quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A sombrinha de tia Eulália (Conto), de Medeiros e Albuquerque


A sombrinha de tia Eulália

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Tia Eulália pouco mais tinha de 40 anos. Talvez 42. Não era feia, nem destituída de elegância. Instruída, com a instrução que habitualmente recebem as moças, tocava piano, sabia muito bem francês.

Vivia agora apenas com uma sobrinha. Pai, mãe, irmã — tudo quanto era seu havia morrido. A mãe lhe deixara duas casas, uma na cidade, de cujo rendimento vivia, e outra no campo, onde vinha passar todos os anos alguns meses. Esse veraneio era anunciado a todas as amigas, como um grande acontecimento. Parecia ir para uma grande fazenda, uma propriedade considerável. No entanto, tratava-se de uma casinha minúscula, toda em diminutivos: uma salinha, um quartinho, uma salinha de banho, uma pequeníssima cozinha.

Um ovo — dizia às vezes D. Eulália. Dulce corrigia "um o vinho de juriti nanica"

— E há juritis nanicas? — perguntou alguém.

— Deve haver, pois lá temos o ovinho.

O terreno em torno não era pequeno.

D. Eulália tinha feito com um casal de portugueses, moradores ao pé da sua casa de campo — como ela chamava a sua biboca — um bom arranjo. Durante nove meses eles dispunham do terreno. Não ficava nele uma flor. Plantavam, segundo diziam, coisas úteis, por eles vendidas em proveito próprio. Em compensação, cuidavam da casa, o que não chegava a ser trabalho apreciável. Quando, com uma semana de antecedência, D. Eulália os prevenia da sua chegada, era como em uma cena de teatro; os canteiros de couves e nabiças desapareciam e outros surgiam, com flores diversas: os solícitos portugueses as recrutavam em diversas vivendas de cujos jardins tratavam.

A casa ficava apresentável. Ficava mesmo bonitinha.

D. Eulália era exigente. Poder-se-ia admirar o não ter-se casado. Ela achava para isso motivos diversos: a culpa tinha sido da mãe, tinha sido dos irmãos.

A ideia da dificuldade ter vindo dos difíceis tempos atuais, nos quais os noivos escasseiam, não lhe parecia bastante para explicar o fato. Muito menos o da falta de seus encantos. Sua vaidade fazia coisa bem frequente: passava adiante a responsabilidade. A culpa era sempre dos outros; dela não. E citava Fulana e Sicrana: pobres e incontestavelmente mais feias, haviam casado.

Aliás ela era fácil em dotar-se de virtudes e despir-se de defeitos. Se falavam em qualquer boa qualidade de alguém, intervinha quase sempre:

— Então é como eu. Precisamente o meu caso.

Mas se se tratava de algum senão, intervinha não menos depressa:

— De tal felizmente ninguém me acusará.

E graças a isso, se alguém lhe somasse as virtudes, por ela assim recrutadas, e lhe tirasse os defeitos, dos quais se desfazia, acharia uma criaturinha perfeita.

Certa vez, duas amigas — amigas bem íntimas — conversavam a respeito dela:

— Se tirassem a Eulália a vaidade e a inveja, ficaria uma rapariga encantadora.

A outra desatou a rir:

— Tu a assassinas e depois a elogias.

— Assassino, como?

— Se lhe tiras a vaidade e a inveja, não fica mais nada, nada, nada. É um assassinato, seguido da cremação do cadáver e dispersão das cinzas.

Mas havia nisso um exagero. Como, porém, as amigas hão de ocupar o tempo, se não falarem mal das amigas? Eulália tinha uma virtude incontestável: era uma tia perfeita.

Criara uma sobrinha órfã e professava por ela imensa afeição. Havia mesmo nesta uma singularidade. Eulália, quando moça, queixava-se das restrições da mãe e dos irmãos. Achava sempre que "hoje não se pensa mais assim. "Agora não se faz mais caso disso..."

Mas depois de assumir as sacrossantíssimas funções avunculares de tia tiíssima, era de um rigor implacável com a pequena Dulce. E, se esta alegava o fato de tal ou qual amiga proceder de outro modo, a tia Eulália saltava:

— Isso será lá fora. Eu hei de ter com você a mesma firmeza de minha mãe para comigo. Aqui em casa não há pouca vergonha!

E exercia sobre a sobrinha uma vigilância severíssima. Não a deixava pôr pé em ramo verde.

Naquela gloriosa manhã de janeiro, a tia Eulália saíra a passeio. Nunca faltava a tal dever. Isso fazia parte da rotina de todas as suas manhãs. Passeava durante duas horas. Depois, entrando, espichava-se na cama por cima dos cobertores — a cama já feita — e passava meia hora de imobilidade, de papo para o ar, absolutamente imóvel. Tinham-lhe ensinado também essa regrinha como de boa higiene e ela executava, como tudo o que fazia, metodicamente, religiosamente. Exercício de relaxamento muscular — lhe havia dito a pessoa que a iniciara nessa pratica. E ela comentara, não sem razão: "Exercício de não fazer exercício algum" Mas esse descanso dava, segundo lhe asseguraram, uma pele magnífica e precisamente a beleza da pele era um dos seus motivos de vaidade, aliás perfeitamente justo.

No passeio por ela feito quotidianamente, passava sempre por diante de uma bela casa cujo proprietário era um solteirão bem apessoado. Teria talvez 45 anos ou pouco mais. Era, porém, esbelto, elegantíssimo de roupas e de modos. Sabendo ser a passeante sua vizinha, tomara o hábito de cumprimentá-la. Dona Eulália correspondia, sorrindo, com uma leve, uma vaga esperança de que aquilo fosse mais longe. Quem sabe? De onde nada se espera, às vezes, vêm as melhores coisas. Mas um ano passara. O cumprimento não falhara nem um só dia e apesar disso as coisas não haviam progredido. Era mais uma esperança gorada!

Tinha nesse dia saído de branco, um vestido enfeitado de vermelho: punhos, gola, cinto, grandes botões. Vermelha era também a sombrinha.

Talvez o vestido fosse próprio para pessoa mais moça. Mas nela não estava fora de propósito, por ser como era, fina e graciosa.

Saiu, fez o seu giro habitual e quando chegou ao seu ponto costumeiro, voltou. Colheu no caminho algumas flores silvestres e meteu-as no colo. Eram também vermelhas: entravam, portanto, bem na harmonia geral da sua toilette. Ao passar diante da casa do solteirão simpático saudaram-se amavelmente.

Já tinha ela andado um pouco mais, quando viu — ó horror! — que Dulce estava na cancela, conversando com o namorado, o Eduardo Bastos. Tia Eulália conhecia-o e perseguia implacavelmente. Não acreditava tivesse o topete de vir até o campo e a ousadia de conversar com a pequena.

Estugou o passo.

Em dado momento, Dulce lhe percebeu a aproximação. Disse, fugindo, apavorada, ao rapaz:

— Foge; titia vem aí.

Mas isso foi pronunciado muito rapidamente. O moço nem a ouviu bem. Perdeu alguns minutos. Quando compreendeu o motivo da fuga da pequena, já não podia correr muito. Atirou-se para uma touceira de mato ali perto e acocorou-se atrás dela.

A manobra fora, porém, tardia. Tia Eulália viu bem onde ele estava escondido.

Brandindo a sombrinha, irritadíssima, gritava:

— Saia, saia daí, "seu" insolente.

E procurava, com a sombrinha mesmo aberta, atacá-lo, agitando-a, como se quisesse espetá-lo com o cabo.

Sucedeu então uma coisa absolutamente inesperada. Perto, estava pastando um tranquilo novilho, roendo à beira da estrada umas ervinhas sem importância.

Vendo que alguém, como um capinha de tourada, o provocava com um pano vermelho, o novilho deu uma arrancada e investiu correndo para cima de D. Eulália.

O Eduardo apercebeu-se do caso e levantou-se gritando:

— Fuja, D. Eulália!

D. Eulália viu também o perigo e resolveu-se a fugir. Não havia outro remédio.

A rapidez, desenvolvida por ela com suas perninhas finas e bem torneadas, não a colocaria mal em um torneio de corridas a pé. O medo faz milagres. Abalou por ali afora furiosamente.

O Eduardo lançou-se atrás do novilho pegou-lhe na cauda e pendurou-se nela. Ia aos trancos, arrastado pelo animal, mas não o deixava. Sentia estar-se ferindo de um modo horrível; mas sustentava a sua posição heroicamente.

Em dado momento, escorregando, a cauda lhe escapou, mas ele pôde segurar-se a uma das pernas do novilho. Isso o fazia ser barbaramente maltratado pelo animal; mas foi a salvação de D. Eulália. Entravava muito a carreira do garrote.

O suplício de D. Eulália aumentou, quando, na sua desabalada carreira, sentiu que uma das meias lhe escorregava pela perna abaixo. Ela teve — coisa horrível! — a lembrança de que nesse dia, por um relaxamento pouco habitual, tivera a detestável ideia de sair sem a cinta à qual prendia as meias. Enrolara estas abaixo dos joelhos. Mesmo correndo e desenvolvendo uma velocidade de campeã de corridas a pé, evocou a sua própria figura: como devia estar cômica! Se ao menos as meias se achassem esticadinhas, vestindo bem as pernas bem feitas! Via, porém, as calcinhas lá em cima, como roupa de meninota, uma meia caída e da outra perna o joelho de fora.

Felizmente o seu suplício não durou muito. O vizinho amável vira o caso, e acudia. D. Eulália estava a pequena distância. O melhor a fazer era atraí-la para o seu jardim. E isso ele fez. Abriu a cancela, — bonita, mas grande e pesada — e adiantou-se um pouco — a moça estava pertinho — gritou-lhe:

— Entre, minha senhora!

Deu-lhe a mão, puxou-a, fechou a cancela. O novilho já vinha perto. Perto vinham também em socorro chacareiros das circunvizinhanças. Eduardo estava a salvo e pôs fim ao seu suplício deixando-se cair. Não precisava continuar o sacrifício. Estava lamentável: sujo de terra, ferido, sangrento.

O dono da casa atraiu-o também.

Chegavam seus criados. Mandou que carregassem o moço para o quarto dos fundos no primeiro andar. Um latagão incumbiu-se disso.

Uma criada ocupou-se de D. Eulália, encaminhando-a para o interior da casa. O proprietário explicou-lhe:

— A senhora está em casa, não de um médico, porque para bem da humanidade nunca clinicou, mas de um doutor em medicina. Creio poder prestar-lhe os primeiros socorros, acrescentou gracejando, sem sua vida correr muito perigo.

— Muito agradecida, doutor. Mas eu vou já para casa. Apenas o tempo de fazer um pouco de toilette.

— Isso é que não. A senhora fica hoje aqui. No primeiro andar da nossa casa há três grandes quartos, cada um com sala de banho separada. Eu vou.

E ia anunciar o seu desejo de mandar vir a moça com quem ela morava, Dulce, quando esta apareceu, esbaforida.

— As senhoras são minhas hóspedes pelo menos até amanhã. E perdoem-me agora: eu preciso ir prestar socorro ao seu salvador — Meu salvador?!

— Sim! Aquele moço, que se sacrificou para dificultar a arremetida do animal. Todos em torno, ouvindo a conversa abanaram vigorosamente as cabeças. Alguns comentaram:

— A senhora lhe deve a vida!

— Moço de coragem.

— Sem ele, a senhora estaria em maus lençóis.

O médico — o Dr. Fernando Lemos — subiu, fez lavar as feridas do rapaz, deu-lhe uma injeção preventiva antitetânica e tratou-o com o máximo carinho.

No primeiro momento, o caso irritou Dona Eulália: o coro dos louvores ao seu salvador, ao rapaz a quem devia a vida, ao moço de coragem, não cessava. Buzinavam-lhe a paciência.

Recusou formalmente a oferta do Dr. Lemos para ficar na casa dele: nada mais absurdo, morando ela tão perto. Viria mais tarde saber notícias do "seu salvador"

Prontamente, ela vira o partido a tirar da situação e aceitava-a.

Voltou, de fato, a casa, tomou um longo banho morno, ou, como ela disse, esteve de infusão dentro de água na qual despejara um grande vidro de água da Colônia, cerca de uma hora, dormiu um bom sono, e absolutamente fresquinha, refeita, a garantir nada estar sentindo, reapareceu em casa do Dr. Lemos. Queria dar essa prova de energia e mocidade, mostrando como os terríveis acontecimentos daquela manhã não lhe haviam causado o menor abalo.

Quem não cabia em si do espanto era Dulce. Tia Eulália não lhe disse uma palavra sobre o caso, de onde proviera tudo aquilo! E começaram as visitas ao "salvador" Pretexto, delicioso pretexto para os encontros e as longas palestras com o Dr. Lemos. D. Eulália era uma boa conversa. Mas onde ela requintou de habilidade foi em certo estratagema.

Logo no primeiro dia, ao passar para o quarto de Eduardo, viu no patamar do primeiro andar uma prateleirinha elegante em que estavam seis volumes ricamente encadernados: literatura quase a sair da moda: Anatole France, Loti e outros. Seis apenas. Deviam ser livros queridos do dono da casa. D. Eulália tomou nota deles.

Chegada a casa, escreveu para a cidade a fim de lhos mandarem. Pedido urgentíssimo, em correspondência expressa.

Quando os livros vieram, ela se atirou, não a lê-los apenas, mas a devorá-los, a estudá-los. Uma ocasião (o Dr. Lemos saíra) teve na casa do médico ocasião de folhear os volumes. Viu neles diversos trechos marcados. Alguns estavam fortemente assinalados. Ela tomou nota. Chegada a casa, fez como uma boa aluna: decorou-os. Decorou-os bem.

Nisso se haviam passado quatro dias. As feridas do "seu salvador" estavam a bom caminho da cicatrização. Era preciso aproveitar, enquanto não chegavam a isso.

Habilmente, em uma das suas palestras, D. Eulália levou a conversa para os livros prediletos do médico. Mostrou conhecê-los a fundo.

Ele estava assombrado e encantado. Subiu para buscar os volumes. D. Eulália simulou grande surpresa: coincidência admirável de preferências literárias!

Quando achava certos trechos muito assinalados por ele, dizia-lhe gracejando:

— Quer tomar-me a lição?

E dava-lhe o livro aberto, para que fosse seguindo os textos que ela recitava.

Que moça de bom gosto! Que ilustração!

Nunca o Dr. Lemos achara nenhuma em tais condições.

É bem sabido, aliás, que de "bom gosto" são as pessoas que têm o nosso! Ora, Dona Eulália tinha exatamente o dele. Que encanto! É impossível imaginar o efeito que teve a hábil manobra da moça. Não se podia querer demonstração mais clara da coincidência de predileções.

Habilidades. Estratagemas.

"O essencial em tudo é ter em vista o fim", diz o fabulista:

En toute chose il faut considérer la fin.

O fim foi este: D. Eulália é hoje D. Eulália de Lemos, e Dulce, D. Dulce Bastos.

Decidido o noivado de Eduardo e Dulce, um dia, quando os dois saíram a passeio, encontraram na mesma estrada onde o haviam visto, pastando as mesmas ervinhas ralas, o mesmo plácido novilho. Só uma vez ele havia saído do sério, porque o tinham provocado. Eduardo confiou a Dulce:

— Quando eu vejo aquele novilho, tenho vontade de beijá-lo!

Dulce replicou, dando uma boa risada:

— Não vejo no caso nenhum inconveniente. Mas, quando fizer isso, passe o resto do dia a lavar a boca e só no dia seguinte pode me beijar.

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