quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Ao despertar (Conto), de Marques de Carvalho


Ao despertar

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

---

Nem tudo o que luze é ouro.
PROVERBIO POPULAR.

I
A alcova nupcial em noite de noivado.

Um perfume suave de flores volita invisivelmente pela atmosfera da peça, exalando-se dos grandes vasos de porcelana, onde as rosas variegadas em cores desabrocham opulentas, refletindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente cerradas... Uma lâmpada com vidros baços, cor de leite, esparge branda luz em torno, sem crepitação, numa solene impassibilidade, que dá certo ar majestoso ao silêncio do recinto.

Dois pares de pantufos de seda branca escancaram as cavas como num bocejo, sobre a fina alcatifa azul, aos pés da cama.

Em cima do leito, abandonada, a grinalda de flores de laranjeira repousa meio escondida sob um lenço de fina batista com um monograma bordado.

Há quinze minutos que a noiva penetrou no quarto, muito pálida e trêmula, seguida pela madrinha, e atirou sobre aquela cadeira preguiçosa o elegante espartilho e o corpinho de labirinto...

Há quinze minutos a jovem Paula, toda transida ante os mistérios que se lhe atulhavam na vida que ia começar em breve, deixou-se escorregar pelos finos lençóis e descansou a bela cabeça de paraense morena, em cima do travesseiro macio como a flor do algodoeiro...

E há dez minutos apenas que o seu noivo, o seu querido Alfredo, entrou a passos leves, amoroso, cheio de grandes anseios, com os lábios contraídos num leve ritus de satisfação, de ventura.

Dez minutos antes, ele descerrara as cortinas que se fechavam numa pudicícia, e murmurara baixinho, todo emocionado:

— Permites?...

E agora, enquanto eles dormitam, amorosamente enlaçados, sonhando felicidades paradisíacas, um perfume suave de flores volita pela atmosfera da peça, exalando-se dos grandes vasos de porcelana, onde as rosas multicores desabrocham opulentas, refletindo-se nos espelhos e como espiando curiosas para o leito de alvas cortinas discretamente cerradas.

II
O casamento realizado naquele dia fora o epílogo de um longo namoro de seis anos, muito abundante em peripécias interessantes, como indisposições súbitas, brigas e malquerenças de alguns meses por causa de nonada, e, depois, de repente, pela influência de não sei que espírito benéfico, pazes feitas com abundantes expansões apaixonadas, reconciliações ternas e carinhosas, que os prendiam temporariamente num enlevo.

O pai de Paula era um velho capitalista retirado dos negócios, brasileiro obeso e rubicundo a destilar suor e essa satisfação do homem rico que vive contentíssimo da sorte.

Criara para a filha um ideal — um casamento com um bacharel. Semelhante aspiração, incontestavelmente modesta, fizera o velho procurar certa roda, para a frequentar, quando a filha chegou aos 15 anos. Viúvo,— a mulher morrera-lhe de parto, ao dar à luz um ente raquítico, inviável,— deixava a filha nos salões e ia procurar as mesas de jogo, para encurtar o tempo.

Assim andaram os dois, por espaço de muitos meses, em verdadeira peregrinação à cata de casamento, quando, afinal, a sorte quis atendê-los e apareceu-lhes na forma de um elegante mancebo, que dias antes chegara de Pernambuco, sobraçando o pergaminho que lhe conferia o título de bacharel em direito. O dr. Alfredo sentiu-se cativo das graças de Paula. Aquela cútis morena e aveludada; os olhos dela,— duas bolas de ônix engastadas em amêndoas de jaspe, sombreadas por longos cílios sedosos;— os longos cabelos de ébano, ondeando-se-lhe pelas espáduas de farta carnação; aquele bonito torso de opulentos seios na apojadura da juvenilidade;—tudo nela prendia-lhe o enamorado espírito em os laços duma paixão tão sincera quanto profunda. Mas, sobretudo, o que mais o encantava, aquilo que mais o arrebatava a grandes êxtases gozosos, debuxando-lhe nos lábios um sorriso espiritualizado e prenhe de beatitude, eram os alvos dentes que perlavam as carminadas gengivas dela, quando Paula fitava-o sorrindo, com duas covinhas sobre as faces, bem junto ao rosto dele, como desejando magnetizá-lo.

Uma tarde, após haver contemplado os dentes da noiva por muitas horas, foi para casa com a alma perfumada pelo prazer e tão entusiasmado sentiu-se, que sentou-se à secretária e entrou a fazer uma poesia,— ele que jamais fizera versos! — uma poesia em que abundavam as palavras — sedutora virgem, divinal espírito arcangélico, em uma terrível mescla de enormes pés quebrados, com grande escândalo das regras formuladas por Antônio Feliciano de Castilho.

Finalmente, chegou o almejado momento do enlace matrimonial.

Preparando-se a fim de ir para a igreja, Alfredo só pensava nos dentes da noiva, nesses belos dentes muito brancos e pequenos que tanto o encantavam.

E fantasiava um capricho, cuja lembrança era suficiente para lhe dar ao corpo agradáveis tremores e arrepios: a si mesmo prometia que o primeiro beijo que desse à mulher seria nos dentes, bem no meio da boca!

Afinal, aqueles dentes eram uma obsessão para Alfredo. Para qualquer parte que volvesse os olhos, parecia-lhe avistar os dentinhos de Paula sorrindo-lhe amoravelmente, incitando-o a uma tentativa agradável de roubo de um ósculo. O colete, que ele enfiava nesse instante, assumia a aparência de uma dentadura mordendo-lhe nos ombros, perto dos quais pulsava o coração, arfando em anelos. E, quando o padrinho apareceu entre as coiceiras da porta, para lembrar-lhe que já era tempo de ir para a igreja, estava tão abstrato da vida regular, tão concentrado em suas fantasiosas meditações, que abraçou-o comovido, murmurando:

— Que bela dentadura, que tens!

III
Na igreja e à ceia opipara que seguiu-se à cerimônia religiosa em casa do velho pai de Paula, durante a longa e — para ele,— enfadonha conversação subsequente na sala, sob a claridade dos muitos candelabros, Alfredo só pensava na dentadura da noiva, enterrado numa poltrona, com a fronte meditativa, que fazia os convidadas murmurarem baixinho, ao ouvido, com um sorriso eloquente por traz do lenço amarrotado na palma da mão, opiniões em nada favoráveis à sua reputação de sobriedade em assunto de suco de uva...

— Que te parece o gajo, hein? — diziam. — Pois isso é lá coisa que se faça? Embebedar-se no dia do casamento...

— Que escândalo!

— Grande c... O que ele merecia eu bem sei.

E seguiam por esta norma os comentários —todos ressumando ideias gordurosas e indecentes.

***

Quando retirou-se o derradeiro convidado, Alfredo suspirou de contente, muito lisonjeado pelas felicitações que lhe foram feitas, com acompanhamento de expressivos beliscões pelos braços e nas gordas bochechas. Afinal, somente faltava-lhe descartar-se do velho sogro que, impassível como um abade após a ceia, fumava a um canto, afagando com amortecido olhar a fumaça do charuto, além de forcejar por combater a força dos vapores alcoólicos que lhe subiam ao cérebro, em razão do abuso que antecedentemente fizera das bebidas, à mesa, quando brindara, com exuberante veemência de gestos e linguagem, ao chefe político do partido e ao Manoel do Rosário, o comerciante que não trepidava em tomar-lhe dinheiro a juros de 30%, nas ocasiões de aperto...

Que ele, Alfredo, devia, e com muita razão, sentir a impaciência espicaçar-lhe as costas,— ponderou de repente o sogro, sorrindo malicioso;—que não se enfastiasse, porém, visto como ainda lá estava na alcova a madrinha de Paula, a preparar-lhe a toilette. Era natural aquilo tudo, ele bem sabia como eram essas coisas, porque também por elas havia passado... Que bom tempo aquele e que bela noite de himineu ele tivera nos braços da sua Sancha, uma odivelense tentadora como um demônio formoso!... Coitadinha! quantas saudades lhe fazia a evocação da memória da esposa! Como tinham vivido felizes, numa pacata amizade inalterável, abundante em amorosidades agradáveis e intermináveis! Que ele, dr. Alfredo dos Anjos, devia tratar de imitá-lo, para fazer a felicidade daquela criaturinha inocente e sem defeitos físicos ou morais que daquele dia em diante devia ser sua mulher. Que a poupasse, que lhe não desse trabalho em demasia para não a fatigar: o dote dela unido ao dinheiro que ele tinha, poderia proporcionar-lhes uma existência descuidosa nos braços duma indolência salutar propicia à gordura...

E entrava em demoradas considerações a respeito da boa vida,— como sectário da vadiação, que era.

Apareceu nesse instante a madrinha, despedindo-se logo, pretendendo recolher-se ao quarto que lhe fora destinado para passar a noite em casa dos noivos.

Alfredo não quis ouvir mais: ergueu-se de salto, deu um abraço ao velho e correu à alcova pensando sempre, cada vez com maior insistência, nos belos dentes de Paula.

IV
A alcova nupcial na manhã seguinte ao dia do casamento.

Pela janela deixada entreaberta, um raio de sol penetra na peça e vai beijar as rosas de várias cores que, emergindo de grandes jarros de porcelana, pendem as frontes fanadas, receosas de se mirarem aos espelhos, como invadidas por um pudor, em razão dos amorosos ruídos que durante a noite inteira saíram, por intermitências de longos sossegos, daquela cama honestamente encoberta pelos discretos refolhos das cortinas cerradas. Ao longe, no quintal, galos cantam alegremente, cumprimentando o sol e fazendo a corte às galinhas, que cacarejam esgaravatando o chão.

E um como eflúvio de ventura evola-se pelo aposento...

E a luz da lâmpada de vidros foscos diminui de intensidade, bruxuleia palpitante, ameaçando extinguir-se...

Em cima da cômoda, a grinalda de flores de laranjeiras oculta-se mais debaixo do lenço de custosa cambraia, como envergonhada, ou como enxugando nele as lágrimas que o espírito da Pureza houvesse porventura derramado sobre suas pétalas inodoras...

Aos pés da cama, perfilados sobre a fina alcatifa azul, os pantufos de seda branca escancaram as cavas, numa expressão de aborrecimento pela demorada imobilidade, numa expressão de apelo aos pés que devem calçá-los.

De repente sai do leito um suspiro mais profundo, o bocejo de quem desperta. E o cortinado descerra-se um pouco, para dar passagem ao jovem noivo, em cujos lábios se desenha um franco sorriso de satisfação íntima. E lá dentro, na meia sombra que as rendas projetam, dorme ainda a formosa Paula, seminua, no inconsciente despudor de um sono que foi agitado...

Alfredo olha para todos os lados, muito contente e risonho. Ao ver o raio de sol que beija-lhe as plantas, estremece de júbilo, gozando a sua ventura num devaneio de grande felicidade por vir... Mas de súbito, estarrecido, confuso, muito pálido e crispando as mãos, entra a tremer todo, com as feições demudadas, os cabelos arrepiados na cabeça incandescida!

À cabeceira do leito, sobre o elegante gueridon de jacarandá, estava uma dentadura patenteando um céu de boca postiço e acinzentado, feito de massa!...

E aquela monstruosidade era de Paula, ele bem a conhecia pelos pequeninos dentes iguais e perfilados corretamente...

Então, sentindo enormes dores em todo o ser, com o espírito prostrado pela emoção violentíssima, Alfredo cambaleou, soluçando, e foi cair à beira do leito, lavado em lágrimas, a murmurar num gemido:

— Estou roubado, estou roubado!

Nenhum comentário:

Postar um comentário