terça-feira, 19 de setembro de 2017

Estrelas e nuvens (Conto), de Sebastião de Magalhães Lima


Estrelas e nuvens

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Vou contar um romancinho de amores, — amores singelos, amores de aldeia.

É tão simples a nossa história, como a verdade que encerra; tão natural, como um sorriso de gentil criança; tão cândida, como a pombinha do deserto.

Ouvi-a, por uma noite de julho, sentado à margem de saudoso regato.

Foi uma hora solene: um momento augusto e santo!

A brisa, de envolta com o perfume da noite, foi segredá-la às florinhas do vergel, e estas enviaram-na ao céu.

Na terra repercutiu-se o coro dos anjos, lamentando a desditosa sorte de seus adorados irmãos.

Por um momento, eclipsou-se o brilho das estrelas; deixou de refletir-se a lua no seu espelho de prata.

As avezinhas não tiveram gorjeios; cessou a viração no seu curso veloz.

Silêncio sepulcral! sublime idílio! majestoso quadro!

Falta-nos o pincel de Corregio; não possuímos os tesouros de Petrarca, nem tão pouco a eloquência de Demóstenes.

E é pena, na verdade!...

Cada apostolo tem a sua missão a cumprir sobre a terra.

Sublimar a desventura, prantear a miséria do mundo: — nada mais grandioso, e tão sinceramente edificante!

É uma evangelização despretensiosa e nobre.

Choremos, corações ternos; choremos e choremos muito; não tenhamos pejo de assim fazer.

Levantemos os olhos ao céu; e, com a fronte descoberta, ouçamos a fúnebre narrativa de dois mancebos desventurados!...

Quem não conheceu Maria, a flor das lavadeiras?

Quem não repararia naquele formoso querubim, que, ao sol posto, ia todo engrinaldado de rosas e lírios, encher o seu cantarozinho de barro à fonte da terra?...

Oh!... decerto ninguém poderia esquecer tão prontamente a linda morena, o anjo bendito?!...

Não sabe, leitor amigo, não se lembra já daquela casinha térrea, silenciosamente circundada de festões e madressilvas, que existe em Cintra, lá para as bandas do Castelo?...

Pois olhe, aí mesmo nasceu aquela rolinha; lá, coitadinha! desferiu aos ecos a inocente lenda de seus amores; e, por fim, lá agonizou também, sem que ninguém desse por ela, nem tão pouco imaginasse socorrê-la.

Pobre desgraçada!...

E não saber eu mais cedo a sua história!...

O prazer, como tudo o que é efêmero, tem seus encantos: as lágrimas também os têm.

Maria, mui prazenteira e jovial, vira um dia Gregório, que a esperava, junto da fonte, sempre à mesma hora: de súbito, anuviou-se aquele rosto, profundamente celestial e gentil; contraíram-se-lhe os músculos da face.

O amor havia penetrado em sua alma!

Desde esse momento nunca mais se tornou a divisar um raio de esperança e consolação naquele horizonte, outrora tão límpido e sereno.

E Gregório, o pobre lavrador, lá se foi triste e pensativo, caminho da aldeia, sem outra ideia que não fosse Maria, sem outro cismar que não fosse a felicidade.

E tinha razão!...

Era jovem! Tinha aspirações!...

Assim decorreram dois anos, — dois anos, cheios de muita esperança, e entrecortados por aflitivos suspiros!...

Gregório era tão ambicioso!...

O amor é muitas vezes caprichoso e louco!...

E quem o havia de imaginar?!...

Gregório queria ser rico; queria ver a sua amada, reclinada num trono de esmeraldas!...

Entre as flores queria vê-la rainha! entre os anjos serafim! entre as mulheres majestade!

E com esta ideia, e com o demônio da ambição, lá se foi ele a longes terras, em cata de grandes haveres!

E a pobre Maria ficou só, sozinha com as suas lágrimas!...

Ao menos... tinha esperança!...

Ai! como é triste e pavorosa a ausência daqueles que amamos!...

Pobre Maria!...

Que saudades se lhe não avivaram na mente enlouquecida!...

Gregório tinha partido, havia dez anos, sem dar notícias suas!...

Teria naufragado o triste Gregório?...

Porém não, não era possível!

Maria queria torná-lo a ver junto de si.

Uma Virgem não abandona a súplica de outra virgem!

Mas, apesar de tudo isso, a rosa ia emurchecendo a olhos vistos.

De dia para dia se desfolhava uma pétala, secava uma folha, até que, por fim, caiu de todo a haste, vergada apenas pela branda viração do crepúsculo!

O resto... levou-o o vento!...

Eram passados três mesas.

Quem observasse atentamente aquela pousada, onde estivera aninhada, por tantos anos, a terna andorinha, deveria reconhecê-la desguarnecida, e quase em ruínas.

Um vulto, trajado de preto, percorria aqueles restos sem cessar.

Era Gregório, o pobre lavrador, que havia voltado rico, com o único fim de tornar Maria venturosa sobre a terra.

Chegara, porém, tarde o maná do Senhor!...

Um mês, mais tarde, ao lado do túmulo de Maria existia outro, igualmente modesto e lúgubre.

Gregório, tomado de incurável loucura, depois de haver arrojado toda a sua fortuna a um abismo, por ele cavado, para que ninguém mais a pudesse descobrir e gozar, foi por si mesmo procurar naquele precipício uma morte desastrosa e terrível!

O mais... só Deus o sabe!...

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