quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de Américo Lobo)

O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução: Américo Lobo (1882)


Quando eu exausto e quase adormecido,
Da meia-noite na tristeza infinda,
Sobre in-fólio de traças carcomido,
Cabeceando, meditara ainda.
Súbito ouvi ruído semelhante
Ao de leve pancada nos umbrais;
"A minha porta bate um visitante".
Balbuciei, "é isto e nada mais".

Ah! bem me lembro! Era a invernia brava:
Cada faísca que no lar morria,
Sobre o chão uma sombra projetava.
Eu suspirava pela lua do dia:
Nem pelo estudo mitigada fora
A saudade das graças virginais
De quem se chama lá no céu Leonora,
E cá na terra não tem nome mais.

O leve e triste movimento incerto
Das cortinas da alcova me infundia
Fantásticos terrores que de certo
Eu rança dantes pressentido havia:
Meu coração pulsar ansioso vendo.
Eu fiquei repetindo: "Em meus umbrais
Alguém que se atrasou está batendo
E quer entrar: é isto e nada mais".

Estando já robustecida a mente,
Disse sem custo: "Oh dama, ou cavalheiro.
Mil desculpas vos peço reverente
Por não ter acudido mais ligeiro:
Eu cochilava, e vós com tal enleio
Batestes tão de manso nos umbrais
Que não cuidei ouvir-vos". Patenteio
A porta: vejo a sombra e nada mais!

Fito o negrume e pasmo ali me quedo,
Temendo, duvidando e até sonhando
O que dantes ninguém sonhara a medo;
Era o silêncio intacto, não traçando
Riscas a escuridão: ali se ouvia
Um nome, um nome, que se diz jamais.
"Leonora!" suspirei e respondia
"Leonora!" o eco ao longe e nada mais.

Voltei para o meu quarto, onde sentindo
Minh'alma triste se abrasar inteira,
Outra pancada fui de novo ouvindo,
Algum tanto mais forte que a primeira;
Disse: "Talvez alguma cousa exista
À janela, por fora dos vitrais;
Deixa, meu coração, que eu deite a vista
Nesse mistério; é o vento o nada mais!"

Abro a janela; dum só jato entrando,
Batendo as asas com um grã ruído,
Diviso um nobre corvo venerando.
Aos de imêmores eras parecido:
Nem me saudou sequer, ante mim posto.
Porém com ar e tons senhoriais.
No alto busto de Palas sobreposto
À porta, empoleirou-se, e nada mais.

Aquele aspecto e austera compostura,
Um riso me bailou no pensamento;
Disse mais distraído à ave escura:
"Sem crista, embora, feio a macilento,
Não és covarde, oh corvo vagabundo.
Que fugiste das sombras infernais:
Dize, como te chamas noutro mundo?"
"Nunca" responde o corvo: "Nunca mais".

Maravilhou-me assaz ter entendido
Minha linguagem o pássaro imperfeito.
Ainda que me houvesse respondido
De modo obscuro e sem nem um conceito:
Parece incrível que sob seu telhado
Veja o vivente em cima dos umbrais,
Sobre marmóreo busto empoleirado.
Pássaro que se chame "Nunca mais!"

Porém o corvo solitário, fito
Sobre o busto de Palas mais não disse
— Penas imóveis — com se num dito
Su'alma em fuga para alem saísse.
"De amigos," murmurei, "guardo lembranças
Mortos tão cedo! Aos raios matinais
Este me deixa como as esperanças
D'outrora!" Disse o corvo "Nunca mais".

Estremeci ouvindo a frase d'ouro
Ressoar no silêncio, após falando:
Talvez o que ele diz seja um tesouro
Colhido d'algum mestre miserando.
A quem sem tréguas perseguisse a sorte,
Até que de seus hinos festivais
Só ficasse por cântico de morte
Da esperança, este moto: ''Nunca mais".

Novo sorriso me bailou à mente;
E rodando a poltrona acolchoada.
Sobre o veludo me sentei, em frente
D'ave, do busto e do portal d'entrada.
Comigo só pensando e refletindo
No mistério, com que a desoras tais
O tredo corvo, do passado vindo,
Grasnava tão somente: "Nunca mais!"

No enigma eu atentava, e no entretanto
Nada dizia ao pássaro agoureiro,
Cujos olhos de fogo ardiam tanto
Dentro em meu coração: por derradeiro,
A cabeça descanso aonde chora
A lâmpada seus brilhos siderais,
Neste roxo veludo onde Lenora
Não há de reclinar-se nunca mais!

Cuidei que se tornava o ar mais denso,
E que uns anjos, roçando meu tapete,
Turificavam misterioso incenso.
"Desgraçado!" exclamei, "como um joguete
Teu Deus te há enviado ao sofrimento;
Sente saudades menos lagrimais
Dessa Lenora! Bebe o esquecimento!
"Nunca" responde o corvo: "Nunca mais!"

"Mudo profeta! réprobo!" lh'eu disse:
"Ave ou demônio! quer tentado foras.
Quer uma tempestade te cuspisse
Sozinho, mas intrépido, a desoras.
Sobre a terra maldita, lar do pranto.
Dize, dize-me em frases naturais:
Neste mundo haverá balsamo santo?"
"Nunca" responde o corvo, "Nunca mais".

"Mudo profeta! réprobo". Lh'eu disse:
"Ave ou demônio! pelo céu que olhamos,
Curvado sobre a terra com meiguice,
E por esse Deus que ambos nós amamos,
Dize-me se minh'alma pesarosa
Se há de unir lá nos tálamos astrais
À rara e pura virgem radiosa
Que se chama Lenora?" — "Nunca mais".

"Seja o teu dito o signo da partida,
Ave ou demônio?" soerguido brado:
"Volta para o tormento da outra vida!
Sequer me deixes negra pluma ao lado
Por testemunho de teu dito horrendo!
Deixa-me, e sai do busto e dos umbrais!
Tira-me as garras com que estás comendo
Meu coração desfeito!" — "Nunca mais!"

Calado, o corvo solitariamente
Sobre o busto de Palas permanece:
Dum demônio que sonha, o olhar se sente,
E a luz da lâmpada que resplandece
Ante ele, sabre o pavimento lança
Sombras, de cujas ondas sepulcrais
Minh'alma em sua mor desesperança
Não há de levantar-se nunca mais!


Adaptação ortográfica: Iba Mendes (2016)

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