domingo, 31 de julho de 2016

Filosofia de Espelho


Filosofia de Espelho

"Banhou-se, ensaboou-se, deu-se todo aos cuidados pessoais, gastando o tempo do costume, e mirando-se ao espelho, vinte e trinta vezes. Também era costume. Gostava de ver-se bem, não só para retificar uma coisa ou outra, mas para contemplar a própria figura."
Machado de Assis, "O caso Barreto" (Conto)

Reza o mito grego que Narciso, filho de Cefiso e da ninfa Liríope, encantado com sua própria beleza refletida na água, deixou-se consumir ali mesmo, transformando-se numa flor.

Se a ilusão da beleza faz despedaçar a essência de uma pessoa, o seu oposto não é diferente. Quando a questão é o espelho, beleza e feiura tornam-se partes intrínsecas de um só processo: a angústia.

A angústia da beleza nasce da sua incompletude, da consciência de sua transitoriedade e do esforço inútil para mantê-la. A feiura, por sua vez, faz gerar um inconformismo confuso, a tristeza de si mesmo  e  a frustração que se deriva do sentimento de desarmonia com a padronização vigente. E assim diante do espelho, cada um em seu oposto, deixa-se consumir pelo nada absoluto, pela total ignorância da condição humana real e pela vontade inconsciente de se atingir o vazio existencial em seu estado pleno. Daí resultam as patológicas exposições nas redes sociais,  em que se implora cliques e comentários, numa ânsia desesperada de se sentir belo (ou bela), ainda que cosmeticamente.

Os séculos desfilam num turbilhão, e o espelho segue-lhe à reboque. Cada época é consumida em seus próprios padrões, que nascem e renascem conforme as convenções humanas e segundo os ditames da moda. A beleza e a feiura podem não ser expressão da subjetividade, mas certamente é a condensação viva da superficialidade. A verdadeira pessoa é sua essência invisível, que não pode ser refletida em espelhos, estampadas em fotografias ou expostas nas páginas do Facebook. É o Bom Samaritano caridoso; é o Homer Simpson glutão; é o vingativo Hamlet; é o acusador Bento Santiago; é o ganancioso Ebenezer Scrooge; é a controvertida Emma Bovary;  é o tresloucado Simão Bacarmarte; é, enfim, o ser humano despido de máscaras sociais e imperceptível ao espelho, mas cristalino diante do prazer, do amor, da dor e da morte.


 É isso!


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Por: Iba Mendes (Julho de 2016)

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