domingo, 21 de agosto de 2016

Ninguém concordava

Ninguém concordava
(Adaptado de uma história que ouvi tempos atrás)

Era dia de feira. Seu Jaime e o filho, o jovem Mateus, foram caminhando até à cidade a fim de comprar um burro. Precisavam do animal para utilizá-lo de montaria como meio de transporte.

Entre aqueles colocados à venda, um deles chamou-lhes a atenção pela profunda melancolia do olhar. O animal parecia humano e mirava-os como se lhes implorasse para ser comprado. O homem e o menino palestraram alguns instantes entre si, e, depois de um silêncio confuso e prolongado, dirigiram-se ao proprietário que aceitou vendê-lo pelo menor preço. Em seguida montaram-no ambos e seguiram de volta para casa.

Deixando a cidade adentraram num pequeno povoado que ficava bem à margem da estrada.  Enquanto ali passavam, eis que uma velha senhora abriu subitamente a janela e gritou estupefata:

- Que absurdo!  O burrinho não pode com os dois. Quanta maldade, meu Deus, quanta maldade!...

Naquele instante um sentimento de culpa dominava alma do pobre pai. Este, envergonhado de si mesmo, desceu do animal, enquanto puxava-o com o filho montado.

Meia hora depois passavam ambos por uma pequena colina à beira do caminho. Na varanda de uma casa, um homem barbudo, que fumava um cachimbo sentado numa cadeira de balanço, ergueu-se encolerizado e vociferou:

- Que ultraje!  O filho montado e o pai andando! Que ultraje, meu Deus, que ultraje!...

A censura daquele homem causou no menino tão forte comoção que este sentiu dentro de si como se estivesse cometendo um crime contra o próprio pai. Desceu então do burro, enquanto o pai montava o animal e seguia adiante.

Andaram assim um pouco mais de meia hora. De longe avistaram uma antiga aldeia, cujas casas eram todas construídas de pau a pique.  Enquanto ali passavam foram surpreendidos por um homem gordo, o qual se colocou na frente do animal protestando:

- Que maldade! O pai montado e o pobre filho andando. Que maldade, meu Deus, que maldade!...
  
Mais uma vez a consciência do pobre pai é tomada por um duplo sentimento de remorso. Visivelmente abatido, ele apeou do burro e seguiu andando juntamente com o filho, enquanto arrastava atrás de si o confuso animal.

Era já tarde quando se aproximavam do doce e aguardado lar. No horizonte o vermelho do sol parecia anunciar uma noite longa e  triste. Enquanto subiam a ladeira que dava para a casa,  eis que a esposa vem-lhes ao encontro. Ao vê-los andando e puxando o burro,  ela interroga-os em voz alta:

Como pode isso? Os dois andando e o burro caminhando! Que loucura, meu Deus, que loucura!...

O homem, que a esta altura se perdia num emaranhado de pensamentos confusos, fitou-lhes os olhos e respondeu furioso:

- O  quê agora? Vai querer que carreguemos o burro?


É isso!


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Por: Iba Mendes (2000)

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