terça-feira, 19 de setembro de 2017

Cambiantes da comédia humana (Conto), de Sebastião de Magalhães Lima


Cambiantes da comédia humana

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

---

CAPÍTULO I

Henrique IV, perguntando a Gabriela d'Estreés por onde se entrava para o seu quarto, esta respondeu-lhe: — pela porta da igreja. Pela sociedade moderna pode dizer-se que a entrada para o matrimônio é muitas vezes a porta de um salão onde se dança.
Lopes de Mendonça. — Cenas e Fantasias.

Um baile!...

Delírio da mocidade! glória de um amante! receio das mães! enojo da velhice!...

Um baile!...

Quantas vezes sonhamos, ainda crianças, com aquele novo mundo ideal e angélico, com aquela visão dulcíssima, enlevo de amantes, com aquele rodopio vertiginoso e inebriante!...

Um baile!...

Misto de ideias e sentimentos opostos! Sorrisos e prantos! suspiros e lágrimas! amor e saudade! lírios e goivos!...

Um baile!...

Desgraça de muitas famílias! orfandade de muitos corações! inveja de muitas criaturas!...

Um baile é a fotografia da humanidade, assim como o teatro é o espelho da sociedade.

Tem-se dito muito sobre bailes. Todos lhe reconhecem os perigos, e, todavia, ninguém os evita.

A donzela corre ao precipício, atraída pelo canto sedutor desta implacável sereia. O mancebo alimenta ali sua fantasia ardente. Os velhos assistem a eles, como meros espectadores, realçando as glórias dos seus tempos, em menosprezo das modernas veleidades civilizadoras e progressistas.

Enfim, tudo anseia por um baile; todos rejubilam na sua presença; todos esquecem, por momentos, as úlceras do próprio corpo, para dar largas às velas da sua imaginação.

Seja, pois, bem-vindo o salão onde teremos de encontrar um dos principais personagens da narrativa que vamos encetar!...

Estava eu em Fafe, no mês de agosto de 1860. Ali, fugindo às ardências do estio e monotonia da cidade, me fui recrear, durante alguns meses, à sombra daquelas viçosas amoreiras, completamente descuidado do bulício deste mundo, para a sós comigo me entregar ao prazer de alguns dias serenos e beatifico cismar.

Foi também numa dessas ocasiões, creio eu, que me foi lícito sondar uma das almas mais formosas e um dos gênios mais modestos que tenho encontrado em dias de minha vida. Artur de Campos era realmente um moço afável e de uma fina educação; bom até ali. Havia um não sei quê de misterioso e simpático naquele seu vulto insinuante e belo, que me atraia irresistivelmente para ele.

Para logo, procurei travar relações com o jovem provinciano, e de tal modo o consegui, que, dentro de pouco tempo, já vivia nas suas próprias alegrias, e chorava nas suas tristezas. Entre nós a amizade era mais que fraternal. Quase todos os dias nos juntávamos de manhã, para só nos separarmos ao recolher para casa.

Oh!... com que saudade me não lembra ainda aquele tempo!... como os dias se deslizavam então brandos e suaves! como era puro o azul do nosso horizonte, e feliz a nossa existência, juncada pelas rosas do amor, e matizada de flores, que nos enfeitiçavam a mente enlouquecida pelas larvas da fantasia!...

Às vezes passávamos horas inteiras, um ao pé do outro, sem articularmos uma única palavra; e, contudo, os nossos pensamentos pareciam adivinhar-se mutuamente naqueles meigos e puros anseios de paz e felicidade.

Um dia, lembra-me ainda como se hoje fora, eram talvez duas horas da madrugada. A lua, aureolada de mística luz, campeava no seu eterno trono de magia e formosura. Reinava um silêncio sepulcral. Apenas se pressentia ao longe o grato arroio, serpeando de mansinho por entre as dispersas árvores, de que as folhas se agitavam frouxas, ao perpassar da fresca brisa da madrugada.

Senão quando veio ferir-me o meu ouvido vigilante a voz de Artur, que me chamava de fora da porta. Corri a ele, curioso por saber o que se teria passado. Nada me disse. Entrou pensativo para dentro de casa, e sentou-se melancólico e triste.

— Sei quem és, meu amigo; fala francamente, que tens tu, que te aconteceu?...

Ele, contudo, conservava-se silencioso, sem nada me responder. Eu, por mim, julguei prudente não insistir em tão pertinaz propósito, e aguardei melhor ensejo para esse fim, certo de que ele se não recusaria a revelar-me o seu segredo.

Após alguns momentos, quando o vi sair, sem proferir sequer uma única palavra, durante o tempo que ali estivera comigo, tive a fatal ideia de o acreditar demente. Para me certificar, porém, da verdade do fato, resolvi segui-lo a todo o transe, cometendo a discrição de me ocultar, o mais cautelosamente possível, atrás da espessura do arvoredo por onde ele tinha de passar irremediavelmente.

Semelhante a um réptil, lá me fui arrastando, como pude, por entre o mato e silvedo, que delimitavam o estreito caminho.

Foi então, que sua tímida voz, de envolta, com o perfume do orvalho matutino, me veio estancar no peito um misterioso receio. Suas palavras foram tristes, como a solidão da sua alma, pavorosas como os milhares de fantasmas, que lhe voejavam na mente tresloucada. Era assim o monólogo:

— A sociedade! sempre a sociedade! Maldita sejas tu, mil vezes maldita!... E o homem há de respeitar necessariamente os teus decretos vis, e lisonjear a tua hipocrisia infame!

Triste abjeção!...

Não sei porque; mas, quando penso nessas sombras pavorosas, que, a cada passo, me enlutam o espírito com as trevas deste mundo, sinto-me enlouquecer terrivelmente. Odeio os homens; abomino o prazer da terra, e não posso de maneira alguma acreditar na ideia de um Deus infinitamente justo e bom!...

Muita lágrima, muita miséria e muita vingança: eis deveras a realidade das coisas, eis a sociedade, em toda a sua nudez!

Nasce a criança, de envolta com o cilício do sofrimento, para expirar depois no meio de agudas dores e medonho agonizar!

Um dia, quando já homem, aproxima-se da mulher, que ama loucamente, e essa mulher, sem pejo, cospe-lhe nas faces a podridão da sua alma corrompida, o veneno absorvido no seio da sociedade, o lodo, a corrupção, a vaidade!...

E ainda há quem sonhe no amor de uma mulher?!...

Pobre desgraçado, quem quer que tu sejas compadeço-me da tua inocência. Aprende antes a conhecer esses vermes nauseantes, e não creias jamais nas palavras hipócritas de uma mulher fementida! Afasta-te, enquanto é tempo, dessas víboras dolosas, que te podem acarretar a tua eterna ruína, e a degradação da tua dignidade!...

Não pude ouvi-lo por mais tempo. O eco de suas últimas palavras foi perder-se a distância nas asas da branda viração de uma esplêndida madrugada de outono.

Retirei-me para casa bastante apreensivo. De todo me fora impossível atinar com a origem de semelhante mistério. Apelei, pois, para o tempo, como melhor mestre e mais eficaz para me elucidar a esse respeito.

Quando me tornei a encontrar com Artur, daí a algumas horas, já o reconheci mais sereno e agradável. Afigurou-se-me ver dissipadas as sombras, que pouco antes lhe ofuscavam o espírito. Ainda assim, evitei sempre o falar-lhe sobre coisas, que de algum modo pudessem ofender o seu melindre e elevados sentimentos. Procurei amigavelmente distrair-lhe os seus pesares e profundas amarguras, mas vi quase baldados os meus esforços.

Entretanto, o inverno ameaçava ser rigoroso. O mês de novembro principiara frio e insuportável.

Tudo se transtornara ali, com a chegada da estação invernosa. Aqueles prados e veigas, até então tapetados de verde e flácida alfombra, começavam a inundar-se com as cheias, que os tornavam geralmente intransitáveis. O céu iriado da primavera havia desaparecido, deixando em seu lugar um montão de nuvens escuras e temerosas.

Neste comenos, negócios de família me chamavam a casa, impedindo a continuação da minha residência naquele encantado paraíso de amor e felicidade. Despedi-me, pois, afetuosamente do meu amigo Artur, e regressei ao Porto.

Artur prometera escrever-me daí em diante sem interrupção. Passaram-se, contudo, oito meses sem que eu recebesse uma única carta sua. Quase o julgara doente, se, porventura, não fora um amigo daqueles sítios, que me disse tê-lo encontrado, poucos dias antes, de perfeita saúde e invejável robustez. Dei-me por satisfeito, e de nada mais quis saber.

Aconteceu, porém, um dia, ser eu convidado para um baile em casa do conselheiro F., por ocasião do aniversário natalício de sua filha Matilde. Mal teria entrado no salão, quando, cheio de espanto e receoso prazer divisei o meu amigo Artur de Campos, por entre a multidão de cavalheiros, que se apinhava a uma das portas, para a próxima quadrilha.

Fiquei estupefato!

Ora vão lá conhecer o mundo, — dizia eu, repetidas vezes a mim mesmo, mal acreditando ainda na realidade do que via. Pois aquele homem que, ainda há pouco, amaldiçoava a sociedade, no meio de um horrível spleen, que lhe atrofiava a dolorosa existência; aquele homem, para quem a mulher não passava de um espectro hediondo e feroz, — já então não hesitava em se degradar daquele modo, vivendo na sociedade, e procurando até o objeto da sua antiga indignação e odioso desprezo?!...

Pois a isto chama-se — saber viver e nada mais, — dirão muitos, e digo eu também. Lá diz o provérbio: — Qui ne sait pas feindre, ne sait pas vivre.

Passemos, porém, uma esponja por sobre estas misérias e humanas ninharias, e voltemos ao salão.

Ao meu lado conversava calorosamente um grupo de convidados.

Dizia o primeiro, literato de grande nomeada na invicta cidade:

— Quem será aquele jovem Lovelace, que traz cativos tantos olhares modestos e apaixonados?...

— Pois, em verdade, ainda não o conheces, meu caro? — retorquia um adestrado Marialva, muito conhecido pelas suas proezas e afamada mestria. — Aquele sujeito é um provinciano de Fafe, homem de grandes haveres, segundo me dizem, e que vem agora residir para o Porto. É o que em boa sociedade pode chamar-se un homme distingué, un homme à bonnes fortunes.

— Hum!... lá me parecia!... — prorrompeu o primeiro. Isso assim é outro cantar. Por isso a filha do nosso conselheiro não descura da sua missão. Olha... que modos aqueles... como ela se quebra toda para lhe agradar... ah! pois não, coitadinha!... Nem a formosa ninfa da mitologia, surgindo do seio do Oceano, seria mais bela e tentadora!...

— E bem haja. Ela, continuou o segundo. Isto, hoje em dia, mulher esbelta sem dinheiro é o mesmo que um cavalo bonito e manhoso: todos gostam de lhe admirar a estampa, mas ninguém o quer para si.

Enquanto isto assim se passava, Artur, de longe, pareceu reconhecer-me, e, levantando-se de golpe do lugar onde se sentara, ao lado de Matilde, veio abraçar-me sem demora.

— Como tu estás gordo e bom, meu caro! Estava longe de te fazer hoje por aqui, dizia ele, apertando-me fraternalmente em seus braços varonis.

— Pois olha, eu a ti muito menos; foi milagre, decerto. Mas conta-me lá: que transformação foi essa tão rápida? Tu, o homem piegas e choramingas de outrora, o Heráclito provinciano, a quem nada podia distrair, a não ser uma ou outra página do milagroso Werther, apareces-me agora transformado em Demócrito feliz e folgazão, catequizando estes corações rebeldes ao teu domínio e absoluto império?!...

— Isso é uma longa história, meu amigo, que para aqui não vem a propósito. A esse respeito tenho muito que te contar. Aparece amanhã no Hotel Central, quarto nº 9, e lá falaremos.

— Está dito: amanhã lá me tens, sem falta. Apertamo-nos depois as mãos reciprocamente, e cada um seguiu o seu rumo. Artur voltou ao salão; eu retirei-me sossegadamente ao meu quartel.



CAPÍTULO II

Amor, és imortal! sorris nas campas!
Goethe.

No dia imediato, à hora aprazada, dirigi-me apressadamente para a rua do Laranjal, conforme havíamos convencionado na véspera.

Seria talvez uma hora da tarde, quando entrei no Hotel Central. Fui assim percorrendo a longa numeração dos quartos, até que se me deparou o mencionado nº 9, a cuja porta bati duas vezes, sem obter a mínima resposta. à terceira pancada, já conseguira mais alguma coisa, por isso que me soara distintamente o ranger descompassado de um leito, e o bocejar monótono de algum sibarita, que se espreguiçava indolente, qual moderno Sardanapalo. Quase me julgara iludido no meu humilde propósito, quando ouvi a voz de Artur, clamando bem alto:

— Olé! quem está aí? Entre quem é...

Abri a porta, e entrei. Artur mal havia despertado ainda do contristante letargo que daquele modo lhe entorpecera seus membros voluptuosos.

— Sim, senhor, muito bem, menino Artur! isto é que se chama viver, o mais é história! Olha que lá por fora já é dia há muito tempo.

— Ora deixa-me, nem me fales nisso. Estou perdido, estou morto! Amo uma mulher apaixonadamente.

Ai! Matilde! Matilde! o teu olhar foi o demônio, que se introduziu na minha alma. Preciso amar-te. Doravante só quero viver para ti, adorar-te, e chamar-te minha, finalmente. Que nos importarão, então, os prazeres deste mundo, quando nós, afastados da sua corrupção e miséria, vivermos um só para o outro e nos alimentarmos na inocência e suave conforto dos nossos corações privilegiados?!...

Ai! Matilde! meu amor! custe o que custar, tu hás de pertencer-me um dia. Embora tenha de arrancar-te aos braços de teu pai, tu serás minha e só minha, doce perola do meu coração!

— Bravo! tudo vai a melhor. À última hora apareces-me metamorfoseado num elegante Romeu. Realmente, és um homem singular, um tipo sui generis!...

— Sou um homem singular, dizes tu. Não preciso, nem quero compreender-te. Porque me não vês, como vós outros, verme impotente, rastejando impunemente na podridão das próprias chagas, chamas-me um tipo sui generis. Embora! Prouvera a Deus todos assim fossem!...

— Lá por isso não vale zangar, meu amigo. Já vejo que não estás hoje de muito bom humor. Este tempo chuvoso também não deixa de ter sua influência sobre o sistema nervoso. Mas, enfim, falemos em outra coisa. Quando chegaste de Fafe?

— De Fafe cheguei há três dias, e de sobejo têm eles sido para me persuadir a que não devo voltar para lá.

— Não deves voltar para lá?!... Essa é melhor. Então por quê?

— Porque já agora aborreço aquela vida solitária da minha aldeia. Tenciono comprar uma casa, casar-me breve, e continuar a residir aqui. Mas, olha lá, isto devem ser horas de almoço: que me dizes?

— Até de jantar, meu caro: são quase duas horas da tarde.

— Pois bem, nesse caso, vou vestir-me quanto antes, e tu almoçarás comigo, como espero.

— Eu?! almoçar a estas horas?! Estás perfeitamente enganado a meu respeito. Eram 7 horas da manhã, já estava fora de lençóis; às 8 tinha o almoço digerido; e às 9 estava na rua a tratar dos meus negócios.

C'est trop fort!... Faz-me-ás companhia, ao menos, estimulando-me o apetite com dois dedos de suculento cavaco; depois iremos juntos a casa do conselheiro F., onde se me faz mister da tua valiosa proteção.

— Nesse caso, uma vez que me queres para jantar, tomarei a liberdade de ir já confortando as paredes estomacais, para o que der e vier.

— À cautela, também to aconselho; porque, finalmente sempre é obra que fica feita.

Almoçamos, pois, deliciosamente. Eu de cada vez admirava mais o meu amigo Artur. Dir-se-ia um ente incompreensível, na verdade: ora alegre, ora triste, ora melancólico e sereno, ora folgazão e jovial; enfim, são coisas deste mundo!

Depois de termos entrouxado duas boas travessas de apetitosas costeletas de porco e ovos, acompanhadas do saboroso e estomacal vinho de Xerez, — saímos ambos, em direção à rua de Santa Catarina, onde morava o nosso amigo conselheiro F.

Apenas havíamos subido alguns degraus da escada, cujo andar era habitado pelo conselheiro e sua família, quando nos soou distintamente a voz de Matilde, altercando furiosa com sua irmã Maria. Hesitamos um instante no nosso propósito, e por alguns momentos ficamos perplexos, sem saber o que fazer. Por fim paramos juntos à porta da entrada, a cuja fechadura colamos o ouvido cautelosamente, para assim, invisíveis, melhor podermos assistir aquele espetáculo de ciumenta fraternidade.

Dizia Matilde, com as faces inflamadas em cólera e súbito desespero, acentuando bem as suas palavras, vibradas do íntimo do coração:

— Ora a mana sempre é muito invejosa!... que se importa com a vida do Sr. Artur? que tem com ele? nunca o ouviu falar a seu respeito, nem bem, nem mal, não é assim?... pois então é melhor calar-se, e nunca mais tornar a falar em tal coisa.

— Sim, sim, tudo isso é muito bonito! eu já sei o que a mana quer: imagina talvez que o Sr. Artur está a destilar de amores pela sua pessoa, e ilude-se perfeitamente. Nem ele tinha mais que fazer. Olhe, sabe que mais, é melhor tirar daí o sentido. Ainda desta vez não pega a lábia, minha senhora...

— Olhe bem a mana, veja lá o que diz; depois não se arrependa, porque pode vir tarde e a más horas. Não estou disposta a aturar as suas criancices por mais tempo. Parece que ainda cheira a cueiros! Que tal está o fedelho! já viram coisa igual?...

Neste ponto, Artur, vendo que a contenda ia a tomar proporções um pouco serias e assustadoras, julgou do seu dever atalhar quanto antes os funestos resultados, que daí lhe pudessem provir. Para isso tocou a campainha, e logo após veio um criado abrir-nos a porta, convidando-nos a entrar para a próxima saleta.

Entramos numa sala, elegantemente adornada e cuidadosamente disposta. Sentamo-nos numas cadeiras de braços, ao acaso, e lançamos mão do primeiro objeto que se nos deparou oportunamente sobre a mesa: era um álbum, quase todo manuscrito.

Abrimo-lo distraidamente, — passeando a vista, ao mesmo tempo, por aquela multidão de páginas, repletas de centenas de palavras sensabores e sem sentido — quando vimos, no topo da página, a seguinte epígrafe:

ILUSÕES
FRAGMENTO DE UMA POESIA INÉDITA

À excelentíssima senhora D. Matilde

Isto excitou a curiosidade de Artur, que continuou a ler em voz alta:

No céu divinal nascida,
Tão querida!...
Entre os homens és rainha!
No teu olhar enlevados,
Pelo encanto avassalados,
Todos suspiram: sê minha!...

De manhã o sol luzente,
Vem ridente!...
A natura iluminar;
Assim tu, com teu fulgor,
Vens num sorriso d'amor
Minha alma purificar!

No céu a estrela ondulante,
Tão brilhante!...
A cada passo é toldada!
Mas tu brilhas sempre pura,
Qual a rosa com frescura
Pelo sol iluminada!...

C'est assez!... — exclamou Artur, contendo um longo abrimento de boca, e depondo discretamente o álbum sobre a mesa. É um ótimo narcótico para quem precisar dele: eu, por mim, declaro, estou satisfeito e mais que satisfeito.

Neste momento entraram na sala as duas filhas do conselheiro, acompanhadas de sua respeitável mãe.

Trocadas as cortesias do estilo, tornamos a tomar novos lugares.

Artur começou dizendo que aproveitava aquela ocasião para ir agradecer pessoalmente o benévolo acolhimento e fraternal simpatia com que se tinham dignado tratá-lo na noite antecedente, confessando-se eternamente grato por todos aqueles obséquios, que tão do íntimo lhe tinham sabido prodigalizar, e que ele jamais poderia esquecer em dias de sua vida.

A isto respondeu mui laconicamente a dona da casa, intentando provar-lhe que não tinha feito mais do que cumprir um dever para com os seus hóspedes e amigos, que tanto folgava em ver reunidos, como em família, naquelas poucas noites de santa alegria e jubilosa reminiscência.

Artur, por um momento silencioso, continuou logo naquele mesmo estilo parlamentar, com que havia encetado a sua conversação, manifestando igualmente o seu profundo sentimento pela ausência do conselheiro, a quem desejava falar urgentemente para tratar de um negócio importante, cuja solução deveria interessar a toda a família.

Nesta ocasião, confesso, tive um horrível calafrio. Tratar de um negócio importante, cuja solução deveria interessar a toda a família?!...

Nem eu sabia que pensar daquelas suas palavras. Pois dar-se-á o caso, na realidade, que este homem vá pedir a mão de Matilde, não tendo falado com ela senão uma vez, ignorando completamente os seus sentimentos e qualidades morais?!...

Veremos!... — dizia eu a mim mesmo, abrangendo em toda a estreiteza desta palavra um raio de esperança no futuro.

Após alguns momentos, como víssemos que não chegava o dono da casa, saímos, prometendo voltar nessa mesma noite.

Quando depois nos encontramos, cá fora, ao ar livre, sem haver nenhuma pessoa que pudesse espiar os nossos passos, Artur encarou-me com um olhar furtivo, misto de susto e alegria, perguntando-me disfarçadamente:

— Então que te parece a minha resolução? Não julgavas, talvez, que fosse tão precipitado nos meus planos; não é assim? Pois olha, eu previra tudo isso, e, todavia, não o pude dissimular. Quis evitar todos os escolhos, que me pudessem sobrevir, no decurso desta minha difícil peregrinação, mas cheguei nimiamente tarde. Agora entrego-me à Providência de alma e coração. O futuro nos dirá o que for.

Estas últimas palavras foram proferidas num tom severo e decisivo, e de tal modo, que julguei inútil toda e qualquer replica, que a minha amizade, porventura, pudesse sugerir-lhe. Limitei-me apenas a fazer-lhe alguns reparos sobre o casamento, apontando sempre ao futuro, como uma sombra pavorosa, diante da qual ele teria de recuar um dia, se a fatalidade, por acaso, porfiasse em persegui-lo. Ele, pela sua parte, fingiu nada ouvir do que eu lhe dissera, e calou-se.

Nessa mesma noite, o casamento ficara definitivamente tratado, para ter lugar dentro em quinze dias, o mais tardar. Esta resolução do moço provinciano propalou-se logo pela cidade, e todos pasmavam ao ouvi-la, acreditando uns na sua realidade, e outros negando-se em aceitá-la como verdadeira.

O que é certo é que daí a dez dias os jornais da localidade registravam nas suas colunas o casamento de Artur, do modo seguinte:

— Ontem, pelas 10 horas da manhã, na igreja de Santo Ildefonso, contraíram os sagrados laços matrimoniais o excelentíssimo Sr. Artur de Campos e a excelentíssima Sra. D. Matilde de Andrade Castelo Branco, menina de subidos sentimentos e elevadas qualidades. Os ditosos noivos retirar-se-ão brevemente para Lisboa, onde irão passar a lua de mel. Daqui mesmo lhes enviamos os nossos parabéns, fazendo votos pela sua felicidade futura, e eterna união.

O ideal de Artur realizara-se, pois, neste mundo. Naquele dia tudo lhe sorriu fagueiro e jovial. A primavera tornara a despontar no seu coração, cheia de galas e encantos. A sua imaginação, povoada de tudo quanto há de mais belo e sublime, neste vale de lágrimas, nada mais enxergara além da existência presente. O sol da sua felicidade, até então sepultado nas trevas de um desditoso porvir, surgiu enfim majestosamente no horizonte da vida, purpureado de bem vivas cores e rescendentes perfumes.

E, diga-se a verdade, naquele dia, ao menos, Artur julgou-se feliz, e muito feliz. Por entre as rosas do amor não distinguiu ele os goivos da existência; através a pureza do seu horizonte de todo lhe fora impossível notar a orla sombria e fatídica. Sentiu-se deslumbrado por um não sei quê de vago e misterioso, que o arrastava involuntariamente para um abismo tremendo, onde tinha de resvalar mais tarde, a despeito mesmo da sua vida regrada e hábitos morigerados.

Por esta ocasião memorável foi servido um lauto banquete em casa do conselheiro F.

Opíparos manjares guarneciam as mesas, rodeadas de amigos e parentes.

Nessa mesma noite houve um baile, esplendidamente servido, e que se prolongou até às 6 horas da manhã.

Passados que foram três dias, Artur partiu para Lisboa, acompanhado de sua esposa e sogro. Ali se demorou três meses, ao cabo dos quais regressou à invicta cidade, mais ditoso ainda do que lhe fora lícito imaginar.

A felicidade, porém, como o destino, tem os seus revezes neste mundo. Um amor excessivo aterra-nos e confunde-nos. Os extremos são sempre anomalias, mais ou menos perigosas, na vida humana.


CAPÍTULO III

Un groupe de Dalila et de Sanson avec celui de la farouche Judith serait toute la femme expliquée.
 Balzac.

Ai! mulheres! mulheres! De todos os mistérios, que Deus há criado, vós sois o maior deles, talvez!...

E quem poderá compreender-vos, com efeito?!...

A candura do vosso espírito, ao desabrochar das mil quimeras da existência; a meiguice de um vosso olhar voluptuoso e luxuriante; o feiticeiro encanto de um vosso sorriso, profundamente celestial e angélico; todo o complexo de variegadas cores e místicas harmonias, que vos envolve e sobrepuja aos outros seres da criação: enfim, todos esses sons dispersos, indefiníveis e atraentes, constituem em vós um Éden de amor, idealização sublime, perante a qual todos se julgam impotentes, não sabendo até o meio de resistir-lhe.

Tudo tem o seu contraste, porém!... Não há pomba sem fel, assim como também não há rosa sem espinhos!

A par de seráfica inocência existe em vós a ferocidade do tigre; junto à sublimidade do vosso coração tendes a fealdade da hiena!

Profunda e contristante antinomia!!!

O mundo, em seus juízos iníquos, condena-vos, a cada passo, sem procurar mesmo ouvir as vossas queixas. A sociedade há muito lançou o estigma fatal sobre a vossa fronte impura. E no meio de tudo isto, todos vos procuram para vos repelirem mais tarde, quando já eivadas das mil misérias e humanas torpezas.

Então ninguém se lembra já que fostes uma mãe desvelada e terna; que amamentastes a vossos peitos a loira criancinha-fruto mimoso do Senhor; — que procurastes imprimir na sua fronte o osculo do amor para o tornar o homem bom e virtuoso, que todos desejam, e por quem a civilização trabalha sem cessar!

Sim! então, ninguém se recorda que fostes o encantamento do lar doméstico, quando filha; — esse tipo sedutor, visão etérea, que pela sua natural candura, meigo aspecto e divina graça, fazia a felicidade dos pais e o respeito dos estranhos!...

Até mesmo a esposa carinhosa e meiga, que outrora iluminava, como um sol de primavera, foi esquecida e amaldiçoada pelos homens; — eclipsou-a a nuvem sombria da civilização. O Minotauro de Balzac devora as mulheres jovens e belas, as outras anseiam por serem devoradas por ele.

Ai! mulher!... mulher!... Quanto é sublime a tua missão sobre a terra! Como é soberbo o teu domínio!... Quantas dores não tens tu mitigado com a proteção do teu mágico afeto!... Para quantos infortúnios não tens sido o anjo mensageiro, enviado pelo Criador à humanidade!... E haverá ainda alguém, tão estolidamente egoísta, que pretenda negar o teu poder?!...

Homem, quem quer que tu sejas, dize-me — que és tu perante as lágrimas de uma mulher?... oh!... mesquinha e louca criatura!... quão efêmera é a tua natureza!... grão de areia na vastidão do oceano!...

Mulher! Eu respeito as tuas dores, bendigo as tuas lágrimas!...

Porém, vai longa a digressão. Voltemos ao fio da nossa história.

Artur viera, pois, assentar a sua residência no Porto, definitivamente. Ali comprou uma linda habitação, ao cimo da rua da Alegria, onde se conservou durante um ano, aproximadamente, num remanso de paz e sossego de espírito, que ameaçava ser eterno.

Não aconteceu, porém, assim. As nuvens iam-se-lhe amontoando gradualmente por sobre o anil do seu horizonte. A procela estava iminente; era terrível o abismo!

Acompanhemos o drama.

Artur, apenas estabelecida a sua morada, e dispostas convenientemente as demais coisas, concernentes a uma boa administração, começou a embriagar-se de tal modo naqueles eflúvios de amor, que brotavam espontâneos do seio de sua adorada esposa, que se julgou prestes a sucumbir de felicidade e bem-estar.

A ventura em demasia conduz-nos a maior parte das vezes a uma dolorosa prostração e fleumática indiferença por tudo o que não for o objeto das nossas vistas apaixonadas e infantis.

Foi exatamente o que sucedeu ao afortunado mancebo. Matilde tornara-o flexível a ponto de o converter num instrumento pueril de todos os seus caprichos e insaciáveis desejos.

Os bailes multiplicavam-se; os jantares não tinham limites. Enfim, por aquele andar, tudo tendia, sem remédio, a uma perdição infernal e miserável corrupção. E a par disto tudo, como sucede a maior parte das vezes, a reputação de Matilde corria já empeçonhada e perdida...

O jovem provinciano parecera não ter primado demasiadamente na escolha dos seus amigos. Por entre um ou outro coração sincero e bom, daqueles que frequentavam a sua casa, surgiram também muitas almas corrompidas e devassas. Entre estas, notara-se particularmente um flaneur de bom tom, a quem Artur dedicara sempre, desde o princípio, uma particular predileção. Chamava-se ele Roberto Guimarães, se bem me recordo.

Roberto Guimarães era um destes elegantes da boa sociedade, a quem de resto pareciam sobejar dotes de espírito e faculdades inventivas para se fazer amar por qualquer mulher, igualmente formosa e bela. Trajava pelo último figurino de Paris: o pescoço, vexado em enorme colarinho, que devia medir um palmo, aproximadamente; as pernas enfronhadas em apertada calça, que ameaçava desconjuntar-se a cada movimento; o pé, encaixado numa bota de lustroso verniz, obrigando-o a andar em passo de dança por causa dos calos que o molestavam; a luzente cabeça, sepultada em fino chapéu, cuja altura não excedia três polegadas. Era sua inseparável uma badine, em que pegava com o primor do fino janota; frequentava o café Marrare, onde ia discutir a política do dia.

Com tais predicados, Roberto era acolhido em todos os salões com inaudita ansiedade e frenesi espontâneo; em todos eles figurava sempre na primeira plana, prodigalizando com perspicácia nada vulgar os preciosos dotes da sua atilada imaginação e acrisolado saber.

E, digamo-lo de passagem, Roberto era uma alma grande e difícil de encontrar entre os homens. Enquanto tivesse dinheiro, não havia ninguém pobre ao pé de si: todos folgavam com a sua alegria.

Amava do mesmo modo todas as mulheres, sem contudo ter paixão a nenhuma delas. Para ele, a mulher não passava de um objeto, como qualquer outro, que o deleitava simplesmente durante duas ou três horas por dia, um incentivo para melhor passar o tempo, e mais se rir com alguns amigos íntimos entre duas botijas de cognac e apetitoso fiambre.

Com o contato da sociedade tornara-se cínico. A seus olhos a família, a religião, a pátria, a sociedade não eram mais que meras fantasmagorias — um espectro vil e hediondo!

Não acatava ninguém, nem mesmo as coisas mais sagradas deste mundo. Era implacável nos seus juízos.

O boato circulava já nas ruas mais frequentadas da cidade. Aos olhos da sociedade Matilde escorregara subitamente do santuário da moralidade no esterquilínio do vício e do crime; já não havia valer-lhe.

Choveram, então, cartas anônimas, sem peso nem medida, — o meio mais torpe e tacanho de que se servem algumas pessoas, estribadas impunemente numa amizade insensata e vã, para acarretarem o desgosto e a perturbação ao seio de uma família, muitas vezes inocente!

Artur, que a princípio não fizera caso de tais bagatelas, intimamente convencido da inocência de sua esposa, — concluiu finalmente por encarar a sua vida pelo lado pior e mais perverso.

Daí em diante não perdeu a expectativa, simulando, contudo, a maior tranquilidade, e plena confiança em sua mulher.

Um dia levantara-se pelas seis horas da manhã, e, arranjada que foi a sua mala, disse ele a sua mulher que se ausentava por três dias para fora da cidade: foi a primeira vez que tal sucedeu... Matilde, algum tanto assustada com tão inesperada resolução, não pôde, todavia, atingir qual o fim desta peripécia, que ela estava longe de conceber.

Roberto, aproveitando-se da ausência do seu amigo Artur, fora imediatamente habitar para casa da sua querida amante, a fim de lhe fazer companhia, ao menos durante o apartamento de seu esposo...

Uma noite estavam eles inebriados em mútuo abrasamento, quando, inopinadamente, sentiram abrir-se a porta, de golpe, e entrar por ela o moço provinciano, de uma palidez sepulcral e com a fronte inundada de um suor frio, que lhe devorava a triste existência. Sustinha um revólver na mão direita, que lhe fora impossível desfechar: tal era a sua situação!

Matilde caíra desfalecida e exangue. Roberto, aterrorizado, recuou dois passos; depois investiu contra o inimigo, a quem tomou por um braço, e arrancou de uma espécie de torpor em que jazia.

— Medir-nos-emos no mesmo campo, — vociferou Roberto, como que alucinado e simulando gestos medonhos.

Artur interrompeu-o por algum tempo, olhando para ele fitamente e exprimindo, talvez, a sua profunda compaixão pelo miserável que via diante de si.

Em seguida Roberto prosseguiu:

— Amanhã, às 4 horas da manhã, na praça da Boavista: escolherá as armas e padrinhos, conforme lhe convier: de resto, estou às suas ordens.

Após esta fatal alocução, Roberto saiu tranquilamente daquela casa.

Artur, apenas recuperados os sentidos, retirou-se igualmente pacífico, como se tivesse assistido a um magnífico espetáculo.

O certo é que Matilde, quando voltou a si, já não viu mais ninguém no quarto, afora uma velha criada, que velava por ela solicitamente.

No dia imediato, à hora convencionada, Roberto apresentou-se destemidamente na praça da Boavista, aguardando o seu adversário, com quem esperava bater-se num duelo de morte.

Artur, porém, não apareceu ali, como era para desejar. Também ninguém mais soube do desventurado mancebo. Diziam uns que ele tinha embarcado para Inglaterra, onde se fora reunir a seu irmão, muito amigo, que negociava em vinhos naquele país: outros afirmavam que vivia oculto num lugar próximo de Lisboa, a fim de nunca mais ser visto, nem tão pouco tornar a falar com sua esposa depravada e falsa.

Mais adiante veremos o que é feito dele.


CAPÍTULO IV

Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe;
Qui sait sous quel fardeau la pauvre âme sucombe?...
 V. Hugo.

Caiu o anjo bom, ficou o anjo mau!

Já não havia valer-lhe, à triste vítima. A queda foi tanto mais fatal, quanto mais audacioso tinha sido o voo a que loucamente se arrojara.

Dentro de pouco tempo, Matilde ganhara o desprezo da sociedade. Seu pai havia sucumbido a tão dolorosa crise. Artur retirara consigo a sua proteção e o seu dinheiro.

No meio do esplendor e louçanias deste mundo tudo nos sorri prospero e sedutor. Não faltam amigos; multiplicam-se os parentes. Vem depois o fantasma da tristeza, o espectro da desventura, e a vítima, odiada por todos, à beira do abismo, terá, apenas, a Providência por único e derradeiro recurso.

Nada mais verdadeiro. É assim a nossa sociedade: ataviada de galas no exterior, e contaminada de podridão no íntimo.

Por algum tempo, Roberto continuou ainda a dispensar os seus desvelos e favores aquela desgraçada mulher; preparou-lhe uma pequena habitação, a alguma distância da cidade, e lá conseguiu encarcerá-la, durante algum tempo.

Cometido o crime, o primeiro cuidado do malfeitor é ocultá-lo, sem demora, aos olhos dos seus semelhantes. As trevas fogem da luz; o sol odeia a noite.

Isto, porém, foi de pouca dura: com a saciedade veio o ódio, com o ódio o abandono.

Matilde ficou só no mundo, sozinha, com as suas lágrimas, com a sua dor, com a sua miséria! E que poderia ela fazer, coitadinha!... Depois de ter empenhado e vendido tudo o que possuía de mais valor, vexada de si mesmo, com a febre do desespero, amaldiçoou o sol que a aquecia, e foi procurar na sombra o refrigério à sua alma atribulada.

A sociedade cavou-lhe o sepulcro, e soltou uma gargalhada estulta e pérfida! O homem covarde esmagou o verme impotente, e tripudiou incólume sobre todos os sentimentos e qualidades morais! A matéria venceu o espírito! a força bruta subjugou o movimento!...

Ontem censuramos em Matilde a mulher social; hoje podemos e devemos justificá-lo, sem que nisto sejamos contraditórias.

E, de feito, o que era aquela mulher, senão uma dessas desgraçadas, a quem a sociedade havia enxovalhado com a lama do desprezo, sujeitando-a a mercadejar o melhor dote que Deus lhe concedera — a honra?! Era uma dessas mulheres estouvadas, no sentir de muitos, que, zombando de tudo, também ousam profanar com mãos sacrílegas o santuário do pudor e da virgindade, contribuindo assim para a sua inteira ruína e completa perdição!

E no entretanto, esses são os homens bons, que mais tarde fingem não reconhecer a vítima de seus nefastos interesses, lançando o escarro do desdém na sua passagem. São estes os homens bons, que, longe de aliviar o pobre com uma esmola, filha de um nobre coração, pelo contrário, tropeçam impunemente nas suas chagas, enodoando-as com a baba asquerosa do seu orgulho!...

Assim decorreram alguns anos. Matilde, a mulher perdida, lá foi encontrar num prostíbulo a expiação severa e árdua de uma falta injusta, embora tolerável. O holocausto começara então; devia de ser bem negro o seu fim.

A aridez do deserto, depressa a superou, a triste romeira. As dificuldades foram-se-lhe tornando habituais de dia para dia. O seu hálito alcoolizado cativara a atenção de muita gente.

O corpo, já de si pestilente, transformara-se repentinamente em podridão nauseante. Ao longe, pairava o corvo, imundo e contente, por sobre as exalações infectas daquele charco pútrido, aguardando ocasião oportuna para cevar ali a sua espantosa avidez.

E assim aconteceu, realmente. Um dia, atravessava indiferentemente as ruas da cidade um camponês, levando um caixão às costas. Dirigia-se para o Prado do Repouso! Lá o lançaram para uma cova, e com ele os restos mortais de uma mulher desditosa.

A terra ocultava uma infeliz no seu seio obscuro; os homens acolhiam no seu grêmio um leproso vil e incurável!...

Nem uma lágrima! nem um suspiro! nem um ai compassivo!...

Roberto, ao saber do fúnebre passamento de Matilde, neste mundo, limitou-se muito ingenuamente a vomitar uma baforada de fumo de seu enorme cachimbo, acompanhada de sinistra gargalhada!

E melhor foi assim, talvez!...

A mulher ludibriada havia desaparecido para sempre de sobre a superfície da terra! Era tempo de procurar outra vítima!...

Rejubilae, sátrapas da corrupção e da licença! erguei as cabeças, parasitas ignóbeis!...

Vinte, trinta ou quarenta mortes, que importa tudo isso, uma vez que nós vivamos contentes e satisfeitos?!...

Arda muito embora o universo! De que vale essa triste ninharia, se as chamas mesmo de leve nos não tocarem?!...

Neros do egoísmo! preparai a vossa argila imunda! A hora soará uma vez, e os vossos cadáveres, por seu turno, agitar-se-ão ensanguentados ao longo das vossas misérias e vilanias!...

No entretanto, enquanto as coisas assim se passavam, Artur regressara finalmente à pátria, após uma longa viagem, que havia empreendido à Inglaterra, com o intuito provável de recuperar no estrangeiro a ventura, que lhe fora impossível encontrar no meio daqueles que mais amava e queria. Quem o visse, depois da sua chegada, passear as ruas do Porto numa perfeita serenidade de espírito e jovialidade quase espontânea, que tão peculiares se tornavam ao seu caráter indiferente e generoso — reputá-lo-ia, à primeira vista, um homem feliz, sem receio de errar.

As grandes comoções variam de individuo, segundo a diversidade de circunstâncias que as podem originar. A desgraça de Matilde convertera-se num manancial de felicidade para Artur. O homem, aviltado por um amor insensato, reconheceu, ao fim, a sua dignidade, e ergueu a cabeça, cheia de luz e esplendor. O holocausto de sua mulher resgatara-o para a vida e para o mundo.

Antes assim!

Após esta grande evolução do espírito humano, a transformação operara-se rápida e completa. Apagaram-se ódios ruins; deslembraram-se velhos rancores.

O esquecimento da vítima e o cinismo tornavam dois homens ditosos sobre a terra, enquanto o céu acolhia, talvez, no seu seio uma pecadora arrependida, e regenerada pelo amor e pela virtude!

E de fato, Matilde, quando se viu assim ludibriada, e afastada da sociedade, chorou muitas lágrimas de arrependimento sincero, derramou nas trevas muita perola oculta, tragou até às fezes o absinto daquela taça denegrida e empestada pela sociedade, a que alguns muito erradamente chamavam vida. Vida! para aqueles que a não conheceram outrora opulenta e a trasbordar de pura seiva vital!... Vida, sim, mil vezes terrível e amargurada!...

Antes o inferno, a solidão, o abandono, a inércia, do que o sacrifício de tão ignóbil vegetação!...

Agora, é tempo de terminarmos a nossa história. Fica ao arbítrio de cada um, o ajuizar da bondade ou maldade da nossa heroína. Nem isso nos causará assombro. Para nós, Matilde simboliza uma perfeita imagem da mulher atual; nem mais nem menos.

Artur foi, pois, despejadamente abraçar o seu amigo Roberto Guimarães, que de muito bom grado o acolheu em sua casa, cheio de gaudio ingente, e espontaneidade feliz. Congraçaram-se as duas veleidades; o veneno amalgamou-se com a peçonha num grosseiro deletério; o piar do mocho agoureiro contrastou singularmente com a avidez do abutre esfaimado!

Fazia-se mister uma ocasião oportuna, a fim de cada um poder expandir convenientemente os seus sentimentos.

É o que vamos ver.

O moço provinciano, já a este tempo purificado no cadinho de uma civilização depravada e falsa, foi readquirindo as suas antigas relações. Os seus salões continuaram a estar patentes a todos os velhos amigos e parentes. O seu nome tornara-se sobejamente conhecido no país. A sua fortuna aumentara consideravelmente com a ida à Inglaterra. Não lhe faltavam pais, que o desejassem ver bem colocado no seio de suas famílias.

E o certo é que as circunstâncias se combinaram de tal modo, que, dentro de pouco tempo, Artur de Campos fora feito barão de... E era justo, com efeito; tinha dinheiro: ao menos podia contribuir para a prosperidade do país.

A riqueza reabilitou o homem covarde, perante as cataratas de uma sociedade meia em dissolução. É assim que vemos muitas vezes a virtude suplantada, e o egoísmo triunfante e vitorioso!...

Tudo isto, porém, era pouco ainda, ante o glorioso porvir que lhe estava reservado. O baronato metamorfoseara o nosso provinciano a ponto de lhe incutir no ânimo um acervo de sentimentos depravados e baixos, de uma certa aristocracia ignara, que por aí tropeça a cada canto.

Feito barão, o seu primeiro cuidado foi escolher uma mulher da alta sociedade, que lhe lisonjeasse deveras o paladar, já de si delicado e corrupto. Para isso procurou ele unir-se em segundas núpcias com a filha de um acreditado visconde, que ainda hoje reside em Lisboa.

De resto, nada mais é notório, a não ser que o Sr. barão de... empreendeu, ainda há pouco, uma nova viagem ao estrangeiro, em companhia de sua amável esposa, com quem dizem gozar perfeita felicidade e verdadeira união.

A reparação, embora tardia, não foi intempestiva. Possa, ao menos, a Providência prolongar-lhes os dias da sua ventura e do seu amor!...

Presentemente, de toda a família do conselheiro F. existe apenas Maria, irmã de Matilde, que nós encontramos no princípio desta narrativa. Vive do seu trabalho e das suas lágrimas, porque, segundo a tradição mais geralmente seguida, a sua reputação também não corre isenta de grandes manchas.

Enfim, é desculpável o seu erro: quando a necessidade entra pela porta, a virtude sai pela janela.

Consta que Roberto lhe estabelecera uma mesada nada inferior, a fim de lhe minorar as suas penas, e restabelecer, talvez, a tranquilidade da sua consciência!

Enquanto a este mal-intencionado cavalheiro, nada temos a acrescentar, senão que continua a ser o mesmo homem, e sê-lo há sempre!...

Ce qui a été, sera, — dizia Eugênio Huzar...

Agora, leitor amigo, é ocasião de me dirigir a ti. Desculpa o autor destes Cambiantes, e continua sempre a ver neles uma imagem fiel da comédia humana!

Nenhum comentário:

Postar um comentário