quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O retrato oval (Conto), de Edgar Allan Poe



O retrato oval (Conto), de Edgar Allan Poe

Tradução anônima de 1930, com adaptação ortográfica de Iba Mendes (2016).


O castelo cuja porta de entrada meu criado ousara forçar, para que eu não passasse a noite ao relento, no estado lastimável em que me encontrava, ferido, era um desses edifícios de uma imponência cheia de tristeza, que durante longos séculos se erigiam entre os montes Apeninos, tanto na realidade quanto na fantasia de mistress Radcliffe.
Segundo toda a aparência, ele fora abandonado por seus habitantes, havia muito tempo.
Instalamo-nos em uma sala pequena e das menos suntuosamente guarnecidas. Ficava em uma torre bastante afastada do centro do edifício e mesmo assim malgrado seu estado de abandono e aspecto vetusto, sua decoração era rica. As paredes estavam cobertas com tapetarias e panóplias várias, além de extraordinário número de quadros modernos, na verdade cheios de vida, em molduras luxuosas com arabescos dourados. Esses quadros — suspensos não somente nos pontos das paredes mais espaçosos e mais cheios de luz, mas também nos numerosos recantos formados pela singular arquitetura do castelo — esses quadros — repito, por efeito, sem dúvida, do estado de quase delírio em que eu me encontrava, excitaram em mim uma espécie de fascinação. Como já fosse noite, dei ordem a Pedro para fechar as pesadas janelas do quarto, acender todos os braços de um enorme candelabro, colocado junto de minha cabeceira e afastar largamente as cortinas de veludo negro com franjas, que envolviam o leito. Essas disposições tinham por fim permitir-me, caso não conseguisse dormir, ao menos examinar os quadros detalhadamente com o auxílio de um opúsculo, encontrado sobre o travesseiro e cujo assunto era a crítica e explicação desses quadros.
Fiquei, por aluam tempo lendo, alheio a tudo o mais. Piedosamente erguia os olhos do livro e contemplava o quadro, cuja explicação já lera.
Como o candelabro não estivesse colocado a meu gosto, estendi a mão com cuidado para não perturbar o sono de meu criado e coloquei-o de forma tal que ele lançava a luz mais diretamente sobre o livro.
Porem esse meu gesto teve um efeito, que eu estava longe de prever. A luz das velas — pois eram muitas — caía, agora, sobre um ângulo do quarto até então mergulhado em espessas trevas, devido à cabeceira cio leito, que era muito alta.
Um quadro, que eu ainda não vira, apareceu-me então inteiramente.
Era o retrato de uma adolescente, quase uma mulher. Envolvi todo o quadro em um rápido olhar e, quase em seguida, fechei os olhos.
Por que motivo? Não o compreendi imediatamente. Continuando com as pálpebras cerradas, perguntava a mim mesmo por que as fechara. Fora um movimento impulsivo; a fim de ter tempo para refletir, assegurar-me de que não era íntima de uma ilusão visual... E também para acalmar minha imaginação e prepará-la para um exame mais detalhado e eficaz.
Ao fim de poucos instantes, fitei novamente o retrato.
Não podia mais duvidar do testemunho de meus olhos, porque o primeiro lampejo das velas sobre essa tela tivera por efeito dissipar a estupefação sonhadora em que meus sentidos estavam mergulhados e, de um só golpe, chamara-me à vida normal.
O retrato, como já disse, era o de uma adolescente. Viam-se, apenas, a cabeça e os ombros, no estilo de Sully. Os braços e os seios e, mesmo um pouco da luminosa cabeleira desapareciam insensivelmente na sombra vaga e também profunda, que constituía o fendo da tela. A moldura era oval, suntuosamente dourada e filigranada, à maneira mourisca. Como obra de arte, não se podia sonhar coisa mais admirável. Mas não eram, talvez, nem suas qualidades de execução nem imortal a beleza da retratada, que haviam determinado em mim uma emoção tão forte e repentina.
Podia, menos ainda, supor que minha imaginação, sobressaltada em minha quase sonolência, tomara aquela fisionomia pela de uma criatura viva. Notei logo que as particularidades do desenho, o aspecto do quadro, não deixariam de me afastar imediatamente de semelhante ideia, seriam mesmo suficientes para me impedir admiti-la, mesmo momentânea.
Refletindo intensamente sobre esses diversos pontos, fiquei talvez uma hora, sentado no leito, com o olhar preso a esse retrato. Acabei por penetrar o verdadeiro segredo do efeito que ele produzira sobre mim e deixei-me cair, lentamente, sobre o travesseiro. Descobrira que a magia desse quadro consistia na expressão da vida, absolutamente idêntica à própria vida.
Primeiramente eu estremecera e, depois, ficara confuso, dominado, petrificado. Presa de angústia profunda e respeitosa, voltei a colocar o candelabro em seu lagar primitivo. Tendo, assim, dissimulado a meus olhos o objeto de minha viva agitação, apanhei febrilmente o livro onde se falava nesse quadro e seu histórico. Folheei-o até o número que correspondia ao retrato oval e li esse estranho e misterioso comentário.
"— Era uma moça de rara beleza e caráter tão amável, quão apurado. Sua má hora foi aquela em que conheceu, amou e desposou o pintor; ele, rude e apaixonado, trabalhador e já possuindo uma esposa: sua Arte. Ela, de rara beleza e um caráter tão amável quão esmerado, toda luz e sorriso, alegre como um pássaro. Para tudo tinha tesouros de amor, detestando apenas a arte, sua rival. Só temia as palhetas e os pincéis, todos esses instrumentos importunos, que afastaram dela o pensamento do amado.
Assim, foi uma terrível coisa para ela, quando o pintor lhe exprimiu o desejo de fazer seu retrato. Porém era humilde, submissa e durante várias semanas manteve-se sentada, muito quieta, na sombria e alta sala da torre, onde a luz só filtrava do alto, sobre a pálida tela. Porém ele, pintor acima de tudo, punha toda sua glória em seu trabalho, que prosseguia de hora em hora, de dia em dia. E era um homem apaixonado, genioso, taciturno e que se perdia, muitas vezes, em seus sonhos.
De tal forma que não notou, ou não quis notar a ação maléfica da luz, que caía do alto, arruinando a saúde e o espírito de sua esposa; todos as viam definhar, todos, menos ele.
No entanto, ela sorria sempre e sempre, sem o menor queixume, porque via o pintor, cujo renome era grande, alegre e orgulhoso, trabalhar dia e noite com paixão febril no retrato daquela que tanto amava.
Ai, dela! Cada dia mais sem forças, mais sem cor.... Na verdade, os que vinham ver o retrato confessavam em voz baixa que a semelhança era um milagre — provando não só o talento do pintor como seu grande amor por aquela que pintava de medo tão maravilhoso...
Mas com o tempo, quando já a obra tocava a seu fim, ninguém mais foi admitido na torre; o pintor, no ardor incrível de seu trabalho, não destacava mais do que nuamente os olhos de sua tela, mesmo a fim de olhar para sua jovem e linda esposa.
E não queria notar que as cores, que aplicava sobre a tela, era como se as tirasse das faces da doce criatura, que se mantinha imóvel, diante dele. E quando muitas semanas foram passadas e restava pouca cousa a fazer — um golpe leve do pincel sobre a boca, um retoque nos olhos — a alma do modelo vacilou como a chama de uma vela que se extingue.
O golpe de pincel final foi dado e o pintor maravilhoso ficou, por alguns instantes, em êxtase, diante da obra admiravelmente perfeita; mas quando assim a contemplava, eis que um arrepio percorreu todo seu corpo e, muito pálido, e ele exclamou:
“...Mas e a própria Vida! ”...
Voltou-se rapidamente para olhar a Amada.
Ela estava morta...

“Eu Sei Tudo”, janeiro de 1930.

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