terça-feira, 5 de setembro de 2017

O criado do diabo (Conto), de Leon Tolstoi


O criado do diabo, de Leon Tolstoi

Tradução publicada na revista “O Echo”, em 1916. Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2017)


Vivia outrora um cavalheiro muito rico. Tinha muitos criados que o louvavam, dizendo:

— Não existe sob o manto do céu amo nenhum como o nosso. Dá-nos fartamente de comer, veste-nos bem, distribui-nos o trabalho na medida das nossas forças, jamais nos constrange com palavras ríspidas. Não é como os demais senhores que tratam os seus servidores como se fossem animais ou coisa pior.

Assim o elogiavam. Suspeitou o diabo que esses criados viviam em camaradagem com o seu amo e lhe eram muito afeiçoados, o que o não agradava, e para impedi-lo se apoderou de um deles, chamado Aleb, encarregando-o de corromper os seus camaradas.

Um dia, enquanto os seus companheiros se desmanchavam em louvores ao arrogante exclamou:

— Fazeis mal, amigos, em decantar o nosso patrão; servimo-lo fielmente, demonstrando-lhe a nossa gratidão. Do mesmo modo que nos deseja ele o bem, auguramo-lho também. Obrando assim, como quereis que não reine a melhor harmonia entre ele e nós? Se não fôssemos bons, faria como outros, pagando-nos o mal com o mal; seria mesmo pior do que os outros.

Os criados discutiram com Aleb e propuseram uma aposta.

Aleb se encarregou de atormentar o seu excelente senhor, com a condição de perder o traje dos dias de festas se não conseguisse enfurecê-lo, obrigando os seus companheiros a presenteá-lo com os deles caso obtivesse a vitória.

Ficou assim acertada a aposta.

O serviço de Aleb consistia em pastorear um pelotão de ovelhas, vigiando contudo alguns cordeiros, de alto preço, com mais carinho.

No dia seguinte, o senhor acompanhado de vários forasteiros foi ao campo ondo pascia o rebanho, mostrando-lhes os magníficos carneiros que possuía e que tinha em alto apreço.

O criado a serviço do diabo fez então sinal a seus companheiros, como quem dissesse: "vou agir contra o nosso amo”. Todos os criados se haviam postados sobre o muro fronteiro.

O diabo subiu numa árvore, vendo do alto dela todo o parque para apreciar a conduta do seu servidor. O dono entrou radiante, mostrando a seus hóspedes aquela leva de lindos carneiros.

— São todos de raça apurada, disse. Um deles tem os cornos retorcidos em espiral, e não o cedereis por nenhum preço; quero-o tanto como às meninas dos meus olhos. 

Assustados com a presença de tanta gente, os animais puseram-se a correr, tornando-se impossível aos hóspedes contemplar o famoso cordeiro de que se falava. Viu o criado do diabo que o carneirinho se apartara do rebanho; perseguiu-o, fazendo mesclar-se com os demais, impossibilitando descobri-lo de novo.

Então disse o senhor a Aleb:

Aleb, querido amigo, rogo-te que procures o carneiro de chifres retorcidos e o tragas aqui.

Como se fora um leão, Alob se lançou sobre o rebanho, pegou o animal pela lã, prendeu-lhe as patas dianteiras e com tamanha brutalidade, que o pobre carneiro caiu de chofre. Tão brusca fora a queda que se lhe arrebentou a pata.

Os hóspedes e os criados gritaram horrorizados. O diabo se regozijou vendo a audácia com que se conduzira o seu escravo.

Um velo de tristeza ensombrou o rosto do patrão, que se inclinou triste sobre o carneiro em estertores, sem que lhe escapasse dos lábios uma palavra. Os hóspedes e os criados calaram-se religiosamente: esperavam o que deveria suceder. Calou-se por mais um momento o senhor, e depois, subitamente, como se rechaçasse um pesadelo, alevantou altaneiramente o rosto e contemplou o céu; apagaram-se-lhe as rugas do rosto, e volvendo-se risonho para Aleb, disse-lhe com ternura:

— Aleb Aleb! Ele, que é agora o teu dono, ordenara-te que me encolerizasses; meu Senhor, porém, é mais poderoso que o teu, e serei eu quem vai dar padecimentos para aquele que te governa. Não esperes, pois, Aleb, que te imponha castigo pela falta que cometeste. Desejavas a liberdade: desde agora concedo-a perante os hóspedes; vá em paz e deixa a tua roupa dos dias de festas.

E o bom senhor recolheu-se à casa, acompanhado dos seus hóspedes.

O diabo, ao ver esta ação, cerrou os dentes, pôs o rabo entre as pernas, desceu da árvore e desapareceu nas profundas trevas da terra. 

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