quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de Venceslau de Queiroz)

O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução: Venceslau de Queiroz (1885)


Uma vez, pelas desoras lúgubres da noite, enquanto, fraco e fatigado, eu meditava sobre velhos e curiosos volumes de uma doutrina antiga, enquanto, quase adormecido, toscanejava, subitamente ouvi uma pancada, como se batessem de leve à porta do meu quarto. Alguém, talvez, que me procura, pensei, e que bate-me à porta, talvez seja isso, e nada mais.

Ah! lembro-me distintamente: corria o mês de Dezembro, frio e glacial, e cada acha de lenha, acesa no fogão, desenhava no soalho um reflexo de agonia. Eu esperava a manhã, ansiosamente; há muitas horas já, em vão, pedi aos livros um instantâneo repouso à minha tristeza, essa tristeza nervosamente horrível que me acabrunha desde que perdi Lenora, honesta e graciosa virgem que os anjos no céu hoje chamam Lenora, e que no mundo ninguém mais poderá chamar, ai! nunca mais!

E o brando, triste e vago ondular do reposteiro de púrpura impressionava-me, enchia-me de terrores fantásticos, para mim desconhecidos até essa noite; afinal, para abrandar a pulsação precípite do meu peito, levantei-me, repetindo: Alguém talvez, que me procura, talvez algum retardado visitante que bate-me à porta; sim, talvez seja isso, e nada mais.

Minha alma nesse instante sentia-se mais forte. Não hesitei, pois, por mais tempo e falei, supondo que fosse alguém que batesse: — Peço-vos desculpas, eu ia adormecendo, quando vos ouvi bater-me à porta, tão docemente, tão brandamente, que fiquei ainda incerto de vos ter ouvido. — E abri a porta, de par em par; só vi trevas, e nada mais.

A perscrutar profundamente essas trevas, ali fiquei por muito tempo, estarrecido de espanto, de medo e de dúvida, sonhando coisas que no mundo ninguém ainda ousara sonhar; mas e silêncio não foi perturbado, e tudo se conservou imóvel. A única palavra que ouvi sibilaram-ma aos ouvidos: Lenora! Tinha sido eu mesmo quem a balbuciara, e um eco por sua vez também repetira: Lenora. Fora isso, e nada mais.

Ao entrar de novo no quarto com a alma sobressaltada, ouvi logo uma pancada um pouco mais forte que a primeira. Com certeza, pensei comigo, com certeza, há alguma coisa entre as folhas da janela. Antes, porém, acalmemos o coração; talvez seja o vento, e nada mais.

Abri então a janela, e, com um tumultuoso batimento de asas, entrou um majestoso corvo, digno dos primeiros dias da criação. Não me fez a menor reverência, não parou, não hesitou um minuto; mas, com a sem-cerimônia de um lord ou de uma lady, empoleirou-se num busto de Palas que encimava a porta do quarto; empoleirou-se, instalou-se, e nada mais.

Esta ave de ébano, pela gravidade de seu porte e severidade de sua fisionomia, induzia-me a rir, e gracejei; — Lúgubre e velho corvo, viajor afastado das praias da Noite, ainda que a tua cabeça esteja sem crista e sem cimeira, não és certamente nenhum poltrão. Dize-me o teu nome senhorial nas caliginosas praias das regiões infernais. — O corvo respondeu: Nunca, mais!

Fiquei maravilhado. Este hediondo volátil facilmente entendera a minha pergunta, se bem que a sua resposta não tivesse um sentido perfeito e me não desse grande explicação; mas devemos convir que a homem algum jamais foi dado ver uma ave ou animal qualquer, pousado num busto esculpido em cima da porta de seu quarto, chamar-se — Nunca mais.

E o corvo empoleirado, salientemente negro e solitário, no busto branco e imóvel, proferiu essas únicas palavras, como se nelas espalhasse sua alma toda. Nada mais pronunciou, nem agitou uma pena sequer, até que eu murmurasse comigo mesmo: Há muito tempo que me abandonaram outros amigos; ele deixar-me-á também ao alvorecer do dia, como as minhas esperanças de outrora... A ave repetiu ainda: Nunca mais!

Estremeci ao ouvir esta resposta, dada com tanta justeza, e exclamei: Sem dúvida, o que esta ave pronuncia é toda a bagagem de seu saber, que recebera em casa de qualquer desamparado da fortuna, que a implacável Desgraça, persistentemente, sem tréguas, perseguira, até que as suas canções não tivessem mais que um só estribilho, até que o De profundis da sua esperança tomasse este melancólico estribilho: Nunca mais.

Mas, sempre interessado e curioso, rolei imediatamente a minha poltrona para perto da ave, do busto e da porta; e; enterrando a cabeça no espaldar aveludado, esforcei-me por encadear as ideias, indagando a razão porque esta hedionda, triste, magra e sinistra ave, digna dos primeiros dias da criação, fazia-me ouvir, crocitando, estas palavras: Nunca mais.

Assim me conservei, sonhando, conjecturando, mas não dizia uma sílaba sequer a essa ave, cujo olhar, ardendo como um clarão do inferno, queimava-me profundamente os refolhos do coração. Procurei por muito tempo atinar com a razão disto e de mais algum mistério, repousando a cabeça, negligentemente, no veludo do espaldar, que a luz da lâmpada acariciava, este veludo roxo sobre o qual, ao morno clarão dessa mesma lâmpada, tantas vezes ela repousara a cabeça de anjo, e agora... nunca mais!

Pareceu-me então que se toldava o ar, embalsamado por um turíbulo invisível que os serafins agitavam e cujas asas apenas esfrolavam o tapete do quarto. Desgraçado! bradei contra mim mesmo, o Deus de tua crença, por intermédio de seus anjos, envia-te repouso e esquecimento às saudades e angústias que te ralam o seio... Embriaga-te, pois, neste ar saturado dos perfumes do céu, e esquece para o todo sempre a tua morta Lenora. O corvo grasnou: Nunca mais!

Profeta! — exclamei, núncio de desgraças! ave ou demônio, mas sempre profeta! ainda que sejas um mensageiro do Arcanjo tenebroso, ou que a tempestade te açoitasse e te fizesse naufragar, corajoso sempre, sobre esta terra deserta, povoada de fantasmas, sobre esta habitação continuamente abalroada pelo Horror, — dize-me, sinceramente, eu to suplico; existe, existe ainda, no mundo, algum bálsamo da Judeia para as minhas dores? Responde-me; eu to suplico. O corvo respondeu: Nunca mais!

Profeta! — bradei ainda, — núncio da desgraça! ave ou demônio, mas sempre profeta! por este céu arqueado sobre nossas cabeças, por este Deus que ambos nós adoramos, responde à minha alma, sobrecarregada de dor, se, no paraíso longínquo, ela poderá algum dia abraçar uma virgem santa que os anjos no céu chamam Lenora, uma bela e honesta virgem que me abandonou no mundo para cantar no céu entre as coreias místicas dos anjos.... O corvo respondeu: Nunca mais!

Ave ou demônio, esta resposta é o sinal da nossa eterna separação. — Engolfa-te, pois, na tempestade, volta às caliginosas praias das regiões infernais; não deixes cair aqui uma pena sequer como lembrança da mentira que proferiste; abandona esta inviolada solidão, deixa este busto, arranca o teu bico e as tuas garras de meu coração e precipitas-te para longe desta morada. O corvo respondeu: Nunca mais!

E o corvo, imóvel, instalou-se, para todo o sempre, sobre o lívido busto de Palas, que encimava a porta do meu quarto; e os seus olhos, cortados de quando em quando por um sinistro clarão do inferno, semelham-se aos olhos de um demônio que sonha; a luz da lâmpada, esbatendo sobre ele, projeta-lhe a sombra no soalho e, para fora do círculo desta sombra, que jaz flutuante sobre o soalho, nunca mais poderá erguer-se minha alma, nunca mais!
Adaptação ortográfica: Iba Mendes

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