segunda-feira, 4 de julho de 2016

5 razões para votar nulo

5 razões para votar nulo

O sistema político brasileiro atual é bem semelhante ao nosso sistema carcerário: botamos um ladrão de galinha lá, e ele sairá um perito em roubo a banco.
Iba Mendes 


1 - Uma questão de consciência


Se em minha consciência o sistema político brasileiro é altamente propenso à corrupção, e se a realidade me mostra que a simples substituição dos atores não muda o enredo da peça, neste caso eu deveria me abster de votar. Ora, que tipo de consciência é a minha que fica indignada com a corrupção, mas que não se constrange em votar em candidatos a corruptos? Ninguém que preserva em si um pouco de dignidade moral deveria votar num potencial ladrão. Reclamos da ladroagem e nos revoltamos com a roubalheira na política, mas ignoramos, sem o menor senso do pudor, que eles estão lá exatamente porque os elegemos.

Dirá então alguém: Mas nem todo político é ladrão!!!

Sim, é verdade!  

Certamente deve haver um ou outro político que não se deixou corromper e que ainda não entregou sua alma a empreiteiros gananciosos; todavia, pela própria forma como se organiza a política vigente, tal homem público apenas serve de álibi para a manutenção desta estrutura podre e devassa. É bem verdade que em todo ofício ou ocupação há maus profissionais, contudo, esses são sempre a exceção; na política, ao contrário, a exceção são justamente os bons, os honestos, os que de fato fazem da política o que ela deveria ser, ou seja: a ciência da boa organização, direção e administração de nações ou Estados. No Brasil, o sentimento de impunidade aliado aos meios de acesso à corrupção, transforma potencialmente um cidadão honesto num político corrupto.

Dirá também alguém: Mas o voto nulo vai resolver o problema?

Não! O voto nulo tem esta finalidade.

Quando votamos nulo demonstramos com clareza que não estamos satisfeitos com a maneira atual de se fazer política no Brasil, e que exigimos mudanças mais profundas, com mais rigor à impunidade e mais controle às ações dos políticos. O voto nulo é uma das maneiras de o cidadão manifestar sua repulsa, não à política em si, mas ao modo como ele é exercida em nosso país.  É, portanto, uma forma de ação política.


2 - Uma forma de pressão


No âmbito do consumo, o boicote já se mostrou altamente eficaz, levando muitos comerciantes e indústrias a mudarem suas condutas e melhorarem seus produtos e serviços. Quando votamos nulo, anunciamos em alto e bom som que o “produto” político brasileiro que nos é oferecido está em péssimas condições e que precisa ser melhorado. Não podemos nos conformar com esta estrutura política de conveniências, em que os interesses pessoais e partidários de políticos permanecem acima dos interesses da coletividade.  Não podemos tolerar uma estrutura em que as leis que beneficiam os agentes públicos sejam feitas e aprovadas por eles mesmos, sem qualquer consulta popular. Um exemplo emblemático refere-se ao famigerado “Foro Privilegiado”, inserido na Constituição Republicana do remoto ano de 1891 e ampliado pelos políticos na última Constituição de 1988. 


3 - Uma exigência ao Voto Facultativo


Nas últimas eleições uma campanha do TSE ostentava para si o pomposo slogan de "O Tribunal da Democracia". Ora, que tipo de Democracia é essa que obriga um cidadão a deixar sua casa, contra sua própria vontade, para votar? A incoerência e de uma proporção tão absurda que transforma o sentido de "democracia" exatamente no seu oposto, ou seja: "ditadura". Enquanto o voto facultativo é preceito essencial nos países desenvolvidos, o voto obrigatório é característica típica de países autoritários. O voto obrigatório, no Brasil, é um dos muitos resquícios de leis restritivas que ainda prevalecem. É o que sobrou do velho sistema coronelista, sob uma nova roupagem. Antes tínhamos o voto de cabresto, hoje temos o voto obrigatório. Na prática, portanto, o voto obrigatório, que teve a chancela do ditador Getúlio Vargas, nada mais é do que uma forma de controle das massas, interessante apenas a políticos que, a depender das consciências livres e pensantes, jamais alçariam ao poder.
 


4 - Uma demonstração de desprezo


É comum entre os que se opõem ao voto nulo argumentarem que votando assim a pessoa estará "desperdiçando seu voto", como se o simples ato de votar fosse em si mesmo uma ação proveitosa ou benéfica para a sociedade. Ora, qual tem sido, afinal, o resultado prático dos nossos votos ao longo de toda essa democracia? Mesmo supondo que o candidato escolhido seja aparentemente honesto, ainda assim e em termos funcionais, o que resultou disso para a melhoria da ética na nossa política? Nada! E por uma razão basilar e própria da cultura política brasileira: o que interessa para o candidato é tirar vantagens pessoais e políticas da sua candidatura. Da forma como as leis funcionam para os políticos, pelo o modo como eles são punidos e pela facilidade de se deixarem corromper, mesmo o “honesto” não costuma resistir ao primeiro “olhar bondoso” de um empreiteiro. Sim, pois: o sistema político brasileiro atual é bem semelhante ao nosso sistema carcerário: botamos um ladrão de galinha lá, e ele sairá um perito em roubo a banco. Quando votamos nulo mostramos o nosso desprezo pela
 forma de se fazer política no Brasil e, consequentemente, exigimos mudanças claras no modo de se punir aqueles que cospem nas caras de seus próprios eleitores, os quais não honram a função que ocupam, nem estão preocupados com o desenvolvimento do país.


5 - Uma opção e nada mais


Além de qualquer argumento contra ou a favor, o voto nulo pode ser apenas uma opção de quem não se interessa por política, seja por alienação, seja por indiferença, seja enfim, pela simples liberdade de não votar, sem qualquer razão ou motivo. É assim que funciona uma verdadeira Democracia.


É isso!


---
Por: Iba Mendes (Julho de 2016)


11 comentários:

  1. Concordo plenamente. Eu não voto mais, não compareço. Sou contra a obrigatoriedade do voto. Pago a multa. Sou contra urna eletrônica, pois ela é fraudável. Protesto contra esses políticos corruptos, tbm.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é Carlos...

      As pessoas vivem reclamando dos políticos e da política, mas continuam insensatamente a votar neles... É o que chamo de "alienação cidadã":
      http://www.poeteiro.com/2016/09/alienacao-cidada.html
      Abraços,,,

      Excluir
  2. Perfeito, concordo com tudo que escreveu! Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Escreveu tudo e um pouco mais,perfeito

    ResponderExcluir
  4. Votar nulo, estatisticamente, é o mesmo que votar em quem está ganhando. Você pode demonstrar desprezo, mas alguém vai assumir o cargo. Estude os candidatos e vote no mais adequado. Flw, vlw.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ERRADO!
      A sua lógica pressupõe que os outros sejam melhores... Pela lógica do voto nulo TODOS são da mesma laia, ou seja, todos eles estão inseridos no mesmo sistema corrupto... Eu voto nulo por uma questão de consciência, pouco importando quem seja o primeiro ou o último...

      Excluir
  5. Apenas chamo sua atenção para um detalhe: Quem não escolhe, acaba sendo escolhido.

    ResponderExcluir
  6. Permita-me discordar de si, querida Iba Mendes. Compreendo a sua alergia aos políticos. Mas penso que não está a ver toda a realidade. Diz que há maus profissionais em todos os setores, mas são minoria, ao passo que na política é o inverso.
    Na verdade, os políticos são assim porque têm oportunidade para isso, enquanto nas outras atividades não.
    Eu penso que se os políticos fossem outras pessoas e não as que lá estão, o problema mantinha-se embora com outros atores. A questão é que os políticos têm o poder enqto outros não.
    E repare. Os políticos são, geralmente, corruptos passivos. E para existirem têm que existir corruptos ativos. Não se pode ignorar os personagens que estão por detrás da cortina e que corrompem, chantageiam e usam meios impróprios para forçar os detentores do poder.
    Talvez a melhor maneira de combater a corrupção e formar cidadãos (políticos e os não políticos) mais honestos seja através da educação.
    As nossas escolas têm que formar cidadãos que, se não forem políticos não se sirvam dos políticos para obter vantagens ilícitas, e se forem políticos sejam imunes aos que os procuram para obter favores iligais.
    A escola deve ensinar e mostrar quais são as vantagens de se ser respeitador da sociedade. Uma disciplina de "Educação Cívica" não fazia mal que fosse lecionada nas escolas desde os primeiros anos.
    Meus cumprimentos.
    Francisco Tavares

    ResponderExcluir
  7. Queria ainda dizer que aprecio as suas lições de gramática.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Francisco,

      “Talvez a melhor maneira de combater a corrupção e formar cidadãos (políticos e os não políticos) mais honestos seja através da educação. “

      Geralmente (ou quase sempre) os políticos corruptos tiveram uma boa educação, vieram de uma família bem estruturada e muitos deles eram avessos aos malfeitos, verdadeiros baluartes da honestidade... Não basta, pois, eleger um cidadão educado e honesto... faz-se necessário mudar não só a forma de se fazer política, como, também, a forma de punir aos que se deixam corromper... A realidade tem demonstrado que a crença de que o voto pode mudar a política é uma utopia alienatória, que apenas contribui para a manutenção dessa estrutura apodrecida...
      Abraços...

      Excluir
    2. Se "os políticos corruptos tiveram uma boa educação, vieram de família bem estruturada e eram avessos aos malfeitos" é porque foram contaminados pelo contexto. Não se pode esquecer o ambiente em que os políticos se inserem se pretendemos mudar a forma como se faz política. A abordagem tem que incluir todos os aspetos da realidade. Os políticos fazem parte da população. Não sei se se pode dizer que um povo tem os políticos que merece. O que me parece é que os políticos serão o reflexo do povo que representam. Quanto maior for o nível geral de um povo, de maior nível tenderão a ser os seus políticos. E voltamos assim ao papel fulcral da educação na elevação do nível geral de um povo.
      Não acredito em ditaduras, mesmo que do proletariado. E assim, o voto é incontornável. Se não temos ninguém perfeito temos que optar pelo mal menor.

      Te abraço também.

      Excluir