terça-feira, 19 de setembro de 2017

À beira-mar (Conto), de Sebastião de Magalhães Lima


À beira-mar

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Por uma tarde calmosa de estio passeava eu distraidamente à beira-mar, sorvendo o doce aroma, que emanava das auras céleres e vaporosas, compondo milhares de prismas sedutores e fantásticos, ao som lúgubre das vagas altissonantes, que se escoavam lânguidas por sobre a fulva, resplandecente areia, — quando, inopinadamente, vi surgir do seio do oceano um longo objeto, informe e opaco. Aproximei-me da superfície do mar, esperando que este, no seu incessante ímpeto, o arrojasse à praia. Efetivamente, dentro de pouco tempo, examinava nas minhas mãos uma enorme garrafa, de amplo bojo, que, a todos os respeitos, me parecera ter sido um eco disperso de algum naufrágio recente. E não me enganei, com efeito. Abri-a, com todo o cuidado, e lá encontrei o curioso manuscrito, que vou hoje reproduzir textualmente, por o julgar digno disso.

É a vida de um homem audacioso, encerrada no verbo da ambição, e santificada no prestigio da glória!...

É possível, minha mãe, que tenha esquecido o seu querido Ernesto? Dar-se-á o caso, porventura, que haja apagado na sua memória a imagem da loura criancinha, que a fazia sorrir tão docemente naquelas horas de profunda tristeza, quando, cheia de virginal ternura e temeroso receio, pranteava na solidão a morte de meu chorado, bondoso pai?...

Oh!... não, não é possível, mil vezes não!...

Pois bem, se assim é, se ainda vives, meiga visão da minha alma, ouve pela derradeira vez as palavras de teu desditoso filho, que decerto terá deixado de existir ao tempo em que receberes estas linhas, e santifica a sua desventura, neste mundo, com a prece angustiada do teu coração atribulado.

Nada mais te peço, nem tão pouco ambiciono!

Desfolhou-se a última, sentida saudade da minha existência: acolhe-a em teu seio; aquece-a muitas e repetidas vezes junto de teu peito, e aceita na pobre florinha emurchecida o triste Evangelho da minha vida desventurada!...

I

Ambição! é um sonho, uma fantasia, um entusiasmo, uma centelha divina!...

Sonho de glória, fantasia povoada de inúmeras quimeras, entusiasmo heroico e magnânimo, centelha do céu, que prende os homens às grandes empresas, e arrojados cometimentos, arco-íris deslumbrante, no mundo das ideias e dos fatos, tudo enfim!...

Ambição e glória são os dois elos extremos dessa cadeia indissolúvel chamada humanidade.

A mocidade é uma ambição sem limites.

Ter ambição é aspirar: um aspirar de contínuo para a luz, para a vida, para o amor, para a virtude!...

Era dominado por estes e outros pensamentos, que eu muitas vezes sentia o vácuo da minha acanhada existência; espraiava então, com avidez incalculável, meus olhos inconstantes por sobre uma extensa clareira, que orlava um vastíssimo pinhal, e lá, muito ao longe, por entre o verde negro da sua espessa ramada, descobria o quer que era de vago e reflexivo, que me seduzia instintivamente.

Era o meu sonho quotidiano!

E tantas vezes se repetiram estas ilusões, tornou-se tão frequente este sonambulismo das minhas faculdades, que prestes reconheci a necessidade de obedecer-lhe cega e fatalmente.

Cortar o espaço e o tempo, — voar, voar e voar muito! — tal era a ideia, que me dominava!

Em meio, porém, deste magnetismo atraente, vertiginoso, indizível, lânguido, vaporoso, sentia eu um fio dourado, que me prendia à terra, um eco longínquo e salutar, que tentava acordar-me à realidade do mundo.

Era a doce voz de Terezinha, que me chamava, — era o anjo do amor, que estendia sobre mim suas cândidas e miríficas asas de veludo.

Indescritível colisão! fadado momento!

Sem embargo, a minha aurora resplandecia-me no horizonte do futuro; acenava-me de longe a estrela do Senhor. Era necessário partir.

II

Eu amava a liberdade; precisava de escolher um país livre!

A república era o meu ideal!

A ave, que se agita nos ares, é livre em face do Criador Onipotente; o homem pode e deve ser livre perante a lei, — imagem da justiça divina, lançada ao meio das sociedades atualmente existentes.

A existência é a liberdade; o túmulo é o despotismo!

Livre é a flor, quando envia aos céus o aroma de suas douradas pétalas; a brisa é livre, quando beija o lírio; é livre o passarinho, quando em haste vergada festeja o doce idílio do crepúsculo; é livre a humanidade, quando bafejada pelo sopro divinal das grandes ideias e sublimes princípios!...

Por entre todas as nações do universo, a América sorria-me grandemente ditosa. Washington era para mim um planeta, aureolado de mística luz; Franklin o seu majestoso satélite.

Um dia, quando menos o julgara, estava a milhões de passos da minha terra natal.

Singrei vastos mares.

E quantas vezes, minha mãe, veio o teu doce anelo contornar uma consoladora esperança em meu espírito perturbado! Oh! e quantas vezes, mimosa Terezinha, me veio a tua imagem afagar o meu cismador enlevo! E como tu eras bela, então!...

Queres saber — nas horas da bonança, quando o nosso barco deslizava muito de mansinho, ao de leve, por sobre o cristal sempre agitado do oceano, em guisa de quem receia ser ouvido pelos milhares de espectadores, que se nos atulhavam naqueles raros momentos de inebriantes arroubos e místicas harmonias, — eu imaginava ver-te entre nuvens, radiante de fulgor ingente, cingida a fronte alabastrina de rosas purpurinas, lírios prateados, meigas violetas, opulentas camélias!

Depois vinha o desfazer das quimeras, e eu, a trasbordar de entusiasmo, dizia de mim para mim: — Ao menos, se um dia alcançar o que desejo, verei para sempre minha pobre mãe feliz, ao pé de mim, e Terezinha será o meu anjo custódio!

E vês tu, minha mãe, todos estes quadros se me desenhavam nesta imaginação incendiada, quando ouvi subitamente a maruja no tombadilho levantar um brado compassivo e clamorosas imprecações.

Agitei-me violentamente, e corri ao lugar do sinistro!

III

É medonho, causa horror uma tempestade sobre o alto mar!

O vento sibilava, agudo e frio, por entre as enxárcias do navio. A embarcação rangia lugubremente no seu movimento vagaroso e desigual.

Era o mês de dezembro, áspero, severo, rigoroso!

Os membros confrangiam-se-nos, ao encarar tão lutuoso espetáculo; vacilava a imaginação, e a fé entibiava-se-nos poderosamente.

— Lastro ao mar! — gritava o capitão num tom rouquenho e cavernoso.

— Amaina, amaina essa escota!

E todos nós trabalhávamos com frenesi espontâneo, e celeridade inaudita. A tripulação, quase toda nua, era incansável no seu incessante labutar. Não se ouvia uma queixa, um ruído sequer. Todos denunciavam o mais vigoroso esforço, a mais acrisolada virtude.

Apenas existia ali uma mulher com dois filhinhos achegados ao peito, que soltava de quando em quando um estridente e doloroso gemido, até que por fim caiu de todo desfalecida. Era tamanho o perigo, que nenhum de nós ousou socorrê-la em tão espinhosa atitude.

Pobre mãe! coitadinha!...

O vendaval abismara-nos num precipício inevitável!

Todas as nossas diligências saíram frustradas; em vão foram as nossas orações!

Dois escaleres desceram ao mar; dividiu-se a gente do navio entre eles de tal modo, que cada um comportasse doze pessoas.

Depressa nos separamos uns dos outros, impelidos pelo vento, pela água, pelo mar, pela força, enfim!...

Depois de muito remar, muito lutar, muito sofrer, extenuados, exaustos, sem vigor, sem alento, abordamos, finalmente, a uma ilha completamente desconhecida, que existe lá para as bandas do norte da América. Para ali nos rojamos nus sobre a fria areia, onde adormecemos poucos momentos depois: tal era a nossa debilidade!

No dia imediato, de seis companheiros, que havíamos escapado às garras daquele inquebrantável tigre — chamado oceano, — apenas apareci eu, preso de pés e mãos, e rodeado de um grande número de selvagens, todos armados de setas e outras armas de igual quilate.

Naquele momento, receei muito pela vida; julgara-me entre gente antropófaga!

IV

Como a espuma do mar, impelida de praia em praia, assim se desvaneceram as minhas ilusões efêmeras!

Reivindiquei para mim os direitos de homem livre, e tive a felicidade de ser bem acolhido no meio daquela gente inculta e rudemente educada. Eu era o monarca daquelas solidões; amado, respeitado, e, mais que tudo, sinceramente incensado pelo turíbulo augusto dos mais atilados engenhos, que então nobilitavam aquelas ignotas paragens.

Um lampejo de felicidade, porém, é sempre acompanhado de atro penar e funesto mal-estar. Em redor de um planeta faustuoso gravitam miríades de assoladoras estrelas.

Erin era um portento de formosura indiana: olhar incandescente e fatal, cinzelado por longa e aveludada pestana; o seu colo de perolas ocultava-se debaixo de uma farta e suntuosa madeixa, que a tornava sobremodo angélica e donairosa; a cintura quase se eclipsava, estreitada em esplendente faixa de valioso tecido; o gracioso pé, adelgaçado por ebúrneas sandálias, seria a inveja de um querubim. Dir-se-ia toda a opulência do oriente ali profusamente derramada. E, além disto, ânimo varonil, imaginação de fogo, efervescência de sangue nas veias; até a vegetação tropical parecera concentrar-se naquele todo de luz e calor: a vida borbulhava de contínuo naquele pobre coração.

O vime fora tão frágil, que não poderá ceder à violência do tufão!

Erin amava-me com ardor. Era inextinguível o incêndio que lhe inundava a fronte, já de si escaldada pelos ímpetos de uma paixão vulcânica.

A minha posição tornara-me sobretudo ridículo. Nem sequer me ocorreu um leve paliativo para atenuar aquele manancial perene de bons sentimentos e lisonjeiro pensar.

Acima de tudo isto, porém, conservava ainda na memória a imagem de Terezinha, os meus juramentos contraídos, os meus protestos no porvir. Mentir assim à minha consciência, do estar o meu pundonor, com tamanha aleivosia e escárnio da minha própria dignidade, — isso seria, além de tudo, um sacrilégio inaudito.

Conservei-me inabalável à sinceridade das suas súplicas, aos seus rogos, às suas lágrimas: tudo desprezei. Não havia demover-me de semelhante propósito.

V

No entanto a pira fumegava já em larga extensão, e a hidra do ciúme não tardaria decerto a levantar as suas cem ígneas cabeças, para me esmagar e oprimir.

Dois anos de negro cismar e indiferente convivência não foram ainda suficientes para cicatrizar as úlceras daquele extenuado corpinho e abençoado tesouro.

Erin tinha esperança de subjugar de vez o inimigo: melindrosa era a sua tarefa, e... quem sabe?... talvez inútil.

Após muitos e infrutuosos assaltos, o baluarte conservara-se inexpugnável. Tornara-se mister um derradeiro e definitivo recurso.

Um dia estava eu sinceramente absorto na contemplação de uma agigantada palmeira, que se erguia altiva junto do meu silencioso casebre, procurando ler, em cada uma daquelas espalmadas, longas folhas, o verbo onipotente do Criador, e de seus esplendentes atributos, — quando vi a doce palidez de Erin, estranhamente retratada na reverberação que produzia o sol, por entre as suas ondulações e constante sombrear. As contrações do rosto, o seu andar mórbido e inconstante, o pestanejar de contínuo e violento, a resolução impetuosa de seus braços, — tudo prenunciava tremenda catástrofe.

Entrou, rojou-se tragicamente a meus pés, e rompeu nas seguintes dolorosas imprecações:

— Fale, diga-me agora aqui, por que me não ama? qual a razão por que me despreza? Ah! sim, compreendo: sou pobre demais, talvez, para saciar a sua medonha ambição; repugnam-lhe as minhas ações, não é assim? causa-lhe tédio olhar para mim! Oh! Coitado! Vai cessar o seu tormento; descanse, jamais tentarei embargar-lhe os passos; termina, enfim, o meu aviltamento! A mulher vilipendiada vai desaparecer para sempre deste mundo, em face de seu despótico amante! Derradeira glória de uma desgraçada!

Neste ponto Erin, num ato de inabalável resolução, descobriu seu ávido seio com a feroz menção de nele cravar um agudo punhal, que conservava energicamente apertado em sua pequenina mão.

Cresceu de ponto o meu denodo, que até ali havia permanecido impassível às suas palavras e lágrimas represas. Consegui arrancar-lhe o punhal das mãos e abrandar-lhe a sanha, que a devorava. Ela, vendo assim frustrados os seus esforços, caiu em dolorosa prostração, sem dar acordo de si.

VI

A mulher, que, estreada na própria natureza, não pode cativar, recorre, por último, ao artifício, como meio mais próprio e decoroso de atingir o seu fim.

Erin não poderá abafar as lutas íntimas do espírito. Devia de ser bem penoso o seu tormento! Ver esfacelar uma a uma as fibras mais íntimas do coração; sentir o gotejar acerbo do gelo da descrença e da iniquidade; viver tanto tempo atrelada ao pelourinho da ignomínia, sem outro apego às coisas deste mundo, que não fosse um amor honesto, virtuoso, sublime... contemplar, por longos anos, a lividez do próprio cadáver, arquejante, nervosa, moribunda! — que triste e grandioso lutar! que doloroso sofrimento!...

Como todas as mulheres, quando não veem o seu amor igualmente correspondido, a jovem indiana tocou o auge do desespero, da raiva, do ódio, da vingança!

Estava preparada a vítima; restava apenas o sacrifício!

No meio da minha virtuosa indiferença, mal julgara eu a dura sorte, que me estava reservada no futuro.

Erin aproveitou logo a ocasião, que se lhe deparou mais oportuna, a fim de melhor e mais satisfatoriamente pôr em prática um trama cavilosamente urdido e astuciosamente antecipado.

Sem dar tréguas à sanha, que a dominava, entrou uma noite em minha casa, ofegante, colérica, e nimiamente impaciente. Procurou mais uma vez convencer-me do seu amor, almejou ferir-me com o punhal da sua tirania, e tudo foi baldado: por último quis ver se despertava em mim a sensualidade pelos seus artifícios, meneios e donairosos requebros, pela voluptuosidade do seu olhar ardente e libidinoso, resumindo, enfim, numa palavra, por tudo aquilo, de que uma mulher é capaz para excitar um amante profundamente amortecido, e glacialmente cínico.

Assim, pois, reconhecida e evidenciada a inutilidade de seus esforços, tomou ela uma derradeira deliberação, em nada somenos aquelas já por si anteriormente experimentadas. Com os cabelos desgrenhados, as faces afogueadas em colérico desespero, em andrajos, quase nua, alucinada, doida, perdida, deu um pulo para fora da porta, e começou a uivar, como uma fera, implorando socorro, declarando-se desonrada, para deste modo provocar a morte de um inocente, ocultando a fealdade do seu crime!

VII

Erin fora evidentemente feliz no seu audacioso plano. Indiciado no crime, que foi geralmente acreditado, reuniram-se imediatamente os magnatas da terra para deliberarem em comum sobre qual fosse a pena, que me deveria ser aplicada.

Eu, encerrado na minha choupana, apenas sentia o burburinho daquela multidão selvagem, já de há muito conglobada em redor da minha habitação, com sinistro intento e feroz vozear.

Ao cabo de algumas horas fui manietado e cautelosamente conduzido a um largo terreiro, onde costumavam supliciar-se os inimigos, atando-os a um vetusto tronco, que expressamente ali existia para esse fim, e lançando-se-lhes depois as chamas aos corpos; as próprias cinzas eram arremessadas ao rio.

Compreendi, desde logo, todo o alcance da minha injusta condenação, e senti o gélido suor da campa a trespassar-me vagarosamente os membros do corpo. As lágrimas escaldaram-me as faces crestadas pelo ardor da indignação; o desalento surgia a meus olhos com toda a hediondez de suas negras cores.

A Providência, porém, houve por bem fazer-me a justiça de que era merecedor, enviando-me sagazmente o meu anjo custódio, o libertador das minhas agonias e sofrimentos.

Poucos dias antes de tão estranho sucesso, acontecera ter ancorado, defronte daquela ilha, por falta de munições, um navio inglês, que se destinava para os portos da América do Norte. O capitão, homem corajoso e profundamente temerário, sabendo, casualmente, que a minha próxima execução ia ter lugar, não duvidou assaltar a ilhota, durante a noite, para me livrar das mãos dos meus detestáveis algozes.

Travou-se uma encarniçada peleja. Houve muitas mortes, e ferimentos de parte a parte. O capitão alcançou a palma da vitória, no meio de um esplêndido triunfo, e eu recuperei a minha liberdade, sendo levado para bordo do navio.

No dia seguinte a embarcação levantou ferro; e nós, propiciados por fresca viração, seguimos viagem para New-York.

VIII

O acaso, o destino ou a fatalidade, levaram-me, finalmente, ao país da minha predileção. Após longos anos de pacífico lutar e de evangélica resignação, foi-me dado livre ingresso nas terras do Colombo. Julgara ter atingido o zênite da felicidade e do bem-estar. Afigurou-se-me a entrada no paraíso, com as suas mil venturas, e delícias sem conto. Tal era a loucura, que me dominava!

As aparências podem iludir o homem, por algum tempo; e feliz daquele que as puder conservar. A realidade é negra como a noite. O desfolhar das ilusões, o emurchecer desse pequeno número de florinhas solitárias, que, raras vezes, vegetam em redor da nossa alma, marca para a humanidade a crise mais tempestuosa e violenta, — o tremendo contraste entre a saudade e a esperança, — o sorrir da mocidade e as convulsões da velhice!

Suprema e eterna verdade!

O coração da juventude é um formoso, esplêndido ninho, majestosamente entretecido de mil variegadas cores, onde se acoitam as mais ternas avezinhas do céu. A senectude, por seu turno, apresenta esse ninho desfiado, solto, disperso, e os passarinhos voando alegremente em cata de mais inspiradoras paragens. O mancebo, vivificado pelos raios da aurora, contempla o porvir, cheio de gaudio ingente; o velho, por entre as lágrimas da sua idade, olha o passado e entristece-se lugubremente... A primavera sorri-nos no berço infantil; o outono vem, ainda mais, denegrir a algidez tumular!

A minha vida agitava-se alternadamente entre estes dois polos distintos e independentes. Cheguei a New-York, radiante de belas aspirações e fulgurantes ideias. Procurei empregar-me honestamente: tudo consegui, sem dificuldade. O meu gênio volúvel, porém, impelia-me constantemente para fora daquela esfera, onde o trabalho se remunerava tarde e mal.

Dentro de pouco tempo, agrilhoado por uma ambição sem limites, e, mais que tudo, profundamente vulnerado pelo demônio do egoísmo, tinha eu roubado o meu senhor, fugindo logo, espavorido e temeroso, para uma selva distante, onde procurei refúgio entre uma quadrilha de bandidos, que, desde muito, ali haviam assentado a sua tenda de pilhagem e de noturno assassinato.

IX

Por muitos e longos anos durou a minha nefanda peregrinação naquele terrível deserto, onde não penetrava sequer um raio do sol. Ocultos, durante o dia pela espessura do arvoredo, — aguardávamos tristemente o silêncio da noite para dar largas à nossa voracidade famélica. Então, não passava pessoa alguma, por aquelas solidões tenebrosas, em quem não procurássemos, desde logo, embeber a esponja corrosiva do veneno e da maldição, — o cutelo do algoz e do malvado.

Aviltante e funesta condição a minha! A princípio o remorso levantava-se irado contra tamanhas torpezas e monstruosas infâmias. Mais tarde a minha alma, já de si calejada no erro e no crime, nada mais quis ouvir; empalideceu terrivelmente nas trevas, e nunca até hoje tornou a guiar os passos incertos da minha vida depravada.

Nada mais pungente e superiormente bestial do que locupletar-se um indivíduo qualquer com o ouro roubado aos seus semelhantes. O trabalho honesto nobilita o seu autor. Procurar ilicitamente um interesse, que nos não pertence, isso, além de ignominiosamente vilão, toca ainda as balizas da perfídia. — Não há necessidade que só de per si possa abonar satisfatoriamente semelhante corrupção e baixeza de ânimo!

A despeito de tudo isto, porém, não duvidei iniciar os dias da minha vida social em tão rude aprendizagem e degradante profissão. E bem cruel me foi esse engano!

Dentro em poucos dias, do esterquilínio do vício e da maldição havia eu passado, rápida e insensivelmente, para o fundo de medonha enxovia. A justiça humana, no seu incessante voo, não despegara a vista do desgraçado cadáver, que, ainda no recôndito de árida floresta, lampejava chispas de fogo amedrontador.

E tudo foi bem assim!

Ao ver cerrar-se sobre mim a solitária porta do cárcere, que rangia lugubremente nos seus enormes gonzos de ferro, senti um movimento involuntário e repulsivo, e tive o pavor de quem vê seu peito ferozmente esmagado pelo duro pé do inimigo vitorioso!

Então veio a sacratíssima imagem de minha mãe dulcificar-me o amargor da desventura. Lembrei-me de Terezinha. Erin, a bela indiana, de quem nunca mais tivera notícias, calou-me no espírito não sei que indefinível sentimento, que me fazia antever uma felicidade duradoura, se, por acaso, não houvesse desprezado o seu imenso amor para comigo.

X

Ao penetrar na escuridão do ergástulo julgara ter encontrado o meu epitáfio, assinalado, com letras de bronze, sobre a lousa sepulcral, que se me atulhava naquele extenso e terrível horizonte. Iludira-me, porém, o meu juízo. Havia-me Deus predestinado neste mundo para grandes e temerárias empresas.

Por mero acaso, acontecera um dia ter eu lançado as mãos a um varão de ferro, que me interceptava a passagem para um longo claustro, por onde se me tornava fácil a saída para a rua. Recobrei alento, e não foram frustradas as minhas esperanças.

Coadjuvado por antigos companheiros, que haviam escapado milagrosamente às garras da humana justiça, e com quem eu continuava ainda a nutrir relações de camaradagem, — pude aproveitar o silêncio de uma longa e tempestuosa noite de inverno para os fins a que me propunha.

Fui feliz no meu arrojado cometimento. Às ocultas consegui embarcar em um navio inglês, que se fazia de vela para a Europa.

Assim, no espaço de pouco tempo, abandonei o país dos meus sonhos tristemente desfolhados aos ventos do infortúnio e de medonhas calamidades. E o certo é que, se não vinha tão rico, como de princípio o havia imaginado, pelo menos trazia meios suficientes para viver em Portugal, como capitalista de modesta aparência.

Tudo isso se desfez, porém, ante a máxima desventura, que, neste instante, me aguarda terrivelmente.

A nossa embarcação jaz nas alturas da ilha de São Vicente. O estado do mar é deveras assolador; não há meio de resistir-lhe. Naufrágio inevitável! Estão talhadas as nossas mortalhas. Já a morte nos sorri satanicamente por entre a negra agitação do oceano. Luta infernal! Que diabólico tufão! Meu Deus! meu Deus! Angustiadas lágrimas, sentidos suspiros, súplicas sinceras, fervorosas orações!... tudo em vão!... Não há dúvida: seremos devorados irremissivelmente pela sanha do mar! Que profundo abismo nos espera! Como a esperança nos é ainda meigo amparo nesta hora extrema e fúnebre! E como estamos todos profundamente unidos pelo mesmo pensamento, pelo mesmo amor! Oh! Só Deus é infinitamente justo e bom! Enfim, estão lavradas as nossas sentenças! A redenção do céu, essa, só de ti a poderei suplicar, que decerto não deixarás de interceder na terra pelo descanso de teu desditoso filho. E adeus... adeus... para todo o sempre!... Uma sentida saudade para Terezinha, o anjo imaculado dos meus sonhos!... adeus... adeus!...

Eis o conteúdo deste interessante manuscrito, no fim do qual estava assinado Ernesto, e era dirigido laconicamente a Maria dos Anjos, moradora no Porto, aos Clérigos. Após longas e infrutuosas pesquisas, consegui saber que Maria dos Anjos era falecida, tendo instituído por universal herdeira de seus bens a Terezinha, hoje noviça no convento de Arouca. Para lá foi remetida esta preciosa relíquia, e com ela a infeliz herança de seu esperançoso noivado. Por certo não faltariam lágrimas de bem viva saudade a orvalhar aquele extremo legado de um coração diluído nas grandes lutas de um amor infindo e de constante tenacidade!

Antes assim!

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