quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A que soube vingar-se (Conto), de Medeiros e Albuquerque


A que soube vingar-se

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Otávia sentou-se diante das folhas de papel de carta e dispôs-se a escrever. Estava calma e decidida. No dia seguinte ia resolvesse a sua sorte. Praticamente, porém, era como se já estivesse resolvida, porque as duas soluções do caso do marido iam ter matemática mente à mesma conclusão. Se o marido fosse condenado, seria a miséria, porque ele nada tinha. Se o marido fosse absolvido, haveria logo após o divórcio e também por aí chegaria à miséria. Assim, o melhor era não esperar essa solução e, ao morrer, morrer bonito, parecendo obedecer a um alto ideal.

E sobretudo isto: vingar-se! Porque a sua cabeça estava cheia da ideia de vingança.

Ela se casara com o engenheiro Julião Arquimedes. Ele não tinha nada. Ganhava, porém, vencimentos enormes. Poderia dizer-se: enormes e justíssimos, porque ninguém o excedia em inteligência e atividade. Empresa que dirigia prosperava forçosamente. Era frequente virem chamá-lo para salvar algumas quase a soçobrar. Em pouco tempo as quase falidas entravam em franca maré de prosperidade. Por isso lhe davam os vencimentos que pedia, e ele não tinha cerimônia: fazia-se pagar regiamente.

Mas tanto ganhava como gastava. Vivia em verdadeiro fausto. Trazia a mulher num luxo deslumbrante. Era esta que frequentemente o precisava moderar Muitas vezes ele lhe trazia um novo vestido caríssimo, quando ela ainda não tinha estreado dois ou três outros. Mas Julião adorava-a.

No entanto, ela o enganou.

Como foi isso, um estranho não poderia entender.

Um jovem médico, de 22 anos de idade, o Dr. Lívio Tavares começara a fazer-lhe a corte. A bem dizer, essa não era a expressão exata. Ele era quase um adolescente. Acabava de formar-se, após um curso brilhantíssimo. Louro, bonito, era entretanto de uma timidez extrema. Sentia-se que se apaixonara por ela. Quando a via, sua fisionomia assumia quase uma expressão de êxtases, de adoração. Se tentava dizer-lhe um galanteio, ficava mais corado que ela. Não tinha nem procurava ter nada de um conquistador.

E foi, no entanto, essa adoração muda de um ser feito de beleza, mocidade e inteligência que a seduziu.

Quando ela cedeu e passou a viver entre dois homens que a adoravam, pôde comparar como essa adoração era diferente. O marido tinha por ela o que se poderia chamar uma adoração puramente física. Era a beleza, a perfeição do seu corpo que o seduziam. Nunca conversava, em casa, com ela sobre qualquer assunto elevado. Se para algum ela tentava levar a conversa, ele lhe respondia, sorrindo, entremeando a resposta com beijos, que só pensava em coisas sérias na rua. Em casa, queria descansar

— Em casa, sou analfabeto. Só sei conjugar um verbo: "Eu te amo, eu te quero bem, eu te adoro."

Mas aquilo a humilhava um pouco. Era uma prova de que ele fazia muito pouco da «sua inteligência; considerava-a uma criança, uma boneca de luxo — e nada mais.

Certa vez, chegou, radiante:

— Trouxe-te um presente. Mas para dá-lo, hás de ceder a um meu capricho.

— E faço eu outra coisa?

Ele a levou para o quarto, despiu-a toda, todinha, da cabeça aos pés, deitou-a sobre a colcha riquíssima de cetim vermelho, pôs-lhe na mão um espelho e ordenou:

— Agora, tu fechas os olhos até eu dar licença para que os abras.

Que seria? Ela estava intrigadíssima. Sentia que o marido lhe punha qualquer coisa no umbigo, mas não atinava com o que fosse. Aliás, sempre que ele a via despida, cantava um hino de louvor ao seu umbigo e beijava-o apaixonadamente. Mas desta vez que podia ser? Quando Julião lhe permitiu que abrisse os olhos, viu ela um formidável brilhante, que custara — nem mais, nem menos! — quarenta contos.

— Ó criança! criança! arruinava ela.

— Tu não imaginas como eu tenho pena de não haver um meio de engastar aí de um modo permanente, esse brilhante!

Ela perguntou, gracejando:

— Cola-tudo não serviria?

Mas foi uma grande dificuldade em obter que ele trocasse o brilhante monstro por joias mais discretas.

Nesse gracejo ia, porém, uma manifestação um pouco mais profunda do que parecia. Poder-se-ia dizer que era simbólico. De fato, se Julião pudesse converteria o corpo dela em um ídolo bizantino, constelado de pedrarias. Várias vezes lamentara não poder engastar um rubi em cada um dos bicos dos seus seios. Era o seu corpo que ele prezava como uma joia sem par.

Quando ela começou os seus amores com Lívio experimentou uma sensação nova. Este amava também, adorava o seu corpinho lindo. E quem, vendo-o, não o adoraria!? Mas não a considerava apenas um objeto de luxo.

Certa vez, começou a dizer-lhe os trabalhos, as pesquisas científicas em que estava empenhado. Ela o seguia com atenção e inteligência. Era bem claro que não podia entender pormenores técnicos... Fazia, porém, pequenas perguntas adequadas, claramente reveladoras da sua sagacidade. E ele descia ao nível intelectual dela, explicava-lhe tudo, maravilhado da sua lucidez de compreensão.

Certa vez, deitados lado a lado, após horas de amor ardente, a conversa subiu, elevou-se. Ele lhe disse o seu grande sonho. Expôs-lhe — sem pormenores técnicos, mas bem claramente, os vários pontos de vista de que tinham os sábios procurado resolver o problema da tuberculose... Ele julgava ter achado um modo novo, inteiramente novo, de encarar o problema. Nunca ninguém pensara nesse caminho. Ela o seguia, inteligente e maravilhada. Quando Lívio se calou, Otávia não pôde conter-se: juntando gestos infantis a coisas graves, sentou-se no leito, batendo palmas, com os olhos acesos de entusiasmo. Que mulherzinha encantadora feita de beleza, de paixão e de inteligência! Como ele lhe era grato pelo seu amor e a sua animação! Como Otávia lhe era grata por ter percebido que ela não era apenas uma teteia cara!

Mas Julião soube dos amores dos dois. Não precisou indagar muito. Teve notícia de que num dia da semana, em que o médico não dava consultas, Otávia o procurava. Ela chegava antes, abria o gabinete dele e aí ficava. Pouco depois ele chegava. Quem observara minuciosamente esse fato fora uma vizinha fronteira. Mas a sequência nesses dias não falhava: quando ele chegava, ela já lá estava.

No dia em que teve a certeza destes fatos, Julião ficou cego, desvairado de furor Era precisamente o dia das entrevistas. Partiu para perto do consultório do jovem médico. Chegou justamente a tempo de vê-lo entrar.

Deixou passar alguns minutos, sôfrego, impaciente, apalpando nervosamente no fundo do bolso do casaco, o revólver, e decidiu-se. Tudo se passou com uma rapidez inacreditável. Bateu na porta do consultório, o médico abriu imediatamente e Julião, com dois tiros à queima-roupa, o prostrou morto. Passou-lhe por cima do cadáver à procura da cúmplice. Não havia mais ninguém. Pela primeira vez, nesse dia Otávia não tinha podido ir. Ainda ele estava com a arma fumegante, na mão, estupidificado pela surpresa, quando atraídos pelo barulho dos disparos, entraram e prenderam-no.

Fez-se o processo. Otávia, interrogada, negou toda culpabilidade. Negou firmemente. Negou sem um desfalecimento.

Ela estava cheia de uma cólera furiosa contra o marido. Se ele a tivesse assassinado e entre o tiro, que lhe desse, e o momento final da morte houvesse apenas decorrido um minuto, ela o teria gastado a dizer "bem feito" e a perdoar-lhe. Mas que tivesse matado Lívio, que tivesse apagado aquele farol deslumbrante de inteligência, que tivesse cortado aquela flor de mocidade e beleza — era isso o que a enchia de uma indignação profunda, de um ódio imenso. Se pudesse vingar-se!

E de súbito uma vingança possível apareceu-lhe no espírito.

Vendo que ia ficar na miséria, disposta a suicidar-se, quis ao menos que a sua morte agravasse ainda a situação do marido. Ao menos isso! Várias vezes, diante dela, o marido criticara suicidas inábeis. Resolveu aproveitar-lhe as lições. Antes, porém, de o fazer, quis deixar expressas declarações da inocência de Lívio. Isso não podia deixar de agravar a situação de Julião. E escreveu ao Promotor que ia fazer a acusação, no dia seguinte:

"Quando vossa excelência receber esta, eu me terei suicidado. Faço-o sem obedecer a conselhos ou sugestões de quem quer que seja.

Absolutamente certa que depois da morte não há mais nada, é-me indiferente a opinião que de mim possam fazer os que eu vou deixar. Há, porém, uma coisa que se me tornou insuportável: não posso me resignar à ideia de que, por uma falsa acusação, um homem de todo inocente, perdeu a vida por minha causa. Esse homem nunca me disse um galanteio, nunca articulou diante de mim frase que não pudesse ser ouvida por todos. Só nos encontramos poucas vezes, em salões mundanos, cercados dos amigos.

No entanto foi pela mais infundada das suspeitas, à qual se viu associado meu nome, que ele morreu. Tenho absoluta certeza de não haver concorrido para isso de modo algum. Mas a ideia de que mesmo involuntária e inconscientemente meu nome se viu associado a essa tragédia me é tão penosa, tão dolorosa, que prefiro morrer "

Mais nada.

Feito isso — eram cinco horas da tarde — Otávia foi proceder aos últimos preparativos. Ela tinha abandonado a antiga casa, vendera alguns vestidos e joias, vivia agora em uma casinha pobre com uma das suas antigas costureiras. A comida lhes vinha de fora. Não tinham criada alguma.

Levou para a cozinha uma cama. Vestiu-se o melhor que pôde:

— A Morte, disse sorrindo amargamente, é uma grande senhora: merece ser bem recebida.

O marido tivera algum tempo antes algumas eólicas hepáticas e, às vezes, por isso ela lhe dava injeções de morfina. Restavam três ampolas. Ela pôs na mesma seringa, não uma como fazia para ele, mas todas três.

Feito isso, calmamente, abriu todas as torneiras de gás do fogão sem as acender e tomou a tripla injeção.

O sono não podia tardar. Não tardou. Um minuto depois, dormia. Alguns outros mais tarde, naquela atmosfera supersaturada de gás, estava morta.

Não sentira nada. Não tivera um gesto, uma contração. O marido tinha razão. Que bom suicídio!

Quando a amiga chegou da rua mais de três horas depois, não havia mais nada a fazer...

Deu-se naturalmente a invasão de fotógrafos dos jornais. E em nenhum destes, no dia seguinte, faltava o retrato da morta.

O promotor teve nesse mesma noite conhecimento da carta, que lhe era dirigida. Ficou radiante. Preparara cuidadosamente a acusação. Esperava brilhar no dia seguinte. Mas o reforço que aquele suicídio lhe trazia ainda lhe aumentava as probabilidades de êxito. Ficou até tarde no seu gabinete cuidando meticulosamente do discurso que ia pronunciar.

O advogado do réu não teve notícia alguma do que sucedera. Tinha ido ao teatro com a mulher e ao voltar soube que três repórteres o haviam procurado; mas acreditou que fosse por causa do desenvolvimento normal o processo no dia imediato. Só teve notícia do que ocorrera à porta do tribunal.

Neste, porém, não havia quem ignorasse o que sucedera: estava em todos os jornais. Não havia quem não tivesse diante dos olhos o formoso retrato da morta. Esse retrato, pela sua formosura, era um terrível argumento contra o réu. Vagamente, surdamente, mas irresistivelmente crescia em todos o ódio contra o homem que era também responsável por aquela morte.

A sessão foi calamitosa para Julião. As testemunhas de defesa, que ele apresentara, eram quatro. A bem dizer "deviam ser quatro". Na prática não foi nenhuma. A principal, a que morava fronteira à casa e fora a principal culpada de toda a tragédia, fez o que chamou uma "declaração de consciência", dizendo que de fato vira entrar no consultório do médico uma figura muito parecida com a de Otávia, mas que depois da morte de Lívio tivera ocasião de observar o mesmo fato e já não podia ser a moça. Admitia que pudesse ter-se enganado.

Toda a precisão dos depoimentos anteriores desapareceu. Desapareceu igualmente a das três outras testemunhas.

O que havia é que, entrando na sala, elas sentiam uma imensa hostilidade no público. Viam-se miradas agressivamente. Sentiam que havia uma antipatia geral e não ousavam sustentar o que tinham dito.

Deveras não ficou de pé nenhuma testemunha de defesa. Mas o episódio verdadeiramente significativo ocorreu quando entraram na sala as duas únicas testemunhas de acusação, que o promotor citara: a mãe e a irmã do moço assassinado.

Ambas eram muito bonitas. Bonitas de uma beleza feita de distinção aristocrática e fina. A mãe, ainda moça, tinha poucos cabelos brancos. Vestiam de preto, vestidos sóbrios, discretos, de uma elegância impecável. Nada de espetaculoso. Nem uma joia. Nada que chamasse a atenção — a não ser a beleza das duas e a tristeza profunda que as revestia.

Quando, feito um grande silêncio enquanto eram esperadas, elas assomaram à porta por onde entravam as testemunhas — e entraram singelamente, quase timidamente, cada uma apertando um lenço branco na mão — a assistência inteira, insensivelmente se pôs de pé. Foi irresistível. Isso, porém, dizia bem qual o estado de espírito da assistência.

O promotor desistiu de interrogá-las.

Chegou-lhe então a vez de falar e fez uma acusação vibrante, veemente, formidável. Dizia que tinha ido para ali acusar o autor de um assassinato e, de súbito, se achava diante do autor de dois assassinatos cada qual mais bárbaro — porque o suicídio de Otávia valia como um assassinato que Julião houvesse também praticado.

E, frente a frente, levantava as duas figuras: Julião, um impulsivo, uma fera sanguinária e perigosa que, a uma vaga suspeita, se atirava covardemente contra um homem, a quem não dava sequer o tempo de defender-se, e Otávia, um tipo tal de delicadeza de sentimentos, que, embora não tendo culpa alguma, não pudera suportar a ideia de ter concorrido para a morte de Lívio. E deste fez um perfil comovedor. Evocou as glórias que dele esperavam quantos o conheciam.

Baixinho, discretamente, procurando não chamar a atenção, a mãe e a irmã do moço choravam.

Chorava aliás quase toda a sala.

Foi neste ambiente que o advogado da defesa teve de falar. Habitualmente era um orador fogoso e eloquente, que arrebatava as multidões. Mas ali, naquele momento, isso seria impossível. Seu discurso foi lamentável.

Em dado momento, quando ele se arriscou a atacar Otávia como uma esposa infiel e ingrata, o promotor lhe pediu com falsa delicadeza:

— Dá licença para um aparte?

— Pois não.

— Para atacar uma mulher inocente, cujo corpo não está talvez ainda de todo frio, pede-se uma grande coragem. O ilustre advogado a possui. Não lhe dou parabéns por isso.

Rompeu na sala uma salva formidável de palmas. O Presidente precisou intervir, ameaçando fazer sair o público.

Mas o advogado ficou sobretudo aniquilado, porque fora ele que fornecera a entrada e a colocação de todo o pessoal feminino. E no entanto, esquecido de tudo, fora este que mais aplaudira o aparte do promotor.

O resto do discurso foi uma lástima.

Quando os jurados tiveram de decidir, tudo se fez em dois minutos: vieram com a condenação por unanimidade, com a rejeição, também por unanimidade, de todas as atenuantes.

E a despeito da advertência do presidente houve um formidável clamor de aplausos.

— Mas eu apelo, disse o advogado a Julião, para junto do qual tinha ido.

— Não, meu amigo, você não apela: está certo.

Otávia estava mais vingada do que jamais poderia pensar, porque era o próprio Julião que agora diante do ato da mulher e da sua negativa peremptória, perguntava a se mesmo se não tinha cometido um assassinato bárbaro e injusto.

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