se que essa cobra possui, entre outras, as seguintes características:

1 – É dotada de dentes grandes e potentes;
2 – É peçonhenta, isto é, venenosa;
3 – É extremamente fecunda;
4 – Faz uso da camuflagem para espreitar suas vítimas;
5 – É traiçoeira e astuta;
6 – Troca de pele a cada ano.

Embora esta espécie de víbora seja geograficamente distribuída em boa parte do sudeste da América do Sul, espalhando-se desde o norte da Bahia até a Argentina, é no Brasil que ela se prolifera em abundância.

Ao se comparar a uma cobra jararaca, o político Lula reuniu nesse bicho as características da sua própria classe corrupta e degradada, dentre as quais:

A peçonha que se manifesta na forma cruel como arrebanha em seus currais eleitorais um grande número de vítimas, as quais entregam os seus votos como escambos em trocas de esmolas, quinquilharias e promessas que jamais serão cumpridas;

A fecundidade com que se proliferam, deixando proles igualmente férteis que se perpetuam em série por incontáveis gerações, mantendo as mesmas características herdadas da família por séculos;

A habilidade de se fazer virtuoso e caridoso, cujo fim é camuflar sua verdadeira aparência de serpente peçonhenta e esconder seus dentes afiados por trás de falsos sorrisos e de gentilezas cosméticas;

A capacidade de se adaptar às diversas circunstâncias, moldando seu caráter segundo suas próprias conveniências, a fim de se manter perpetuamente no poder;

A astúcia com a qual se metamorfoseia para agradar a todos, fazendo-se de anjo perante a grande massa e de demônio nos porões junto com seus pares.

Enfim, seja através da dissimulação eleitoreira, seja mediante conluios  com os poderosos, as nossas jararacas políticas destacam-se, acima de tudo, por sua capacidade de se perpetuar no poder mesmo com suas peçonhas expostas publicamente e suas maldades postas ao escrutínio público.



É isso!



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Por: Iba Mendes (Março, 2016)

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