sábado, 23 de setembro de 2017

Deve um queijo!... (Conto), de João Simões Lopes Neto


Deve um queijo!...

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)


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O velho Lessa era um homem assinzinho... nanico, retaco, ruivote, corado, e tinha os olhos vivos como azougue... Mas quanto tinha pequeno o corpo, tinha grande o coração.

E sisudo; não era homem de roer corda, nem de palavra esticante, como couro de cachorro. Falava pouco, mas quando dizia, estava dito; pra ele, trato de boca valia tanto — e até mais — que papel de tabelião. E no mais, era — pão, pão; queijo, queijo!

E, por falar nisto:

Duma feita no Passo do Centurião, numa venda grande que ali havia, estava uma ponta de andantes, tropeiros, gauchada teatina, peonada, e tal, quando descia um cerro alto e depois entrava na estrada, ladeada de butiazeiros, que se estendem para os dois lados, sombreando o verde macio dos pastos, quando troteava de escoteiro, o velho Lessa.

De ainda longe já um dos sujeitos o havia conhecido e dito quem era e donde; e logo outro — passou voz que aí no mais todos iriam comer um queijo sem nada pagar...

Este fulano era um castelhano alto, gadelhudo, com uma pera enorme, que ele às vezes, por graça ou tenção reservada, costumava trançar, como para dar mote a algum dito, e ele retrucar, e, daí, nascer uma cruzada de facões, para divertir, ao primeiro coloreado…

Sossegado da sua vida o velho Lessa aproximou-se, parou o cavalo e mui delicadamente tocou na aba do sombreiro;

— Boa-tarde, a todos!

 E apeou-se.

Maneou o mancarrão, atou-lhe as rédeas ao pescoço e dobrou os pelegos, por causa da quentura do sol.

Quando ia a entrar na venda, saiu-lhe o castelhano, pelo lado de laçar... A este tempo o negociante saudava o velho, dizendo:

— Oh! seu Nico! Seja bem aparecido! Então, vem de Canguçu, ou vai?...

Antes que o cumprimentado falasse, o castelhano intrometeu-se:

— Ah! es usted de Canguçu?... Entonces... debe un queso!...

O paisano abriu um ligeiro claro de riso e com toda a pachorra ainda respondeu:

— Ora, amigo... os queijos andam vasqueiros...

— Si, pa nosotros... pero Canguçu pagará queso, hoy!...

O vendeiro farejou catinga agourenta, no ar, e quis ladear o importuno; o velho Lessa coçou a barbinha do queixo, coçou o cocuruto, relanceou os olhinhos pelos assistentes, e mui de manso pediu ao empregado do balcão:

— ‘Stá bem!... Chê! dê-me aquele queijo!...

E apontou para um rodado dum palmo e meio de corda, que estava na prateleira, ali à mão.

O gadelhudo refastelou-se sobre um surrão de erva, chupou os dentes e ainda enticou:

— Oigalê!... bailemos, que queso hay!...

Com a mesma santa paciência o velho encomendou então o seu almoço — ovos, um pedaço de linguiça, café — e depois pegou a partir o queijo, primeiro ao meio, em duas metades e depois uma destas em fatias, como umas oito ou dez; acabando, ofereceu a todos:

 — São servidos?

 Ninguém topou: agradeceram; então disse ele ao cobrador:

— Che!... pronto! Sirva-se!...

 O castelhano levantou-se, endireitou as armas e chegando-se para o prato repetiu o invite:

— Entonces?... está pago, paisanos!... 

 — E às talhaditas começou a comer.

 O velho Lessa — ele tinha pinta de tambeiro, mas era touro cupinudo... pegou a picar um naco; sovou uma palha; enrolou o baio; bateu os avios, acendeu e começou a pitar, sempre calado, e moneando, gastando um tempão...

Lá na outra ponta do balcão um freguês estava reclamando sobre uma panela reiúna, que lhe haviam vendido com o beiço quebrado...

Aí pelas seis talhadas o clinudo parou de mastigar.

Bueno... buenazo!... pero no puedo más!... 

Mas o velho, com o facão espetou uma fatia e of’receu-lhe:

 — Esta, por mim!

— Si, justo: por usted, vaya!…

E às cansadas remoeu o pedaço.

E mal que engoliu o último bocado, já o velho apresentava-lhe outra fatia, na ponta do ferro:

— Outra, a saúde de Canguçu!...

— Pero...

— Não tem pero nem pera... Come...

— Pê…

— Come, clinudol...

E, no mesmo soflagrante, de plancha, duro e chato, o velho Lessa derrubou-lhe o facão entre as orelhas, pelas costelas, pelas paletas, pela barriga, pelas ventas… seguido, e miúdo, como quem empapa d’água um couro lanudo. E com esta sumanta levou-o sobre o mesmo surrão de erva, pôs-lhe nos joelhos o prato com o resto do queijo e gritou-lhe nos ouvidos: — Come!...

E o roncador comeu... comeu até os farelos... mas, de repente, empanzinado, de boca aberta, olhos arregalados, meio sufocado, todo se vomitando, pulou porta fora, se foi a um matungo e disparou para a barranca do passo… e foi-se, a la cria!...

O reclamador da panela desbeiçada deu uma risada e chacoteou, pra o rastro:

— ‘Orre, maula!... quebraram-te o corincho!...

E o velhito, com toda a sua pachorra indagou pelo almoço, se já estava pronto?...

— Os ovos... a linguiça... o café?… 

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