sexta-feira, 1 de abril de 2016

Filosofia de Hipocrisia


Filosofia de Hipocrisia

“Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

Machado de Assis, em “A Igreja do Diabo”


Com frequência lemos ou assistimos entrevistas de pessoas a quem se atribuem o suntuoso status de “intelectual”, geralmente alguém com formação específica numa determinada área ou com múltiplas formações em distintas esferas do saber humano e com um currículo acadêmico invejável.

É o psicanalista que expele em golfadas suas teorias modernas sobre comportamentos, que dita regras para superação dos traumas humanos, que discorre acerca dos males da sociedade contemporânea, que  oferece dicas para se alcançar a felicidade, mas que é incapaz de exercer controle sobre os ímpetos assassinos do próprio filho.

É o médico  que apresenta dietas revolucionárias para um corpo saudável, que fala dos malefícios do tabagismo e do álcool, que  enaltece os benefícios da prática esportiva, que ensina sobra a melhor maneira de se baixar o colesterol e se evitar a obesidade, mas que não consegue  se abster  um só dia do seu  indispensável Rivotril.

É o filósofo que busca contextualizar Platão e Aristóteles à atualidade, que rumina despretensiosamente trechos de Nietzsche e  Espinosa, que  realça a importância  do conhecimento para humanidade, que  demonstra viver de acordo com os ditames da razão, mas que  se mostra completamente descontrolado dirigindo um automóvel no trânsito das ruas.

É o religioso que apregoa a fraternidade entre os homens,  que  realça as virtudes evangélicas, que conclama os povos a buscarem a Deus, que  defende a família como a célula mater da sociedade, mas que sob quatro paredes trata a mulher como um ente inferior que precisa a todo o tempo ser controlado.

É o jurisconsulto que vocifera leis, artigos, cláusulas, parágrafos e alíneas, que  dar pareceres sobre as elevadas questões jurídicas, que discursa acerca da importância de uma Constituição justa para as sociedades, que  apregoa com exuberância jurídica os preceitos éticos, mas que não vê problema algum em defender membros de uma organização notadamente criminosa.

É o político que vomita verbos e superlativos, que promete atender os anseios das pessoas menos favorecidas socialmente, que apresenta grandes projetos de interesses socais, que se compromete a combater a corrupção, mas que tão logo chega ao poder não resiste ao olhar bondoso do primeiro empreiteiro.

É o artista que usa seu prestígio midiático para defender  ideais  nobres, que  se empenha na defesa do meio ambiente, que se engaja de corpo e alma em projetos culturais elevados, que se põe a favor da liberdade artística, mas que vez outra não se incomoda em dar apoio a políticos denegridos em troca de verbas financeiras.

É o sociólogo que discorre acerca da origem e do desenvolvimento das sociedades, que fala sobre os agentes geradores  dos  conflitos sociais, que explica as leis fundamentais que regem as relações humanas, que se põe na defesa da diversidade cultural, mas que faz questão de passar ao largo das “gentes diferenciadas”.

É o socialista que denuncia a injustiça social, que discorre sobre uma distribuição de renda mais justa e igualitária, que ataca o capitalismo selvagem que rouba a dignidade do homem,  que fala sobre a importância da revolução proletária, mas desde que esta  seja feita com os bens alheios.

É, enfim, o intelectual  que faz questão de pôr em relevo  sua formação acadêmica, que opina sobre tudo e sobre todos, que  exalta seus títulos e méritos, que se faz  possuidor de uma cultura nobre e elevada, mas que não vê o instante da chegada do próximo “Big Brother”.


É isso!
 
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Por: Iba Mendes (Abril, 2016)

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