sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Mademoiselle Fifi (Conto), de Guy de Maupassant


Mademoiselle Fifi (Conto), de Guy de Maupassant
Belíssima tradução de Justino Martins, publicada originalmente na “Revista da Semana”, em sua edição de 24 de maio de 1947. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016).

O major, comandante prussiano, conde de Farlsberg, acabava de ler sua correspondência, recostado ao fundo de uma grande poltrona estofada e com as botas sobre o mármore elegante da lareira, onde as esporas, durante os três meses que ele ocupava o castelo de Uville, tinham traçado dois buracos profundos, cavados cada dia um pouco mais.
Uma taça de café fumegava sobre uma jardineira de marchetaria manchada pelos licores, queimada pelos charutos, entalhada pelo canivete do oficial conquistador que, às vezes, detendo-se no apontar um lápis, traçava sobre o gracioso móvel monogramas ou desenhos, ao capricho de sua imaginação indolente.
Quando acabou de ler as cartas e percorreu os jornais alemães que seu ordenança lhe trouxera, ergueu-se e, após lançar ao fogo três ou quatro enormes achas de lenha verde, pois que seus homens abatiam aos poucos o parque para se aquecer, aproximou-se da janela.
A chuva caia em bátegas, uma chuva normanda que se diria lançada por uma mão furiosa, uma chuva oblíqua, espessa como uma cortina que formava uma espécie de parede de raias enviesadas, uma chuva que açoitava, que salpicava lama, que inundava tudo, uma verdadeira chuva dos arredores de Ruão, esse vaso noturno da França.
O oficial olhou por muito tempo os campos inundados, e, lá adiante, o Andelle intumescido que transbordava; tamborilava contra a vidraça uma valsa do Reno, quando um ruído o fez voltar-se: era o ajudante, o barão de Kelweingstein, que tinha um posto equivalente ao de capitão.
O major era um gigante, largo de espáduas, adornado por uma longa barba em leque, como um guardanapo sobre o peito. E toda a sua grande figura dava a ideia de um pavão militar, um pavão que levasse a cauda desfraldada no queixo. Tinha olhos azuis, frios e suaves, uma cicatriz de cutilada na face, recebida na guerra da Áustria; e diziam-no tão reto homem como bravo soldado.
O capitão, um homenzinho corado e obeso, cinchado à força, usava quase à escovinha o cabelo avermelhado, cujos fios de fogo davam a impressão, quando se encontravam sob certos reflexos, de que seu crânio estivesse coberto de fósforo. Dois dentes perdidos numa noite de farra, sem que ele se recordasse, ao certo, de que modo, faziam-no cuspir palavras mal pronunciadas, nem sempre compreensíveis. Era calvo apenas no alto do crânio, tonsurado como um frade, com um tosão de cabelinhos anelados, dourados, dourados e brilhantes, em torno àquele círculo de carne nua.
O comandante apertou-lhe a mão e sorveu de um trago a taça de café (a sexta desde a manhã) ouvindo o relatório de seu subordinado sobre os incidentes ocorridos no serviço; em seguida, ambos se aproximaram da janela, concordando que aquilo não era divertido. O major, homem tranquilo, casado, se conformava com tudo; mas o capitão, usufruidor da vida, frequentador de lupanares e furioso conquistador irritava-se de estar encerrado havia três meses na castidade obrigatória daquela posição perdida.
Como arranhassem à porta, o comandante gritou que abrissem, e um homem, um dos seus soldados autômatos, apareceu no vão, anunciando, apenas com sua presença, que o almoço estava pronto.
Na sala, encontraram os três oficiais de posto inferior: um tenente, Otto de Grossling; dois subtenentes, Fritz Scheunauburg e o marquês Wilhelm d’Eyrick, um loirinho orgulhoso e brutal para com os soldados, duro com os vencidos e violento como uma arma de fogo.
Após sua entrada na França, os colegas passaram a chamar-lhe Mademoiselle Fifi. Este apelido lhe vinha do jeito requebrado, do talhe esbelto que parecia cingido num espartilho, do rosto pálido no qual um incipiente bigode mal aparecia, e, também, do hábito que ele tinha, para exprimir seu soberano desprezo dos seres e das coisas, de empregar a todo instante a locução francesa — fi, fi, donc, que pronunciava com um leve sibilo.
A sala de jantar do castelo de Uville era uma longa e suntuosa peça, cujos espelhos de cristal antigo, estrelados por balas, e as pesadas tapeçarias de Flandres, retalhadas a golpe de sabre e pendentes em certos lugares, denunciavam as ocupações de Mademoiselle Fifi em suas horas de desfastio.
Nas paredes, três retratos de família, um guerreiro de armadura, um cardeal e um presidente fumavam longos cachimbos de porcelana, enquanto que, em sua moldura desdourada pelos anos, uma nobre dama de colo espartilhado mostrava num ar arrogante um enorme par de bigodes feito a carvão.
E o almoço dos oficiais transcorreu quase em silêncio naquela peça mutilada, ensombrecida pela chuva, com seu triste aspecto vencido, e onde o velho assoalho de carvalho se tornara sólido como um chão de taberna.
À hora do fumo, quando começaram a beber, tendo terminado a refeição, ficaram, como todos os dias, a falar da monotonia em que viviam. As garrafas de conhaque e de licores passavam de mão em mão; e, todos, derribados sobre as cadeiras, bebiam a pequenos goles repetidos, conservando ao canto da boca o comprido canudo curvo que terminava em ovo de faiança, sempre pintado como para seduzir hotentotes.
Quando o copo esvaziava, tornavam a enchê-lo com um gesto de lassidão resignada. Mas Mademoiselle Fifi quebrava o seu a todo instante, e um soldado logo lhe estendia outro.
Uma cerração de fumo acre os afogava, e ele parecia engolfar-se numa borracheira amodorrada e triste, nessa melancólica embriaguez dos que nada têm a fazer.
Mas o barão, repentinamente, se aprumou. Uma revolta o sacudiu; ele protestou:
 — Por Deus! Isto não pode continuar, é preciso inventar alguma coisa, afinal de contas.
O tenente Otto e o subtenente Fritz, dois oficiais de rudes e graves fisionomias, marcadamente germânicas, responderam a um tempo:
— Inventar o que, capitão?
Ele refletiu alguns segundos, depois continuou:
— O quê? Ah, bem, é preciso organizar uma festa, se o comandante o permitir.
O major largou o cachimbo:
— Que festa, capitão?
O barão se aproximou:
— Eu me encarrego de tudo, comandante. Enviarei o Dever a Ruão para nos trazer mulheres; sei onde arranjá-las. Prepare-se aqui uma ceia; aliás, não falta coisa alguma, e, pelo menos, passaremos uma boa noitada.
O conde de Farlsberg alçou os ombros, sorrindo:
— Você está louco, meu amigo.
Mas todos os oficiais se haviam erguido, cercando o chefe e suplicando:
— Permita, comandante, isto aqui é tão triste.
Afinal, o major cedeu: “Está bem”, disse ele; e, em seguida, o barão mandou chamar o Dever. Este era um velho suboficial que ninguém jamais tinha visto sorrir, mas que cumpria fanaticamente todas as ordens de seus superiores, quaisquer que fossem.
Perfilado, com o rosto impassível, recebeu as instruções do barão; em seguida saiu, e, cinco minutos depois, um grande carro do trem militar, coberto por uma tolda de lona estendida em cúpula, abalava sob a chuva furiosa, ao galope de quatro cavalos.
Logo um frêmito de alerta pareceu percorrer os espíritos. As posições de abandono se corrigiram, os rostos se animaram e iniciou-se uma palestra.
Se bem que a chuva continuasse com a mesma fúria, o major afirmou que estava menos sombrio, e o tenente Otto anunciava, convicto, que o céu ia clarear. Nem mesmo Mademoiselle Fifi parecia ter sossego. Erguia-se e tornava a sentar-se. Seu olhar claro e agudo procurava algo para quebrar. De repente, fixando a dama dos bigodes, o loirinho sacou do revólver. “Não assistirás a isso”, disse; e, sem abandonar a poltrona, mirou. Duas balas furaram os olhos do retrato.
Em seguida, exclamou:
— Façamos a mina!
E, repentinamente, a palestra foi interrompida, como se todos tivessem sido tomados por um poderoso e novo interesse.
A mina era um invento seu, sua maneira de destruir, seu divertimento preferido.
Ao abandonar o castelo, o proprietário legítimo, o conde Fernand d’Amoys d’Uville, não tivera tempo de levar nem de ocultar nada, salvo a prataria escondida no buraco de uma parede. Ora, como ele fosse muito rico e suntuoso, o seu grande salão, cuja porta abria para a sala de jantar, apresentava, antes da fuga precipitada do dono, o aspecto de uma galeria de museu.
Das paredes pendiam telas, desenhos e aquarelas de preço, enquanto que sobre os móveis, os aparadores, e nos armários elegantes, mil bibelôs, vasos de porcelana, estatuetas, figurinhas de Saxe e bonecos da China, marfins antigos e cristais de Veneza, povoavam o vasto compartimento com sua multidão preciosa e extravagante.
Pouco restava agora. Não que alguém houvesse roubado; o major, conde de Farlsberg, absolutamente não o teria permitido; mas Mademoiselle Fifi, de vez em quando, armava a mina. E, todos os oficiais, nesse dia, se divertiam, de fato, durante cinco minutos.
O jovem marquês foi buscar no salão o que precisava. Trouxe um pequenino bule da China, cor de rosa, encheu-o com pólvora de canhão, e, pelo bico, introduziu delicadamente um longo pedaço de estopim, acendeu-o e correu a colocar essa máquina infernal no compartimento vizinho.
Depois, voltou depressa, fechando a porta. Os alemães aguardavam, de pé, sorridentes, com uma curiosidade infantil na fisionomia; e, logo que a explosão estremeceu o castelo, eles se precipitaram juntos.
Mademoiselle Fifi, que entrara na frente, batia palmas delirantemente diante de uma Vênus de terracota cuja cabeça afinal saltara; e cada um deles juntava pedaços de porcelana, maravilhando-se com os recortes estranhos dos cacos, examinando os novos estragos, contestando alguns outros como produzidos pela explosão anterior. E o major observava com ar paternal o vasto salão destruído por esse divertimento à maneira de Nero, polvilhado de destroços de objetos artísticos. Retirou-se em primeiro lugar, declarando com bonomia: “Esta, sim, foi boa”.
Mas tal onda de fumaça invadira a sala de jantar, misturando-se com a do fumo, que não se podia mais respirar. O comandante abriu a janela, e os oficiais, voltando para beberem um último copo de conhaque, se aproximaram.
 O ar úmido engolfou-se na peça, trazendo um cheiro de inundação e espécie de poeira d’água que pulverizava as barbas. Eles olhavam as grandes árvores vergadas sob a chuva, o amplo vale obscurecido por aquele aluvião de nuvens sombrias e baixas, e, muito ao longe, o campanário da igreja, ereto como uma ponta cinzenta na chuva torrencial.
Desde a chegada deles que o sino da igreja não tocava. Era, afinal, a única resistência que os invasores tinham encontrado nos arredores: o sino. O vigário absolutamente não recusara a receber e a alimentar os soldados prussianos; diversas vezes, até, aceitara beber uma garrafa de cerveja ou de Bordéus com o comandante inimigo, que o utilizava seguidamente, como intermediário benévolo; mas era inútil pedir-lhe um único tinido do seu sino; ele preferia ser fuzilado. Essa era a sua maneira de protestar contra invasão, protesto pacífico, protesto do silêncio, o único, dizia ele, que convinha ao padre, homem de doçura e não de sangue. E todos, por dez léguas em derredor, exaltavam a firmeza, o heroísmo do padre Chantavoine, que ousava afirmar o luto público e proclamá-lo pelo mutismo obstinado de sua igreja.
A povoação inteira, entusiasmada com tal resistência prontifica-se a apoiar até o fim o seu pastor, a desafiar tudo, considerando esse protesto tácito como a salvaguarda da honra nacional. Parecia aos camponeses que, dessa forma, melhor faziam jus à gratidão da pátria do que Belfort e Strasbourg, e que davam um exemplo equivalente, imortalizando o nome do lugarejo; exceto isso, nada mais recusavam aos prussianos vencedores.
O comandante e seus oficiais riam dessa coragem inofensiva; e, como toda a região se mostrasse submissa e obediente, toleravam de bom grado aquele mudo patriotismo.
Só o jovem marquês Wilhelm desejaria forçar o sino a bater. Desesperava-o a condescendência política do seu superior para com o padre; e todos os dias suplicava ao comandante que o deixasse fazer “Dim-dom-dom”, uma vez, uma única vezinha, para apenas rir um pouco. E pedia isso com graças felinas, com requebros femininos, com doçuras de voz de uma amante torturada por um desejo; mas o comandante não cedia e Mademoiselle Fifi, para se consolar, fazia a “mina” no castelo d’Uville.
Os cinco homens ficaram ali, juntos, alguns minutos, aspirando a umidade. O tenente Fritz, finalmente, disse com um riso pastoso:
— Aquelas senhorritas, tecitidamente, nom terron pom tempo para sua passeio.
Em seguida se separaram, cada um para o seu serviço, e o capitão com muito que fazer para os preparativos do jantar.
Quando se encontraram de novo, ao cair da noite, puseram-se a rir ao ver-se tão elegantes, perfumados e untados como nos dias de parada. Os cabelos do comandante pareciam menos grisalhos que pela manhã; e o capitão se barbeara, conservando apenas o bigode, como uma chama sob o nariz.
Apesar da chuva, deixaram a janela aberta; e um deles, às vezes, ia escutar. Às seis horas e dez minutos, o barão percebeu um rodar longínquo. Todos se precipitaram; e, logo, o grande carro se aproximou com seus quatro cavalos sempre a galope, enlameados até o lombo, esbaforidos e resfolegantes.
Cinco mulheres desceram pela escada, cinco belas raparigas escolhidas cuidadosamente por um camarada do capitão a quem o “Dever” levara um cartão dele.
Elas não se tinham feito rogar, certas de ser bem pagas, conhecedoras que eram dos prussianos, naqueles três meses que os vinham tenteando, no empenho de tirar partido dos homens como das coisas. São “exigências do negócio”. Diziam consigo em caminho, como resposta a alguma agulhada secreta de um resto de consciência.
E imediatamente entraram na sala de jantar. Iluminada, parecia ainda mais lúgubre na sua lastimável desordem; e mesa coberta de carnes, de baixela rica e da prataria encontrada na parede onde a escondera o proprietário, dava a esse lugar o aspecto de uma taverna de bandidos que ceassem após uma pilhagem. O capitão, radiante, apossou-se das raparigas como de uma coisa familiar, abraçando-as, apalpando-as, farejando-as, calculando-lhes o valor como vendedoras de prazer. E, como três jovens quisessem ficar cada qual com uma, ele se opôs a isso com autoridade, reservando-se o direito de fazer a partilha com toda a justiça, de acordo com os postos, para não ferir a hierarquia.
Então, a fim de evitar qualquer discussão, qualquer reclamação, ou suspeita de parcialidade, alinhou-as por ordem de altura, e dirigindo-se à maior, disse, em tom de comando
— Teu nome?
Ela respondeu, engrossando a voz:
— Pamela.
Então, ele proclamou:
A número um, a chamada Pamela, tocará ao comandante.
Beijando, em seguida, Blondine, a segunda, em sinal de posse, ofereceu a gorda Amanda ao tenente Otto, a Eva “Tomate” ao subtenente Fritz, e a menor de todas, Rachel, uma morena muito jovem de olhos negros como borrões de tinta, uma judia cujo nariz adunco confirmava a regra que caracteriza a sua raça, ao mais jovem dos oficiais, ao frágil marquês Wilhelm d’Eyrik.
Todas, aliás, eram bonitas e gordas, mais ou menos parecidas, assemelhando-se em tudo pela prática quotidiana do amor e a promiscuidade das casas públicas.
Os três rapazes pretendiam logo carregar suas mulheres, sob o pretexto de lhes oferecer escovas e sabão para se lavarem; mas o capitão se opôs a isso prudentemente, afirmando que elas estavam bastante limpas para sentar à mesa e que aqueles que subissem quereriam trocar ou descer, perturbando os outros pares. Sua experiência prevaleceu. Houve, então, apenas muitos beijos, beijos de expectativa.
Súbito, Rachel sufocou, tossindo até às lágrimas e expirando fumaça pelas narinas. O marquês, sob o pretexto de beijá-la, acabava de soprar-lhe um jato de fumo na boca. Ela não se zangou, não disse uma única palavra, mas fixou seu possuidor com uma cólera acesa no fundo do olhar negro.
Sentaram. O próprio comandante parecia encantado; colocou Pamela à sua direita, Blondine à esquerda e declarou, desdobrando o guardanapo:
— Você teve uma ideia encantadora, capitão.
Os tenentes Otto e Fritz, polidos como se estivessem ao lado de senhoras, intimidavam um pouco suas companheiras; mas o barão de Kelweingstein, entregando-se ao seu prazer predileto, brilhava, dizia frases picantes, parecia incendiado com sua coroa de cabelos vermelhos. Galanteava em francês do Reno; e suas cortesias de taberna, expectoradas pelo buraco dos dois dentes quebrados, chegavam às raparigas em meio de uma metralha de saliva. 
Elas, entretanto, não compreendiam coisa alguma; e sua inteligência só pareceu despertar quando ele cuspiu palavras obscenas, expressões cruas, estropiadas pelo sotaque. Então, todas ao mesmo tempo, começaram a rir como loucas, caindo sobre o ventre dos companheiros, repetindo os termos que o barão começou a deturpar propositadamente para fazê-las dizer torpezas. Elas as vomitavam à vontade, embriagadas desde as primeiras garrafas de vinho: e, voltando ao que eram, expandindo-se, beijavam os bigodes da direita e os da esquerda, beliscavam os braços, lançavam gritos furiosos, bebiam em todos os copos, cantavam coplas francesas e trechos de canções alemãs aprendidas nas suas relações quotidianas com o inimigo.
Logo, os próprios homens, embriagados por aquela carne de mulher exposta ante o seu nariz e às suas mãos, exaltavam-se, berrando, quebrando a baixela, enquanto, atrás deles, os soldados, impassíveis, os serviam.
Só o comandante guardava compostura.
Mademoiselle Fifi colocara Rachel sobre os joelhos e, animando-se a frio, ora beijava loucamente os crespinhos de ébano do seu pescoço, aspirando o doce calor do corpo e toda a fragrância de sua pessoa, pelo pequeno espaço entre a pele e o vestido; ora através da roupa, beliscava-a furiosamente, fazendo-a gritar, tomado de uma ferocidade raivosa, dominado pela sua necessidade de destruição. Outras vezes, também, tomando-a nos braços, apertando-a como se quisesse confundi-la consigo próprio, apoiava longamente os lábios sobre a boca fresca da judia e a beijava até perder o fôlego. Mas, de repente, mordeu-a com tanta força que um filete de sangue desceu sob o queixo dela e caiu no corpinho,
Ainda uma vez a rapariga o encarou e, limpando o ferimento, murmurou:
— Isto se paga.
El começou a rir, um riso cruel. E disse:
— Eu pagarei!
Chegava-se à sobremesa; enchiam as taças do champanhe. O comandante ergueu-se e, no mesmo tom em que saudaria a imperatriz Augusta, brindou:
— As nossas damas!
E começou uma série de brindes, brindes duma galanteria de soldados e de borrachos, de mistura com gracejos obscenos, tornados mais estúpidos ainda pela ignorância do idioma.
Erguiam-se um após outro procurando espírito, esforçando-se por parecerem engraçados; e as mulheres, cambaleantes, de olhos vagos, os lábios pastosos, aplaudiam freneticamente.
O capitão, sem dúvida, querendo dar à orgia um ar galante, ergueu ainda uma vez o copo, e disse:
— As nossas vitórias sobre os corações!
Então, o tenente Otto, espécie de urso da Floresta Negra, aprumou-se, inflamado, saturado de bebidas. E, tomado repentinamente de um patriotismo alcoólico, gritou:
— Às nossas vitórias sobre a França!
Embora embriagadas, às mulheres calaram-se; e Rachel, trêmula, voltou-se:
— Fica sabendo que eu conheço franceses diante de quem não dirias isso.
Mas o marquesinho, mantendo-a ainda nos joelhos, pôs-se a rir, muito alegrado com o champanhe:
— Ah! Ah! Ah! Desses eu nunca vi. Sempre que aparecemos eles mandam pernas!
A rapariga, exasperada, gritou-lhe no rosto:
— Estás mentindo, sem vergonha!
Durante um segundo, ele fixou nela seus olhos claros, como os fixava nos quadros quando lhes furava a tela a tiros. Depois, desatou a rir:
— Ah! não digas isso, beleza. Estaríamos aqui, se eles fossem valentes? — E, animando-se: — Nós somos os donos! A nós a França.
Ela saltou dos seus joelhos para a cadeira. Ele levantou-se, espichou o copo até o centro da mesa e repetiu:
— A França e os franceses, os bosques, os campos e as casas, tudo é nosso!
Os outros, completamente embriagados, sacudidos de súbito por um entusiasmo militar, um entusiasmo de brutos, agarraram os copos, vociferando: “Viva a Prússia!” e os esvaziaram de um só trago.
As mulheres, reduzidas ao silêncio e cheias de medo, não protestavam. A própria Rachel se calava, impotente para responder.
Então, o marquesinho colocou sobre a cabeça da judia a sua taça novamente cheia de champanhe.
— A nós também — gritou — todas as mulheres de França!
Ela se ergueu tão depressa que o cristal, virando, despejou, como num batismo, o vinho flavo nos seus cabelos negros, e espatifou-se no solo. De lábios trêmulos, Rachel desafiava com os olhos o oficial que continuava a rir. E ela balbuciou, numa voz estrangulada pela cólera:
— Não, não, não, isso não é verdade; não terão as mulheres da França.
Ele sentou-se para rir à vontade e, procurando o tom parisiense:
— Esta é pem poa, pem poa; que vieste facer aqui, entom, menina?
Atônita, Rachel calou-se a princípio, sem compreender bem na sua perturbação; mas logo que percebeu o que ele dizia, lançou-lhe indignada e com veemência:
— Eu! Eu! Eu não sou uma mulher, sou uma prostituta: e é só isso que merecem os prussianos!
Rachel ainda não terminara e já ele começara a esbofeteá-la violentamente, mas, como erguesse ainda uma vez a mão, ela, desvairada de raiva, tomou de sobre a mesa uma faquinha de prata para doces e, tão rapidamente que nada se viu de início, cravou-lhe a faca no pescoço, justamente na concavidade onde começa o peito.
Uma palavra que ele pronunciava lhe foi cortada na garganta; e ele ficou do boca-aberta, com um olhar horrível.
Todos lançaram um grito e se ergueram em tumulto. Mas, tendo jogado a sua cadeira nas pernas do tenente Otto, que desabou de todo o comprimento, ela correu à janela, abriu-a antes que alguém tivesse podido segurá-la, e lançou-se na escuridão da noite, sob a chuva que continuava a cair.
Em dois minutos, Mademoiselle Fifi morreu. Então, Fritz e Otto desembainharam as espadas e quiseram massacrar as mulheres que se arrastavam aos seus joelhos.
O major, não sem dificuldade, impediu esse morticínio e mandou encerrar num quarto, sob a guarda de dois homens, as quatro mulheres aterrorizadas; em seguida, como se estivesse dispondo seus soldados para um combate, organizou a perseguição da fugitiva, certo de alcançá-la.
Cinquenta homens, cobertos de amaças, foram lançados no parque. Duzentos outros revistaram os bosques e todas as casas do vale.
A mesa, desguarnecida num instante, servia, agora de leito mortuário, e os quatro oficiais, rígidos, curados da bebedeira, com o rosto endurecido de homens de guerra em atividade, permaneciam perfilados junto às janelas, sondando a noite.
A chuva torrencial continuava. Enchia as trevas um marulho contínuo, um inquieto murmúrio de água que cai e de água que corre, de água que goteja e de água que salta.
Súbito, um tiro ecoou, seguindo-se um outro ao longe; e, durante quatro horas, se ouviram, de tempos em tempos, detonações próximas ou longínquas e gritos da soldadesca, palavras estranhas lançadas, como apelos, por vozes guturais.
Ao amanhecer, todos retornaram. Dois soldados tinham sido mortos, e três outros feridos por seus colegas no ardor da caça e na fúria daquela perseguição noturna.
Ninguém havia encontrado Rachel.
Então, os habitantes foram aterrorizados, suas casas reviradas, toda a região percorrida, batida, revolvida. A judia não parecia ter deixado um único vestígio de sua passagem.
O general, avisado, ordenou que se abafasse o caso, para não dar mau exemplo ao exército, e castigou com uma pena disciplinar ao comandante, que não puniu seus inferiores. O general dissera: “Ninguém faz guerra para se divertir e meter-se com mulheres da vida”. E o conde do Falsberg, exasperado, resolveu vingar-se sobre a região.
Como necessitasse de um pretexto para agir sem constrangimento, mandou chamar o cura e lhe ordenou bater o sino para o enterro do marquês d’Eyrik.
Contra toda expectativa, o padre mostrou-se dócil, humilde, atencioso. E quando o corpo de Mademoiselle Fifi, levado por soldados, precedido, cercado, seguido de soldados que marchavam de fuzil carregado, deixou o castelo de Uville, dirigindo-se para o cemitério, pela primeira vez o sino tocou seu dobre fúnebre num compasso alegre, como se uma mão amiga o acariciasse.
Ele tocou ainda à noite, e na manhã seguinte também, e todos os dias; carrilhonou tanto quanto queriam. Às vezes, mesmo, durante a noite, começava a se agitar sozinho e atirava docemente dois ou três sons na sombra, tomado de alegrias singulares, despertado sem se saber por que. Todos os camponeses do local disseram-no então enfeitiçado e ninguém mais, salvo o padre e o sacristão, se aproximava da torre.
É que uma pobre rapariga vivia lá em cima, na angústia e na solidão, alimentada às escondidas por aqueles dois homens.
Ela permaneceu ali até a partida das tropas alemãs. Depois, uma noite, o padre, tendo pedido emprestada a carroça do padeiro, conduziu ele próprio sua prisioneira até a porta de Ruão. Ali chegado, o padre abraçou-a; ela desceu e retomou, às pressas, o caminho da pensão de mulheres, cuja proprietária a acreditava morta.
Dali foi tirada algum tempo depois, por um patriota sem preconceitos que a amou por sua bela ação; mais tarde, tendo gostado dela por si mesma, desposou-a, tornando-a uma senhora tão boa como muitas outras.

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