sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Clarinha das pedreiras: A Flor Vermelha (Conto), de Raul Pompeia


A Clarinha das pedreiras: A Flor Vermelha

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma pedreira representa nada menos que esse bichinho vil da terra, como chamava o rei-harpista do Velho Testamento, o átomo inteligente, arcando com a majestosa enormidade do granito. Diante daquela muralha vasta, branca a doer nos olhos, ligeiramente veiada de negro, sonha-se com os dias infernais, em que as erosões vulcânicas rasgavam a virgindade do solo do planeta em formação, encarreirando as serranias, como dentaduras arreganhadas para o céu; e se imagina depois que um pobre diabo de homem, com alguns punhados de pólvora na mão e uma simples agulha de ferro e uma caçamba d'água, sem ouvir os cânticos sangrentos da corneta, sem avistar os acenos eletrizantes das cores de uma bandeira, marcha tranquilo a destruir a construção formidável dos cataclismos do passado...

Também o trabalho das pedreiras é feroz; é a luta pela vida, sem figura de retórica. Ai se dá combate ao sol reverberado nas faces alvacentas da rocha talhada; dá-se combate à vertigem que, do fundo erriçado dos precipícios atira uns olhados de Medusa; dá-se combate à pedra, que se defende com as chispas que queimam e as lascas que cegam. A morte está sempre perto: ao fundo dos cortes a pique; na grimpa dos rochedos que se levantam ameaçadores e deixam apenas um ângulo encravado no saibro movediço.

Da insolação não se fale...

Sente-se uma impressão profunda, à vista dessa catadupa grandiosa de blocos imobilizados na queda.

O desabamento estatelado!...

Por isso é que o gênio impressionável de Alexandre o levava a passear frequentemente, à tarde ou ao alvorecer, pelas pedreiras da Assunção, as mais altas talvez e as mais arrogantes do Rio de Janeiro. Era um prazer para ele, abandonando o caminho de subida, agarrar-se às arestas cortantes das grandes pedras e alar-se a boa altura para ver...

Ao pôr-do-sol, os penhascos esticavam para a esquerda umas projeções longuíssimas de sombras; que lhes ficava o astro para a direita, descendo os contornos verticais do Corcovado. Para baixo desenrolava-se a rampa do precipício. Um precipício esplêndido. Mil reentrâncias e mil saliências ásperas, agudas, abruptas, denteadas, que faziam arrepios à imaginação afigurar-se um desgraçado em degringolada por aquelas unhas. Além, cobrindo o horizonte, o cone do Pão de Açúcar e as montanhas verdes de Botafogo e Copacabana, prolongadas até às eminências da Gávea e dos Dois irmãos. Mais próximo, a enseada, como uma vasta placa de anil, margeada pela casaria do arrabalde fidalgo, batido de flanco pelas espadas vermelhas e rútilas do sol poente.

Era a hora em que terminava o serviço dos cavouqueiros. Ficava a pedreira sem viva alma.

Por entre as pedras insinuava-se um cão rateiro e esfomeado. E ouvia-se, como o toque significativo de uma sineta, o ruído metálico e tilintante da última alavanca, atirada do alto pelo derradeiro operário a retirar-se.

Ao romper do dia a cena era outra.

Geralmente, quando Alexandre chegava, ainda o cobria o céu com a sua coma azul empoada de estrelas. Dançavam no oriente as primeiras brancuras do dia, passando pela cortina esburacada de qualquer nevoeiro negro achatado sobre o firmamento. Aos pés do mancebo dormia o panorama de Botafogo, velado por um lençol tenuíssimo de vapores. Através dos vapores se distinguia a massa pardacenta da casaria entremeada de um negro-esverdeado pela perspectiva dos jardins e das chácaras, com um ou outro ponto luminoso brilhando a esmo.

Quando, por tudo aquilo, se espraiava o luar da alvorada, percebiam-se as notas assobiadas de alguma cantiguinha popular; e lá vinha subindo um homem pelo declive que levava até certa altura da pedreira.

Era o primeiro operário que chegava. Depois deste, chegavam outros, em pequenos grupos, calados ou mastigando meias palavras, sem olhar para os lados; jaquetão atirado ao ombro e em cima do jaquetão umas ferramentas brutas, pesadas, cheias de ferrugem. Era o exército do trabalho.

Em coisa de poucos minutos, dispersavam-se para todos os pontos. Este havia que passava mão a um cabo, cuja extremidade se perdia pela pedreira acima, e desaparecia na altura, arrastando uma barra de ferro; aquele sentava-se a um lajedo, sob uma coberta de estopa, armada em taquaras, e punha-se a picar a pedra com o dente de um ponteiro ou o corte de um escopro batido a macete; um outro elevava acima da cabeça e fazia desabar com todo o peso o picão agudo, fragmentando pedras para o fabrico dos macacos, muitos armavam-se de longas agulhas de ferro e iam brocar a rocha com as minas destinadas ao alojamento das arrobas de pólvora que tinham de fazer voar o granito.
Nisso apontava no horizonte um estilhaço de sol.

Já então ressoava a encosta, aos golpes de cem martelos e os — passarinhos despertados fugiam espavoridos por entre a mataria das montanhas.

Escapando-se aos ardores do dia, Alexandre ia para casa. No caminho, aguardava-o certa insignificância graciosa, que era também para o moço um atrativo daqueles passeios; sem chegar, diga-se a verdade, a ser o principal, como bem podiam insinuar as linguinhas da malícia.

Em saindo das pedreiras, tinha-se de passar por uma estrada, rasgada numa rampa de esmeraldino capim de Angola, juncada de cordões de frade com os seus nós de espinhos e floritas roxas, balouçando-se ao lado dos matacões que os tiros da pedreira semeavam na planície.

À margem desse caminho, listrado de sulcos pelas carroças a serviço dos cavouqueiros, havia (se existe ainda, — não sei) uma habitação edificada no estilo pitoresco e barato da miséria. Teto chapeado de zinco, com declives íngremes arrimados em tábuas podres e paredes de barro crivado de grandes furos; três janelas abertas para a estrada e uma porta para um cercado de bambus secos, em T, com meia dúzia de estacas de pinho.

No cercado havia couves e tinas d'água. Por cima das couves voavam reflexos de borboleta; no teto de zinco passarinhos cantavam, nos rombos do barro, aninhavam-se pombos. Não era exatamente a essas coisas que Alexandre dava atenção.

Era a um par de mãos níveas, pequenas, às voltas com uma costura, mimosas extremidades de braços modelados por... qualquer chapa de poeta lírico. Estes braços, nus como a inocência, até aos cotovelos, enfiavam-se timidamente pelas mangas curtas de um corpinho de musselina que em outro ponto comprimia com força duas resistências esféricas, de uma geometria provocante a mais não poder. Para cúmulo, rasgava-se, das resistências acima, um modesto decote, donde, fresca e jovial emergia, desabrochava uma cabecinha peregrina. Um camafeu delicado, róseo, transparente, rodeado de pequenos cachos negros em delicioso descuido, com muito sorriso na dobra dos lábios, muito fogo nos largos olhos e nas palpitantes narinas...
Era arrebatadora na sua janela, essa costureira! A estrela d'alva à sombra de um reles teto de zinco.

Alexandre variava. Chamava a sua estrela d'alva, só quando a via de manhã; pela tarde chamava-a de Vésper.

Uma vez, voltava o moço do seu habitual passeio quando teve de assistir a uma cena que espinhou-lhe a curiosidade.

Na ocasião em que passava pelo casebre de zinco, viu um molecote dos seus sete anos, vestido de riscado, cabeçudo como um feto, preto como o diabo, salientes os olhos, como se já não lhes houvesse lugar dentro do crânio. Sem se preocupar com Alexandre, o demônico, que levava na mão um objeto oculto, foi até à janelinha de peitoril, carcomido, onde, como era frequente, cintilava a estrela Vésper e entregou-lhe... uma camélia vermelha.

Pouco lido na filologia das flores e em simbolismos de namoro o mancebo não adivinhou o sentido daquilo. Bem possível era que nada mais significasse do que simples oferta delicada de um galanteador, talvez mesmo de qualquer amiga da mocinha do casebre. Não sei que palpite o fazia pender para a primeira hipótese. Não havia dúvida! Com ou sem explicação gramatical, aquilo era uma frechada de Cupido!... Tinha notado que a mocinha se debruçara na janela, espiando para os pilares que abrem passagem do terreno pertencente às pedreiras para a rua da Assunção.

Aí devia encontrar a verificação da sua desconfiança. Enfrentou de repente com um rapagão alto, robusto, moreno, fisionomia farta de satisfações, tênues bigodes negros, lábios risonhos e grossos; tudo sob um pequeno chapéu de palha e acima de um peito largo, apertado casimiras. Trazia na mão um chicotinho com argola e corrente de prata ao cabo.

Alexandre ficou sombrio; e seguiu para sua residência, absorto em solilóquios mentais...

Três ou quatro dias depois, também à tardinha, de volta às pedreiras, Alexandre deparou outra vez com o tal rapagão, pouco distante do casebre da moça contemplando atentamente a muralha de granito.

— Que imensidade! Murmurava, quando Alexandre passou.

Implicante sujeito! Esse marmanjo era uma ameaça terrível para a costureirinha.

Alexandre pensou em intrometer-se no romance, tomar contas ao marmanjo. O nobre mancebo estava possesso de ciúme; mas o ciúme generoso que se sente, ao ver um garoto arrancando uma rosa ao pedúnculo para depois abandonar ao esgoto. Se era tão agradável apreciar-se a flor...

E bem garoto lhe parecia o marmanjo.

Desta ocasião em diante, o habitué dos pedreiros não tornou a ver, nem a sua Vésper, nem a sua estrela d'alva...

Isto causou desgosto a Alexandre. Os seus costumados passeios foram deixando de ser frequentes. A vista daqueles lugares trazia-lhe à mente tristes recordações da rapariguinha do pardieiro de zinco, de quem Alexandre egoisticamente não se quisera lembrar.

Contudo, o moço de vez em quando lá ia...

Assim foi que, por um dia tempestuoso, ele se abalou de casa a visitar o sítio antigamente de sua predileção. Alexandre frequentara a pedreira como quem frequenta um jardim público, que não lhe fica longe de casa. Era um hábito adquirido, um hábito na verdade excelente como higiene.

O mancebo, porém, se desgostara um tanto com o seu hábito...

Eram cinco horas ou mais. O céu estava carrancudo como um homem perverso. Cúmulos enormes estampavam-se na abóbada. Moviam-se lento. Formavam monstruosos leões de escancaradas fauces que iam derramando pelo ar negras jubas de proporções fabulosas; formavam gigantes, que engordavam, avultavam a olhos vistos e dissolviam-se por fim em conglobamentos informes.

Ouviam-se uns estremecimentos sonoros, que chegavam das nuvens, como se lá em cima se afinassem os tambores da trovoada.

Apesar de tudo, Alexandre saiu a passeio. Se a tempestade desabasse, ele gozaria um espetáculo admirável nas pedreiras.

No fim de dez minutos estava o moço à raiz das colossais muralhas de macacos, dispostos como os lances de cantaria de uma fortaleza respeitável. Concedeu dois olhares a essas pilhas de paralelepípedos, aqui e ali desmoronados pelas alvanias, e tomou a ladeira de saibro grosso o canjica que, pelo meio de duas carreiras de lajedos, servia para a subida de veículos até dois terços da elevação das pedreiras.

Por fim, sentou-se num dos lajedos e olhou em torno. Tudo estava deserto. Apenas sentiam-se ao longe as marteladas férreas de um picão.

No espaço encontravam-se as eletricidades, abraçando-se em trovões e se beijando em coriscos. Na planície, em Botafogo, havia poucos rumores e muita escuridão difusa. As negruras do firmamento vazavam na terra uma noite precoce.
De improviso, caiu a chuva.

Pingos grossos como cusparadas, que num momento multiplicaram-se fazendo um aguaceiro cerrado, abundante, torrencial.

Alexandre abriu o guarda-chuva e abrigou-se por baixo de um penhasco cavado. Ouviu então o ruído de um desmoronamento.

— Mau! Mau! Murmurou, vamo-nos embora que ainda a casa nos esmaga...

E saiu correndo do abrigo que escolhera. Desceu a ladeira até que avistou uma espécie de barraca, feita de esteiras, debaixo da qual havia alguém.

— Oh! Exclamou a pessoa que lá estava: o senhor anda aqui, por este tempo?! Deixe chover um pouco mais e verá como aí vem tudo pela pedreira abaixo... deixe encharcarem-se as cunhas...

O mancebo lembrou-se do desmoronamento que ouvira e do costume que têm os cavouqueiros de encher de cunhas de madeira as fendas da rocha, para se aproveitarem da chuva.

— Olhe! Gritou o homem da barraca, que pareceu ao moço ser o trabalhador de cuja ferramenta ouvira as marteladas antes da chuva. Olhe as cunhas já começam!...

Algumas pedra acabavam de rolar à distância.

A chuva foi aumentando.

Fortes esfuziados do vento foram obliquando os pingos d'água, de sorte que na barraca já não se estava a salvo de um banho.

— Aqui não estamos bem, disse a meia voz o cavouqueiro.

— Na verdade, vamos ficar pingando.

— Está vendo ali aquela casinha? É onde eu moro... Quer abrigar-se... Vamos...

O cavouqueiro apontava exatamente para o casebre, onde outrora o moço via cintilar a sua estrela.

Pela primeira vez, examinou Alexandre a pessoa de seu companheiro. Cabelos e cara formavam-lhe como que uma bola de estupidez. O queixo tinha barba, uma coisa inculta, esquálida, os olhos não tinham expressão, a boca não tinha sorrisos.

Mas parecia um estúpido bom.

Acabando de falar, enterrou a cabeça num enorme chapéu de feltro que apanhara no chão, cobriu os ombros com uma jaqueta grosseira e atirou-se precipitadamente à chuva, direito para o casebre.

Atrás foi Alexandre.

Dentro de um instante, viu-se o moço abrigado em casa do cavouqueiro, isto é, ali mesmo onde residira a deslumbrante criatura que tanta graça comunicava aos passeios doutro tempo.

O cavouqueiro, que entrara antes do moço, tinha desaparecido, este ficara só, num comparti

mento de tabuado que parecia servir ao mesmo tempo de sala de recepção e de jantar, com as suas quatro paredes forradas de espessas camadas de fumaça e com a sua mobília constante de caixões, velhos bancos, cadeiras negras de idade, tendo apenas no assento buracos barbados de fiapos de palhinha lastimáveis como bocas de mendigo, ferramentas amontoadas. Uma fumaceira de fazer espirrar. Por volta, abriam-se quatro portas; uma era a de entrada, outra dava para um buraco negro, fundo e fumegante, talvez uma cozinha; a terceira estava cerrada e a última deixava entrever uma alcovinha que pela posição devia ser a mesma a cuja janela costumava trabalhar a estrela d'alva. Parecia estar se vendo aí dois olhos negros e grandes, espiando para fora.

Nisso pensava Alexandre, quando moveu-se a porta cerrada para dar passagem a uma pessoa.

Era uma mulher; trazia na mão uma pequena candeia de pouca luz e muito fedor de azeite.

Deu boas noites ao moço e pendurou a candeia num ganchinho à parede.

— Permita-me que espere aqui pelo fim da chuva... Desculpe-me se incomodo...

— Ora, meu bom senhor, isto até dá alegria a gente... fazer-se uma boa obra... Olhe, eu já na minha terra ouvia do padre: dai pousada aos peregrinos... Então? É o que Nosso Senhor manda... e quem...

Como dava de língua aquela senhora magra e comprida! Era um achado para o moço. Ele esperava apenas que passasse o temporal, mas não quisera retirar-se sem levar boas notícias da costureira sumida.

Aquela mulher as daria necessariamente. Falava muito e parecia simpaticamente ingênua.

Enquanto tagarelava ia ela fechando as janelas, para resguardar do vento a luz da candeia. Quando por cima da casa rebentou um violento trovão, a velha rezou a Santa Bárbara e deixou de falar.

Ao trovão seguiu-se um estrondo assustador, sonoro como muitas descargas de mosquetaria simultâneas.

Alexandre correu à porta do casebre. Pela encosta da pedreira, desabava, rolava, saltava, despenhava uma cachoeira faiscante de pedras e estampidos. O casebre tremia como se tivesse medo. O fracasso cresceu atroador e foi cessando depois no prolongamento surdo dos ecos.

— Que terrível desmoronamento! Exclamou o moço, voltando-se para a mulher ou coisa que o valha do cavouqueiro dono da casa.

— São as cunhas, disse ela... Isto já não me faz medo como os trovões. No princípio, sim... eu me assustava, mas há tantos anos que vejo isso, sempre que chove...

E passou a linguaruda a explicar o emprego das cunhas, etc.

Alexandre interrompeu-a:

— Mas, a senhora está aqui há muito tempo?...

O mancebo não deixara escapar a entrada que lhe dera a mulher.

— Oh! Se estou!... Respondeu ela, e...

— Então, conheceu uma linda rapariguinha que...

— A Clarinha das Pedreiras!... Para sinal que aqui mesmo morava... aquele anjinho!...

— Essa mesmo... Que fim levou-a?

— Ah, meu senhor, que saudade!... Aquele anjinho abandonou a gente... Que ingratazinha, valha-me Deus!... E eu não dou muito pela sua felicidade agora... Nós a encontramos atirada aí pelas pedreiras, quando ainda tinha uns quatro anos. Já era lindinha; mas estava tão mirrada!... Ainda não falava que se entendesse. Não se sabia quais eram os malvados pais daquela criança desventurada. Trouxemo-la para casa. Tinha fome a pobre!...

Estava sujinha, que chorei de pena!

Pois nós demos de comer, demos de vestir, fizemo-la nossa filha. Eu e o meu homem cuidamos dela como do pequerrucho que nos dera Deus e nos tomara há tempo. Sustentamo-la por mais de dez anos, trabalhando como burros para ela não ter de que chorar. A Clarinha, ela nos dissera chamar-se assim. A Clarinha, em compensação, era uma santa criança. Tinha tanta graça que nós a adorávamos, com perdão de Deus...

E agora, de repente, há uns dois meses desaparece-nos de casa... Tenha compaixão dela Virgem Maria!... Toda a gente aqui das pedreiras se pôs a procurá-la por todos os cantos. Não havia quem não gostasse da Clarinha das Pedreiras, como a conheciam. Sei de muito rapaz que andava caído por ela. O senhor, que pede-me novas da menina por tê-la visto, aposto que já gostava dela. E era um anjo mesmo!... Abandonou a nossa casinha. Procurou-se por ela; o administrador das pedreiras falou ao inspetor do quarteirão. Quando menos a gente esperava, um criado todo bem vestido veio nos dizer que a Sra. D. Clarinha não queria mais viver conosco, e ia se casar com um moço rico que por aí anda... Deus queira que ela seja bem feliz, a pobrezinha; mas... eu não digo nada...

Esta breve história, interrompida várias vezes pelo rumor de um desmoronamento lá fora, não surpreendeu a Alexandre, porém abalou-o profundamente.

Diante dos olhos dançavam-lhe as recordações de um moleque fetal, uma camélia vermelha e um rapagão bem trajado, com seu chicote de cabo de prata.
A chuva cessara.

Ele despediu-se da boa mulher, agradecendo o abrigo que lhe dera contra as fúrias do temporal e as informações sobre a sua estrelinha, e saiu para a estrada.

A lua, nascida durante a tormenta, estava a brilhar sobre o firmamento limpo. Espalmava-se em toda a largura de uma boa gargalhada.

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