quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O gatuno (Conto), de Medeiros e Albuquerque


O gatuno

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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À nobre, alta e brilhante figura de Cláudio de Souza.

Quando Estevão saiu de casa, quem primeiro encontrou foi Samuel. Estevão tinha 9 anos, Samuel 8. Era um parzinho digno de ser visto, embora entre eles houvesse uma grande distância social.

Estevão era filho de pais não de todo ricos, mas com uma apreciável mediania. Por isso mesmo, trajava com esmero. Sentia-se na sua roupinha bem feita, com o calção apertado um pouco abaixo dos joelhos, com as meias ciumentas que vinham até quase o calção, em tudo, enfim, o menino cujos pais tinham meios bastantes para o tratar muito bem. Mas nada disso o fazia orgulhoso. Era bom, simples, afável. Acolhia os colegas mais pobres com tanta amizade como os mais ricos.

O exemplo das suas ótimas relações com o pequeno Samuel provava bem isso. Porque Samuel era paupérrimo. Vivia com a mãe, lavadeira, e o padrasto cuja mais séria profissão consistia em estar embriagado.

Estevão e Samuel tinham-se conhecido em uma escola pública. O pai do primeiro levara o menino a frequentar uma casa de ensino popular, achando nisso um bom princípio democrático, para seu filho se misturar com os outros colegas.

Os dois, encontrando-se, foram seguindo juntos. Iam pelo mesmo caminho, ladeando o rio. De um lado, havia, de espaço a espaço, algumas casas: chalés, construções ligeiras e grande número de casas um pouco fantasistas. A pequena distância ficava a cidadezinha; o rio a atravessava. Cada casa era cercada de terrenos, mais ou menos cultivados e alguns com grandes jardins na frente. Era assim a casa de Estevão.

Saindo, em direção à cidade, encontrou o Samuel, fez-lhe muita festa e seguiram juntos conversando. Samuel estava com umas calças de fazenda ordinária, muito curtas e, em baixo esfarrapadas. As bainhas podiam dizer-se em franjas. Além das calças, apenas um casaquinho, provavelmente dado por alguém. De tão apertado, mal podia abotoar.

Tudo isso estava, é verdade, muito limpinho; mas o conjunto do vestuário valia por um atestado de miséria. Miséria asseada, porque a mãe lavadeira não se esquecia da profissão.

— Como você está bonito! — disse o Samuel ao Estevão.

Não havia nesse reparo nenhuma zombaria. Era a satisfação afetuosa de ver o colega com tão agradável aparência. Estevão era aliás dos colegas o mais estimado por ele. Samuel tinha grande alegria e até mesmo um certo orgulho em ser visto ao seu lado.

— Você andou brigando com o gato? — perguntou-lhe o Estevão.

A pergunta se justificava, porque Samuel tinha o rosto profundamente arranhado. Havia mesmo na testa uma mancha roxa. Teria caído ou batido com a cabeça em algum ponto.

Samuel explicou-lhe o caso. O padrasto perdera uma nota de 10$000 e acusara-o de a haver furtado.

— Eu nem vi esse dinheiro, afirmava o pobrezinho. Provavelmente ele mesmo o deixou cair em qualquer ponto ou lho roubaram na venda.

E por causa disso o bêbado tinha surrado barbaramente a criança.

— E sua mãe não o defendeu?

— Defendeu, sim, mas o resultado foi ter ela apanhado ainda mais. Nós ontem estávamos moídos da pancadaria; nem ela nem eu podíamos quase ficar de pé. Hoje quem está doente é o pai. Eu vou daqui à botica buscar remédio para ele.

Dizia isso com tristeza, mas uma tristeza resignada, sem azedume, como quem achava que as coisas não podiam ser de outro modo e seria inútil tentar mudá-las.

Seguiam sempre pela estrada, ao longo do rio. Este era aí bem profundo. Chovera muito nos dias anteriores e as águas corriam turvas, mugidoras. Nas duas margens uma vegetação soberba.

Pouco passaria das duas horas da tarde. Dia de sol encoberto, mas muito claro. Claro e fresco. As bordas do rio, principalmente a oposta àquela pela qual os dois amiguinhos seguiam, estavam cobertas de flores.

Havia lima revoada de borboletas e o ar parecia cheio de pássaros, indo e vindo, voando em todas as direções.

Estevão comentou:

— Seu pai é mau.

— Mau ele não é, defendeu o coitadinho. Tudo está no costume de beber. Quando faz isso, fica fora de si e faz tolices.

Mas ele atenuava muito as coisas. O padrasto, a quem chamava pai por ordem da mãe, quando se embriagava, tornava-se uma fera. E se o coraçãozinho generoso do Samuel ali o estava defendendo, nas crises de cólera do velho ficava a tremer de terror, porque o ébrio perdia inteiramente a razão e queria até matá-lo!

Estevão atreveu-se a um conselho:

— Por que você não foge?

— Fugir para onde, Estevão? E depois não posso deixar mamãe.

— E se eu pedir a papai para você ir servir lá em casa?

Samuel teve nos olhos um relâmpago de alegria:

— E você pede mesmo?

— Peço, não custa nada.

— E ele deixa?

— Não sei; mas ele gosta muito de mim.

Se eu pedir, é muito provável me faça a vontade. Samuel ficou calado. Via-se, porém, no seu rostinho vivo, inteligente, com uns grandes olhos negros muito pestanudos, quanto aquela vaga proposta o alvoroçara e seguia um sonho interior, deslumbrante.

Em certo ponto do rio, onde este era bem largo, havia uma barragem de grandes pedras feita precisamente para quebrar a força da corrente. Pedras grandes, limosas, por entre as quais a água passava com um barulhão formidável. Mas depois dessa barragem o leito do rio se estreitava de novo muito, entre as duas paredes de pedra, a pique, o que fazia a corrente recuperar e até aumentar a sua violência, mugindo furiosa. Mais de uma pessoa, querendo suicidar-se, viera atirar-se dali ao rio. E ninguém fora dele retirado, senão muito abaixo — e morto, bem morto.

Quando chegaram perto da barragem de pedras, Estevão anunciou ao amigo sua intenção: ia atravessar. Lá havia do outro lado umas grandes flores azuis e ele pensava em ir buscá-las, a fim de levá-las à avó, para cuja casa seguia.

— Não faça isso! — gritou-lhe o Samuel. Você escorrega. Se você V*** quer, eu vou.

Mas o Estevão teimou:

— Eu escorrego e V*** não escorrega?

— Você está calçado e eu estou de pés no chão.

O Estevão não se deu por convencido. Decidiu-se a ir mesmo. Felizmente, porém, teve a prudência de seguir um conselho de Samuel:

— Então V*** vá bem pela direita, porque se cair não tem tanto perigo.

Um conselho de bom senso. À direita estava a nascente do rio. Daí vinham as águas. Se alguém caísse desse lado seria empurrado por estas de encontro às pedras. Se caísse do lado oposto, seria o da correnteza: as águas o arrastariam para a foz. Era, podia-se bem dizer, o lado da morte certa.

Estevão seguiu com grande cuidado, mas logo aos primeiros passos sentiu quanto Samuel tinha razão. A sola dos sapatos revelava uma evidente tendência a escorregar. E por duas vezes esteve quase a cair. Da terceira vez, não foi "quase", foi de veras. Catrapuz! Mergulhou em cheio.

Samuel não teve sombra de dúvida. Tirou o seu pobre casaquinho, jogou-o ao chão, e atirou-se à água para acudir ao amigo. Ia apenas com as calcinhas de bainhas esfiapadas, nu da cintura para cima. Ele nadava admiravelmente e como Estevão também o fazia um pouco, tudo se passou bem: pude ajudar o amigo a voltar para terra.

— Está aí, teimoso! — disse Samuel a Estevão, ralhando com este afetuosamente. E ajudou-o a tirar o casaco e a estendê-lo ao sol na margem do rio, junto ao seu próprio casaquinho, também aí estendido.

— Agora, enquanto isso seca um pouco, eu vou buscar as flores. Já estou molhado, vou mesmo nadando.

E atirou-se de novo ao rio, seguindo bem por junto das pedras da barragem. Estevão acompanhava-o com os olhos.

De repente, porém, lembrou-se; ao vestir-se em casa pusera no bolso do casaco uma nota de 5$000. Com ela esperava comprar na cidade várias guloseimas. Devia estar molhadinha.

Apalpou o bolso e teve uma surpresa formidável. Não sentiu nada. O bolso estava vazio. Ainda se achava nesta pesquisa, quando ao olhar para o casaquinho de Samuel, viu a pontinha um pouco caída de uma nota: precipitou-se para examiná-la e verificou ser precisamente a sua nota de 5$000.

Estevão sentiu uma decepção enorme:

— Ah! o gatuninho! Tanto obséquio, tanto agrado e era para furtar meu dinheiro.

Botou o casaco ainda molhado debaixo do braço, olhou para o Samuel que começara a atravessar de volta, andando agora por cima da barragem de pedras, com um ramo enorme de flores azuis, e não lhe disse nada, embora tivesse tido vontade de chamá-lo gatuno. Disparou para casa, correndo, desistindo do resto do passeio.

Samuel não compreendeu. Pois o amigo tanto se empenhara por obter aquelas flores e justamente quando ele as apanhara e lhas trazia, ele fugia? Fosse como fosse, veio andando com cautela. Estando como estava descalço e tendo o costume de pisar assim, escolhia melhor as pedras onde pôr os pés e atravessou a barragem sem acidente.

Estevão, na corrida em que ia, não tardou a chegar a casa. Penetrou nela estabanadamente. A mãe foi quem o recebeu. Indagou, solicita e admirada:

— Que é isto? Todo molhado? Onde esteve você?

Em frases rápidas, entrecortadas pelo cansaço da corrida, Estevão lhe narrou o sucedido: — Felizmente, o gatuninho do Samuel não furtou o meu dinheiro dado por você.

A mãe atalhou:

— Nem podia furtar. O dinheiro ficou aqui em casa.

— Aqui?! Eu o meti no meu bolso.

— Eu vi, disse a mãe; mas quando você vestiu o casaco, eu o tirei e escondi naquela gaveta. E, juntando a ação à palavra, abriu a gaveta e exibiu a nota, por ela mesma aí guardada.

Estevão teve um gesto de terror:

— Ah, mamãe, então o gatuno fui eu! E tomando o dinheiro, sem outra explicação, sem dizer mais nada, tornou a sair e precipitou-se correndo, estrada a fora. Ia levar o dinheiro ao Samuel e trazê-lo para casa, custasse o que custasse.

Quando se aproximava da barragem, de pedras viu que já havia lá muita gente. Que seria? Perguntou, ansioso:

— Um pequeno, um pequeno que estava aqui?

Todos lhe informaram, pois sobre isso estavam conversando:

— Atirou-se ao rio do lado de lá.

— O "lado de lá" era o da morte certa.

Seu cadáver seria achado perto da praia, daí a um dia ou dois.

Quando Samuel percebeu, verificou ter sido roubado do dinheirinho do remédio para o pai, sentiu um desespero imenso. Lembrou-se do espancamento sofrido dois dias antes. E agora? Muito pior, decerto. Ao desespero, agravando-o, juntava-se um assombro: "Como o Estevão, não precisando de nada, fizera aquilo?! O Estevão cuja vida salvara! O Estevão, o colega mais estimado por ele!" Teve uma sensação de aniquilamento. Todos o perseguiam, todos lhe queriam mal. Na amargura imensa do seu espiritozinho, decidiu-se a morrer, a morrer logo. Estava no bom lugar. Voltou por cima das pedras da barragem, resmungando sem compreender porque o colega fizera aquilo: "Ah! Estevão! Estevão!" E atirou-se à água. Um redemoinho turbilhonante o jogou de encontro às rochas de uma das margens, manchando de sangue a água, por um instante.

E o corpinho do pequeno lá se foi, rio abaixo.

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