segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A casa dos loucos (Conto), de Edgar Allan Poe




A casa dos loucos, de Edgar Allan Poe


Tradução de 1928, com adaptação ortográfica de Iba Mendes (2016)


Quando manifestei a meu amigo Loustan o desejo de visitar essa Casa de Saúde particular, dedicada especialmente a loucos, ele não disfarçou um gesto de mau humor.

— Que ideia! Então você me convida para uma excursão de caça pelos Pireneus e agora quer visitar um hospício? Nunca entrei nem nunca hei de entrar em uma casa desse gênero. Tenho horror aos loucos... Por mais mansos que sejam, assustam-me.

— Pois eu sempre tive grande desejo de observá-los de perto... Se não opusessem sempre tão grandes dificuldades à entrada de leigos...

— Essa não seja a dúvida disse Louston — Se você se empenha mesmo nisso... Eu tenho boas relações com o sr. Maillard...

— Quem é esse sr. Maillard?

— É o diretor da Casa de Saúde. Se quer, eu o apresento... mas desde já o previno, não passo da porta da rua. Vou até lá somente para lhe fazer a vontade.

E assim se fez.

Vista da pequena cidade mele nos havíamos instalado, a Casa de Saúde parecia muito próxima, mas para chegar a ela tivemos que caminhar mais de uma hora, por estradas em ladeira e nem sempre bem conservadas.

Quando, afinal saltamos de nossos cavalos diante do portão, tive uma impressão desagradável ao ver o edifício. Era um antigo castelo, com a fachada muito estragada pelo tempo o de aspecto fantástico. Atravessamos um jardim, que parecia abandonado e aproximando-nos da porta de entrada, vimos que ela estava entreaberta e o rosto de um homem surgindo junto no umbral fitava-nos com ar desconfiado. Porém Loustan saudou-o pelo nome e o sr. Maillard — pois era ele — veio a nosso encontro com um sorriso amável.

Era um homem de alta estatura, com maneiras de fidalgo e muito cortês, a despeito da expressão grave e autoritária, que parecia ser-lhe habitual.

Meu amigo apresentou-me, expôs-lhe meu desejo de visitar o estabelecimento e desde que o sr. Maillard lhe assegurou que tudo me facilitaria de bom grado, alegou um compromisso urgente e retirou-se.

Então o diretor fez-me entrar para um vestíbulo exíguo, mas muito limpo e onde, entre outros objetos denunciando gosto apurado, vi livros, quadros e instrumentos de música. Quando entramos, uma moça de rara formosura estava sentada ao piano e tocava um trecho de Belline. Ao ver-me, deteve-se e saldou-me com graça perfeita. Estava vestida de luto e seu rosto pálido parecia marcado por um profundo desgosto.
  
Tinham-me dito em Paris que essa Casa de Saúde fora uma das primeiras a adotar o tratamento pela doçura. Toda a violência física fora banida e era mesmo raro que se mantivessem os loucos presos em cubículos. Recordando essas informações, examinei atentamente a linda moça. Seria ela uma das internadas? Havia em seus olhos um fulgor tão singular!... Falei-lhe, tendo o cuidado de dizer apenas as banalidades menos capazes de exaltar ou contrariar uma demente. Ela respondia-me com palavras perfeitamente sensatas e mesmo com inteligência notável, mas eu já havia lido bastante sobre loucos para saber que não nos devemos fiar nessas aparências.

Quando um criado trouxe refrescos e a moça, com uma breve saudação retirou-se do vestíbulo, dirigi ao sr. Maillard um olhar tão francamente interrogador que ele protestou:

— Não... não... essa moça é minha sobrinha .

— Peço-lhe que me desculpe... como sei que os loucos, aqui, andam livremente...

— Andavam corrigiu tristemente o sr. Maillard.

— Como?! exclamei, sinceramente contristado. — Será possível que tenha renunciado a seu método, que tanto ouvi elogiar...

—Sim... infelizmente, fui forçado a isso, há já algumas semanas... A prática é, afinal de contas, o melhor dos mestres e obrigou-me a voltar à velha rotina.

— Que pena!

— Eu o lamento ainda mais do que o senhor...

Teria tanto prazer em mostrar-lhe como aplicava meu método, que, a princípio, parecia produzir o melhores resultados. Como deve saber, o que caracteriza em geral, os loucos, é uma ideia fixa, uma mania... Pois bem e em vez de contrariar essas manias, eu fingia aceitá-las por mais absurdas que fossem.

Por exemplo, um de nossos doentes tinha a ideia fixa de que era um galo. Que fazia eu? Servia-lhe os alimentos numa lata, colocada no chão no galinheiro e chamava-o assim:

— Pi... pi... pi... pi... Venha cá. Aqui está seu milho.

— E isso era bastante para acalmá-los e... curá-los?...

— Não. Mas juntávamos a essa aquiescência, distrações, variadas: — música, dança, ginástica, jogos... As vezes encarregava um louco de vigiar outro, fingindo ter inteira confiança em sua habilidade... Isso dava resultados maravilhosos!

— E não os prendia?

— Muito raramente. Apenas nos casos de acesso de fúria. Então era preciso isolá-lo para que os outros não fossem contagiados. De resto; em regra, não aceitamos aqui loucos furiosos.

Mas, como lhe disse, acabei por ter tão dolorosas provas de que esse sistema era perigoso...

— Pois estou surpreendido — atalhei com sincera tristeza. — Tinham-me dito exatamente o contrário.

— Ah! meu amigo — suspirou o sr. Maillard — O senhor é ainda muito moço. Ainda acredita em tudo quanto lhe dizem. Mas vamos jantar. Depois eu o farei visitar todo o estabelecimento e explicar-lhe-ei o novo sistema.

— Ah!... então adotou um sistema novo?

— E de resultados prodigiosos, o mais eficaz dos sistemas até hoje imaginados.

***

Pouco depois, entrávamos na sala de jantar onde tive a surpresa de encontrar vinte e cinco ou trinta pessoas já sentadas à mesa. Meu espanto ainda foi maior quando notei que todas essas pessoas estavam vestidas com grande luxo mas com roupas antigas. Principalmente as senhoras, que constituíam a maioria da assembleia, exibiam vestidos de há vinte, trinta e até de há cem anos. A própria moça, que o sr. Maillard me apresentara no vestuário, dizendo-me ser sua sobrinha apresentava-se agora com um vestido de cestinhas e anquinhas, grande demais para ela e que a tornava lamentavelmente ridícula. E cada qual ostentava os adornos mais variados numa tal confusão de épocas e modas que comecei a desconfiar de que o sr. Maillard me enganara, para melhor apreciar minhas impressões e que aqueles eram os asilados, os loucos, que, de acordo com o método de doçura, tinham a liberdade de se vestir como bem entendessem.

A mesa era soberba, com prataria maciça e iguarias perfeitas mas excessivas. Os convivas eram trinta no máximo e havia ali jantar para mais de cem pessoas. Havia também exagero de luzes. Em suma, tudo aquilo era tão estranho que eu não sabia o que pensar; mas sentado ao lado do diretor do estabelecimento tratei de saborear o que me serviam.

Em toda a mesa a conversação se generalizou com animação, porém o que mais me impressionou foi que o assunto predileto de todos era a loucura, suas várias modalidades e os casos mais característicos dessa triste enfermidade.

— Tivemos aqui... — dizia um homenzinho magro, sentado a minha esquerda —... um sujeito que tinha a mania de pensar que era um bule. O mais curioso é que essa ideia tão estranha é muito comum entre os loucos. Raro é o hospício em que não há um homem-bule. O homem de quem falo, acreditava-se bule de metal branco, e todas as manhãs esfrega-se cuidadosamente com uma flanela untada de pasta contra a ferrugem.

— Conheci outro disse um homem alto e gordo, do outro lado da mesa — que julgava-se um burro.

— Mais extraordinário ainda era outro, que eu conheci e que afirmava ser um queijo... e andava de faca em punho, pedindo a toda gente que provasse um pedacinho de sua perna e de -seu braço.

— Isso é uma fantasia inocente — gritou o homem gordo — O que se imaginava um burro era mais perigoso porque dava coices para todos os lados... assim...

— Oh!... sr. de Koch!... Contenha-se! exclamou uma senhora idosa, alcançada pela mímica exuberante do homem gordo. — Está sujando e rasgando meu vestido.

— Mil perdões, Mlle... — disse o sr. de Koch, curvando-se e beijando a própria mão, com uma reverência das usadas no outro século.

Não tendo mais dúvidas, voltei-me para o sr. Maillard e ia gracejar sobre o modo como tentara enganar-me. Porém, justamente nesse instante, ele tomou um ar misterioso para me dizer em voz baixa:

— Quando acabarmos de jantar eu o levarei câmara-forte onde estão os meus doentes. Não quis mostrar-lhe os antes da refeição com receio de que a emoção lhe cortasse o apetite.

— Como? — exclamei atônito. — Então os loucos....

— Estão lá em baixo, em lugar seguro, onde podem ser submetidos ao regímen de que lhe falei...

Não pude continuar. Pouco além, um homem muito vermelho, para contar que conhecera um louco, que se julgava uma garrafa de Champanhe, meteu um dedo na boca e retirou-o subitamente com tal habilidade que imitou perfeitamente o espocar de uma rolha de vinho espumante; em seguida franzindo os lábios começou a imitar o silvo do Champanhe, que transborda da garrafa.

— Sr. Boulard! — disse severamente o diretor. — Ficar-lhe-ia muito obrigado se se mantivesse com mais comedimento.

O sr. Boulard calou-se imediatamente e ficou ainda mais vermelho, visivelmente mortificado pelo vexame de ser assim chamado à ordem. Mas depois de refletir um instante, resolveu protestar e, erguem dose com ar de grande dignidade começou...

— Sr. diretor... Sr. diretor... Tenha paciência mas eu não admito...

Não pude ouvir o resto da frase. Sua voz foi subitamente abafada por uma série de gritos agudos, verdadeiros uivos, que vinham não sei de onde.

Confesso que senti os nervos profundamente abalados por essas vociferações. Porém ainda maior foi a impressão sobre os convivas do Dr. Maillard. Nunca tive ante meus olhos uma coleção de fisionomias tão transtornadas pelo terror.

Todos ficaram lívidos como mortos; encolheram-se em suas cadeiras e ficaram trêmulos e gaguejantes de pavor como se esperassem o recomeçar dos tétricos clamores.

De fato, eles não tardaram a recomeçar, mais fortes e mais próximos; depois uma terceira e uma quarta vez, que foi a mais atenuada.

Quando tudo passou, afinal, os convivas recobraram o domínio de si mesmos e recomeçaram a tagarelar animadamente... sempre contando anedotas sobre loucos.

Arrisquei-me então a perguntar ao sr. Maillard a causa do estranho alarido...

— Coisa atoa — disse o diretor serenamente. — São os loucos, que, às vezes, dão para gritar, todos juntos. Como geralmente isso acontece quando eles tentam fugir, isso assusta um pouco as pessoas que aqui estão...

— E... são muitos? — indaguei.

— Não. Agora tenho aqui somente uns dez.

— Mulheres em sua maioria, aposto.

— Não, senhor... todos homens e latagões robustos, perigosos.

— É curioso. Sempre ouvi dizer que as mulheres eram mais numerosas do que os homens nos hospícios.

— Geralmente, assim é; mas minha casa de saúde constitui uma exceção talvez única Antigamente eu tinha aqui... ora, vejamos... quantos?... Uns vinte e sete loucos entre os quais as mulheres eram dezoito. Depois a situação mudou... Ah!... mudou por completo.

— Por completo... por completo! gritaram todos os convivas com entusiasmo.

— Calem-se! — gritou o sr. Maillard, vermelho de cólera.

Toda a assistência aquietou-se e durante um minuto, pelo menos, guardou o mais absoluto silêncio.

Então não me contive mais. Baixando a voz, cheguei-me para o sr. Maillard e perguntei:

— E o senhor está certo de que entre as pessoas presentes não há também algumas que...

— ...quê?... quê? repetiu o diretor, com ar de imenso espanto. — Que quer o senhor dizer?...

— Quero dizer que... não me engano... alguns desses senhores e senhoras estão talvez um pouco... doentes.

— Ora qual! exclamou o diretor, com um sorriso indulgente. — Que ideia! Conheço-os todos há muito tempo. Têm talvez algumas excentricidades... mas afirmo-lhe que são todos perfeitos de espírito. São meus amigos e meus auxiliares.

— Todos? As senhoras também?

— Pois claro! As mulheres são as melhores enfermeiras para loucos. Sabem como vinguem aplicar o meu novo sistema.

— Ah! sim... é verdade. O senhor prometeu-me explicar-me esse sistema, que é, ao que parece, de uma grande severidade.

— Nem tanto assim... Apenas exige reclusão absoluta... mas o tratamento, propriamente a terapêutica, deve até ser agradável aos doentes...

— Deveras?

— Sim... Devo dizer-lhe que não foi eu quem inventou o método... apenas o aperfeiçoei e completei. Por que descobri o seguinte... Exatamente quando os loucos se mostram mais calmos e mais lúcidos é quando são mais perigosos É preciso metê-los imediatamente em camisolas de força. Olhe, aqui mesmo e não há muito tempo produziu-se um estranho acontecimento. O sistema da doçura, como o senhor diz, produziu um caso estranho e sintomático. Os loucos andavam livremente pela casa e portavam-se com tranquilidade exemplar; tão notável que qualquer pessoa de bom senso teria logo compreendido que um plano diabólico se tramava entre eles. De repente, os guardas e enfermeiros foram atacados de improviso, amarrados dos pés à cabeça, metidos na câmara-forte e vigiados pelos loucos com a severidade, que não lhes tinha sido aplicada.

— Santo Deus! exclamei assombrado. — Um caso assim é absolutamente sem precedentes.

— Mas ocorreu aqui — disse o diretor com o mesmo ar grave. — Tudo por culpa de um imbecil, um louco, que imaginou haver inventado um método de direção melhor do que todos até hoje conhecidos. Para experimentar esse método, arregimentou os outros loucos...

— E conseguiu dominar os guardas?

— Por completo. Houve então uma troca geral dos papéis. Os guardas passaram a ficar sob a guarda dos loucos.

— Mas isso certamente não durou muito tempo... Os camponeses da vizinhança, os fornecedores decerto, não tardaram a denunciar essa situação.

— Qual! O chefe do movimento era mais esperto do que o senhor imagina. Desde esse dia não deixou entrar aqui nenhum estranho, com exceção única de um rapaz. É verdade... não sei mesmo por que deixou ele esse rapaz entrar aqui!...

— Então isso durou muito tempo?

— Muito. Um mês pelo menos. Durante esse tempo, os loucos divertiram-se à vontade; comeram e beberam do melhor, vestiram-se como lhes deu na telha e o melhor foi que...

Não pôde prosseguir; sua voz foi abafada pelos gritos furiosos, que recomeçavam ainda mais fortes do que há pouco e, desta vez, parecendo aproximar-se rapidamente.

— Céus! — exclamei assustado — É de se jurar que os loucos fugiram.

— Também me parece disse o diretor, muito pálido.

De fato, as vociferações ouviam-se agora do lado de fora e as portas e janelas foram sacudidas como se várias pessoas singularmente fortes pretendessem penetrar na sala...

Seguiu-se uma indescritível confusão. Com grande surpresa para mim, o sr. Maillard abandonou sua cadeira e meteu-se debaixo do aparador. Os demais convivas corriam assustados ou mantinham-se petrificados pelo terror.

E como ninguém pensava em resistir, as portas não tardaram a ceder aos impulsos colossais a que estavam sendo submetidas. Vários homens seminus, com as vestes em farrapos, mas robustos e resolutos penetravam na sala onde, rapidamente amarraram todos os presentes.

Só depois disso puderam explicar-me o que havia ocorrido.

O sr. Maillard, contando-me a história de um louco que excitara os companheiros à revolta, não fizera mais do que relatar as próprias proezas. Esse homem fora, de fato, diretor daquele estabelecimento; mas enlouquecera por sua vez e passara categoria de internado. Esse detalhe era ignorado pelo companheiro de viagem, que trouxera até ali. Os guardas, surpreendidos pela revolta preparada com grande discrição, estavam presos havia trinta dias, sujeitos a alimentação irregular e impetuosas jorros de água, que os loucos lhes aplicavam através das grades.

Felizmente para mim, exatamente nesse dia, um dos guardas conseguira fugir e libertar os demais companheiros.

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