terça-feira, 13 de setembro de 2016

Hop-Frog (Conto), de Edgar Allan Poe


Hop-Frog, de Edgar Allan Poe

Tradução de 1941, por Lopes Gonçalves, com adaptação ortográfica de Iba Mendes (2016).

Eu nunca vi pessoa tão divertida e tão dada a gracejos do que esse excelente rei. Ele só vivia para as farsas. Contar uma boa história alegre, contá-la bem, era o mais seguro caminho para alcançar a sua simpatia. Eis porque os seus sete ministros eram todos pessoas afamadas pela graça. Mediam-se todos pela bitola do patrão real — ampla corpulência, adiposidade, inimitável aptidão para o gracejo. Que as pessoas engordem devido à graça ou que haja na gordura qualquer coisa que pré-disponha à graça, eis uma questão que nunca pude decidir; mas é certo que um gracejador magro se pode chamar de rara avis in terris.
Quanto atos refinamentos, ou sombras do espírito, como ele os chamava, o rei pouco se importava com eles. O soberano tinha admiração especial pela largura da graça, e a dirigia, mesmo, em cumprimento apenas por gostar dela. As delicadezas o aborreciam. Teria preferido o Gargântua de Rabelais ao Zadig de Voltaire, e sobretudo as graças em ação é que satisfaziam ao seu gosto, muito mais do que as em palavras.
Na época em que se passa esta história os bobos de profissão ainda não haviam de todo passado de moda na corte. Algumas das grandes potências continentais ainda conservavam os seus bobos; eram infelizes, multicolores de roupas, enfeitados com gorros cheios de guizos, e que deviam sempre estar prontos para fornecer, à minuta, bons ditos subtis, em troca das migalhas que caíam da mesa real.
O nosso rei tinha, naturalmente, o seu bobo. O fato é que ele sentia a necessidade de alguma coisa no sentido da maluquice — pelo menos para contrabalançar a pesada sabedoria dos sete sábios que o serviam como ministros — para se não falar dele.
Entretanto, o seu bobo, o seu bufão de profissão, não era apenas um bobo. O seu valor triplicara aos olhos do rei porque era ao mesmo tempo anão e coxo. Nesses tempos os anões eram tão comuns na corte quanto os bobos; e vários monarcas teriam tido dificuldades em passar o seu tempo — o tempo é mais comprido na corte do que em qualquer outro lugar — sem um bufão para fazê-los rir, sem um anão para rirem deste. Mas, como já observei, todos esses bufões, em noventa e nove por cento dos casos, são gordos, redondos, maciços — de sorte que era para o nosso rei ampla causa de orgulho possuir em Hop-Frog — era o nome do bobo — um triplo tesouro numa só pessoa.
***
Creio que o nome de Hop-Frog não era aquele com que o haviam batizado os seus padrinhos, mas que lhe fora conferido pela unânime aprovação dos sete ministros devido à sua impossibilidade de andar corno os outros homens.
Realmente Hop-Frog só podia andar numa espécie de movimento interjecional — algo entre o saltar e o retorcer — e que era para o rei motivo de perpétuo divertimento e, naturalmente, de gozo, pois, não obstante a proeminência da sua pança e uma intumescência constitucional da cabeça, o rei passava aos olhos de toda a sua corte por ser muito belo homem.
Mas embora Hop-Frog, graças à distorção das pernas, só se pudesse mexer mui laboriosamente por um caminho ou pelo soalho, a prodigiosa força muscular de que a natureza dotara os seus braços o tornava apto a executar vários movimentos com espantosa destreza, quando se tratava de árvores, de cordas ou do que quer que fosse onde se pudesse trepar. Nesses exercícios parecia mais um esquilo ou um macaquinho do que uma rã...
Eu não saberia dizer precisamente de que país Hop-Frog era originário. Viera, sem dúvida, de algum país bárbaro, do qual ninguém ouvira falar — a longa distância da corte do nosso rei. Hop-Frog e uma moça um pouco menos anã do que ele — mas admiravelmente bem proporcionada e excelente dançarina — haviam sido carregados da sua terra, em províncias limítrofes, e enviados de presente ao rei por um dos seus generais diletos da vitória.
Em tais circunstâncias nada havia de espantoso no fato de ter surgido estreita intimidade entre os dois pequenos cativos. Na verdade tornaram-se depressa amigos firmes. Hop-Frog, conquanto, apesar de apreciado pelas suas bobices, não era popular, não podia prestar grandes serviços a Tripeta; ela, ao contrário, devido à sua graça e à sua esquisita beleza — de anã — era por todos admirada e estimada; ela possuía, pois, muita influência, da qual jamais deixava de se utilizar em benefício do seu caro Hop-Frog.
Numa grande ocasião solene — não mais me lembro qual — o rei resolveu dar um grande baile de máscaras; e cada vez que uma mascarada ou outra festa desse gênero se verificava na corte, o talento de Hop-Frog e de Tripeta era requisitado. Hop-Frog em particular, era todo inventivo em matéria de decorações, de tipos novos e de fantasias para os bailes, de tal modo que parecia nada se poder fazer sem a sua assistência.
Chegara a noite da festa. Uma sala esplêndida fora arrumada, sob o parecer de Tripeta, com toda a habilidade possível para dar brilho à mascarada. Toda a corte esperava febrilmente. Quanto aos trajes e aos papeis, cada um, é claro, procedera à sua escolha. Muitos haviam determinado os papéis que adotariam com uma semana e até um mês de antecedência; em suma, em parte alguma havia incerteza ou indecisão — exceto quanto ao rei e os seus sete ministros. Por que hesitavam? Não sei dizê-lo — a menos que se não tratasse de mais uma matéria de farsa. Provavelmente tornava-se-lhes difícil apanhar sua ideia porque eram tão gordos! Fosse como fosse, o tempo fugia e, como derradeiro recurso, mandaram chamar Trineta e Hop-Frog.
***
Quando os dois pequenos amigos obedeceram à ordem do rei, encontraram-no a beber vinho magistralmente com os sete membros do conselho privado; mas o soberano parecia estar de muito mau humor. Ele sabia que Hop-Frog temia o vinho, pois esta bebida excitava o pobre capenga até à loucura; e a loucura não constitui modo de bem sentir satisfação. Mas o rei adorava as próprias partidas e gostava de forçar Hop-Frog a beber e — segundo a expressão real — a estar alegre.
— Vem cá, Hop-Frog! — disse ale quando o bufão e a sua amiga entraram na sala. — Engole-me esse copo à saúde dos teus amigos ausentes (aqui Hop-Freg suspirou) e valhe-nos com a tua imaginação. Precisamos de tipos — de caracteres, meu velho! — de algo novo extraordinário! — Estamos cansados desta eterna monotonia. Vamos, bebe — o vinho iluminará o teu gênio!
Hop-Frog esforçou-se, como de costume, para responder com uma piada ao rei: mas o esforço foi muito grande. Era justamente o dia do nascimento do pobre anão; aquela ordem de beber pelos seus amigos ausentes fez surgirem lágrimas em seus olhos. Algumas largas gotas amargas caíram na taça enquanto ele a recebia humildemente da mão do seu tirano.
Ah! Ah! Ah! — rugiu o rei, enquanto o anão esvaziava a taça com repugnância. — Vê o que pode fazer um copo de bom vinho! Eh! Os teus olhos já brilham!
Pobre rapaz! Os seus amplos olhos mais faiscavam do que brilhavam, pois o efeito do vinho sobre o seu excitante cérebro era tão poderoso quão instantâneo. Ele colocou nervosamente a taça sobre a mesa e com um olhar fixo e quase louco percorreu a assistência. Todos pareciam divertir-se prodigiosamente com a farsa real.
— E agora, ao trabalho! — disse o primeiro ministro, um homem gordíssimo.
— Sim! — disse o rei. — Vamos! Hop-Frog, dá-nos o teu concurso. Tipos, meu bom rapaz! Caracteres! Precisamos de caráter! Todos nós temos necessidade! Ah! ah! ah!
E como este visava seriamente a palavra importante, eles todos, os sete, fizeram coro ao riso real. Hop-Frog riu também, mas de modo fraco e distraído.
— Vamos! Vamos! — disse o rei com impaciência. — Será que nada encontras?
— Estou procurando encontrar alguma coisa nova — repetiu o anão com ar vago, pois estava de todo perturbado pelo vinho.
— Tu procuras! — gritou o tirano, feroz. — Que entendes por isso? Ah! Compreendo. Estás amuado! Queres mais vinho. Toma! Engole isto!
E encheu nova taça e a estendeu ao coxo, que a olhou e respirou como que sufocado.
— Bebe, digo-te! — gritou o monstro. — Ou então, pelo diabo!...
O anão hesitava. O rei tornou-se purpúreo de raiva. Os cortezões sorriam cruelmente. Tripeta, pálida como um cadáver, caminhou até a cadeira do monarca e, ajoelhando-se diante dele, pediu-lhe que poupasse o seu amigo.
O tirano a olhou por alguns instantes, evidentemente estupefato com tal audácia. Parecia-lhe não saber nem o que dizer nem o que fazer — nem como exprimir a sua indignação de modo suficiente. Por fim, sem pronunciar uma só sílaba, empurrou-a violentamente e atirou-lhe no rosto o conteúdo de uma taça transbordante.
A pobre pequena se levantou como pôde e, sem mesmo ousar suspirar, retomou o lugar ao pé da mesa.
Durante meio minuto houve silêncio de morte, durante o qual ter-se-ia ouvido cair uma folha, uma pluma. Esse silêncio foi interrompido por uma espécie de rangido surdo, mas rouco e prolongado, que pareceu surgir de repente de todos os cantos da sala.
***
— Porque... porque... por que faz este barulho? — perguntou o rei, voltando-se com fúria para o anão.
Este parecia ter voltado de certo modo da sua embriaguez e, encarando, fixamente, mas com tranquilidade o tirano, exclamou com simplicidade:
— Eu?... eu? Como podia ter sido eu?...
— O som pareceu-me vir de fora — observou um dos cortezões. — Penso que é o papagaio, na janela, que esfrega o bico nas grades da gaiola.
— É verdade — replicou o monarca, como que muito aliviado por essa ideia. — Mas, pela minha honra de cavalheiro, eu seria capaz de jurar que era o ranger dos dentes desse miserável.
Nesse instante o anão- pôs-se a rir (o rei era um fascista assaz determinado para retorquir o que quer que fosse ao riso) e apresentou uma larga, poderosa e espantosa fileira de dentes. Mas ainda: declarou que estava pronto a beber tanto vinho quanto quisessem. O monarca se acalmou e Hop-Frog, tendo bebido nova taça sem o menor inconveniente, entrou de repente, e sem calor, no plano da mascarada.
— Não posso explicar — observou ele mui tranquilamente e como se jamais houvesse bebido vinho em sua existência — como se operou essa associação de ideias; mas logo depois de Vossa Majestade ter batido na pequena e lhe haver atirado o vinho ao rosto, logo depois de Vossa Majestade ter feito isso, e enquanto o papagaio fazia esse esquisito barulho por detrás da janela, veio-me à mente um maravilhoso divertimento; é uma brincadeira da minha terra e frequentemente a introduzimos nas nossas mascaradas; mas aqui seria absolutamente novo. Infelizmente requer oito pessoas.
— Mas nós somos oito! — exclamou o rei, rindo por essa subtil descoberta. — Precisamente oito! Eu e os meus sete ministros! Bem! Mas como é a brincadeira?
— Chamamos isso — disse o coxo — de Os oito orangotangos encadeados. É, realmente, uma estupenda brincadeira quando bem executada.
— Nós a faremos — disse o rei, erguendo-se e abaixando as pálpebras.
— A beleza da brincadeira — continuou Hop-Frog consiste no terror que causa às mulheres.
— Ótimo! — rugiram em coro o monarca e o seu ministério.
Serei eu quem os vestirá de orangotangos — prosseguiu o anão. — Confiem em mim. A semelhança será tão espantosa que todos os mascarados vos tomarão por verdadeiros animais e, naturalmente, ficarão não só assombrados como aterrorizados.
Oh! Encantador! exclamou o rei. — Hop-Frog! Faremos de ti um homem!
— As correntes têm por fim aumentar a desordem pelo seu barulho. Supor-se-á que tenham fugido em massa dos guardas. Imagine Vossa Majestade o efeito produzido, num baile de máscaras, por oito orangotangos encadeados, tomados pela maioria da assistência por verdadeiros animais, precipitando-se com gritos selvagens através de uma multidão de homens e mulheres elegantes e suntuosamente vestidos. Não há contraste igual.
Assim será! — disse o rei.
E o conselho se levantou às pressas, pois ficava tarde, para pôr em execução o plano de Hop-Frog.
***
O seu modo de arranjar essa gente como orangotangos era muito simples, porém o bastante para o seu propósito. Na época em que se passa esta história eram vistos raramente animais de tal espécie nas diferentes partes do mundo civilizado; e como as imitações feitas pelo anão eram suficientemente bestiais e mais do que suficientemente hediondas, acreditou-se poder ter confiança na semelhança.
O rei e os seus ministros foram, primeiramente, metidos em camisas e calças de tricô colantes. Depois cobriu-se-os de alcatrão. Nesse ponto da operação alguém do grupo lembrou a aplicação de plumas; mas isso foi logo repelido pelo anão, que convenceu depressa os oito, por uma demonstração ocular, de que o pelo de um animal como o orangotango ficava mais fielmente representado pelo linho. Por conseguinte aplicou-se uma camada espessa sobre o alcatrão. Arranjou-se, então, uma comprida corrente. Passou-se-a, em primeiro, em torno da cintura do rei, atando-se-a bem; depois em torno de outro do bando, atando-se-a bem, igualmente; depois sucessivamente em volta de cada um e da mesma maneira. Quando todo esse arranjo com a corrente terminou, afastando-se um do outro tanto quanto possível, o bando ficou formando um círculo; e, para concluir a semelhança, Hop-Frog fez passar o resto da corrente através do círculo, nos dois diâmetros, em ângulos retos, segundo o método hoje adotado pelos caçadores de Bornéu que agarram chimpanzés ou outros grandes macacos.
A grande sala na qual o baile ia verificar-se era uma peça circular, muito alta; recebia a luz do sol por uma janela única, no teto. À noite — era a parte do dia em que a sala tinha o seu destino especial — era iluminada principalmente por um lustre, suspenso por uma corrente no centro do teto, e que se erguia ou abaixava por meio de um contrapeso comum; mas para não prejudicar a elegância, o contrapeso passava por fora da cúpula e por cima do teto.
A direção do enfeite da sala fora entregue a Tripeta; mas em alguns detalhes esta fora provavelmente guiada pelo calmo raciocínio do seu amigo anão. Era seguindo o seu conselho que ela mandara suspender o lustre. O derretimento da cera, impossível de se impedir em tão quente atmosfera, teria causado sérios estragos nas ricas toaletes dos convidados que, dado estar a sala apinhada, nem todos poderiam evitar o centro, isto é, a região do lustre. Novos candelabros foram colocados nas diferentes partes da sala, fora do espaço ocupado pela assistência; e archotes, dos quais se desprendiam perfumes agradáveis, foram postos um na mão direita das cariátides que se erguiam junto à parede, em número de meia centena.
Os oito orangotangos, a conselho de Hop-Frog, esperaram pacientemente, para entrar, que a sala estivesse completamente cheia de mascarados, isto é, pela meia-noite. Tão logo o relógio soou a hora e eis que eles se precipitaram, ou melhor, rolaram em massa, pois atrapalhados, como estavam, pela corrente, alguns caíram e todos tropeçaram ao entrar.
***
A sensação entre os mascarados foi prodigiosa e alegrou o rei. Como se esperava, foi enorme o número dos convidados que supuseram constituir esses seres de ar feroz verdadeiros animais de certa espécie, provavelmente orangotangos mesmo. Muitas mulheres perderam os sentidos, de pavor; e se o rei não tivesse tido a precaução de proibir todas as armas, ele e os companheiros teriam pago a brincadeira com o próprio sangue. Logo se verificou a fugida geral para todas as partes; porém o rei havia dado ordem para que se as fechasse imediatamente após a sua entrada, sendo as chaves, de acordo com os conselhos do anão, postas nas mãos deste.
Enquanto o tumulto estava no auge e cada mascarado só pensava na própria salvação, pois havia verdadeiro perigo nesse pânico, ter-se-ia visto a corrente que servia para suspender o lustre, e que havia sido igualmente retirado, descer até a sua extremidade recurvada em gancho e chegar a três pés do chão.
Poucos instantes depois, o rei e os seus sete amigos, tendo rolado através da sala em todas as direções, se encontraram, enfim, no centro e em contato imediato com a corrente do lustre. Enquanto eles estavam nesta posição, o anão, que sempre caminhava junto deles, aconselhando-os a se não deixar levar pela comoção, agarrou a corrente que as unia bem na interseção das duas partes diametrais. Então, com a rapidez do pensamento, aí prendeu o gancho que de ordinário servia para suspender o lustre; e num instante, retirado como que por um agente invisível, a corrente subiu assaz alto para pôr o gancho fora de todo alcance, e, consequentemente carregou es orangotangos todos de ima só vez, uns contra os outros, cara a cara.
Os mascarados, entrementes, mais ou menos se haviam refeito do alarme, e, como começassem a tomar isso tudo por uma brincadeira previamente combinada, soltaram imensas gargalhadas, vendo a posição dos macacos.
— Guardem-nos bem, para mim, — gritou, então, Hop-Frog, e a sua voz penetrante se fazia ouvir através do tumulto. — Guardem-nos bem, para mim. Creio que os conheço, eu. Se eu puder vê-los bem, dir-vos-ei logo quem são.
Então, trepando por cima de pessoas, manobrou de maneira a atingir a parede. Depois, arrancando um archote de uma das cariátides, voltou, como fora, pari o centro da sala, pulou com agilidade de macaco na cabeça do rei, e trepou um pouco na corrente, abaixando o archote para examinar o grupo dos orangotangos, não parando de gritar:
Descobrirei já quem são.
E então, enquanto toda a assistência, os macacos compreendidos, se torciam de tanto rir, o bufão soltou, subitamente, um agudo assobio; a corrente subiu, rápida, cerca de trinta pés, erguendo os orangotangos aterrorizados, que se debatiam, e deixando-os suspensos no ar entre o teto e o chão. Hop-Frog, cavalgando a corrente, subira com ela e mantinha sempre a sua posição em relação aos oito máscaras, conservando o archote voltado para eles, como que a se esforçar para descobrir quem eram.
Toda a assistência ficou tão estupefata por esta ascensão que sobreveio silêncio profundo durante um minuto. Logo foi ele interrompido por um barulho surdo, por uma espécie de ranger rouco, como o que já havia chamado a atenção do rei e dos seus conselheiros quando este atirara o vinho no rosto de Tripela. Mas agora não se precisava procurar saber de onde partia o barulho. Ele partia dos dentes do anão, que os fazia ranger como se os moesse na espuma da boca e lançava dos olhos chispas de louca raiva para o rei e os seus sete companheiros, cujos rostos estavam voltados para ele.
— Ah! Ah! — disse, por fim, o anão, furibundo. — Ah! Ah! Começo a ver quem sejam essas pessoas, agora!
Então, a pretexto de examinar o rei mais de perto, aproximou o archote do traje de linho de que aquele estava revestido e que instantaneamente se fundiu num lençol de chama brilhante. Em menos de oito minutos os oito orangotangos ardiam furiosamente, no meio dos gritos de uma multidão que os contemplava de baixo, tomada de horror, impotente para lhes prestar o menor socorro.
As chamas não tardaram a subitamente adquirir violência maior, forçando o bufão a subir ainda mais um pouco na corrente, para ficar fora do alcance delas, e enquanto executava essa manobra a multidão decaiu, por mais um instante, em silêncio. O anão aproveitou: se da ocasião e tomou de novo a palavra:
— Agora — disse ele — vejo distintamente de que espécie são estes mascarados. Vejo um grande rei e os seus sete conselheiros privados; um rei que não tem escrúpulos em bater numa moça sem defesa, e os seus sete conselheiros que o encorajam na sua atrocidade. Quanto a mim, sou simplesmente Hop-Frog o bufão — e esta é a minha última bufoneria!
Graças à extrema combustibilidade do cânhamo e do algodão ao qual estava colado, a obra de vingança do anão estava concluída logo após este ter dito a sua curta fala. Os oito cadáveres balouçavam nas suas correntes — massa confusa, fétida, fuliginosa, hedionda. O coxo atirou o archote sobre eles, trepou rapidamente até o teto e desapareceu pelo buraco.
Supõe-se que Tripeta, de sentinela no teto da sala, servira de cúmplice ao seu amigo nessa vingança incendiária e que juntos fugiram para a terra onde nasceram, pois nunca mais foram vistos.

Almanaque do Correio da Manhã, 1941.

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