sábado, 8 de outubro de 2016

História do Padre Hudson (Conto), de Denis Diderot



História do Padre Hudson, de Denis Diderot

Tradução de Frederico dos Reys Coutinho, publicada em 1944 pela antiga e extinta Editora Vecchi. A transcrição e revisão gráfica é de Iba Mendes (2016)

Chega um momento em que quase todas as moças e rapazes são dominados pela melancolia; aflige-os uma inquietude vaga que nada poupa e que coisa alguma consegue dissipar. Eles buscam a solidão, choram, comove-os o silêncio dos claustros, seduze-os a paz que parece reinar nos estabelecimentos religiosos. Tomam pela voz de Deus que os chama a si os primeiros esforços de um temperamento em formação, e é justamente quando a natureza os solicita que eles adotam um gênero de vida contrário à vontade da natureza. O engano não é demorado; a manifestação da natureza torna-se mais patente, é identificada, e a criatura, sequestrada sucumbe ao arrependimento à prostração, às perturbações, à loucura ou ao desespero... desiludido do mundo e aos dezessete anos de idade: Ricardo (assim se chama o meu secretário) fugiu da casa paterna e ingressou na ordem dos premostratenses. 
Caso seus pais não se houvessem oposto, Ricardo teria prestado seus votos após dois anos de noviciado. Mas seu pai exigiu que ele voltasse para a casa, onde lhe seria permitido experimentar sua vocação, observando durante um ano todos os preceitos da vida monástica; ajuste que foi escrupulosamente cumprido por ambas as partes. O ano de experiência, sob os olhos da família, passou-se e Ricardo pediu para prestar seus votos. O pai respondeu-lhe: "Concedi-lhe um ano para tomar uma última resolução, espero que você não me recuse um para o mesmo fim; consinto, apenas, que você o passe onde lhe aprouver." Enquanto decorria esse segundo prazo, o abade da ordem tomou-o consigo. Nesse interregno foi que ele se viu implicado numa dessas aventuras que só acontecem nos conventos. Havia, então, à frente de uma das casas da ordem, um homem de um caráter fora do comum. O padre Hudson. O padre Hudson tinha uma fisionomia interessantíssima: ampla fronte, rosto oval, nariz aquilino, grandes olhos azuis, belas e largas faces, bonita boca, bonitos dentes, sorriso extremamente distinto, e a cabeça coberta de uma floresta de cabelos brancos que reuniam a dignidade aos seus dotes físicos; era inteligente, culto, alegre, de maneiras e conceitos rigorosamente honestos; mas dominavam-no as paixões mais arrebatadas, o gosto mais desenfreado pelos prazeres e pelas mulheres; o espírito de intriga levado ao mais alto grau, os mais dissolutos costumes, o mais absoluto despotismo em sua casa. Quando foi incumbido de administrá-la, assolava-a um jansenismo ignorante; os estudos não eram bem feitos, os negócios seculares estavam em desordem, esquecidos estavam os deveres religiosos, os ofícios divinos eram celebrados desrespeitosamente, os dormitórios que sobravam estavam ocupados por alunos internos de péssimo procedimento. O padre Hudson converteu ou afastou os jansenistas, dirigiu ele próprio os estudos, regularizou os negócios, pôs novamente em vigor os preceitos da comunidade, expulsou os alunos relapsos, introduziu na celebração das cerimônias a ordem e o decoro, e transformou sua casa numa das mais exemplares. Mas dispensava-se de aplicar a si mesmo a autoridade à qual submetia os demais. Não era tão parvo que partilhasse o jugo férreo sob o qual mantinha seus subalternos; donde, estes sentirem em relação ao padre Hudson, um furor contido e por isso mesmo mais violento e mais perigoso. Cada um deles era seu inimigo e seu espião; todos procuravam, em segredo, varar as trevas de sua conduta; todos mantinham registro particular de suas faltas ocultas; todos haviam resolvido perdê-lo; ele não dava um passo que não fosse acompanhado; suas aventuras mal se iniciavam, já eram conhecidas. 
O abade da ordem possuía uma casa contígua ao mosteiro. Essa casa tinha duas portas, uma dava para a rua, a outra para o claustro. Hudson forçara as fechaduras: a residência abacial tornara-se palco de suas cenas noturnas e o leito do abade o de seus prazeres. Ele se valia da porta da rua para introduzir pessoalmente, em horas mortas da noite, mulheres de todas as condições nos aposentos do abade; era aí que faziam ceias opíparas. Hudson tinha um confessionário e corrompera todas as suas penitentes que ele achara merecerem isso. Entre elas, havia uma pequena confeiteira cujos encantos e faceirice eram muito comentados no bairro; Hudson, que não podia ir a casa dela, trancou-a em seu serralho. Essa espécie de rapto não deixou de despertar as suspeitas da família e do esposo. Eles o visitaram. Hudson recebeu-os com ar consternado. Quando essas boas criaturas estavam a lhe expor sua aflição, bate o sino: eram seis horas da tarde; Hudson impõe-lhes silêncio, tira o solidéu, levanta-se, faz um grande sinal da cruz e diz, em tom afetuoso e grave: Angelus Domini nunciavit Mariae... E eis o pai da confeiteira e seus irmãos, envergonhados de sua desconfiança, a dizerem ao esposo, quando desciam a escada: "Meu filho, você é um tolo... Meu irmão, não se envergonha? Um homem que diz o Angelus! um santo!"
Certa noite, no inverno, quando voltava para o convento, Hudson foi acostado por uma dessas criaturas que se oferecem aos transeuntes; acha-a bonita: segue-a; mal entrou, surge a patrulha. Semelhante aventura seria a perda de outro qualquer, mas Hudson era um homem inteligente e esse acidente valeu-lhe a benevolência e à proteção da autoridade policial. Levado a sua presença, falou-lhe do seguinte modo: "Chamo-me Hudson, sou o superior de meu convento. Quando nele ingressei imperava a desordem mais completa; comprometidos estavam a disciplina, os costumes, os estudos; as coisas do espírito eram escandalosamente negligenciadas; o desperdício de nossos bens ameaçava a casa próxima ruína. Tudo reparei; mas sou homem e preferi mulher devassa que me dirigir a uma mulher honesta. O senhor pode, agora, fazer de mim o que quiser..." A autoridade recomendou-lhe mais discrição para o futuro, prometeu-lhe segredo quanto ao caso e manifestou vontade de conhecê-lo mais intimamente. 
Entretanto, os inimigos que de todos os lados o cercavam, haviam, qual por seu lado, mandado o geral da ordem relatórios onde era exposto o que sabiam sobre o mau proceder de Hudson. A comparação desses relatórios, uns com os outros, aumentava sua força. O geral era jansenista, e por conseguinte propenso a vingar-se da atitude que Hudson tomara, contra os simpatizantes das opiniões dele geral. Sentir-se-ia encantado se pudesse estender a toda a seita, a acusação de costumes corruptos feita àquele defensor da bula e da moral tíbia. Em consequência, entregou os diversos relatórios das ações e atitudes de Hudson a dois representantes seus que ele enviou secretamente, com ordem de investigarem e verificarem-nas juridicamente, recomendando-lhes, principalmente, que agissem com a máxima discrição, único meio de subjugar subitamente o culpado e de subtraí-lo à proteção da corte e do Mirepoix, a cujos olhos o jansenismo era o pior de todos os crimes, e a submissão à bula Unigênitus, virtude máxima. Ricardo, meu secretário, foi um dos dois enviados.
E eis os dois homens que deixam o noviciado, instalam-se em casa de Hudson e começam a recolher informações à socapa. Depressa coligiram uma relação de faltas mais que suficiente para colocar cinquenta frades no in pace. O trabalho fora demorado, mas tão habilmente feito que coisa alguma transpirara. Hudson, embora muito sagaz, de nada desconfiava, por muito próximo que estivesse de sua perda. Não obstante, o descaso daqueles recém-vindos em lhe fazerem a corte, o mistério de sua viagem, as vezes que saíam, ora juntos, ora separados; suas frequentes conferências com os outros religiosos, a espécie de pessoas que eles visitavam e que os visitava, inquietaram-no um pouco. Ele vigiou-os, mandou vigiá-los, e logo tornou-se evidente para ele o objetivo e incumbência deles. Não se perturbou absolutamente; preocupou-se imensamente não com o modo pelo qual escapar à tempestade que o ameaçava, mas com o de desviá-lo para os dois enviados, e eis a solução singularíssima a que deu preferência:
Ele seduzira uma jovem e mantinha oculta numa pequena habitação do bairro São Medardo. Corre a casa dela e diz-lhe o seguinte:
— Minha filha, tudo está descoberto, estamos perdidos; antes de oito dias você estará presa e ignoro o que será de mim. Nada de desespero nem de gritos, domine sua perturbação. Ouça-me. Faça o que lhe vou dizer, faça-o bem; encarrego-me do restante. Amanhã, partirei para o campo. Durante minha ausência, vá procurar dois religiosos que lhe vou indicar (e lhe deu os nomes dos dois enviados), e peça para lhes falar em particular. Uma vez sozinha com eles atire-se a seus pés, implore seu auxílio, implore justiça, implore que intervenham junto ao Geral, sobre o qual você sabe possuírem eles muita influência; chore, soluce, arranque os cabelos; e enquanto chora, soluça e arranca os cabelos, conte-lhes toda a nossa história, e conte-a dá maneira mais própria para inspirar comiseração por você e horror de mim.
— Como, senhor, hei de lhes dizer...
— Sim, diga-lhes quem você é, a quem pertence; que eu a seduzi no tribunal da confissão, que a tirei dos braços de sua família e a sequestrei na casa onde está. Diga-lhes que, depois de roubar sua honra e precipitá-la no crime, abandonei-a na miséria; diga-lhes que não sabe o que será de você.
— Mas, meu pai...
— Faça o que lhe estou dizendo e o que ainda lhe vou dizer, ou decida sua perda e a minha. Os dois frades não deixarão de se compadecer de você, de lhe prometer sua ajuda e de lhe pedir outro encontro, que você concederá. Informar-se-ão a seu respeito e de sua família; e visto você só lhes haver dito a verdade não poderão conceber suspeitas. Depois do primeiro e do segundo encontro, dir-lhe-ei o que fazer no terceiro. Cuide apenas de bem desempenhar seu papel.
Tudo se passou como Hudson previra.
Ele fez uma segunda viagem. Os dois enviados disso avisaram a moça; ela voltou a casa. Tornaram a lhe pedir para contar novamente sua desgraçada história. Enquanto ela a repetia a um, o outro tomava notas em seu caderno. Ambos deploraram sua sorte, comunicaram-lhe a aflição de sua família, muito verdadeira, aliás, e lhe prometeram segurança para sua pessoa e rápida vingança de seu sedutor, sob condição, todavia, de ela subscrever suas declarações. Isso pareceu a princípio, revoltá-la; eles insistiram, ela concordou. Restava apenas marcar o dia, a hora e o local onde se faria tal coisa! que pedia tempo e comodidade...
— Onde estamos, não é possível; se o prior voltasse e me visse... Não ousaria propor que fosse em minha casa...
A moça e os enviados separaram-se, concedendo-se reciprocamente tempo para resolver essas dificuldades.
No mesmo dia, Hudson soube do que se passara. Ei-lo no auge da alegria: aproxima-se o instante de seu triunfo; breve aqueles dois intrometidos saberão a espécie de homem com que se foram meter.
— Apanhe a caneta, disse ele à jovem, e marque um encontro com eles no sítio que vou indicar. Tal encontro há de lhes convir, estou certo. A casa é honesta, a mulher que a ocupa desfruta na vizinhança, e entre os demais locatários, de excelente conceito.
Essa mulher era, contudo, uma dessas intrigantes disfarçadas que se fingem de devotas, insinuam-se pelas melhores casas, que têm maneiras brandas, afetuosas, velhacas, e conquistam a confiança das mães e das filhas para levá-las ao desregramento. Era como Hudson costumava utilizar-se dela; era a sua alcoviteira. Terá ele posto, ou não, a criatura a par de seu caso! É o que ignoro. 
Realmente, os dois enviados do geral aceitam o encontro . Ei-los com a moça. A alcoviteira retira-se. Começava-se a tomar por termo as declarações, quando irrompe na casa um grande tumulto.
— Senhores, quem procuram?
— Procuramos a senhora Simion. (Assim sê chamava a alcoviteira).
— Esta é a sua porta.
Batom violentamente na porta.
— Senhores, diz a moça, aos dois religiosas, devo responder?
— Responda.
— Devo abrir?
— Abra.
Quem assim falava era um comissário intimamente ligado a Hudson; aliás, a quem ele não conhecia? Ele contara-lhe o perigo que o ameaçava e ensinara-lhe como agir.
— Ah! ah! disse o comissário ao entrar, dois religiosos sozinhos com uma rapariga! Ela não é má.
A moça estava tão indecentemente trajada que não podia haver dúvida quanto a sua profissão e ao que estivesse fazendo com os dois frades, o mais velho dos quais não tinha trinta anos. Ambos protestavam sua inocência. O comissário dava risadinhas passando a mão pelo queixo da moça, que se atirara a seus pés, implorando piedade.
— Estamos em um lugar honesto, diziam os frades.
— Sim, sim, em um lugar honesto, dizia o comissário.
— Que eles estavam ali por causa de um negócio importante.
— Nós conhecemos o negócio importante que traz as pessoas aqui. Senhorita, fale.
— Senhor comissário, esses cavalheiros lhe estão dizendo é a pura verdade.
Enquanto isso o comissário, por sua vez, registrava os fatos, e visto o seu registro conter apenas a pura e simples exposição do caso, os dois religiosos foram obrigados a subscrevê-lo.
Enquanto desciam, iam encontrando todos os locatários na porta de suas residências. Na entrada da casa havia um numeroso ajuntamento, uma carruagem, bem como arqueiros, que os meteram na carruagem, debaixo da algazarra das vaias e das invectivas. Eles haviam coberto o rosto com seus mantos e se lamentavam. O pérfido comissário exclamava:
— Mas por que, meus pais, frequentar tais lugares e tais criaturas? Mas mão há de ser nada, tenho ordens da polícia de entregá-los a seu superior, que é um perfeito cavalheiro, indulgente; ele não dará a isso mais importância que a merecida. Não creio que na sua ordem os costumes sejam iguais aos dos cruéis capuchinhos. Por minha fé que os lastimaria, se tivessem de lidar com capuchinhos...
Enquanto o comissário lhes falava, a carruagem dirigia-se para o convento, a multidão aumentava, rodeava-o, precedia-o e acompanhava-o correndo. Aqui ouvia-se::
— Que é isso?
— São frades.
— Que fizeram?
— Foram encontrados em casa de mulheres perdidas.
— Premostratentes em casa de mulheres perdidas!
— Ah! Sim! Fazem o mesmo que os carmelitas e os franciscanos...
Ei-los que chegam. O comissário desce, bate à porta, bate novamente, bate pela terceira vez; finalmente ela se abre. Avisam o superior Hudson, que se faz esperar pelo menos meia hora, afim de aumentar ao máximo o escândalo. Surge, por fim. O comissário fala-lhes ao ouvido; parece interceder e Hudson repelir implacavelmente seus rogos. Finalmente, este último, revestindo uma aparência severa e falando rispidamente, disse-lhe:
— Não tenho religiosos dissolutos em minha casa; esses aí são dois estranhos que desconheço; talvez dois patifes disfarçados aos quais poderá dar o destino que entender...
A tais palavras, fecha-se a porta; o comissário torna a subir para o carro e diz aos nossos dois pobres diabos, mais mortos que vivos:
— Fiz tudo que pude; não julgava o padre Hudson tão severo. Também, por que diabo ir a casa de mulheres perdidas?
— Se a mulher com quem o senhor nos encontrou é uma das tais não foi a libertinagem que nos levou a sua casa.
— Ah! Ah! meus pais, dizem isso a um velho comissário! Quem são os senhores!
— Somos religiosos e o hábito que vestimos é o nosso.
— Lembrem-se que amanhã será preciso esclarecer este caso; falem a verdade, porque talvez eu lhes possa ajudar.
— Falamos a verdade... Mas para onde vamos?
— Para o pequeno Châtelet! Para a prisão!
— Pesa-me isso.
Foi realmente aí que Ricardo e seu companheiro foram entregues; mas Hudson não tencionava deixá-los em tal lugar. Ele tomara, uma carruagem de posta, chegara a Versailles e entendia-se com o ministro, contando-lhe o caso conforme lhe convinha:
— Eis senhor a que nos expomos quando fazemos reformas num estabelecimento dominado pela depravação e quando expulsamos os heréticos. Mais um instante e eu estaria perdido, desonrado. A perseguição não ficará nisso; o senhor ouvirá todos os horrores de que é possível acusar um homem de bem; mas espero que monsenhor se recorde que nosso geral...
Sei, sei, e lastimo o senhor. Os serviços que prestou à Igreja e a sua ordem não serão esquecidos. Em todas as épocas os eleitos do Senhor estiveram sujeitos a desgraças; souberam suportá-las, é preciso imitar-lhes a coragem. Conte com as mercês e a proteção do rei. Os frades! os frades! também o fui e sei, por experiência, aquilo de que são capazes.
— Se a felicidade da Igreja e do Estado quisessem que Vossa Eminência me sobrevivesse, eu continuaria sem temor.
— Não tardarei a tirá-lo de lá. Vá.
— Não, monsenhor, não me afastarei sem uma ordem expressa que liberte esses dois maus religiosos...
— Vejo que a honra da religião e de seu hábito sensibiliza-o a ponto de esquecer as injúrias pessoais; isso é perfeitamente cristão, e sinto-me edificado, embora sem me surpreender com tal atitude da parte de um homem igual ao senhor. Esse caso não redundará em escândalo.
— Ah! monsenhor, enche-me a alma de alegria! Neste momento era tudo que eu temia.
— Vou trabalhar para isso.
Na mesma noite Hudson recebeu a ordem de soltura e no dia seguinte, ao amanhecer, Ricardo e seu companheiro estavam a vinte léguas de Paris, sob a guarda de um quadrilheiro que os deixou no principal estabelecimento da ordem. O quadrilheiro também era portador de uma carta para o geral, intimando-o a cessar tais conluios e a submeter nossos dois religiosos à pena de reclusão.
Semelhante aventura, deixou consternados os inimigos de Hudson; não havia um frade em sua casa que não tremesse sob seu olhar. Alguns meses depois, recebeu ele uma opulenta abadia. O geral ficou mortalmente despeitado com isso. Era idoso e havia todos motivos de recear que o abade Hudson fosse seu sucessor. Ele gostava muito de Ricardo.
— Meu pobre amigo, disse-lhe um dia, que seria de ti se caísses sob a autoridade do infame Hudson? Apavora-me tal ideia. Ainda és livre; por mim deixarias o hábito...   
Ricardo seguiu esse conselho e voltou para a casa paterna, que não ficava muito distante da abadia de Hudson.
Uma vez que Hudson e Ricardo frequentavam as mesmas casas era impossível que não se encontrassem, e de fato encontraram-se. Estava Ricardo certo dia nos aposentos da dama de um castelo que ficava situado entre Châlons e Saint-Dizier, mais próximo, porém, deste que de Châlons, e a um tiro de fuzil da abadia de Hudson. Disse-lhe a senhora.
— Temos aqui o seu antigo prior; é muito amável, mas que homem é ele realmente?
— O melhor amigo e o pior inimigo.
— Não sentiria vontade de vê-lo?
— De modo algum.
Mal acabava de proferir essa resposta, ouviu-se o ruído de um cabriole que entrava no pátio e viu-se dele saltar Hudson com uma das mulheres mais bonitas do cantão.
— Vai vê-lo apesar de não o desejar, disse a castelã, porque é ele.
A castelã e Ricardo foram ao encontro da senhora que vinha no cabriolé e do abade Hudson. As senhoras se beijam. Ao aproximando-se de Ricardo e reconhecendo-o, exclama:
— Ah! é você, meu caro Ricardo? Você quis perder-me, mas perdoo-o; perdoe-me sua visita ao pequeno Châtelet e não pensemos mais nisso.
— Concorde, senhor abade, que o senhor era um grande patife.
— É possível.
— E que se lhe houvessem feito justiça, não seria eu, mas sim o senhor quem visitaria o Châtelet.
— É possível... Creio que devo ao perigo que então corri os meus novos costumes. Ah! meu caro Ricardo, como aquilo me fez refletir e quão mudado estou!
— A mulher que o acompanha é encantadora.
— Não tenho mais olhos para tais encantos.
— Que cintura!
— Isso agora me é bem indiferente.
— Que excelente aspecto!
— Cedo ou tarde aborrecemos um prazer que só gozamos no alto de um telhado, correndo o risco, a cada movimento de partir o pescoço.
— Ela possui as mais belas mãos deste mundo.
— Desisti de utilizar mãos assim. Uma cabeça sensata retorna ao espírito de sua condição, a única verdadeira felicidade.
— E esses olhos que ela volve disfarçadamente para o senhor; concorde, o senhor que é conhecedor, que jamais atraiu outros mais brilhantes nem mais meigos. Que graça, que leveza e que nobreza em sua maneira de andar, em seu porte!
— Não penso mais nessas vaidades; leio os Evangelhos, medito os Padres da Igreja.
— E de vez em quando as perfeições daquela senhora. Reside ela longe de Moncetz?
— Seu esposo é moço?...
Hudson, impacientado com essas perguntas, e perfeitamente certo de que Ricardo não o tomaria por um santo, disse-lhe de súbito:
— Meu caro Ricardo, você está escarnecendo de mim, e com razão.
Meu caro leitor, perdoe-me a propriedade dessa expressão, e concorde que aqui, como numa infinidade de bons contos, por exemplo, o da conversação de Piron e do finado abade Vatry, uma palavra decente comprometeria tudo. "Que conversação é essa de Piron e do abade Vatry?" Vá perguntá-lo ao editor de suas obras, que não ousou escrevê-la, mas que não se fará de muito rogado para dizer-lha.

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Fonte:
"Os mais belos contos franceses dos mais famosos autores". Tradutores: Marina Guaspari, Frederico Dos Reys Coutinho, Édison Carneiro e Gilberto Galvão. Editora Vecchi. Rio de Janeiro, 1944.

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