sábado, 16 de setembro de 2017

Batalhas domésticas (Conto), de Trindade Coelho


Batalhas domésticas

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Para o meu propósito, é inútil narrar-lhes esse pequenino e perfumado idílio, cor-de-rosa, que foi na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo encanto. Isto em Lisboa, onde ele, Joaquim Seabra, maior, empregado de escritório comercial, vivia desde pequeno uma furiosa vida de trabalho. A mãe tinha-lhe morrido, ainda ele era fedelho: e passados poucos meses, tinha o Joaquim sete anos, uma doença complicada levara-lhe também o pai — homem de lavoura, pobre mas honrado, bronco mas leal, que nascera e levara a vida não me lembra em que aldeia da Beira, nas abas da Serra da Estrela.

Sentindo-se morrer, o João Seabra pediu os sacramentos. Deram-lhos. E quando o reitor ia retirar-se, grave, revestido, aconchegando ao largo peito o vaso sagrado das partículas, solene sob a umbela branca de grandes ramagens amarelas, o pobre homem preveniu o padre de que em podendo lhe desejava uma palavra.

— Volto por aqui de caminho, dissera o reitor.

Assim fez. Mas caso é que ao abeirar-se de novo do catre do doente, junto do qual estava o Joaquim, descalço, mal remendado, o velho, entreabrindo os olhos e cerrando-os logo para sempre, mal tivera tempo de lhe murmurar, designando vagamente o filho:

— O pequeno, coitadinho!

De modo que foi o próprio reitor em pessoa, quem, passados dois anos, veio meter o órfão, como marçano, numa loja de ferragens da baixa, loja escura, funda, com uma ventana de vidraças, combalida, dando para uns saguões de prédios contíguos. De marçano subiu com o tempo a caixeiro; e como era aplicado, humilde, suportando com uma placidez resignada de beirão um trabalho por vezes superior às suas forças, pulou um dia para a escrivaninha da casa, no andar de cima, vaga pela saída para a cadeia do outro que cometera umas falcatruas.

— Precisava um tiro nos miolos, esse cão! dissera diante dos patrões o Joaquim.

E a incisiva frase que fora, enquanto remexia a papelada, todo o seu comentário ao procedimento irregular do companheiro, valera-lhe a involuntária conquista do lugar, como revelação, que era, das qualidades fundamentais do seu caráter, — comuns, de resto, ao tipo beirão, profundamente animal, audaz, sóbrio, musculoso, no fundo generoso e bom.

A vida começou então a ter para ele umas entreabertas mais risonhas, livre dessa prisão estreita da escura loja, onde os seus instintos hereditários de independência, acordados no fundo de uma natureza bárbara de hermínio, tinham, de quando em quando, uns bruscos, violentos repelões de rebelião... Até que um dia, numa dessas guinadas que mesmo à escrivaninha o assaltavam, pensou em ir à terra onde não voltara desde pequeno. Ainda lá tinha uns tios, vivia ainda o reitor. E numa introversão de momentos, mirando através da janela o claro céu azul, alto naquela manhã serena de Maio, o Seabra teve a remota visão do seu passado — das coisas da sua infância, da sua pobre e humilde aldeia encravada num declive de serrania que ao longe elevava o dorso, nitente de neves eternas. E como se mirasse tudo através de um binóculo invertido, ele lá via além, muito longe para as sugestões do seu desejo, muito afastado para as débeis reminiscências da sua memória, tudo isso que ele dizia em três palavras — “a minha terra!” — isto é, esse montão informe de velhos tetos chamuscados onde havia um debaixo do qual nascera; o campanário alto e esguio; a igreja oblonga; a fita branca do muro do cemitério onde seu pai e sua mãe jaziam; a paisagem circundante cortada de canais e regueiras, que parecem fios de prata serpeando na esmeralda das baixas, toda retalhada em hortejos; e então a velha legião amiga das árvores — o zimbro ao alto dos morros nus; depois, descendo, as urzes brancas; os piornos; os belos carvalhos altivos; e já a meio da encosta, estendendo sobre a zona agrícola e hortícola o verde e tenro para-sol das suas soberbas folhas — o castanheiro, enfim.

Através da sua vida de balcão, duramente mourejada a mover barras de ferro, feixes pesados de vergas, ceirões informes de pregaria, com intermitências raras de descanso, algum Domingo, pelas hortas dos arredores, ou às vezes num bote, pelo Tejo, — a sensação melancólica da sua paisagem nativa não chegara a obliterar-se-lhe no cérebro, nem tão pouco a lembrança dos seus velhos conhecimentos de infância, dos seus companheiros de escola que iam todos os dias, de manhã e de tarde, à lição a casa do reitor, naquele velho sótão da residência, com paredes denegridas e teto de madeira com manchas...

E que seria feito deles? Talvez que os não conhecesse, que o não reconhecessem, agora. Talvez. E esta dúvida, esta desconfiança, dava ao seu desejo de os ver, de se lhes mostrar, — com o seu fraque, a sua bengala, a sua cadeia de ouro escorrendo sobre o colete claro — o encanto sutil e ingênuo de uma vaidade. E acabou de o decidir, enfim, a propor aos patrões essa viagem, certa imagem de rapariga loira, olhos azuis e toda rosada de cútis, que ele, sem quase dar por isso, espontaneamente, insensivelmente, fora sabendo, de longe, que se conservava ainda solteira...

...a Emília!

E porque seja estranho ao meu propósito, e quase indiferente à história que lhes vou contando, a crônica preliminar desse consórcio, direi que a velha estola do reitor os uniu enfim uma manhã — manhã de Julho, na velha e ampla igreja da freguesia, toda banhada de sol, toda rumorejante de vozes, e sobre a qual caía sem despejar, como uma chuva alegre de pétalas, a saraivada metálica dos sinos, repicando... Até que passados dias, ei-los enfim em Lisboa, instalados não sei em que beco da Baixa, perto da “obrigação” do Joaquim, que era, como lhes disse, o escritório.

E aqui rompe a história; e se é do agrado dos senhores, comecemos.

***

Bem, aquele primeiro ano. Por uma banda a Emília a cuidar da casa, toda se desvelando nos mínimos pormenores do interior, na cozinha, no amanho das roupas, no decorativo, mesmo, dos quartos e saletas que a mobília, comprada de novo, tornava alegres e confortáveis. Ele, por outra banda, trazendo-lhe nos fins dos meses intato o seu ordenado, e trazendo-lhe, cada dia, uma carícia mais fresca e mais suave. E dada a homogeneidade dos seus temperamentos, a proveniência comum das suas naturezas, originárias do mesmo solo, filhas da mesma raça, temperadas do mesmo sangue, ricas das mesmas infiltrações de seiva e de saúde, explica-se logicamente esse paralelismo absoluto de vontades que os dois levavam na vida, sem um choque nas suas aspirações, sem um encontro avesso nos seus desejos, sem a mínima divergência no seu modo de ver e de pensar. Educados em meios diferentes, embora! o que nas suas naturezas havia de fundamental, e até de intensamente uniforme no raio visual das suas inteligências, tornara podemos dizer nulo, sem consequências no fio comum das suas vidas, esse largo período passado em latitudes diferentes: — ela, onde ambos tinham nascido, debaixo do mesmo céu, à luz do mesmo sol, à sombra das mesmas árvores; ele, sequestrado de tudo isso, mas num meio sem cor para ele definida, pardo, estreito como uma gaiola, e onde, portanto, a sua natureza se conservara estagnada, — estagnada como uma pequena lagoa, dormente debaixo do luar melancólico...

Vinha daí, e do fundo ingênuo das suas almas, estreladas das mesmas superstições, povoadas das mesmas imagens, embaladas, ao nascerem, ao ritmo da mesma canção, essa forte, dulcíssima corrente de ternura espiritualizada que era o motor primeiro dos seus abraços, o mais vivo e fresco perfume dos seus beijos, a mais alta, a mais serena e orvalhada eflorescência do seu profundo amor... E pois que havia também no sangue de ambos — bem como no seio de um diamante as iriações mordentes — as rubras, incandescentes faúlhas de uma animalidade impetuosa, adivinha-se quanto seria intensa nos dois a vida sexual, — casta a despeito de tudo, vivente como um largo pâmpano, nimbada, enfim, como certas telas clássicas, por umas cabecitas loiras de crianças, frescas, ridentes, cor-de-rosa...

Daí, como lhes disse no princípio, esse pequenino e perfumado idílio, cor-de-rosa, que fora na vida de ambos, durante um ano, o seu mais vivo encanto...

***

Em certo dia, porém, regressava o Joaquim do escritório, noite cerrada já, quando uma rapariguita que lhes servia de criada havia dois dias, vindo abrir a cancela, lhe desfechou estas palavras no acento beirão:

— A minha madrinha está muito mal.

— Muito mal?

— Sim, parece que lhe deu pela cabeça não sei quê.

Joaquim Seabra estacou, como que fulminado. E encostando-se à umbreira, para não cair, sentiu passar-lhe pelo cérebro, como um tufão de peste, uma ideia que lhe fez vertigens. Teve um pressentimento... E cobrando alentos, confuso diante da rapariguita que o olhava, disse-lhe com a voz trêmula, no tom de quem procura, comprometido e humilde, esconder um pensamento:

— Bem sei... Isso costuma-lhe dar... Uns ataques... Foi depois que veio da Beira.

— Parece que lhe chamam flatos, volveu-lhe a pequena. — Fica-se como doida...

— Sim... chamam-lhe flatos... fica-se como doida... É isso.

E como se sentissem passos subindo a escada, inquilino ou pessoa do andar de baixo, — talvez alguém que o procurasse! — fechou a porta com força; e apagando a luz, com um sopro trêmulo, coseu-se a um canto impondo silêncio, com a mão sobre a boca arquejante da rapariga.

— Cala-te, ouviste? disse-lhe quase com o bafo — Se te calares hei de te dar dinheiro. Cala-te.

A rapariga calou-se, aniquilada, toda enroscada a um canto, como um novelo. E passados instantes, quando um grande silêncio envolvia todo o prédio, ouvindo-se apenas, de quando em quando, o rodar de algum trem nas ruas próximas, o Seabra tomou nos braços trêmulos a pequena, e foi, cauteloso como um bandido, levá-la à cama.

— Ouves, Luísa? Não faças bulha. Dorme.

E fechando-lhe a porta à chave, respirou, hirto no meio do corredor em trevas. Devia de ser assim a sepultura: aquele silêncio, aquela escuridão impenetrável! E ele, como um cataléptico, ali encafuado vivo... — triturado pela mágoa, roído pela dor, desfeito pela desgraça, como se milhões de larvas o triturassem, roessem, desfizessem, implacáveis e cruéis, famélicas da última partícula da sua carne, sedentas da última gota do seu sangue, famélicas e sedentas até da sua própria alma... Vivo, ó Deus cruel! ó Deus desapiedado! Vivo e no entanto... morto: vivo para a sensação esfaceladora da sua atroz desgraça, do seu cruel, cruciantíssimo martírio; morto, aniquilado, desfeito, para a visão auroreal das suas esperanças... — as suas esperanças! revoada alegre de pombas, cândidas, serenas, imaculadas, que um tufão de desgraça varrera do ninho do seu peito, para longe e para sempre...

E humilde como um rafeiro ou como um trapo, numa prostração de louco embriagado, dir-se-ia que o cérebro deixara de funcionar nesse infeliz — como relógio subitamente parado, marcando um momento fatal! — e que tudo quanto ele sentia, e que tudo, oh Deus! quanto ele gozava! era essa impressão aniquiladora do “Nada”, que o fundia na treva circundante, com ela identificando-o, irmanando-o, confundindo-o, e tanto e tão intimamente, que ele próprio nela se sentia diluído, e no silêncio...

Súbito, porém, a um gemido, a um grito, a um ranger, escoado ali de perto como um réptil, escoado ali de perto, como um verme, fosforejante na treva à semelhança de um demônio, que agitasse um pierrot de cascavéis, — uma centelha de vida animou esse corpo aniquilado, e dentro daquele cérebro fez repontar, como luz de lâmpada funérea alumiando um cenóbio silencioso, a chama de uma ideia... E teve então de si próprio a estranha, diabólica visão de um esqueleto carcomido, desossado, alquebrado, mirando pelo arco imóvel das órbitas, donde dois feixes de luz escorriam — aquele trapo miserando ali caído, informe, esquálido, repelente, montão de gelo, e lágrimas, e trevas... — que era ele também!...

Entretanto, e como por força mesmo dessa alucinação desvairada e trágica, o cérebro perdera nele a reta, serena faculdade do raciocínio, ele continuava absorto, incompreendido, estúpido, diante da “sua desgraça” — como diante de um grande mar de negrume, profundo e estagnado, por uma noite sem lua e debaixo de um céu sem estrelas, torvo de um burel cerradíssimo de nuvens, a sombra de um espectro... E assim em breve, retombou nessa altitude que diremos irracional, — mudo, aniquilado, desfeito, no meio da treva silenciosa, como no lodo fundo de um poço um bloco inanimado...

***

No escuro do seu cubículo, a pequena soluçava a espaços. E era como se a própria treva soluçasse, esse chorar abafado da criança, espavorida das coisas que a cercavam, para ela misteriosas e fúnebres. Era como se um alegre pintassilgo, vivo, irrequieto, palreiro, fosse do seu ramo florido de amendoeira, por uma tarde serena de Abril, pousar, num voo de acaso, na mansarda tristonha de um morcego, em qualquer frincha desabrigada de velho muro, abandonado algures...

E por que viera? E para que viera? Não sabia. No entanto, ao contrário do que lhe tinham prometido, que saudade infinita, repassada de profunda nostalgia, da telha vã do seu humilde casebre, através do qual passavam os primeiros alvores da manhã, como um perfumado beijo de frescura! Dois dias, apenas! Entretanto, já dois dias! Tanto tempo em tão pouco tempo! E não tornara mais a ver pássaros! e não mais tornara a ouvir, de manhã, tocando à missa de alva, tangendo à tarde a ave-marias, o seu querido e alegre sino de aldeia... — além, naquela riba suave e pitoresca, prateada, beijada do luar àquela hora!... E o fio do seu pensamento, que outrora derivava límpido, sereno, cristalino, como pequenino arroio murmurante que vai entre duas alas de flores singelas, torvelinhava agora estupidamente, desnorteado, ao acaso, convertido num veio torvo, lodoso e borbulhante, soluçando, como se fora de lágrimas, oculto sob a folhagem pálida...

***

A dois passos, no corredor escuro, o outro continuava prostrado, junto da porta que dava para o quarto onde a mulher, deitada, devia talvez dormir, de borco sobre a roupa revolta, ou no chão talvez... Mas como acontece às tempestades da natureza, também a tempestade daquela alma de homem entrou de se diluir em pranto, pouco a pouco, serenamente, gradualmente. Chorou. E como se fora o véu das lágrimas que lhe não deixara ver até então os pormenores do seu infortúnio, deste permitindo-lhe apenas uma sensação que diremos informe, entrou de se fazer com a vazante mais lúcido o raciocínio, mais precisa e mais esperta a ideia que se lhe acendeu no cérebro, como luz que pouco a pouco vai surgindo na lâmpada de um claustro, alumiando nitidamente, sob o dossel frio das sombras, as arestas marmóreas de um sepulcro...

Ah! mas então, sob a impressão raciocinada e fria da sua tragédia, cujas linhas contornais pareciam feitas de gelo, uma nova tempestade rebentou, — como uma trovoada enorme em tarde seca de Maio. E foram então as imprecações, os gritos estrangulados irrompendo, em surdina, por entre as maxilas ferradas, do fundo do peito em ânsias. Então foi o arrancar convulsivo dos cabelos, às guinadas, teimosamente, num duelo de loucura com a dor física, desafiando-a, espicaçando-a, dando-lhe a beber o próprio sangue do peito, rasgado pelas dez unhas crispantes, lacerantes como se foram de abutre.

— Ah! raios do céu, e não morro!

E como o grito lhe saiu mais alto, prestes levou ao chão, como beijando-o, os lábios estranhamente rasgados pela cólera. Veio-lhe então o pudor melindroso da sua desgraça, o medo horrível de que se divulgasse, de que os outros a soubessem, — de que a pequenita, mesmo, a conhecesse... O que diriam? o que pensariam? E todo ele se encolhia, e todo ele se sentia gelado até ao mais íntimo da sua alma, supondo-se na rua, como outrora, ao vivo e claro sol, levando aderente às costas, como um ferrete ou como um cáustico o olhar de “toda a gente”... E com as unhas ferradas na testa, escondia da própria treva, com as mãos ambas, o rosto cobarde e arrepanhado.

— Diabos do Inferno! levai-me!

A este novo grito, porém, súbito se recolheu num grande pavor religioso. Do fundo da sua natureza alguma voz se elevou, serena, doce, harmoniosa, como na paz tranquila do campo o fumo azul-claro de um casal... E teve a doce visão de um arco-íris, bonançoso e rutilante, repontando luminoso no burel aspérrimo da sua alma, onde uma clareira se abria. E foi quase a sorrir, chorando as primeiras lágrimas tranquilas, que dos seus lábios quase serenos voou como uma pomba alvinitente, que transporta no rosado bico um ramo de oliveira, esta palavra de amor:

— Deus!

E para logo sentiu sobre a sua fronte, de manso e manso erguida num como enlevo de visão, um ruflar de asas de pombas... à hora da alva... sobre os campos... numa clara manhã de Maio, perfumada...

E como se mão invisível o erguesse, devagar, serenamente, enxugando-lhe da orla das pálpebras a última lágrima de sangue deposta ali pela sua alma, o pobre foi submissamente escoando-se para o quarto contíguo, onde sua mulher estava, o seu anjo, o seu tesouro, a sua vida... E foi submissamente, como um cão duramente batido que volta aos afagos do dono, que sobre os lábios da adormecida esposa, secos, pálidos, desbotados, ao claro luar vindo do céu, o triste uniu os seus lábios frementes, —...num beijo suavíssimo de perdão. Ao mesmo tempo que ela, num delírio, repetia a frase cruel:

— Mais vinho!

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