quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O prisioneiro do Cáucaso (Conto), de Leon Tolstoi



O prisioneiro do Cáucaso, de Leon Tolstoi

Tradução publicada originalmente na revista "Eu Sei Tudo", em sua edição de julho de 1924. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Um nobre servia no Cáucaso como oficial. Chamavam-no Giline. Uma vez, chegou-lhe uma carta de sua mãe dizendo assim: "Estou, muito velha e desejo tornar a ver-te antes de morrer. Vem passar junto de mim o pouco tempo que me resta de vida. Depois, quando eu estiver morta, poderás voltar a teu servi­ço. Encontrei-te uma noiva, uma moça que é inteligente, boa e tem alguma fortuna. Pode ser que ela te agrade e, se casares com ela, poderás ficar aqui para sempre”.

Giline teve um momento de hesitação. De fato, sua mãe já não podia durar muito; se ele não atendesse a esse apelo talvez nunca mais a visse...

Foi procurar seu coronel, obteve uma licença, des­pediu-se de seus camaradas, ofereceu a seus soldados quatro pequenas pipas de aguardente e dispôs-se a partir.

Ora, havia então guerra no Cáucaso. Não se podia andar pelas estradas nem de dia nem à noite. Quando um Russo saía das fortalezas, os tártaros matavam-no ou levavam-no para es montanhas. Por isso, todas as semanas, saíam escoltas de fortaleza a fortaleza para as­segurar o percurso dos que precisavam de viajar.

Era no verão. Ao alvorecer, organizou-se a carava­na diante da forta­leza e pôs-se em marcha com os pri­meiros raios do sol. Giline ia a cavalo e uma carriola levava suas bagagens. Mas o grupo ia tão lentamente que ele se impacientou: "Meu cavalo é dos melhores — pensou ele. — Posso muito bem ir sozinho. Se encontrar alguma patrulha tártara, não me será difícil dis­tanciá-la."

Deteve-se hesi­tante. Kosta, um outro oficial, ho­mem gordo, pesado e vermelho, tivera, ao que parece, o mesmo pensamento e aproximou-se.

— Queres tentar a viagem sozinho? Se o que­res, vou contigo.

— Vamos — disse Giline resolutamente.

E partiram a trote largo, de olhar alerta, obser­vando a planície, que se estendia imensa em torno deles. Mas, ao fim de uma hora, a planície termi­nou. A estrada metia-se entre duas montanhas.

— Aqui é que é preciso ter cuidado — disse Gi­line. — Eu vou subir um pouco para ver se não há emboscada preparada.

Seu cavalo era um animal de raça. Sua como um gamo a áspera encosta e apenas chegou ao alto de um cômoro o oficial viu, a quase mil metros, uns trinta tártaros a cavalo. Quis recuar, mas os tártaros já o tinham visto e precipitaram-se. Giline lançou sua montaria pelo declive bradando a Kosta:

— Alerta! Alerta!

Kosta perdeu a cabeça e, em vez de fugir, saltou do cavalo para se abrigar atrás dele, com a louca ideia de fazer frente aos tártaros com uma só espingarda. Giline lançou seu cavalo a galope em direção a planície, na expectativa de alcançar os soldados.

Mas seis tártaros surgiram do outro lado da montanha e galoparem para cortar-lhe o caminho.

Era o desastre irremediável. An­tes que pudesse refletir, Giline viu-te cercado. Tirou a espada e precipitou-se para o inimigo mais próximo, um grande com grande barba ruiva. Mas os outros fizerem fogo e as balas cingirem seu cavalo, que caiu quase de súbito, prendendo-lhe uma perna.

Seis braços o prenderem logo; ele tentou resistir ainda, mas os tártaros baterem-lhe com as coronhas das carabinas e ele perdeu os sentidos.

Quando voltou a si, estava amarrado à garupa do homem de barba ruiva, com o rosto encostado a suas costas robustas.

Caminharam todo o resto do dia e parte da noite para chegar enfim a um acampamento no meio da montanha.

Durante três dias, deixaram-no sozinho em uma prisão infecta onde lhe atiravam alimentos de péssima qualidade como que jogada a um cão. Apenas por duas vezes ele teve uma visita piedosa. Uma menina de dez a doze anos, vestida e ornada como uma sacerdotisa, com o pescoço carregado de colares multicores, veio vê-lo e ficou longas horas a seu lado.

Falava um pouco de russo, e como Giline se quei­xasse de fome trouxe alguns bolos de milho, que, comparados ao que lhe era servido, pa­receram deliciosos.

Depois informou-se. Ela se chamava Dinah e era filha de Abdul Mural, o chefe daquela facção tártara. Por fim, uma noite vieram buscá-lo e o levaram à presença do homem ruivo, que ele soube tratar-se de Abdul Mural.

O chefe só falava tártaro e cercado por seus principais auxiliares ordenou ao intérprete do grupo que transmitisse suas ordens: — ele tinha que escrever a sua família pedindo três mil rublos para seu resgate.

— Não — disse Giline resolutamente. — Eu não sou rico. Minha mãe não poderia pagar essa quantia. O máximo que poderá dar é um resgate de quinhentos rublos.

— É pouco — declarou o intérprete. — O chefe diz que se não escreveres pedindo três mil rublos mandará chicoteá-lo.

Mas Giline sabia como se deve falar a tártaros, sabia que, mostrar receio diante deles era piorar a situação.

Ergueu-se e disse com ar furioso:

— E tu, dize a teu chefe que se me castigar não darei nem um hapek. Poderá chicotear-me ou matar-me, mas não há de ter coisa alguma.

O intérprete tra­duziu e o chefe dis­cutiu por algum tempo com seus subordinados, depois voltou-se para Giline.

— Rapaz va­lente, disse ele em sua língua.

— Dá mil rublos.

— Quinhentos rublos; nem um mais. Nem que me matem.

O chefe hesitou um pouco, depois deu uma ordem. O intérprete saiu e não tardou a voltar trazendo Kosta, es­farrapado e com os pés em sangue.

— Aí está — disse o chefe. — A este exigi cinco mil rublos e ele já es­creveu a sua família.

— Ele é rico; eu não sou.

O chefe abriu uma caixa. Tirou umas folhas de papel, pena, tinta, pôs tudo diante dele e disse:

— Escreve.

Era a aceitação.

Giline aproveitou a situação. — Escreverei — disse ele. — Mas hás de dar roupas decentes a mim e a meu companheiro, tirar o tronco de madeira que nos prenderam as pernas e deixar-nos juntos.

O chefe desatou a rir e concordou menos com rela­ção ao tronco de madeira, que — declarou — apenas será re­tirado à noite.

Giline então escreveu a carta mas pôs-lhe um en­dereço falso, pensando: "Hei de arranjar um meio de fugir e minha mãe não precisara vender nossa casi­nha para me libertar.”

Apenas se viu a sós em companhia de Kosta expôs-lhe seu pleno. Mas o infeliz estava com os pés tão feridos, que tiveram de esperar quase um mês in­teiro para que ele melhorasse. Por fim decidiram-se. Giline fez no fundo da prisão uma abertura bastante larga para que pudessem passar; e, depois, de fazer o sinal da cruz puseram-se em fuga.

Mas ao fim de uma hora de jornada, os pés de Kosta recomeçarem a sangrar e ele pediu ao compa­nheiro que o abandonasse. Giline porém persistiu. Ha­via de se salvar ou se perder juntos. E por um longo trecho carregou o outro, arquejando de fadiga. Chegando a uma curva onde se iniciava um declive áspero e sólido, deteve-se rara respirar um pouco e ouviu vozes atrás de si.

Atirou-se com Kosta para dentro de uma moita. Deus tártaros surgiram descendo a ladeira e teriam passado sem vê-los se não viessem cem um cão. O animal descobriu-os pelo faro e denunciou-lhes a presença.

Trazidos de novo ao acampamento de Abdul Mu­ral sua existência tornou-se horrível. Desta vez não lhes tiraram mais os troncos de madeira dos pés e os colocaram não mais na prisão em que estavam antes, mas em uma cova aberta no chão em forma de funil invertido, isso é, com o fundo circular e largo sobre uma abertura muito estreita.

Não era possível sair dali senão movido por cordas.

No dia seguinte Dinah veio ajoelhar-se à beira da cova e con­templou-os com ar de profunda piedade.

— Por que não me salvas? — pergun­tou-lhe Giline, sem sa­ber o que dizia.

— Eles estão mui­to zangados com você — disse a menina. Mui­to zangados porque você fugiu e porque seus ir­mãos andam por perto.

Seus irmãos? Ela decerto se refaria aos soldados russos. Teriam as tropas ganhado ter­reno a ponto de estar já nos arredores da montanha?

Uma esperança deslumbrante despontou-se em seu coração.

— Dinah... ouve — balbuciou ele com voz suplicante. — Se tens compaixão de mim... traze-me um pedaço de madeira... O mais comprido que puderes encontrar aí por perto.

A menina afastou-se com ar pensativo e hesitante, Giline deixou-se cair de joelhos e orou com profundo fervor.

Mas precisou espe­rar muito. Ouvia gran­de movimento nos arredores. Patrulhas chegavam e partiam a cada instan­te. As patas dos cavalos ressoavam pesadamente no chão.

Era já noite escura, quando ele sentiu terra cair da margem da cova sobre sua cabeça. Olhou para cima e viu uma vara que descia lentamente. Era o que Dinah pudera encon­trar, um cabo de lança usada pelos tártaros, longa e fina, porém, bastante firme. E Giline não era pesado. Despediu-se de Kosta que não podia acompanha-lo com os pés inchados e doridos e agarrou-se à madeira tendo o cuidado de colocá-la o perpendicularmente que lhe foi possível a fim de evi­tar que ela arqueasse.

Mas o peso do tronco de madeira que prendia um de seus pés estorvava-lhe os movimentos e por duas vezes ele caiu sem poder alcançar a margem da cova. Por fim logrou êxito e, retirando a vara, recomendou a Dinah:

— Coloca-a onde a encontraste para que não desconfiarem de ti.

Ela afastou-se arrastando a vara e Giline, apanhando no chão uma pedra cortante tentou forçar o cadeado da corrente para se livrar do tronco de madeira.

Então, como não continha perder tempo, pôs-se em marcha, carregando o tronco de madeira a fim de caminhar mais depressa.

Já conhecia o caminho e andou oito versta sem hesitar. Mas consegui­ria alcançar a floresta antes que a lua aparecesse?

Atravessou um riacho e chegou às primeiras árvores quando a lua aparecia.

Sentou-se para repou­sar um pouco e de novo tentou abrir o cadeado. Suas unhas sangraram em vão nessa tentativa. Teve que prosseguir carregando a pesada tora de madeira. Era um cansaço tamanho que a cada dez passos via-se obrigado a parar.

Caminhou assim durante toda a noite tendo encontrado apenas dois tártaros a cavalo. Mas escondeu-se entre a folhagem e não foi visto.

Ao amanhecer estava quase no limite da flo­resta.

Espreitou atentamente por entre as árvores e viu uniformes, carabinas. Eram cossa­cos que estavam acampados ali a menos de mil metros.

Mas junto das árvores, bem perto, viu três tártaros.

Eles também o viram e precipitaram-se.

Giline, alucinado, delirante de pavor e esperança, precipitou-se pela encosta gritando:

— Irmãos! Irmãos!

A lembrança deus palavras de Dinah fazia-o chamar assim os soldados de sua estirpe.


Seus gritos foram ou­vidos e os cossacos acu­diram a galope obri­gando os tártaros a um recuo prudente pa­ra a floresta.

Duas horas depois, o comandante da companhia, informado por Giline, atacava bruscamente o acampamento dos tártaros para libertar o seu companheiro Kosta.

***

Quando relatava essa história Giline concluía. — Eis por que nunca mais vi minha mãe nem me casei. Era meu destino.

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