sábado, 16 de setembro de 2017

Arrulhos (Conto), de Trindade Coelho


Arrulhos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Ao fundo do jardim ficava o pombal — uma casinhola redonda, com orifícios triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.

— Pombal da Morgada! diziam. — Lá se vê além... — E um gesto muito longo levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros, como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora, gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimônia — frangãos assados e boa vinhaça da terra.

Pombal da Morgada por quê? História singular que vou contar-lhes. A Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte desastrada do noivo — um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali, sem mais pio, num ai.

A recordar esse amor — um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a castidade das suas intenções dele...

Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos novos — todos brancos uns, raiados outros, de um gris delicadíssimo alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.

Belos pombos, na verdade!

Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas entrava de se desfazer em imperceptíveis nuances sutis, num “smorzando” melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de estrelas — todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto, espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de menagère, as provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço — milho em abundância e fartura de alpista.

Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só, retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar para que se distraísse, para que se alegrasse — “era nova ainda, podia arranjar noivo, nada mais fácil...”

— E as pombas? objetava. — Mas era pecado deixá-las, dizia consigo. Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las todas.

— Que não e que não! insistia renitente; — que tivessem paciência, que se divertissem muito, ela ficava.

— Platonismos! gargalhavam depois as amigas. — Saudades do outro que rebentou do trambolhão. Bem tola!

E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade habitual da sua toilette — vestido preto todo liso, muito afogado, um pequeno ruche no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.

Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã, desenvolvia a propagação o bom trato, a habitação confortável, muito abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram flácidos — folhas de milho mudadas cada dois dias.

Que bom, ser pombo da Morgada!

A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho, quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.

Hora dos amores!

Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente, lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam, ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam, possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada, arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois, hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez, muito felizes.

Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo, quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via, suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos — beijos com certeza.

Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a vida do pombal àquelas horas: — pombas que voejavam assustadas, esquivas mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava; e tudo gozava — quem era feliz e quem estava para o ser, quem era sanguíneo e quem era pachorrento.

Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma direção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num ruído muito doce de bicos que sorviam.

Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:

— Minha pombinha... minha amiguinha... minha querida...

Dali para o pombal, continuar aquela vida de boêmios felizões, vida de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de harém.

Poligamia desenfreada!

Exceção a ela, apenas um casal — a melhor pomba da manada, pomba branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto e cinzento, de nuances azuis-escuras, ares aguerridos de lutador vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

Era o pombo mais atrevido do pombal, o de gênio mais insofrido e espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço, nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios, sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando primazias à força de bicadas.

E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!

Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente, resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava, incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo amores.

Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cômodos de poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram de todos e as pombas eram comuns.

E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros — uma desfeita! uma ofensa! — tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao contrário.

Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho depois!

Um escândalo! Um desaforo!

E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas, levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados...

Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois, lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além, entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido sob a asa veludínea.

Dois meses assim — dois meses! — numa fidelidade conjugal ininterrupta, digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os senhores conhecem, não?... Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora, pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez...

Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia. Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos, modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.

Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam — rameira do raiado! — um dia levantou voo e fez-se ao largo.

***

Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao “vinagrinho” de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de “quinzena” e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilômetros só, havia um assim, o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo ainda ao tempo.

— Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas! — era assim que muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins, sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.

— Teologia velha, diziam, a genuína!

A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes a desabar, — uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era térreo, rimas de lenha seca de um lado e de outro, seguia-se a cozinha, um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que estavam.

Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a segurar a aba da “quinzena”, e um pequeno solidéu com borla resguardando-lhe a calvície.

A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:

— Fome as pombas, Sra. Luísa: não fazem senão saltar...

— Bem fartas! — retorquiu de dentro, da labuta da cozinha, — mas têm lá visita, pomba que arribou.

E depois informando:

— Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo...

— Huum!... resmungou o abade em voz de reticências. — Percebo... percebo perfeitamente... — E foi meter-se no quarto, continuar a leitura. Deixá-las! concluiu evangélico.

Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com grades só na frente, muito suja sempre, arrumada pra ali ao fundo da varanda, úmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.

Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:

— A sua vergonha, Sra. Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os animais não fossem também criaturas de Deus...

As pombas eram magras e o pombo era esquelético.

Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o pombo não a largava — gênio de libertino em corpo de tísico.

Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida, tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal, — saudosa do raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!

E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a, tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus tratos, — à intrusa. Dor incomparável!

Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar, descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar... O que ela tinha sido e o que era!...

Lembrou-se então do pombal, do seu primeiro ninho, do raiado... Oh! o raiado!... Receou primeiro, quem sabe se ele a quereria, tinha pomba, decerto... Iria?... Não iria?... O pombal ficava perto, um voo valente e estava lá, acharia tudo em casa, era cedo ainda.

Fez-se de voo e partiu.

***

A manhã era calma e o céu era azul. Canções de cotovias vibravam pelo ar que as balseiras alastravam de aromas, perfumando-o. A estrela da alva tinha os últimos bocejos para fechar de todo a pálpebra cansada e adormecer no azul; e o oriente começava de animar-se de um alaranjado esplêndido — decoração triunfal com que se orna aguardando a visita de quem tem de rolar pela eclíptica, alumiando o hemisfério e fecundando tudo — o cardo que rasteja e o cedro que vê longe...

Naquele repontar da manhã, o alto céu era de uma limpidez cristalina. Evolava-se de toda a banda um perfume virginal de dulcíssima paz, e pelas ramagens verdejantes a volata suavíssima dos ninhos começava, como uma saudação ao dia que vinha rompendo. No altar das laranjeiras, florido como em Domingo de festa, o rouxinol cantava a missa de alva.

Em manhãs plácidas como aquela, quantas vezes a branca não fizera as suas excursões alegres de touriste, na companhia do raiado, perdendo-se com ele através do horizonte àquela hora tranquilo e para toda a banda transparente!

Como tudo isto lembrava, agora!

Em todos esses pinheirais, ao largo, os dois haviam descansado muitas vezes, muitas, expandindo em arrulhos de uma ternura inefável o amor extraordinário que os unia! Em toda a largura não se descobria um só campanário ou um só telhado onde não tivessem pousado ambos, alegres, contentes, doidos! E ela sempre ufana, acompanhava o macho nos seus voos ainda os mais arrojados, perdia-se com ele para além das serranias mais distantes, destemida com a companhia que levava — um amigo que empenharia a vida só para salvar a da amante.

E que bela manhã, aquela! Tudo tão alegre! Era ver como as calhandras acordavam contentes, e se atiravam ares além no seu voo perpendicular e rápido!

Entravam de animar-se cada vez mais as ramarias, com a vida dos ninhos; melros ensaiavam solícitos a sua partitura vibrante. Mas a toda a largura — nem uma asa de pomba palpitava. Ela só, desalentada e cheia de mágoas, ia para onde a levava o destino, — quem sabe se para a morte...

Então chegou a branca ao pombal e voejou em torno espadanando as asas contra o muro, arremetendo os buracos, desejando entrar, faltando-lhe a coragem, voejando de novo para arremeter em seguida. Os seus antigos companheiros sentiram-na, conheceram-na, e arrulhando muito, e arrulhando forte, saíram em tropel e foram pousar no telhado, batendo muito as asas combinando ataque.

E como a pomba teimava em entrar, corriam a opor-se, vedando-lhe a passagem.

De repente, um pombo negro abriu muito as asas, agitando-as, tenteou voo nuns pequeninos saltos nervosos e investiu com a pomba, com a desgraçada pomba, e os mais após ele. Havia sangue nos bicos e penas voando em elipsoides, um barulho de asas que se chocavam com fúria. Por fim um baque, a pomba caiu no chão, toda sangrenta, um olho arrebentado, bico aberto, num arquejar convulso, cortado de um arrulho gutural de vida que se esvai lentamente, gradualmente, com dor. Um estremecimento de membros por fim, uma agitação geral repentina, e — morta!

Ares além, os assassinos em bando voavam à busca talvez de um ribeiro onde lavassem os bicos ensanguentados...

***

E o raiado? —hão de os senhores perguntar. Demorem-se um pouco e vê-lo-ão sair da janela das trepadeiras, alegre, felizão, boêmio, depois de uma noite passada na meia sombra dos cortinados leves de um leito, a rir, a amar, beijando o colo da Morgada, arrulhando com ela, arrulhando, ora um ora outro, — debicando... debicando... debicando...

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