segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Sombras (Conto), de Edgar Allan Poe




Sombras, de Edgar Allan Poe


Tradução de 1886, com adaptação ortográfica de Iba Mendes (2016)


Em verdade, ainda que eu
marche através do vale da sombra...
Salmos de David.

Vós que me ledes estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo em breve partirei para a região das sombras. Porque em verdade estranhas coisas acontecerão, muitas coisas serão reveladas e longos séculos correrão antes que estas notas sejam vistas pelos homens. E quando eles as virem, uns não acreditarão, outros duvidarão e poucos entre eles acharão nas palavras que deixo aqui gravadas matéria para meditação.

Esse ano fora um ano de terror, cheio de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não há nome na terra. Porque muitos prodígios e sinais se tinham realizado e de todos os lados, na terra e no mar, as asas negras da peste se tinham largamente desdobrado. Aqueles que com tudo eram entendidos em estrelas, não ignoravam que os céus tinham o aspecto de desgraça; e era evidente para mim, o grego Oinos, que abordamos a passagem deste 791° ano e que à entrada do Carneiro, o planeta Júpiter faz a sua conjunção com o anel vermelho do terrível Saturno. O espírito particular dos céus, se de todo me não engano, manifestava a sua potência, não somente sobre o globo físico da terra, mas também sobre as almas, os pensamentos e as meditações da humanidade.

Uma noite estávamos sete, ao fundo de um nobre palácio, numa sombria cidade chamada Ptolemais, assentados em torno de uns frascos de um vinho púrpura de Quios e o nosso quarto tinha apenas por entrada uma alta porta de bronze; e a porta fora esculpida pelo artista Corinos, e era de uma rara arte e fechava para dentro. Cortinados negros protegendo esta câmara melancólica, ofuscava-nos o aspecto da lua, das estrelas lúgubres, e das ruas despovoadas, mas o pressentimento e a lembrança do Flagelo, não tinham podido ser excluídos tão facilmente em volta de nós; perto de nós, coisas de que não posso dar conta distintamente, — coisas materiais e espirituais,— e peso na atmosfera, — uma sensação de asfixia, uma angústia, — e, acima de tudo isto, este terrível modo de ser da existência que sofrem as pessoas nervosas, quando estão cruelmente vivos e acordados as faculdades do espírito adormecidas e tranquilas. Um peso mortal esmagava, estendia-se por sobre os nossos membros, — por sobre os copos em que bebíamos; todas estas coisas pareciam oprimidas e prostradas neste abatimento — todas exceto as chamas de sete lâmpadas de ferro que iluminavam a nossa orgia. Estendendo-se em pequenos filetes de luz conservavam-se assim e ardiam pálidas e imóveis; e na mesa redonda de ébano, em volta da qual estávamos sentados, transformada em espelho por aquele brilho, cada um dos convivas contemplava a palidez do seu próprio rosto e o relâmpago inquieto dos olhos mortais dos seus companheiros. Contudo ríamos e estávamos alegres à nossa maneira, uma maneira histérica; cantávamos as canções de Anacreonte, que são uma loucura, e bebíamos largamente — ainda que o vermelho do vinho nos recordasse o vermelho do sangue.

Porque havia no quarto um oitavo personagem — o jovem Zoilus. Morto, estendido sobre o chão, era o gênio e o demônio da cena. Ah! Ele não tinha parte na nossa alegria, ainda que a sua fisionomia convulsionada, e os seus olhos, nos quais a morte apenas tinha apagado metade do fugo da peste, pareciam tomar na nossa alegria tanto interesse quanto os mortos são capazes de tomar gozo daqueles que devem morrer.

Mas ainda que eu, Oinos, sentisse os olhos do defunto lixados em mim, não me esforçava, contudo, a compreender a amargura da sua expressão, e, olhando teimosamente para as profundidades do espelho de ébano, eu cantava numa voz alta e sonora as canções do poeta de Teos.

Gradualmente, porém, o meu canto cessou e os ecos, rolando ao longe entre as negras cortinas do quarto, tornaram se fracos, indistintos, e apagaram-se. E eis que do fundo destas cortinas negras em que ia morrer o ruído da canção, elevou-se uma sombra triste, indefinida, — sombra semelhante àquela que a lua, quando está baixa no céu, pode desenhar perto do corpo de um homem; mas não era a sombra nem de um homem, nem de um Deus, nem de nenhum ser conhecido, e estremecendo, um instante, entre as cortinas, ficou enfim visível e eriçada sobre a superfície da porta de bronze.

Mas a sombra era vaga, sem forma, indefinida; não era a sombra nem de um homem nem de um Deus— nem de um Deus da Grécia, nem de um Deus da Caldéia, nem de nenhum Deus egípcio. E a sombra repousava na grande porta de bronze e sob o ornato em abóbada, e não se agitava, e não pronunciava uma palavra, mas fixava-se cada vez mais e ficou imóvel. E à porta sobre a qual a sombra repousava, estavam, se bem me lembro, encostados os pés do jovem Zoilus deitado. Mas nós, os sete companheiros, tendo visto a sombra e como ela saía das cortinas, não ousávamos contemplá-la fixamente; mas baixávamos os olhos e fitávamos sempre as profundidades do espelha de ébano. E em seguida eu, Oinos, arrisquei-me a pronunciar algumas palavras em voz baixa e perguntei à sombra a sua morada e o seu nome, e a sombra respondeu:

— Sou Sombra e a minha morada é ao das catacumbas de Ptolimais, muito próximo destas sombrias planícies infernais, que apertam o canal impuro de Caronte!

E então todos os sete erguemo-nos horrorizados, arrepiados, aterrados; porque o timbre da voz da sombra não era o timbre de um só indivíduo, mas de uma multidão de seres; e esta voz, variando as suas inflexões de sílaba para sílaba, caía confusamente nos nossos ouvidas, imitando os acentos conhecidos e familiares de milhares de amigos desaparecidos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário