sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O caluniador (Conto), de Anton Tchekhov


O caluniador, de Anton Tchekhov

Publicado originalmente na "Revista Fon-Fon", em sua edição de 17 de fevereiro de 1934. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

O professor de caligrafia Sergey Kapitonech Akhineiev casava a sua filha Natália com o professor de história e geografia Ivan Petrovich Lochdinei. A festa se realizava no meio da maior alegria. No salão se cantava, jogava e dançava. Corriam de um lado para outro das salas os criados emprestados pelo clube, vestidos de negras casacas e brancas gravatas, bem sujas. Reinava em toda a casa alegre rumor de conversas.
O professor de matemática Tarantuloff, o francês Padekoi e o inspetor de segunda classe da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relatavam, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência a humana não pode conceber.
Na sala contígua, o professor de literatura Duduski explicava a outro grupo de convidados os casos em que a sentinela pode atirar sobre os transeuntes. As conversas, como veem eram espantosas, mas muito agradáveis. Pelas janelas que davam para o pátio olhavam pessoas que, pela sua situação ou posição social, não tinham o direito de entrar na casa.
À meia-noite em ponto, o dono da casa, Akhineiev, entrou na cozinha para ver se estava tudo em ordem para a ceia. Encontrou a cozinha cheia do agradável cheiro dos gansos e patos assados. Sobre as mesas estavam expostos em artística desordem os zakuskas e as bebidas. Junto das mesas passava e tornava a passar, muito atarefada, a cozinheira Martha, mulher rubicunda, de volumoso ventre envolvido em faixas.
— Vamos ver, querida, onde está o esturjão? — disse Khineiev esfregando as mãos e requebrando-se. — Que cheiro magnífico! Eu sou capaz de comer toda a cozinha. Vamos, vamos, onde está o esturjão?
Martha aproximou-se de um dos bancos e cuidadosamente levantou uma folha de jornal engordurado. Debaixo dessa folha, em enorme travessa, jazia um enorme esturjão enfeitado com azeitonas, alcaparras e cenouras, Akhineiev contemplou o peixe e soltou um ah! O seu rosto resplandeceu e os olhos se lhe acenderam. Inclinou-se e produziu com os lábios som igual ao de uma roda sem sebo.
— Ah! Som de um beijo apaixonado!... Martha, com quem te estás beijando por aí?
Ouviu-se uma voz dizer isto da sala ao lado e à porta assomou  a cabeça pelada do auxiliar Vankin.
— Com quem te estás beijando? Multo bem! Com quem? Com Sergey Kapitonech? Fora com o avô! Tête-à-tête  com uma mulher!
— Eu não me estou beijando com ninguém — respondeu Akhineiev, algo confuso. — Quem te disse semelhante coisa, maluco? Fui eu que fiz com os lábios esse ruído, encantado pelo esturjão.
— Não me venhas com histórias!
Vankin sorriu largamente e sumiu-se da porta. Akhineiev ficou vermelho.
— Que bobagem! — pensou.
— Agora este maroto vai sair com chocarrices... Esse animal vai me ridicularizar pela cidade toda...
Akhineiev entrou timidamente no salão e olhou Vankin de soslaio. Este estava de pé junto do piano e, inclinado, em atitude decidida, dizia alguma coisa em voz em baixa à cunhada do inspetor, que ria.
— Está falando de mim — pensou Akhineiev. — De mim! Assim, maldito! E ela acredita! Está rindo! Meu Deus! Não, isto não pode ficar assim!... De maneira alguma! Tenho que arranjar as coisas de modo que ninguém acredite... Falarei com todos e ele ficará sendo um estúpido mexeriqueiro.
Akhineiev coçou a nuca e, sem deixar de estar confuso, aproximou-se de Padekoi. 
Estive agora mesmo na cozinha a dar ordens para a ceia — disse ao francês. — Creio que o senhor gosta muito de peixe. Mandei preparar um esturjão de primeira! Tem duas varas! Hé, hé, hé!... A propósito... Já me ia esquecendo. Com este esturjão ocorreu-me agora, na cozinha, um caso divertido. Acabava eu de entrar na cozinha para deitar uma olhadela no manjar... Ao contemplar o esturjão, fiz com os lábios um ruído parecido com um beijo forte, ao ver como ele estava apetitoso, e nesse momento entrou o imbecil do Vankin, que disse: “Ah! estão vocês se beijando por aqui?” Com Martha, com a cozinheira!... Que coisas ocorrem a esse idiota! Essa mulher não tem nem cara nem corpo! Parece um animal e ele... "Estão vocês se beijando!” Que homem tão vulgar!
— Quem é vulgar?! perguntou Tarantuloff, que deles se aproximou nesse Instante. 
— Esse Vankin. Entrei na cozinha...
E começou a contar o sucedido.
— Fez-me rir esse homem vulgar. Parece-me que é mais agradável beijar o cachorro do que Martha — acrescentou Akhineiev, olhando em derredor e vendo Mzda atrás de si.
— Aqui estamos falando de Vankin — disse-lhe. — Que tipo! Entrou na cozinha e me viu junto de Martha; e toca a inventar coisas.
— Que disse ele?
— “Vocês estão se beijando?” Talvez esteja embriagado e por isso pensou ver que estávamos nos beijando. Garanto que antes beijaria um peru do que Martha. Ademais, o idiota sabe que sou casado. Que vontade tenho de rir!
Quem o fez rir? — perguntou a Akhineiev, o professor de religião, unindo-se ao grupo.
— Vankin. Estava eu na cozinha Vendo o esturjão...
Ao cabo de uns vinte minutos, toda a gente estava inteirada da história de Vankin e do esturjão.
— Que vá agora contar! — pensou Akhineiev, esfregando as mãos. — Começará com as suas tolices e todos logo lhe dirão: "Basta de maluquices, estúpido! Já sabemos tudo!"
E Akhineiev se tranquilizou a tal ponto que bebeu uns copos além do costume. Ao acompanhar depois da ceia os recém-casados ao dormitório, foi em seguida para o seu quarto e ficou dormindo como uma criança inocente, e no dia seguinte já não se lembrava de mais nada da história do esturjão.
Mas o homem põe e Deus dispõe. As más línguas fizeram das suas e de nada serviu a Akhineiev a estratégia.  Ao cabo de quatro semanas exatas, precisamente na quarta-feira, após a terceira lição, quando Akhineiev se dirigia para a sala dos professores e tratava das inclinações viciosas do aluno Vesekin, dele se aproximou o diretor, que o chamou à parte.
— Trata-se de Sergey Kapitonech — disse o diretor. — O senhor me desculpará... Não é coisa minha... Sem dúvida, espero fazê-lo compreender... A minha obrigação... O senhor verificará... Correm rumores de que o senhor vive com essa... com a cozinheira... Não é coisa minha, mas... mas... O senhor vive com ela... Beijam-se... Façam o que quiserem; mas, por favor, não o façam publicamente! Peço-lhe! Não se esqueça de que é um pedagogo!
Akhineiev ficou petrificado. Foi para casa tão dolorido como se o tivesse picado um enxame de abelhas ou como se lhe tivessem despejado pela cabeça abaixo um balde de água fervendo. Dirigiu-se para sua casa e pareceu-lhe que toda gente o olhava como se tivesse untado de breu!... Em sua casa esperava-o nova desgraça.
—Por que não comes? — perguntou-lhe a esposa, à refeição. — Em que pensas? Nos amores? Estás apreciando menos a Martha? Sei de tudo, canalha! Houve boas almas que me abriram os olhos Uh!, uh, uh!... Miserável!
E, zás, um bofetão em pleno rosto. Akhineiev levantou-se da mesa e, tonto sem gorro nem capote, partiu para a casa de Vankin. Justamente, o encontrou em casa.
—Canalha! És um canalha! — exclamou Akhineiev, dirigindo-se a Vankin. — Por que me enlameaste diante de toda a gente? Por que lançaste essa calúnia?
—Que calúnia? Que estás inventando?
— E quem tal que fez correr a mentira de que eu beijei Martha? Tu te atreverás a dizer que não foste tu bandido?
Vankin pestanejou e agitou todo o seu rosto consumido; ergueu os olhos para o ícone e disse:
— Que Deus me castigue, que eu fique sem olhos, ou morra agora mesmo, se disse uma só palavra a teu respeito!
A sinceridade de Vankin não permitia a menor dúvida. Evidentemente não fora ele o autor da calúnia.
—Mas, quem teria dito? Quem? — pensava Akhineiev, passando em revista mental todos os seus conhecidos e dando pancadas no peito. — Quem terá sido?
Quem terá sido? — perguntamos nós também, ao leitor...

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