sábado, 30 de setembro de 2017

Como um camponês aprendeu o Padre Nosso (Conto), de Guerra Junqueiro


Como um camponês aprendeu o Padre Nosso

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o Padre Nosso.

“Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.”

“Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que te forem pedir da minha parte.”

No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.

“Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.”

“Padre-Nosso-Que-Estais-No-Céu, respondeu o pobre.”

“E o teu apelido?”

“Seja-Santificado-O-Vosso-Nome.”

E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

Ao outro dia chega segundo pobre.

Como te chamas?

“Venha-A-Nós-O-Vosso-Reino.”

“E o teu apelido?”

“Seja-Feita-A-Vossa-Vontade.”

E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veio terceiro pobre.

“Como te chamas?”

“Assim-Na-Terra-Como-No-Céu.”

“E o teu apelido?”

“Dai-nos-Hoje-O-Pão-Nosso-De-Cada-Dia.”

E levou o seu alqueire.

Vieram ainda dois pobres sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao Amém.

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.

“Então já sabes o Padre Nosso?”

“Não, Sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.”

“Quais são? tornou o padre.”

E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.

“Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes perfeitamente.”

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