quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Natal do velho Scrooge (Conto), de Charles Dickens



O Natal do velho Scrooge, de Charles Dickens

Tradução publicada originalmente na revista "Eu Sei Tudo", em sua edição de dezembro de 1924. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Era uma vez um velho de avareza sórdi­da e coração tão seco como uma pedra de is­queiro; tão conhecido como avaro que ninguém se atreveria a lhe pedir nem uma informação. Scrooge tinha tido como sócio, durante longos anos, um homem chamado Marley. Marley mor­rera havia já sete anos, mas a fachada da casa continuava a apresentar a firma Scrooge & Marley, para evitar a despesa de uma fachada nova. Ali, Scrooge vivia sozinho, fugindo de todo o mundo, mas completamente feliz em sua soli­dão.

Tinha um empregado, um pobre coitado, que se chamava Bob Cratchit, era casado e pai de quatro filhos. Scrooge lhe pagava quinze xelins por semana, justamente o indispensável para que não morresse de fome, com toda a família. Cratchit trabalhava numa pequena sala triste e sombria, que mais parecia uma cisterna do que um escritório. Nunca tinha um dia de folga, salvo o Natal, e apenas aproximava esse dia o velho Scrooge já ficava doente de furor.

Seu sobrinho Fred tinha gênio totalmente diferente do outro. Era um rapaz amável, sempre de bom hu­mor e vinha todos os anos apresentar seus cum­primentos de boas festas ao tio, embora só rece­besse em troca maus modos e palavras más.

Esta história começa justamente na véspera de Natal e o bom Fred entrava subitamente no escritório de seu Tio, que, logo a suas pri­meiras palavras, exclamou, irritado:

— Idiota. Fala em fez e alegre Natal. Como pode você ser alegre, pobre como é?

— E o senhor, como pode ser triste, rico como é?

— Bobo!

— É possível! Mas sabe de uma coisa? Eu tenho pena do senhor.

— Atrevido!

— Sim. Porque, mesmo sem vintém, sou muito feliz. E sabe de outra coisa? O que lhe desejo é que, com ou sem dinheiro, o senhor seja um dia, ao menos, feliz como eu.

O rapaz retirou-se e o velho ficou resmun­gando contra tudo e contra todos, até que che­gou a hora de fechar o escritório. Bob Cratchit saiu e o velho lhe recomendou que viesse no outro dia mais cedo, a fim de compensar a falta de trabalho no dia de Natal.

Após um jantar frugal e solitário, o ava­rento recolheu-se em seu apartamento, que fora outrora o de seu sócio.

No momento em que punha a chave na fechadura, olhou para a maçaneta de metal e viu nela... o rosto de Marley. Aquilo o impressionou desagradavelmente, porém ele deu de ombros, abriu a porta, subiu a escada, percorreu todos os aposentos, espiou em baixo da cama, da mesa, do sofá... Nada encontrou de suspeito.

Acendeu um fogo modesto no fogão de in­verno, aqueceu um pouco de chá e, tendo fechado cuidadosamente a porta, despiu-se, sentou-se diante do fogão... e viu em uma das placas de ladrilho o rosto de Marley...

— Bobagem... — murmurou Scrooge, que meteu raivosamente as mãos nos bolsos da robe de chambre.

Mas nesse mo­mento uma for­ça misteriosa obrigou-o a olhar para um lado e ele viu o fantas­ma de Marley passar através a porta fechada, arrastando uma pesada corrente presa a sua cin­tura. Scrooge fitou-o assombra­do e Marley lhe disse:

— Está vendo esta corrente? É feita de cofres, cadeados, livros-caixa e bolsas. Fui eu quem a for­jou durante toda a minha vida e você há de arras­tar uma ainda maior do que esta, porque eu parei em meu trabalho, há sete anos e você con­tinua. Ouça bem. Esta noite ainda, você há de ser visitado por três espíritos; um virá quando o relógio bater uma hora, os outros...

E o espectro desapareceu novamente, atravessan­do a porta fe­chada.

Ansioso por sair dali, não se atrevendo a tocar a porta, o velho abriu a janela. O céu imenso e estrelado pareceu-lhe cheio de fan­tasmas, que ar­rastavam enor­mes correntes e todos gemiam dolorosamente.

Scrooge ten­tou dizer... "Bo­bagens", mas não se atreveu. Fe­chou a janela, deitou-se e ador­meceu quase imediatamente.

Quando des­pertou, era ain­da noite escura e, como não tinha noção da hora, ficou quieto. Mas quase imediatamente ouviu bater uma pancada no sino da igreja próxima. No mesmo instante, o cortinado de seu leito se abrir e ele viu o primeiro o espírito.

Era uma estra­nha figura, que parecia a de uma criança e, ao mesmo tempo, a de um velho que tivesse di­minuído de ta­manho. A cabeleira, que caía sobre seus ombros, era branca como a de um velho, mas seu rosto não tinha uma ruga e era ro­sado. Seus bra­ços eram lon­gos e musculo­sos e suas mãos denotavam vi­gor pouco comum. Mas suas pernas e pés eram pequenos e delicados. Vinha vestido com uma túni­ca branca, pre­sa por um cin­to luminoso. Trazia nas mãos flores, embora se estivesse em pleno inverno; porém o mais espantoso nele era um jato de luz que ir­rompia de sua cabeça.

Talvez por isso trazia sob um dos braços um enorme apagador.

— Eu sou — disse essa es­tranha figura — o espírito do Natal antigo.

E antes que o velho tivesse tempo para murmurar uma palavra, arras­tou-o a quilômetros de distância e muitos anos para trás. Assim, o velho Scrooge viu diante de seus olhos a casa onde tinha passado sua infância e muitas outras cenas de feli­cidade, que ele havia esquecido, tornou a ver com irreprimível enle­vo. Assistiu a várias festas de Natal dos anos desse tem­po. Por fim, ele e o espírito se detiveram diante da porta de uma loja, a loja em, que Scrooge tora aprendiz. E ao ver ali um se­nhor idoso, sentado por trás de uma alta mesa de escrituração, o avarento exclamou:

— Céus! É o bom sr. Fezziwig.

Entretanto, Fezziwig, tendo olhado para o relógio e verifi­cado que eram sete horas, esfregou as mãos, sorriu e com voz sonora, magnífica, cha­mou: 

— Olá! Ebenezer! Dick!

A esse apelo dois rapazo­las acudiram, alegremente, de uma sala vizinha e Scrooge, maravilhado, reconheceu nes­ses dois rapa­zes ele mesmo, tal qual era aos dezessete anos e seu companheiro de trabalho nesse tempo, Dick Wiltin, que era seu amigo.

— Rapazes! — exclamou Fezziwig. — Não se trabalha mais hoje. E véspera de Na­tal. Fechem as vitrines e as portas.

Os dois jovens não espe­raram segunda ordem.

— Muito bem — disse o pa­trão. — Agora vamos abrir es­paço aqui.

E ele próprio ajudou os rapazes a afastarem o balcão e as mesas, a amontoar as mercadorias num canto. Em um instante a enorme loja ficou vazia e limpa; o chão foi varrido.

Então chegou um violinista, instalou-se com seu livro de músicas no estrado do guarda-livros e come­çou a tocar. Como se só esperasse esse sinal, madame Fezziwig entrou, com seu bom e constante sorriso. Com ela vinham suas três filhas adolescentes, suas quatro sobrinhas e seus três sobrinhos. Em seguida, entra­ram todos os emprega­dos, porque o sr. Fezziwig os convidara sem exceção, do mais gradua­do ao mais humilde.

E começaram todos a dançar alegremente.

Nesse momento, o espírito passou a mão sobre os olhos de Scrooge e ele adormeceu de novo, no momento em que, recordando-se de seu primeiro patrão, ele prometia a si mesmo não mais maltratar o pobre Bob Cratchit.

Quando voltou a despertar, era ainda es­curo lá fora, mas seu quarto estava cheio de uma misteriosa luz aver­melhada. O relógio bateu duas horas. Nenhum fan­tasma apareceu; mas, compreendendo que pa­ra alguma coisa devia ele ter despertado, o ve­lho, não podendo conter a curiosidade, ergueu-se do leito e dirigiu-se pa­ra a porta. Logo uma voz, que ele não conhe­cia, disse:

— Pode entrar.

Scrooge abriu a porta e viu, diante de si, como sempre, sua sala de visitas. Mas como estava mudada! O teto e as paredes estavam cobertos de folhagem; no meio do soalho havia um ver­dadeiro monte de iguarias apetitosas: — leitões assados, perus recheados, linguiças, pasteis, pu­dins, frutas... Sobre essa montanha de delícias es­tava sentado um gigante, que, ao ver o dono da casa, repetiu:

— Pode entrar. Eu sou o espírito do Natal de hoje.

E estendeu-lhe a mão. Apenas tocou essa mão, enorme, Scrooge sen­tiu-se transportado pela janela e pelas ruas, em direção à casa de Bob Cratchit, casa que, em­bora muito humilde, es­tava em festa. O mo­desto empregado estava sentado à mesa, com toda a sua família — sua esposa e seus filhos Peter, Belinda, Marta e o pequeno Tiny Tïm, que era aleijado de uma perna e parecia de saúde muito frágil. Por isso, naturalmente, é que to­dos, ali, até seus pró­prios irmãos, também ainda crianças, o trata­vam com tanto carinho.

Mas, nessa noite, até Tiny Tim estava alegre. Seu rostinho magro e pálido estava tão sorri­dente como o dos ou­tros, diante da mesa da ceia, onde havia um pato assado, frutas, doces caseiros, mas com bom aspecto. Quando madame Cratchit foi à cozinha e trouxe de lá um pudim en­feitado, então a alegria atingiu o auge e todos se abraçaram, dando graças a Deus, que lhes permi­tira ter um Natal feliz.

O velho Scrooge estava pasmado; mas já o espírito o levava pelos ares, para que visse outros lares, igualmente pobres ou mais pobres ainda... Numa aldeia de trabalhadores mineiros, num farol solitário, isolado no meio do mar em fúria e até numa prisão. Em toda a parte, a noite do Natal era festejada alegremente e parecia inspirar a cada cora­ção um pouco de amor pelo próximo, de piedade pelos menos felizes.

Por último, ele viu o Natal em casa de seu so­brinho Fred e ouviu pronunciar seu próprio nome, não com ódio ou desprezo, mas apenas com lásti­ma, lamentando que ele não estivesse também ali, para se divertirem um pouco, em vez de ficar sozinho num canto, como um bicho.

De súbito, antes que o velho Scrooge pu­desse compreender o que se passava, o sorridente gigante desapareceu e foi substituído por uma nova figura, o terceiro e último dos visitantes anunciados pelo fantasma de Marley.

Era um vulto muito alto e de forma um pouco vaga, como era natural em quem representa o futu­ro, sempre incerto. Não levou o velho Scrooge a lugar algum; limitou-se a estender a mão direita pa­ra diante e o avarento teve desde logo diante de si um espetáculo tão reconfortante, que, enlevado, radiante, não pôde conter um movimento de entusiasmo e despertou.

Porém, mesmo acordado, ele teve a impressão de ouvir ainda as últimas palavras do espírito:

— O futuro será o que quiseres. Tu é que tens que fazê-lo.

Foi só isso e nada mais; mas foi o bastante, porque o velho Scrooge compreendera. Das múlti­plas visões daquela noite maravilhosa, ele guar­dara mais intensos os aspectos de emoção: sua própria alegria na casa do primeiro patrão, a alegria do bom sr. Fezziwig, vendo todos contentes em torno de si e principalmente o sorriso, que iluminava rostinho magro e pálido de Tiny Tim.

Adormeceu ainda uma vez, preocupado, in­quieto... Aquele garoto. . . Se não fosse tratado... muito bem tratado, não poderia durar muito tempo. Tão sem cor, com as faces tão cavadas...

Quando afinal o sol entrou pela janela, ele re­cobrou a consciência e teve logo um ímpeto de se levantar e agir. Era dia feriado, dia de Natal, mas por isso mesmo tinha muito que fazer. Começou por ir à loja de brinquedos mais próxima de sua residên­cia e comprar presentes, que distribuiu por toda a criançada da vizinhança, um pouco envergonhado pelo assombro que a todos isso causava. Depois, dirigiu-se à casa de seu sobrinho, levando uma caixa de charutos para Fred e flores pura sua esposa.

O jovem casal disfarçou mal a surpresa, mas, em pouco, passou a demonstrar satisfação tão sin­cera que o velho, enternecido, disse:

— Refleti, Fred e cheguei à conclusão de que você é que tem razão. Nós não estamos neste mun­do só para trabalhar... Eu não tenho mais família; vocês são meus únicos parentes. Se não os incomodo, passo o Natal aqui....

— Incomodar? Quem disse tal?

Fred e sua esposa pareciam mais contentes do que ele, por vê-lo ali, sorridente... E, para dissi­par a timidez, que ainda o punha um pouco con­trafeito, cercaram-no de carinho, como se nunca tivesse havido desacordo entre eles, como se de fosse um doente e se tivesse curado.

E o velho Scrooge passou ali o dia mais feliz de sua vida, fazendo planos para um futuro, como vira no sonho. Aumentaria o ordenado de Bob Cratchit, dar-lhe-ia umas férias para que ele pudesse levar Tiny Tïm para uma casa à beira mar e se tratasse bem; ele mesmo iria passar uns dias lá... Sim, por que não? Afinal, ele já era bas­tante rico, para descansar... Não quereria Fred substituí-lo? EIe lhe cederia a casa mediante um con­trato de sociedade... e viria de vez em quando ver como iam as coisas, só para não perder o costu­me... para não ser de todo inútil.

Fred ouvia-o, surpreendido mas contente; e o velho continuava a ver acordado o que vira no so­nho, radiante por verificar que era tão fácil ser feliz!...

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