sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A perceptora (Conto), de Maria Amália Vaz de Carvalho


A perceptora

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Chamava-se Marta de Vasconcelos.

Era alta, loura, delicada como uma figura de Keepsake.

Uma fisionomia suave e infantil que cativava pelo seu encanto inconsciente.

A primeira vista, nas soirées semanais do comendador Gonçalves, vestida de branco, com um simples veludo negro nos seus cabelos crespos de um louro fulvo e ardente, parecia uma criança despreocupada e frívola.

Não o era.

Quem a conhecesse de perto sabia que ela tinha a seriedade precoce dos que já padeceram muito.

Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar azul, meigo e pensativo. Nenhuma ideia errada, nenhuma quimera juvenil na sua cabecinha de uma lucidez singular.

Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de ser digna; tinha a consciência da mesquinhez do seu destino, sem ter nunca aprendido a ser humilde.

Pouco falavam com ela, e no entanto parecia não dar pelo desdém quase brutal de toda aquela gente que a cercava.

Tinha um modo dócil e meio risonho de sentar-se ao piano, e tocava uma noite inteira valsas, contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na expansão da sua alegria burguesa.

Nunca lhe perguntavam se estava cansada, nunca lhe davam a menor mostra de interesse ou de simpatia.

Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham direito aos serviços correspondentes a essa remuneração.

As suas relações paravam aqui.

Não sabiam se ela tinha uma alma, se essa alma se iria azedando a pouco e pouco ao contato daquela indiferença cruel; não sabiam do seu passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam no seu futuro senão vendo-a eternamente curvada ao peso do mesmo destino ingrato.

Marta era mestra de duas filhas do comendador, duas rapariguinhas de treze a quinze anos, muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas do seu luxo, das carruagens em que andavam, dos vestidos de seda que vestiam, das festas com que os pais alteravam de vez em quando a chata monotonia do seu viver de negociantes retirados.

O comendador tinha um filho muito mais velho do que as irmãs, que se educara na Alemanha; e que depois de viajar pela Europa inteira, tinha regressado por fim à casa paterna, onde, aqui para nós, se enfastiava poderosamente.

O comendador queria dar também às filhas uma educação brilhante, uma educação que correspondesse às dimensões da sua burra, eis porque, depois de as tirar do convento, onde tinham estado até àquela idade, escolhera para professora Marta de Vasconcelos.

De resto as ideias do comendador e da mulher sobre a educação das suas filhas, não eram das mais engenhosas e atiladas.

A pobre gente — neste caso, pobre significa riquíssima — a pobre gente não era obrigada a ter um ideal muito levantado.

Sabiam que a filha do barão de tal tocava piano, e queriam que as suas filhas soubessem tocar muito melhor.

Tinham ouvido louvar os desenhos da menina Fulana e juraram aos seus deuses que as suas meninas lhe tinham de levar a palma.

Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente ideias relativas.

Excitar a admiração parecia-lhes uma coisa reles e insignificante; o que eles queriam era excitar a inveja.

As pequenas compreendiam isto maravilhosamente.

Em vendo uma amiga da infância, uma conhecida qualquer com um vestido maia bonito ou com uma prenda intelectual mais preciosa, tinham ataques de desespero surdo.

Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores sociais.

Andavam à busca de gente a quem pudessem ofuscar.

Eram simplesmente ridículas!

As vezes entravam no quarto de Marta e diziam-lhe num transporte de cólera:

— Quero saber alemão. A Mariquinhas sabe alemão, enquanto eu não sei.

— Quero aprender a bordar de matiz, a Júlia fez um quadro que eu não sei fazer.

Era assim que iam progredindo no estudo.

Marta conformava-se docilmente às aspirações das discípulas: ensinava-lhes tudo o que sabia, mas o que ela de todo não pudera, era inocular-lhes a vida interior que animava e coordenava todos os seus conhecimentos adquiridos ou intuitivos.

***

Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, afirmava-se mesmo que não fora para servir de mestra a burguesinhas pretensiosas que o seu pai, um pai extremoso, lhe adornara o espírito de todos os primores de uma educação excepcional.

Conhecia as línguas modernas, mas não como as conhecem as meninas que por aí conversam com os diplomatas, resumindo nisso todas as suas ambições de estudo.

Penetrara no espírito delas, compreendera o gênio especial de cada uma, sabia de cor e escolhia principalmente os poetas que sintetizam uma nacionalidade ou uma civilização.

Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a estudar a fundo todos os problemas em que outras mulheres tocam somente ao de leve.

A curiosidade natural ao espírito feminino, essa qualidade preciosa, que, descurada, se torna quase sempre num vício antipático, fora nela tão bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se tomara em fonte dos mais puros gozos do seu espírito.

Não sabia can-cans de salão, sabia o que dizem na sua muda língua os astros e as plantas; não tentara penetrar na vida íntima das suas amigas, contentava-se em saber a vida íntima da Criação.

Nunca lhe viera à ideia penetrar com o espírito no pélago revolto das paixões insalubres; a sua curiosidade insaciada debruçava-se de melhor vontade no pélago profundo das ondas, a quem horas e horas perguntava pelas misteriosas riquezas do seu seio.

No meio disto, despretensiosa e simples, julgando-se a mais ignorante das criaturinhas do bom Deus, não sabendo que era artista, que era inteligente, que tinha alma capaz de entender todas as grandes coisas.

O pai, que a vinha ver muitas vezes à casa da senhora a quem na infância a confira, disse-lhe um dia com o pejo a ruborizar-lhe as faces, com lágrimas a marejarem-lhe os olhos, que ela era uma filha natural, mas que tencionava reconhecê-la, regularizar a sua posição, dar-lhe todos os direitos que ela por tantíssimos lados merecia.

A adorável criança não o percebeu.

Então — castigo terrível das suas culpas — o pai teve de explicar, de fazer compreender aqueles castos ouvidos de quinze anos uma história deplorável, a história do seu crime!

Marta escutou-o num silêncio dolorido, com uma expressão de doçura triste no olhar.

Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros dias, porque até ali só tivera muito que agradecer e dali por diante sentia vagamente que tinha muito que perdoar.

— E a minha mãe? — perguntou depois com uma tremura na voz.

— A tua mãe morreu.

O pai de Marta era casado, tinha filhos, vivia para sempre longe dela nas tranquilas alegrias da família, uma família em que ela só podia ser a intrusa!

Desde esse dia Marta estudou com dobrado afinco, aprendeu com uma ânsia dolorosa, com um não sei quê de impaciência inexplicada.

Sentia que havia de ter muito que sofrer, muito que lutar.

Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espírito.

Era uma espécie de iniciação heroica.

***

O pai de Marta morreu.

Um dia, ao acabar de jantar, caiu para o lado inesperadamente, fulminado pela ruptura de um aneurisma.

A morte surpreendera o. Não tinha tido tempo de fazer nada em favor da sua desvalida Marta.

Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, muito pálida, mas com uma expressão estranha de firmeza no olhar, em casa do comendador Gonçalves.

***

Julião, o filho do comendador, tinha 23 anos quando Marta foi para casa do pai. Ao princípio pouco reparou nela. Imaginava-a uma mestra como as outras, o mesmo livro tirado a centenas de exemplares. Reconheceu somente que era um pouco mais bonita que a generalidade das suas colegas.

Um dia, porém, que ele lia Goethe no original, e que uma frase obscura do poeta o fazia parar na leitura um tanto impacientado e confuso, lembrou-se — acaso ou pressentimento — de recorrer à mestra de alemão das suas irmãs.

Entrou na sala de estudo, com um certo desdém a transparecer-lhe na fisionomia.

Pode ser-se educado na Alemanha e não compreender a obra “Fausto”: o que era no entanto absolutamente impossível, na opinião do rapaz, era não ter nunca estado na Alemanha e conhecer Goethe como um poeta nosso compatriota.

Marta conhecia-o.

Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou um relance de olhos para o verso de que se tratava, e depois, com um sorriso não isento de certa malícia inocente, explicou a Julião a ideia do poeta.

Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão superior intuição artística nos seus rápidos e despretensiosos comentários, que o rapaz olhou para ela deveras espantado.

Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.

Não lho disse, porém; pelo contrário, sentiu uma espécie de surda irritação ao perceber a sua inferioridade intelectual perante aquela criança tão simples, e que todos olhavam com tamanho desdém.

Marta percebeu porventura a impressão que despertara; o caso é que a malícia que lhe chispava no olhar acentuou-se com um indeciso cambiante de ironia.

“A pequena creio que se atreve a fazer escárnio de mim”, pensou Julião, saindo da sala, onde a juvenil perceptora ficou com as discípulas.

Desde esse dia Julião e Marta observaram-se mutuamente com mais atenção.

Ele achava a graciosa, simpática e boa sobretudo, tinha muita pena dela, ao vê-la desdenhada por tanta gente que lhe era inferior na inteligência, na coragem, na distinção, em tudo que pode tornar adorável uma mulher.

Marta sentia-se silenciosamente compreendida, e agradecia àquele rapaz esbelto e pensativo as delicadezas mudas com que a compensava do desamor de todos os mais.

Tocou então para ele as mais doces e sentidas músicas que sabia; os apaixonados noturnos de Chopin, as queixosas melodias de Schubert, as sonatas mais belas desse sublime surdo chamado Beethoven.

Conversavam um com o outro através da música, sem nunca se falarem de outro modo senão nas coisas mais banais da vida de todos os dias.

À tarde, depois de jantar, enquanto o comendador ressonava a sua sesta sobre a prosa elegante do Diário de Notícias, enquanto a comendadora meditava o rol daquele dia, digerindo um bom jantar, e um ataque de fúria contra as suas criadas presentes e futuras, enquanto as meninas debruçadas à janela, trocavam substanciosos comentários acerca de um alferes que morava no prédio fronteiro, e de uma menina muito namoradeira que morava no prédio do lado, Marta, sentada ao piano, desfiava sozinha o longo rosário das suas saudades.

Julião ouvia-a fingindo ler um jornal ou um livro, e a apaixonada artista bem compreendia que uma alma a estava escutando, e que essas límpidas notas que ela arrancava ao piano iam vibrar divinamente num coração que a entendia.

Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de uma família de parvenus, o santo orgulho dela, não menos implacável, porém muito mais nobre, os preconceitos, o dinheiro, quase que a honra; mas, que importava?

Podiam entender-se e amar-se através disso tudo.

E Marta, empalidecida pelas comoções que lhe agitavam a sua alma de artista, com uma expressão sofredora e apaixonada nos seus belos olhos de um azul escuro, contava a meia voz naquela linguagem inefável as suas dores, as suas humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias que tivera, tudo que ela tinha esperado na terra e que um dia se lhe tinha desfeito nas mãos, deixando-lhe apenas uma imensa, uma desoladora, uma eterna saudade!

Às vezes o piano chorava com ama desesperação tão inconsolável e tão profunda, que Julião tinha desejos de erguer-se da cadeira em que estava, de protestar contra os enérgicos lamentos que traduziam a dor insanável de um destino, e de gritar:

— Aqui me tem, pronto a lutar peito a peito contra o seu infortúnio, e a vencê-lo.

Mas não se atrevia!

Que diriam todos, que diria o seu pai, que diria a própria Marta?

Quem lhe dava a ele direitos de interpretar daquele modo a sublime execução dessa artista ignorada?

Quem pudera afirmar-lhe que era pessoal essa dor misteriosa que tinha soluços tão doces, queixas tão resignadas e tão mansas, lamentações de tão inefável ternura?

Um dia Julião quis sondar o coração tão calado da pobre mestra. Procurou fazer-lhe umas perguntas que não fossem por demais indiscretas.

Marta desatou a rir.

E verdade que no meio da sua cristalina risada os olhos se lhe afogaram em lágrimas; mas nesse instante Julião sentia-se tão envergonhado da curiosidade que revelara, que se não atreveu a olhar para a sua interlocutora.

***

O comendador Gonçalves era ambicioso.

Pudera!

Ou não fosse ele comendador.

Estava riquíssimo, mas queria que os filhos fossem ainda mais ricos do que ele.

Para isso andara a moirejar a vida inteira, por isso sustentara-se de pão negro e de bacalhau durante os anos mais florentes da mocidade!

O seu mais íntimo amigo, possuidor de um baronato, de avultada riqueza e de uma filha única tão prendada como ele desejava as suas, falou-lhe um dia disfarçadamente, com certa lábia, a respeito de Julião.

A meio entendedor meia palavra baeta; daí a quatro meses o comendador dava uma pequena soirée íntima, em que a menina Adriana, filha do Sr. Barão de X, e chegada há dias do Sacré-Coeur, era apresentada ao seu futuro noivo, o Sr. Julião Gonçalves.

Estavam só pessoas de família em casa do comendador.

Ele, a mulher, as duas filhas, o filho e Marta. Enquanto ao barão, viera simplesmente acompanhado pela filha.

Adriana era... o que dali a alguns anos tinham de ser as futuras cunhadas.

Tinha a mais umas tinturas de coquetterie parisiense, coquetterie mal ensaiada, mais colegial do que mundana.

Não se iguala nem se descreve o desdém com que ela cumprimentou Marta. Era uma vingança retrospectiva do que as suas próprias mestras lhe tinham feito passar.

Nos olhos azuis de Marta passou um relâmpago de cólera fugitiva, mas não disse nada. O que havia ela de dizer àquela gente, que a considerava um traste... bem pago?

Adriana, a quem cabiam as honras da noite, sentou-se ao piano e tocou.

Tocou as músicas de Marta, com a agilidade e com o preceito de uma pianista experimentada.

Depois, levantando-se no meio de palmas e de bravos, indicou a mestra o lugar que deixara numa espécie de altivo desafio.

E que uma das irmãs de Julião lhe dissera num risinho de malícia, que o irmão gostava muito de ouvir Marta.

A rapariga levantou-se com um gesto automático, sentou-se ao piano e sem mesmo olhar para as músicas dispersas principiou a tocar.

Foi um adeus soluçante, cheio de lágrimas, onde a espaços passavam como brisas refrigerantes, umas vozes indizivelmente cariciosas!

Foi uma história muito triste, que ainda ninguém tinha ouvido até ali, a história de um coração despedaçado!

Como ela lhe tinha querido, ao seu belo sonho desfeito, e com que dilacerante agonia lhe dizia para sempre adeus!

Na sala havia um silêncio angustioso e profundo.

O silêncio inconsciente que inspiram as grandes comoções.

Desde esse dia nunca mais ninguém ouviu a querida voz de Marta, aquela voz que tinha por intérpretes os mais sublimes artistas do mundo.

Ela continua a dar lições às filhas do comendador, e há no seu sorriso uma expressão divinamente dolorida, quando falia com Adriana, a feliz esposa de Julião.

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