sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A morte de Berta (Conto), de Maria Amália Vaz de Carvalho


A morte de Berta

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Minha Naly, às vezes nos teus dias de bom humor, e sobretudo nos raros dias em que estás um pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de mim, num banco pequenino, e pegando num livro, — o teu livro de grandes bonecos coloridos —, finges que estás lendo umas coisas que a tua inquieta fantasiazinha de duende te representa, escritas naquelas páginas ainda mudas para os olhos da tua inteligência.

Com o teu adorável instinto imitador, arremedas-me inconscientemente.

És o meu epigrama vivo, um delicioso epigrama de olhos garços muito abertos, muito inteligentes, muito maganos, como ainda não vi outros em ninguém. Ontem, porém, estavas estranhamente curiosa.

Não te bastava o que fingias ler, querias mais, querias que alguém inventasse pela tua conta e risco, fingisse ler para que tu ouvisses.

Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste com a voz que os anjos costumam ensinar às crianças:

— Contas-me uma história?

Que história te hei de eu contar, Naly? Com a tua alma de quatro anos, tão limpa, tão transparente, tão cheia de ignorâncias ideais; com a tua alma de flor, só se entende a linguagem dos lírios, só podem compreender-se cantos feitos de luar, de perfumes, de cantos de aves, alguma coisa etérea, que eu te não sei dizer.

Venho contar-te esta história para tu a leres mais tarde, quando a mão de alguém — pede a Deus que seja a mão da tua mãe, Naly — houver arrancado ao teu doce espírito de borboleta o pólen imaculado e cintilante com que Deus o polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual? — a ignorância!

Então saberás o que significam estas linhas escuras, alinhadas sinteticamente na brancura do papel; terás chorado muita lágrima, meu anjo! a aprender cada uma destas letras, que hoje interpretas conforme te inspira a tua vagabunda e caprichosa imaginação!

E sentada numa cadeira grande, muito direita, um pouco revestida da elevada importância do teu cargo de leitora, repetirás alto à tua irmã pequenina este conto verdadeiro que na tua intenção aqui venho traçar hoje.

***

A pequena Berta tinha cinco anos, um só mais do que os que hoje contas, Naly.

Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa Senhora uma cabeleira de anjo, fulva, luminosa, feita de pequeninos anéis que se enroscavam, e que cintilavam ao sol, formando em torno dela como que um esplendor de glória.

Os olhos muito grandes, transparentes, azuis pareciam ter no fundo um segredo de doce tristeza. Um segredo que ela havia de saber muito cedo... no céu!

O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura das açucenas que desabrocham em maio, exalava como que um aroma de flor.

Bem vês que Berta era linda! Um amor! O orgulho e a ventura dos pais que se reviam nela.

Vivia numa grande casa aristocrática, discreta, forrada de colgaduras, de tapetes, de belos quadros antigos.

Descendo os degraus de mármore da casa em que ela jantava, entre o pai e a mãe, na sua cadeirinha de pés muito altos, ia ter a um grande jardim cheio de árvores cuidadas e decotadas pela mão hábil de um jardineiro inglês.

Muito gostava do seu jardim a pequenina Berta!

Imagina tu se ela não havia de gostar, Naly!

Havia li tantas flores, tantas flores! e depois eram de tantos feitios! Umas triunfantes, purpurinas, como se as tingisse um sangue novo e generoso, outras tão brancas como os braços ebúrneos da mãe de Berta, algumas tinham uma palidez fina e mórbida, que lembrava a das belas senhoras que ela via passar resvalando como sombras gentis, pelos atapetados salões da sua casa. Outras eram, de uma cor de rosa desmaiada e doce, que acariciava os olhos de quem as via.

As campânulas azuis, esbeltas, efêmeras, lembrando pequeninos cálices de cristal da Bohemia, trepavam amorosamente em volta dos troncos mais robustos que os cercavam; as margaritas com a sua alvura mate e o seu feitio de estrelas ressaltavam num adorável contraste da verdura clara e fresca dos tabuleiros de relva.

Havia flores muito direitas e esbeltas no pedúnculo delgado, que faziam pensar Berta, — não sei bem porquê —, nas lindas princesas dos contos de fadas, que vivem nos seus palácios à beira do mar, escondidas, discretas e cheias de majestosa gentileza.

Às camélias com a vitoriosa beleza do seu teclado de cores vivas e tão várias, lembravam a Berta a música que ela ouvira uma vez, num dia de parada, no desfilar aparatoso das tropas, música brilhante, sonora, marcial, feita do estridor dos clarins, da fanfarra triunfante dos instrumentos de cobre, de todas as notas bélicas que rebentavam no espaço, como que numa explosão harmônica e sonora!

Gostava muito das violetas — pequeninas e modestas, denunciando-se a medo pelo seu rasto de perfumes, — e que ela costumava procurar nas ervas para encher com elas a jarra de porcelana de Sevres, que havia sempre sobre a mesa de costura da sua mãe.

E não penses tu que gostava menos das árvores! oh! a alma de Berta expandia-se naturalmente para tudo que é bom e que é belo.

Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente recortados pela tesoura do Celeste Jardineiro, o alto céu azul, tão cheio de luz, e que sem ela saber porque, a estava chamando sempre!

Depois nas árvores é que vivem os pássaros, é ali que eles dependuram os ninhos, que eles modulam as suas cantigas sem libreto, que eles cantam a quem passa as suas alegrias e as suas saudades.

Às árvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, como se tivessem uma alma oculta sob a rugosa cortiça dos seus troncos.

Elias dão sombra, dão frescura, dão frutos, dão flor, dão um bom cheiro sadio, que reconforta e alegra; as árvores, minha Naly, são as nossas melhores amigas.

Tu hás de saber mais tarde, que no mundo há muito riso falso, muita amizade fingida, muita coisa que a gente julga sólida, e que no fim de contas está construída sobre a areia; mas os vegetais, os eternos amigos do homem, os que o nutrem e se nutrem dele, oh! esses nunca nos mentem nem atraiçoam nem dão conselhos maus!

O jardim era, pois, para a nossa Berta um mundo riquíssimo, um mundo misterioso, onde a vida palpitava, no inseto, na planta, no musgo, na ave, na terra fecunda e robusta, na árvore frondosa, na água límpida e corrente, em tudo que rescende e murmura, e canta, e pulula, em tudo que enlaça a alma do homem numa cadeia feita de embevecimentos mágicos.

***

E as boas horas passadas no gabinete azul o que elas não valiam para o pequenino coração de Berta!

Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta toda forrada e estofada de cetim azul, em que a mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.

Chamava-se Margarida a mãe de Berta, e era formosa, de uma delicada e frágil formosura, que despertava ao vê-la instintos de piedade e de proteção.

Alta, esbelta, levemente sonhadora, como quem tem cuidados que a preocupem, sempre vestida de seda com punhos de cabeção de rendas finas, um pouco amareladas, que punham na toilette de casa uns toques de aristocrática distinção. Nos cabelos bastos, louros e frisados, uma flor quase sempre colhida por Berta.

O pai, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha a virtude dos valentes: a bondade. Naquela fisionomia acentuada e trigueira o sorriso era tão doe que lembrava o desabrochar de um lírio.

Não estava muito em casa, tinha que fazer fora, andava ganhando a vida de elegâncias e de confortos, que viviam inconscientes, inocentemente egoístas, os seus dois frágeis amores — a mulher e a filha.

Mas quando ele estava, que festa!

Berta, ora enovelada aos pés da mãe, nas felpas aveludadas do tapete, e com os grandes olhos curiosos fitos nos dela, ora folheando um grande livro de imagens — como o teu, minha Naly —, ora empoleirada no espaldar da larga poltrona onde o pai estava sentado, e passando-lhe a pequenina mão crestada pela cabeladura revolta e crespa, Berta era a mais feliz das criaturinhas do bom Deus!

Era um gosto vê-los ali a todos três, na intimidade daquele viver de família!

Margarida, ao princípio, trabalhava sempre; nuns dias, um vestidinho para a sua querida filha, neutros dias, um pequeno objeto galante e mimoso para o escritório do seu marido; de tempos a tempos um enxoval para uma pobrezinha, um enxoval muito asseado, que Berta dobrava e desdobrava, que servia de tema para longas interrogações, e como que iniciação da criança na doce caridade da sua mãe.

O pai, quando voltava, tinha sempre tanto que contar!

Gente que vira, casos que lhe tinham sucedido! planos de futuro que andava devaneando, e depois risos, brinquedos, correrias atrás do diabrete da Bertazinha, eu sei!... o demônio a quatro!

Havia ali um conchego tépido, uma alegria, uma bênção de Deus, repartida por três almas, e que parecia refletir-se nas coisas mudas que o cercavam servindo-lhe de elegante e rendilhada moldura.

***

Queres tu saber, Naly? Berta tinha um defeito. Era um bocadinho egoísta. Um egoísmo de três, já se entende, porque ela não sabia separar a sua vida da dos seus pais.

Uma das manifestações mais claras deste egoísmo era a repugnância que tinha pelos estranhos.

Sentia frio ao pé deles; fugia muito pensativa e muito arisca quando via um indiferente interpor-se importunamente entre ela e as carícias que eram o seu alimento de todos os instantes.

Mas a pessoa que mais lhe agravava esta impressão hostil, era um primo que por aquele tempo começara a frequentar mais a casa.

Um rapaz, alto, elegante, bem parecido, muito falador numas horas de expansão, muito concentrado noutras horas, de bigode retorcido e triunfante, olhares que sabiam ser doces, e que eram quase sempre altivos.

E, contudo, que meigo que ele era para Berta, espreitando-lhe os caprichos, conformando-se com as brincadeiras dela, trazendo-lhe bonitos, flores, coisas novas, delicadas, que ela não vira nunca, e que, no entanto, vindas da mão dele lhe desagradavam instintivamente.

E que também o primo tornara-se de uma assiduidade irritante!

Primo para aqui, primo para ali, toda a gente gostava dele, para cada pessoa tinha um dito amável, uma intenção delicada, uma lisonja habilmente escondida!

Tratavam-no por tu, era admitido nas festas íntimas da família, ia ao jardim apanhar flores, acompanhava a mamã ao teatro! Uma usurpação em forma, uma usurpação revestida de todas as circunstâncias agravantes!
E depois usava essências.

Berta declarara com ar solene e majestoso, que embirrava muito com o primo, porque ele cheirava a pat-chouly.

E ela que andava habituada aos aromas frescos e sadios da livre natureza, não podia suportar aquele cheiro de essências requintadas, a que dava este nome genérico e detestado.

A mamã por ter de atura-lo a cada instante, renunciara aos seus doces trabalhos doutro tempo, de que Berta gostava tanto, e que davam às suas mãozinhas travessas a sensação grata das sedas, das bonitas fazendas desdobradas sobre o estofo das poltronas, de todas as graciosas coisas com que podia brincar.

Andava triste a sua adorada mãezinha.

Tinha horas de melancolia mórbida em que a cabeça lhe caía no peito, como se tivesse dentro estranho peso. E ficava-se horas e horas calada e desfalecida, com um livro aberto no regaço, ou com um trabalho apenas começado caído aos pés, sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena Berta...

Quando voltava a si daqueles sonhos doentios, parecia acordar de um mau sonho, passava a mão pela testa, bebia água, muita água, e beijava a filha com um arrebatamento que lhe fazia mal.

A pequenita enfastiava-se!

Pudera!

Fugia só para o jardim, sem que uma voz solícita e assustada a chamasse de longe, sem que uns olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se numa indistinta e muda linguagem que só as suas flores entendiam a queixar-se das tristezas vagas, que a definhavam longe do calor que dantes a acalentava e aquecia.

As tardes do gabinete azul, os princípios da noite, quando caía do alto dos céus a penumbra indecisa e dúbia do crepúsculo, tudo aquilo perdera a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!

No silêncio constrangido da saleta, retiniam então os passos conquistadores do intruso, e Berta com vontade de romper em soluços, pedia muito depressa que a fossem deitar.

Chamava-se a criada, vinha, levava-a pela mão, amuada, e ela, ao aconchegar-se nas roupinhas do seu leito, sentia ainda uma estranha impressão de desconforto e de frio. Era o beijo distraído e formalista, que lhe tinham imprimido na testa os lábios quentes, secos e febris da sua mãe.

***

Era noite de festa para a Bertazinha.

Estavam sós todos três no gabinete azul, o paraíso de outrora, onde agora não havia senão flores... que ela não colhera!

Berta alcançara licença para se deitar às nove horas.

Que bom!

Um longo serão de risos, de conversas sem tom nem som, de tagarelice inextinguível. O livro das grandes imagens, a boneca deitada no tapete, uma profusão de bonitos de todos os feitios — alguns, por pecados de Berta, tinha-lhos dado o negregado primo! enfim por aquele dia, Berta estava magnânima. Perdoava-lhes o virem da mão de quem vinham! — e eles dois, os dois amores, o papá e a mamã ao fogão, conversando com a intimidade feliz de quem se quer muito!

E verdade que a mamã estava pálida, tinha até nos olhos umas orlas roxas que pareciam de febre, e uma luz esquisita que lembrava aqueles clarões súbitos e fosfóricos, que costumam acender as bruxas, quando fazem os seus encantamentos e maus olhados.

Oh! mas que importavam a Berta sintomas que ela não via!

Estava contente, contente, e ia-se entusiasmando a pouco e pouco, à proporção que a alegria lhe inundava como uma onda a pequenina alma luminosa!

Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e aqui desmanchava um canudo, acolá despregava um alfinete, depois fechava um livro que ia começar a ler, amarrotava uma renda, trepava para cima de uma cadeira!

Que anjo! que demoníaco, feito de um bocadinho de azul!

Nisto, por um movimento rápido e imprevisto, atirou-se ao colo da mãe, mergulhou a mãozinha no decote quadrado do vestido, amachucou uma rosa, que ali parecia aninhar-se no meio das rendas, e arrancou com gesto triunfante um papel, um papel cor de perola amarrotado.

— Oh! gritou a mãe, fazendo se mais branca do que a cal; dá cá, dá cá, isso é-me preciso.

Quem disse lá que ela respondia!

Fugira rindo, rindo como uma doidinha, e fora esconder-se entre os joelhos do pai, agitando com um gesto de graça inimitável o roubado troféu.

A mãe erguera-se convulsa, trêmula, com tamanho desvairamento e tamanha angústia no olhar e na voz, que dir-se-ia que a esmagava uma catástrofe imprevista e tremenda.

— Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfalecida e suplicante.

— Papá, papá, esconde tu, respondia Berta! numa convulsão de riso. Ih! cheira a pat-chouly, cheira a pat-chouly.

Ele e ela, a mãe e o pai, olharam-se.

Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu, e Deus nos defenda de o vermos nunca!

Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de agonias silenciosas!

Depois o pai de Berta, afastando a criança com um gesto lento, desdobrou o papel e leu.

***

Já lá vai um ano depois daquela noite de festa, em que Berta alcançou licença para se deitar às nove horas.

Num ano quantas diferenças pode fazer uma existência!

E muda e triste a casa onde vimos tantos risos, está descuidado e cheio de ervas o jardim onde brincava um pequenino ser feito da luz das auroras, e da inocência dos lírios.

Berta está doente.

Na sua alcova branca e silenciosa, à luz dúbia de uma lamparina de jaspe, vela uma criada, enquanto a loura pequenina fita no teto os grandes olhos azuis e parece seguir as visões fantásticas de um sonho de febre.

Ao princípio era feliz, muito feliz. Quem e que viera destruir todas aquelas alegrias que pareciam querer durar sempre? A pobre doentinha não o sabia.

Diante dos olhos dela dançava teimosamente um grande demônio escuro, com muitos bonitos nas mãos e com um bigode retorcido e triunfante.

Que vinha fazer ali aquele demônio? Quem pode explicar o que são as visões de um delírio!

Depois uma certa noite, doce, iluminada, festiva. Que sucedera nessa noite? Meu Deus! Ela brincara muito, ainda mais que o seu costume. Não lhe lembrava mais nada, senão que fora deitar-se a chorar. Também não sabia porquê.

Desde então é que a sua vida mudara.

O pai repelia-a de si, sempre que ela lhe estendia os bracinhos, empurrava-a quando ela queria beija-lo!

Nunca mais houvera os serões do gabinete azul, nunca mais ouvira aquela voz paterna, tão grave, tão meiga, tão musical, acaricia-la como antigamente!

E a mãe?... A mãe definhava sozinha, mas naquela tristeza desolada, não admitia os beijos da sua Berta doutro tempo.

Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho seco no olhar:

— Vai-te daqui! És a causa da minha desgraça toda.

Berta não percebeu o que aquelas palavras significavam, mas percebeu o ar com que foram ditas!

Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a capoeira nem o viveiro dos canários, nem os peixinhos vermelhos do tanque!

Tinha sempre frio, muito frio.

Tiritava horas e horas a um canto da casa de engomar onde as criadas riam e palestravam indiferentes, com uma expressão de espanto, de surpresa, de desolação selvagem no olhar!

Parecia-lhe a ela que também estava na vida como uma intrusa. O que viera ela cá fazer? por que se não ia embora?

Sentia que alguém estava à espera dela, lá em cima, num sítio onde havia muito azul, muitas flores, um jardim mais bonito que o que fora dela, uns serões mais plácidos e mais cheios de risos e de carícias que os amados serões de outro tempo... que não podiam voltar!

E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave espavorida que vai levantar o voo para o infinito!

***

— Ai! a menina que vai morrer! — bradou a criada com muita ansiedade. — Chamem a senhora, chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer dizer adeus!

Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas que chamavam... depois, por duas portas diferentes, entraram duas pessoas.

Dois espectros do que tinham sido.

Olharam-se como que admirados de se verem ali juntos!

Miraram-se curiosamente como para sondarem os grandes abismos que os separavam dos dias de outrora!

Depois sem quererem, olharam ambos movidos pelo mesmo impulso para o pequeno leito de cortinados brancos.

Uma voz dulcíssima, toda mimo e toda súplica, chamou-os dali:

— Papá! mamã! adeus! Digam-me que são meus amigos agora que eu vou morrer! Como é bom ir para o céu! Nunca mais hei de ter frio!...

Se não fosse a voz e a expressão divina daquele olhar, quem diria que aquela que falava era a pequenina Berta!

— Ó papá, console a mamã, já que eu me vou embora! Voltem para o gabinete azul, e ao serão não se esqueçam de falar de mim!

Puxou-os a ambos com uma força que não parecia já deste mundo, e abraçou-os unidos contra o coração!

Todos três como dantes!

Quando ambos se ergueram daquele supremo abraço, os bracinhos dela tinham afrouxado e caído.

— Perdoa-me pela nossa filha que morreu! soluçou a voz daquela mãe dolorida!

— Perdão! Papá! murmurou como uma carícia de aragem uma voz que ninguém soube dizer se vinha da terra se do céu.

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