sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Cavaleiros andantes (Conto), de Raul Pompeia


Cavaleiros andantes

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I
Pode ser que o dia histórico de amanhã, desfeitas às brisas da madrugada a noite de tempestade que se anuncia no oriente do futuro, acamada em firme cristalização de paz toda essa fervura vulcânica de aspirações infrenes que estremecem no subsolo do edifício social do nosso tempo, destruída a linha das fronteiras, após o desmembramento dos impérios, como se destruíram os castelos do feudalismo; reorganizando-se a humanidade sobre uma topografia nova, graças à justiça civil da dinamite, graças ao direito internacional dos canhões; pode ser que traga o dia de amanhã da evolução o advento feliz das esperanças realizadas, dos que creem na Providência latente dos fatos.

Até ao presente século, serenamente julgando, triste tem sido a jornada dos homens através da vida. O oásis da eleição e do venturoso privilégio para alguns; para a multidão indistinta, o amplíssimo deserto, a marcha forçada do trabalho e do sofrimento, ao sol inclemente de um céu sem eco para os clamores, sem misericórdia para as lamentações.

A par dos fatos, como por uma errata de idealismo, desenvolveram-se as formas da meditação. Teogonias, religiões, filosofias, propagandas morais, reformas humanitárias, a hipocrisia dos comícios e as sínteses francamente artísticas da literatura; criou-se um mundo imaginário, buscou-se ao azul do infinito, na metamorfose dócil das nuvens, os aspectos consoladores que faltam à realidade rasteira. Surgiram os Heróis, os Deuses baixaram à terra, para contrastar a pureza olímpica de sua essência com a grosseria humana das vulgaridades.

Extasiados na contemplação que nos arreda da natureza crua das coisas, pobres mortais, entregamo-nos facilmente à história do ideal. Vazadas no molde dos sonhos, as concepções visionárias encarnam-se; sentimos a ilusão, gozamo-la, sofremo-la, palpamos a sombra, amamos, adoramos a miragem interior do nosso delírio, desequilibrado o critério da opinião, doidos que estejamos da anagogia do instinto artístico das almas.

A história é a mesma, desde a conquista de Roma, desde aquele passado heroico em que o pomo da discórdia confundiu os deuses na disputa dos homens, até às loucuras cavalheirescas dos cruzados, até às campanhas mais recentes em nome das crenças, até às revoluções modernas do igualitarismo, assopradas pela tuba enfática das proclamações.

Os ideais variam, o engano permanece. Os mesmos desatinos em nome de princípios diversos.

Primeiro foram as concepções da arte consubstanciadas com as crenças religiosas; em seguida uma época de transição, o divórcio dos ideais, delimitados o campo da arte propriamente dita e os domínios da religião; finalmente, a religião vencida e o ideal artístico em triunfo.

O princípio, os poemas eram os livros sagrados; a estrofe era o veículo da prece. Filhas da mesma disposição espiritual contemplativa, as duas irmãs separam-se. De parte a parte, exaltam-se, independentes, por muitos séculos, os entusiasmos artísticos e os entusiasmos religiosos. Os deuses são meros pretextos para os artistas; as estátuas são meros ídolos para os crentes. Dante escreve a Comédia, o leitor piedoso a diviniza. Surgem as rebeldias lítero-filosóficas e preparam a última fase que recalcou para o escuro a rareada legião dos crentes e glorificou os artistas. Ganhou predomínio a ilusão literária. A retórica foi a alma dos últimos conflitos históricos. Armou-se o gesto de Mirabeau com o sabre de Bonaparte.

Em nossos dias a frase declina. O livre exame requintou-se em desalento; não sei que sombrio niilismo preocupa o enlevo das contemplações humanas. Dir-se-ia que vai naufragar o instinto artístico no mar das trevas; que a transmigração do ideal baixou progressivamente, da concepção enganosa das teogonias até à religião dos desesperos. Confunde-se a necessidade brutal da existência, ananckhe, com a prostração desanimada das fantasias. Desabam os santuários; a imaginação morre aos pés do industrialismo ovante.

Indústria é a grande palavra — capital e servidão, tirania e esbulho. Só a indústria marchou em progresso ao rodar do tempo, a indústria, que é o egoísmo, o individualismo, contra a solidariedade, que é poema; o fatalismo da força maior triunfante, o fato positivo, indiferente à moralidade e à estética; a economia política da iniquidade, avessa à pragmática do belo e do justo, feições similares da mesma ideia inane.

Às vezes, sucedeu ser tão viva a exacerbação da fantasia concorrente que a evolução da força das coisas mostrou ressentir-se. É o caso da caudal encrespada à superfície pela viração em contrário: no fundo a correnteza é a mesma regular e invencível. Também Maquiavel ensina, o mestre sem piedade das duras lições, "que vemos em triunfo os profetas armados e acabando desgraçadamente os propagandistas inermes. E refere o exemplo de Savonarola. É que os profetas armados triunfam pelas armas, não pelas profecias. Não vence o justo; convence o ferro. A justiça é ideal; a força é fato.

Na época presente, entretanto, chegamos à dissolução. A fórmula da luta pela vida deu carta branca a todos os abusos; definitivamente poder é poder. Desapareceu mesmo a hipótese dos profetas armados. Os inermes embucham, quando não fazem, para que não sucumbam, da profecia um mercado.

Ao passo que a emulação dos tiranos e a rebeldia crescente dos oprimidos, sem fé, sem esperança, vai espalhando na atmosfera da civilização o pavor negro de uma expectativa, como não conheceu jamais a história dos povos.

II
Aos grandes ciclos do Ideal corresponderam paralelamente, nos domínios do Fato, três espécies de atividade psicológica. Época das religiões; época das filosofias; época das constituições e dos códigos. Delírios sucessivos da mesma febre.

Destas crises, a mais duradoura e a mais grave foi a primeira; período agudo: as Cruzadas, os mais belos dias do desvario beato da humanidade; personagem típica — São Luís. A segunda complicou-se por muito tempo com a primeira até acentuar-se; período agudo: reforma e guerras de religião; tipo — Lutero. A terceira perdura em manifestações fugitivas até aos nossos dias: período agudo: Revolução Francesa; personificação — Danton.

Hoje que, o ideal expira, entramos por uma idade nova, rumo trágico do futuro à luz de um astro misterioso, em noite de desolação. Os últimos sonhadores, olhar fixo no relógio parado das ilusões, vão desesperando da quarta hora de Justiça de Proudhon.

Estudando sem preconceito a sociedade moderna e a filiação histórica das datas, verifica-se que, excetuando o esforço dos tiranos e conquistadores, que recortaram à ponta de espada as linhas geográficas do mapa-múndi e sedimentaram as camadas sociais, segundo a mecânica do egoísmo — todas as grandes lutas dos homens nada mais foram que a gênese ensanguentada de mil vocábulos: nulas variantes fônicas das expressões: Deus, Verdade, Liberdade, trilogia sinistra da eterna ignorância.

Mas ao artista deve ceder o historiador, para o estudo das tragédias do Ideal no passado. É a missão contemplativa do moderno idealismo. Deus, Verdade, Liberdade, são os três cantos da melancólica epopeia das aspirações humanas, cujos versos de sangue vêm entrelinhando a história, desde às obscuras tradições do Oriente. À luz da arte erige-se o severo monumento das audácias, dos desesperos, Ossa e Pelion sobrepostos em direção ao céu; e a grita desordenada dos entusiasmos e das decepções vibra na abóbada como uma sinfonia profunda. Ao redor da concepção do Belo e do Justo agrupam-se os heróis. Cada século faz galgar um certo número a escadaria, e organiza-se o conjunto peça a peça, avultando com o tempo, harmônico e admirável.

Suprema Bondade foi a mais sublime criação do instinto artístico. O Bem é ao mesmo tempo o belo, o justo, o verdadeiro: Ideal dos ideais. Contra a tirania dos egoísmos, que é o Mal, lavrou este protesto o coração humano.

Conforme os diversos graus de cultura intelectual dos homens variou-se a maneira de conceber a Bondade. Para cada fase do desenvolvimento uma hipótese antropomórfica — Hércules, Cristo, D. Quixote. Hércules é a bondade heroica e mitológica; Cristo é a bondade medieval e católica; D. Quixote é a bondade moderna idealizada na ironia do livre exame. Três imagens dolorosas, geradas de estranho pessimismo. Hércules tem a púrpura abrasadora de Nessus; o Nazareno tem a Cruz; o cavalheiro de Cervantes tem o carnaval das armaduras e o pelourinho implacável da gargalhada.

III
Hércules enche o passado. Concretiza a alma dispersa das resistências. Vive na Pérsia, no Egito, nas Gálias a tradição herculana, como símbolo da força propícia contra a força adversidade. Hércules é o amparo e a defesa. O chão é rebelde e estéril, — Hércules é o sol que cria a nuvem e a fecundidade. A humanidade está cercada pela conspiração dos monstros, hostilizada pelas forças ocultas da natureza e pelas sugestões da maldade, a iniquidade devastadora campeia em auge — Hércules faz a justiça de Talião. Monstro de Nemeia, hidra de Lema, corcéis de Diomedes, touro de Creta, Anteu, Lacínio, Gerion, Cacus, Buziris, sob qualquer fisionomia que se manifeste a tirania e a violência. O herói a chama a combate. Zombou de Juno, que era a cólera celeste, e libertou Prometeu, que era o sofrimento humano. Carregou aos ombros o firmamento, por alívio de Atlas, que era o trabalho forçado, e destruiu a necessidade cosmegônica, abrindo à expansão ampla do oceano a clausura do pedrado Mediterrâneo, erguendo às portas do Atlântico padrões eternos do cometimento — as poderosas colunas.

Missionário do sacrifício, era a lei dos fados que o herói sucumbisse. Armou-se a intriga maldita do amor da esposa com a vingança do centauro e Ele foi vencido, o bom, o forte, o justiceiro, o sempre vencedor — pela traição do Destino. Sofreu como deve sofrer o sol envolvido no esplendor flamejante da própria glória e, como o sol, vestindo a túnica da sua tortura, Hércules fez a jornada do dia, caminho do ocidente, atravessando o teatro das grandes empresas, direito às nuvens sobre o monte, escuras como o pressentimento dos amores de Iola, e foi pedir sossego à morte na fogueira do Oeta, simultaneamente incendiada com a rebentação rubra do crepúsculo.

Cristo é a mitologia nova. Veio aperfeiçoar o mosaísmo no sentido do coração e substituir o ideal fatigado das aras pagãs. A fatalidade fluvial dos fatos reconquistara o primitivo andamento. Haviam renascido os monstros do sangue derramado dos monstros. O egoísmo, filho da Terra como Anteu, ressurgia da última derrota, válido e potente. Era preciso ensaiar de novo a Redenção do Cáucaso. Nasceu, então, o filho de Maria, por graça do Espírito Santo, como outrora o filho de Alcmene por obra de Júpiter. Repetiu-se o sagrado mistério da encarnação do Ideal na humanidade: veio à luz o inimigo da serpente do Gênesis, esmagada como as de Juno.

Mas estava transformado o mundo. Começava a civilizar-se o mal, perdida a feição rudimentar de brutalidade da natureza nascente, vegetando outro, sobre a geologia tranquila do planeta constituído; entrava até a decair a grandeza romana. O novo campeão, em vez da hercúlea dava teve o ânimo da propaganda e um ramo de oliveira. Paz entre os homens na terra, como a beatitude dos anjos na altura. Guerra ao demônio apenas, com as armas da fé e da graça. Crer e esperar. Guerra ao demônio sensualidade, guerra ao demônio ambição — inimigos da ventura calma do bem. Abaixo os altares do terror e do sangue! Façamos a eucaristia incruenta do amor.

Arranquemos a espada às mãos da velha Justiça, em nome da Justiça nova do perdão. Contra as vaidades, desprezo; contra as tiranias, paciência; contra as injúrias, silêncio: Jesus tacebat. Amor ao homem por amor do Ideal divino.

E espalhou-se pelo universo a doutrina do pregador Nazareno; ora, terrível de energia como no evangelho de ferro de São Mateus, com o estribilho tenaz dos prantos e o estridor dos dentes e o nervoso conselho: quem tiver ouvidos — ouça! ora, triunfal e radiante, como em São João.

À semelhança do seu antecessor da Grécia pré-histórica, Cristo acabou no suplício. Falharia, entretanto, a verdade do poema humano dos séculos, se, vitimados os heróis, não fosse salva a apoteose da Ideia. O Bem é imortal. Hércules ressurge:

Quem pater omnipotens inter cava nubilaraptur Quadjugo curru radiantibus intulit astris.

Cristo ressurge: Ascendo ad Patrem meum, ad Patrem vestrum. Cristo para a Bem-aventurança eterna do Paraíso; Hércules para o consórcio de Hebe, a eterna juventude.

D. Quixote é a decepção; é o retrospecto cômico da cavalaria andante de todos os tempos. Diante do descalabro miserando da angelitude prática, o livre exame fez a sátira do riso.

Colhei no ar a psicologia abstrata dos antigos empreendimentos, o espírito desolado que chora talvez na noite murmurosa dos salgueiros, no segredo dos pinhais dolentes, espectros de luar, que falam de Yorick na sombra e vão sobre as alvas campas; inspirai, depois, o sopro dessa vida às articulações crepitantes de um manequim de fragilidades; carregai os heroísmos todos das lendas mortas ao lombo do Rocinante, magro como a abstinência, fraco como os inocentes; dai-lhes por arma o lanção impossível, por glorioso arrebique o elmo rútilo de Mambrino; animai essa criação com a investidura galvânica do gênio de Cervantes. Agitai a virtude num cenário de anacronismo e desastramento; ao lado, como uma tinta de realce: a figura obesa de Sancho, chamando pela barriga, em contraposição à idealidade esgalgada do enamorado senhor e amo. Pronto o poema moderno das vinditas e dos desagravos, a epopeia atual da solidariedade.

Hércules é o ideal forte, animado pela exuberância audaz da adolescência virgem, do espírito embriagado de sonho. Hércules vence sempre, com a onipotência positiva do braço. Cristo é uma concepção hesitante já, como salteada de suspeitas filosóficas. Cristo transige com a ordem das coisas opressiva, e iníqua; fantasia de valor a fraqueza, denominando-a paciência, a derrota faz vezes de triunfo com o rótulo de sacrifício, humilhação chama-se humildade, impotência finge de superioridade; o seu Reino não é deste mundo; os últimos serão os primeiros. D. Quixote significa, em derradeira apuração, a crítica da bondade cristã e da bondade hercúlea. Cervantes fez obra de maldição, contando talvez escrever um livro desopilante de galhofa.

No âmago do caráter nenhuma divergência entre os protagonistas do romance histórico da Moralidade.

Quixote quer a Redenção dos homens como o Nazareno, como Hércules; por ela combate, por ela morre. Quer a consagração da mulher, estímulo nobre do seu brio; seria capaz de salvar Hesione, como o herói grego, se encontrasse O monstro da Frígia, e proporia a santificação do matrimônio, como Cristo, se não achasse a coisa feita no seu século. Tal qual o paladino mitológico, ele declara guerra aos gigantes; tal qual Cristo, prega e exalta as doutrinas da perfeição. Estote vos perfecti, reza o Evangelho; Dichosa edad, suspira Quixote, y siglos dichosos aquellos a quien los antiguos pusieran nombre de dorados... entonces los que en ella vivian ignoraban estas dos palabras de tinyo e mio.

As próprias aventuras da vida se assemelham. Há o prestigio feminino de Onfale, de Madalena; há o madrigal castíssimo da Sin par Dulcinéa. Se Hércules tem as ovações da Traquina, se Cristo tem as palmas da Páscoa de Jerusalém, Quixote tem a entrada em Barcelona. Um tem o retiro contemplativo da Lídia, outro os quarenta dias do deserto; Quixote tem a penitência platônica da Sierra Morena. Baixam aos infernos Hércules e Jesus Cristo; Quixote afronta a cueva de Montesinos.

O mesmo amor os absorve, do mesmo amor são mártires. No critério moral, o mesmo erro os vitima. Pecam por anacronismo os três. Ao anacronismo retrospectivo de D. Quixote, que perde a noção de atualidade para entregar-se à imaginação das medievas cavalarias, corresponde o anacronismo prospectivo dos cavaleiros andantes da Grécia e da Judeia, desvairados até ao extremo pelo idealismo da corrigenda e do aperfeiçoamento. Vai-lhes o coração através da existência real, como um fantasma, braços abertos, olhos no céu, sorrindo aos astros...

O anacronismo prospectivo é sério, respeita a gravidade dos heróis, deixa-lhes a pose de tragédia, aprumada e veneranda; o retrospectivo entrega o herói às cambalhotas e aos desastres da loucura patente.

O elemento real do humorismo de Cervantes é a extemporaneidade da segunda espécie. O seu personagem contempla o sétimo céu dos antigos sonhadores. O êxtase de Quixote anda de costas. Daí os trambolhões e a triste figura.

Não se trata de um anacronismo superficial de fardamento. Como encenação de ridículo isto já é uma utilidade eficaz. Cristo, por exemplo, que nos entrasse agora pela cidade em figurino de cartilha a evangelizar as massas de cima do burrico de Betphage, de dentro de uma amostra das alfaiatarias da Galileia. No batalhador manchego a caricatura é mais odiosa e mais profunda. O escritor o concebe em alma e vestuário na idade de ouro do cristianismo, ao tempo em que a espada era a força, mas o punho da espada era a cruz. E toda a memória sagrada daquelas eras vive pungente nos traços carregados do grotesco; e com as vaias de riso que envolvem o herói, roda de mistura todo aquele sonho sublime de virtude ultrajado pela nossa compaixão.

O livro é cruel. Não foi poupado ao pobre louco nem o suplício final da desilusão: fitar do leito de morte a vacuidade da sua existência de nulos combates e esforços vãos. Ele viu no terrível momento, que vivera enganado e triunfara sonâmbulo; que as palmas de Barcelona valiam antes o convulso alarido da populaça do Ecce Homo. Só então morreu, sob as lágrimas da sobrinha, sob o olhar sereno do cura, para reviver em espírito, da vitalidade invencível do Ideal, na pátria azul altíssima dos que sonham.

D. Quixote é o símbolo moderno do Bem. Todos os ideais vão passando. D. Quixote fica. Nesta idade de pessimismo e de ironia, vive; porque D. Quixote é o Ideal-sarcasmo. Sua filosofia ri, como se nascesse de Voltaire.

No fundo do cárcere a que o levara a ingratidão dos homens e a calúnia, Cervantes quis forçar às alegrias o honesto despeito de uma alma cruciada. Quis compor um poema de risos e produziu um libelo de vingança. Não há resistir à lei de unidade lógica dos cérebros. Outra não podia ser a resultante dos desesperos concentrados de uma vida inteira de heroísmos esquecidos e sacrifícios, outra a explosão do seu espírito soberano, gênio e bravura, acanhado nos melhores dias sob o favor de Mecenas que lhe impunha a gratidão como uma libré de casa nobre. Vítima do egoísmo e da prepotência, descrendo talvez, prelibara os desgostos de uma sociedade de um século por vir, em que não fosse mais possível o recolhimento e o amparo de uma instituição de caridade como ainda ele alcançou. O poema nasceu assim, saturado de fel, o molho das agonias, tão grato ao paladar moderno dos espíritos.

D. Quixote é nosso contemporâneo. E o simbolismo será tanto mais expressivo, tanto mais presente, quanto mais espessa for a atmosfera moral dos desânimos, quanto mais longe forem os tempos da vesânia generosa da humanidade.

No Vaticano, metrópole vastíssima e brilhante da Crença, onde se encontra também por toda a parte estampada a visão do Cristo na Cruz, vencido e agonizante, ou então feliz e transfigurado na glorificação fácil do colorido, exibe-se a mais bela memória de Hércules que nos deixou o passado. Lá está, respeitável ainda e temeroso, o Torso de Apolonius, o torso mutilado do Herói, vergando num desespero de musculatura, por arrancar-se à paralisia de pedra em que o esculpiram: sem pernas, sem braços, como o despacharam para a posteridade — o Leão mitológico da Justiça enjaulado na impotência da morte.

Triunfem as panaceias sociológicas, quando em remoto futuro, lavrada a superfície do globo pelo ferro de muitas civilizações, São Pedro e o Coliseu confundidos na fraternidade niveladora do acabamento — curioso há de ser a melancolia do investigador, comparando no Museu das Antiguidades, em meio dos destroços restos da velha Arte, o ideal de um tempo em que a Bondade era Hércules, o Torso, e o extenuado simbolismo do cavaleiro de Cervantes.

E a humanidade da época descerá, colhendo as asas de anjo da regeneração, a estudar nesse paralelo um terrível capítulo de história moral, e há de aprender quantas dores suaram os séculos para que perpetuamente não fosses, oh! criatura! ao lado das imagens dolentes da Suprema Bondade — a imprudência apaixonada de Dejanira, a vacilação covarde de Pilatos, a gana esfaimada do Pausa, trincando ao espeto a gorda vitualha de Camacho.

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