terça-feira, 26 de setembro de 2017

O mal de D. Quixote, de Raul Pompeia


O mal de D. Quixote

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Foi um dia apresentado ao Dr. X... alienista notável do Rio de Janeiro, um curioso enfermo, vítima de uma singular mania.

Singulares são, em última análise, todas as manias de louco; entretanto, a do caso a que aludo, possuía a notável qualidade de consistir numa coisa que tinha seus ares de teoria, através da qual uma sólida corrente de argumentação arrastava o espírito demente ao mais estranho disparate.

— É preciso extraí-lo, raciocinava o louco... O coração é uma víscera perfeitamente tola... Não passa de um estúpido fole, soprando sangue pelas artérias, em vez de ar... A ciência pode trocá-lo por um aparelho qualquer, que o substitua na função de centro circulatório, evitando, contudo, as regalias morais que goza a tal víscera da minha implicância.

Ne sutor ultra crepidam, ouvi sempre dizer. Se o coração se contentasse com o papel fisiológico de fole, de bomba de compressão, e lá se conservasse modestamente, no fundo da sua gaiola de costelas, a trabalhar obscuro e honrado, nas suas diástoles e sístoles, eu não exigiria que mo extraísse como um obstáculo que estraga-me o organismo e a vida; mas o intruso esquece que nasceu para fole; mete-se pelos domínios da existência moral, a fazer concorrência com os sisudos miolos, e deita, então, quanta tolice pode fazer o sapateiro de Horácio.

Talvez eu passe por doido, mas afirmo que, se tenho tentado arrancar esse músculo e se exijo a extirpação desse órgão nocivo, ainda que me arrisque a sucumbir, é que muito tenho refletido no assunto, e as minhas convicções contra o coração vêm de longa data, penetraram com valentes raízes no meu espírito.

A vida dos homens é o positivo. Fora do positivo, existe, apenas, o vasto mar do ridículo. A pilotagem da vida consiste em evitar o naufrágio no grande mar.

Todavia, o naufrágio é quase inevitável, porque o navio leva uma carga enorme e irrequieta, que faz variar constantemente o centro de gravidade e perturba a todo o momento a flutuação regular.

Esta carga é a tal víscera.

Carga ao mar, pois! libertemos a nau!...

O positivo é o sério, é o grave, é o normal, é o burguês, é o vulgar, é o comum, é o tranquilo, é o prudente, é o fecundo; é o almoço de todas as manhãs e o jantar de todas as tardes; é a herança para a prole. Fora disso, o exagerado, o exacerbado, o entusiástico, o pródigo, o impensado, o idealista, o fantasioso, o desvairado, o inconveniente; o pão nosso de cada dia, no mais restrito sentido dominical; o tolo, o desfrutável, em suma.

É sempre o mesmo abismo de ridículo, ameaçando o sério e o positivo.

E procuremos o que nos faz pender constantemente para o abismo do desfrute... É a víscera; é a víscera fatal!...

O coração produz, na família, o enamorado, um tolo; na sociedade, o herói, outro tolo; na literatura, o sentimental, outro tolo; na filosofia, o melancólico, mais um tolo...

Enamorado, herói, sentimental, melancólico, tudo gira numa vertigem de ridículo, debaixo do grande olho positivo, que ri, como quem vê arder a barba do vizinho, e vai deduzindo em silêncio as gordas e proveitosas normas da experiência.

Savoir vivre!...

O coração é o pai do ridículo pungente. Há quem ache graça no idiotismo e na asneira. Isto é o ridículo banal e fútil.

Ridículo miserável, profundo, é o das vítimas do coração. É o ridículo propriamente dito; é o ridículo humano.

Pôr um termo a este mal parece-me um dever elementar da ciência. Sabe-se que a origem do mal aí está palpitando, por entre a quarta costela e a quinta.

A medicina reflita...

Tanto mais que não é só o fato objetivo do ridículo que condena o coração. É, ainda mais, o fato subjetivo dos sofrimentos rudes que causa a víscera a quem a traz, cada vez que dá em espetáculo às gargalhadas positivas uma fraqueza e uma tolice da criatura humana.

Não há nada mais salutar do que o riso. Entre outras vantagens, tem a grande vantagem de não ser a lágrima.

O riso é a mais agradável manifestação do positivo.

Quem solta a gargalhada, tem a superioridade de não ser o palhaço.

Riamos, com os diabos!... Vale mais mofar do que ser mofado.

No circo da vida, a gargalhada ocupa as arquibancadas anfiteatrais. No meio, faz caretas e macaquices o grotesco, o ridículo, o náufrago da víscera.

O homem que ri, está fora do picadeiro. Cuidado com a víscera, que ainda leva-te para dentro!...

É preciso, portanto, que se resolva um meio de abolir o risco de rolar da arquibancada.

É o que eu procuro.

Quem sabe bem rir, não cria tropeços à própria liberdade.

Há uma coisa que chama-se o amor, e uma coisa que apelida-se o ódio. A liberdade positiva tem os pulsos ligados por essas duas algemas. Descubram a outra ponta da cadeia, que hão de encontrá-la soldada ao maldito fole do sangue.

O amor faz a fidelidade, a dedicação, o cativeiro voluntário e outras coisas que a linguagem, com o seu modo astucioso de resolver as dificuldades, denomina virtudes; faz também, transformando-se por movimentos reflexos, ou paralelos de espírito, o que se chama a indignação, a revolta, o ciúme, a vingança, o ódio, enfim; e certas coisinhas que ainda a linguagem, sem grandes argumentos, especializa com o rótulo de vícios.

Tudo isso é uma série de algemas, que prendem duma ou doutra sorte. Apaixonado significa acorrentado. Quem ama, prende-se; quem odeia, prende-se. Só é livre quem ri.

Por isso é que o riso é salutar e raro.

A gargalhada é essencialmente filha do cérebro. É livre como o sátiro do bosque.

Viva a gargalhada!

Quem dá vaias, não as leva.

É a grande garantia da gargalhada. Contra esta garantia existe a víscera-fole. Risque-se a víscera, em nome da liberdade, ou ao menos em nome da seriedade positiva da vida.

Dizem que Molière é a comédia... Eu não penso assim. Molière escreveu o drama dos idiotas, encenou a parvoíce fútil. Para mim, a comédia, a comédia real veio de Inglaterra com aquele pobre Romeu, que passava noites a cantar serenatas embaixo da varanda da namorada, entoando com os galos; ou ia de madrugada subir por escadas de corda, sem pensar no papel que faria, se a polícia o agarrasse como um gatuno.

Cômico, para mim, é o furibundo barba-azul do Otelo, que seria um tanto mais brando, se temesse o código. Cômicas são todas essas caricaturas de malucos, engendradas pelo poeta psicólogo inglês.

A comédia de Shakespeare é na verdade triste. Mas é triste, porque é real; e é triste somente para quem não sabe rir dessa coisa tola chamada paixão.

Comparados Romeu e D. Juan, o nosso Romeu não passa de um principiante, que não entende do riscado, e que ainda suspira, à luz de alvoradas, como a gata ao cio.

É que D. Juan sabe rir.

Certo é também que na comédia de Shakespeare há sangue; mas isso não obscurece o grotesco.

Triboulet, que começa por fazer rir, acaba por fazer chorar.

De mais, o sangue da comédia inglesa é a última consequência da ridícula soberania do fole circulatório. É requinte sui generis do desfruto.

Quando aquela gente suicida-se, ou cai assassinada e mesmo quando assassina, ouve-se o bom senso positivo, burguês e prático dizer: — pobres diabos!

O positivo é que é o verdadeiro. É preciso conciliar-se tudo com ele.

As nevroses constituem a praga da humanidade.

— Guerra às nevroses!

A cidadela das nevroses é a famosa víscera.

Arrasemos a cidadela!

Sim, meu caro doutor, já é tempo de lançar-se mão aos freios da estafada cavalgadura de D. Quixote, que vai desastradamente passeando a gesticulação ossuda do seu entusiasmo cavalheiresco, por entre a vaia das gerações!

Já é tempo de suspender-se este espetáculo do cavalheiro da Mancha, eternamente bom, mas eternamente tolo!..."

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O médico, que acompanhava extasiado a estranha dissertação do louco, concentrou-se por momentos, e disse-lhe:

— Esteja tranquilo, meu amigo, não pense mais nisto; eu vou extirpar-lhe o coração... vou curá-lo.

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