quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Rio abaixo (Conto), de Marques de Carvalho


Rio abaixo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A canoa seguia mansamente, per si só, impelida pela correnteza.

Sentado à proa, fumando num cachimbo de longo taquari, o caboclo fitava com o olhar indolente os altos e esguios açaizeiros e as longas folhas das bananeiras dum verde-claro alegre, beijados pelos últimos raios do sol, que escondia-se por traz da ilha das Onças.

Na popa, debaixo duma tolda de palha de ubim, estava o senhor moço, abanando-se com uma ventarola de penas vermelhas, ao lado da senhora moça, que espreitava para fora, por um dos pequenos postigos laterais. A seus pés, dormitava o cão Mururé, com um pedaço de língua escarlate caída para o lado esquerdo, entre os dentes meio visíveis.

O cheiro acre da maresia saturava a tolda. Periquitos gritavam nos matagais da ilha próxima; cantos sonoros de pássaros chegavam até à embarcação, numa suavidade docemente melancólica, que fazia sorrir de alegre ternura os dois viajantes.

— Que bonita paisagem, Antônio!

— É certo! Razão tinha eu dizendo-te que gostarias imenso da viagem.

— Quando chegamos ao sítio?

— Às 9 horas, isto é, daqui a três ou quatro.

— É pena chegarmos tão cedo!

— Dizes bem: vamos tão contentes...

E beijaram-se num ímpeto de prazer extraordinário.

O caboclo, que, por acaso estava a olhar para eles desde alguns momentos, voltou o rosto, embaraçado, sentindo queimar-lhe as tostadas faces um ardor de sangue equatorial em ebulição. Puxou do cachimbo demorada fumaça, para tranquilizar-se.

Os outros, os dois recém-casados,— porque Antônio e Luiza eram noivos: tinham-se matrimoniado quinze dias antes,— experimentavam, debaixo da tolda, uma sensação de inefável bem-estar ao verem-se naquele majestoso sossego, sobre o Tocantins, dentro da embarcação. Felicitavam-se mutuamente,— com o olhar cheio de carícias,— por haverem podido esquivar-se à vida agitada que levavam em Belém, sempre rodeados de visitas, cujas conversações banais, nulas, pouco interesse lhes davam. Mas agora,— como iriam viver felizes durante aquela quinzena de fuga, em a tranquilidade bucólica da roça, sozinhos, passeando sem companheiros importunos, ao longo do rio, tirando caranguejos da lama, lavando reciprocamente as mãos na água azulada e murmurosa dos igarapés!... E que festas fariam à hora do jantar, comendo peixinhos pescados por Luiza, e pacas, roliças de gordas, caçadas pelo Antônio nas matas do sítio?!...

Sugeridas pelo sopro de sossego que parecia rodeá-los no meio do rio, estas ideias levaram-nos a conversar animadamente, risonhamente, sem atenderem a que o sol não mais vibrava os látegos luminosos no dorso da corrente, e que, portanto, poderiam sair para o centro da canoa, a fim de gozarem da viração fresca e cheirosa que agitava num movimento descompassado as velas mal colhidas ao mastro.

Sempre assentado à proa, fumando sempre no cachimbo de longo taquari, o caboclo olhava agora para o poente, como confidenciando mentalmente com o sol, que deixara um rastro avermelhado no céu, onde agrupavam-se em desordem nuvenzinhas cor de nácar, violetas, azuladas, plúmbeas, cor de perola. Do lado oposto, levantava-se a noite, num andar manso, matemático, extinguindo a pouco e pouco o crepúsculo bruxuleante.

O gorjeio dos pássaros cessara na ilha das Onças, que já tinha ficado atrás, a longa distância; só chegavam à Canaã os compassos em andante do canto de um carachué que saudava a noite duma pequena ilha, rente à qual passou a embarcação.

— Vê aí no meu relógio que horas são, José, ordenou Antônio ao caboclo.

— Seis e trinta e oito, senhor.

— Oh! então saiamos daqui, filha, vamos tomar fresco.

Vieram para fora.

Luiza soltou uma exclamaçãozinha, sonora como um soneto de Paulino de Brito, engraçada como uma sátira de Júlio Cezar, com a sua voz dum timbre argentino como um filete de água morna caindo numa banheira de ouro lavrado:

— Ah! — fez ela.

E deixou-se ficar de pé, encostada ao ombro do marido, extasiada, em frente ao pitoresco panorama que apresentava-se-lhe aos olhos.

Largo em aquele sítio, achamalotado pela brisa, o rio abraçava numerosas ilhotas rasas, cobertas duma vegetação opulenta, que esbatia-se nuns tons escuros, quase indecisos, no limite do horizonte. Um sossego de tabernáculo reinava por toda a parte, sob o azul ferrete do céu, onde as estrelas começavam a cintilar como as pedras preciosas dum manto de rainha antiga. Nem uma nuvem ocupava nesse instante um espaço do firmamento. Ao longe, à direita da terra firme, tremulava uma pequena luz. A água do rio, no fim da vazante, esgueirava-se pelo costado da canoa num murmúrio dolente. A súbitas, na solenidade do silêncio, ressoou um grito de ave noturna.

— Acende a lanterna, José,— disse Antônio ao caboclo, que obedeceu logo, voltando depois à sua posição habitual na proa, fumando.

Antônio e Luiza tinham-se assentado sobre a mala que havia no centro da embarcação, entre dois paneiros de farinha sobrepostos, e uns grandes jarros com roseiras floridas.

Como tivesse refrescado o vento, Luiza sentiu frio, estremeceu. O marido foi à popa buscar um chalé, cobriu-lhe com ele os ombros, conchegando-lho muito ao pescoço, amoravelmente.

Depois sentou-se ao lado dela. Era profunda a escuridão. Do lugar em que achavam-se, apenas viam na proa um ponto vermelho como um carbúnculo: o tabaco a arder no cachimbo do caboclo. Este se tornara invisível na densidade das trevas.

Antônio e Luiza sentiram-se bem naquela solidão: entraram a conversar baixinho, muito unidos, de mil coisas que lhes compunham o passado de tão agradáveis recordações. Era para ambos uma inarrável felicidade poderem pairar, assim a sós, das peripécias do curto namoro, dos longos anos que ele passou a amá-la silenciosamente, das emoções e impaciências do dia do casamento, quando aproximava-se a hora em que o pároco de Sant'Ana teria de uni-os.

Soltavam risadinhas indiscretas, acariciavam-se com amor, com delícias, numa excitação dos sentidos. Um movimento instintivo,— inconsciente, talvez; cheio de afeto e volúpia, com certeza,— uniu-lhes os lábios num prolongado beijo de paixão, vibrante como um coro juvenil.

Ouvindo-o, o velho caboclo estremeceu, mudou de posição.

Pôs-se a pensar nas passadas e saudosas épocas da sua felicidade, fruída com a finada mulata, a quem tanto queria, no meio da vegetação selvática e cheia de grandiosidade das florestas amazônicas...

E um suspiro profundo, traduzindo uma saudade dolorosíssima, respondeu aquele beijo nascido de duas bocas amantes no silêncio de tão linda noite paraense.

Entretanto, a canoa seguia mansamente, rio abaixo, impelida pela correnteza.

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