quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O velho Bastos (Conto), de Medeiros e Albuquerque


O velho Bastos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Quando se falava no "velho Bastos" todos sabiam de quem se tratava. Há, decerto, por este vasto mundo muitos Bastos velhos. Mas reunindo-se as duas designações e falando-se no "velho Bastos" ninguém o confundiria com outro qualquer.

E realmente ele tinha singularidades inconfundíveis.

Atualmente era baixote, gordo, atarracado, quase sem pescoço. A sua calva corria parelhas com o que decerto são os trechos mais áridos do Saara.

Fizera fortuna no comércio de secos e molhados; mas fizera fortuna de um modo inteligente. Instalara vários armazéns, onde só se vendiam gêneros enlatados, ensacados ou engarrafados. Nada facilmente estragável.

Bebidas: vendia-as, sim, mas engarrafadas. No armazém não havia o sórdido balcão, forrado de zinco onde os criados vêm embebedar-se. Não se media, nem se pesava nada, porque tudo estava medido e pesado de antemão em saquinhos já prontos. Era a aristocratização da venda de secos e molhados. Os caixeiros estavam vestidos como os das casas de modas mais elegantes da cidade. E, por cumulo, tudo era baratíssimo... Vendia quase pelo preço do custo.

Quando o primeiro armazém se instalou os concorrentes fizeram uma troça formidável aos por eles chamados "caixeiros de casaca."

Mas no fim do mês já nenhum deles ria. A diferença de preços era tal que a freguesia não podia deixar de ser atraída.

E como não havia o ajuntamento perto do balcão e a casa era escrupulosamente limpa, começaram a aparecer clientes elegantes, senhoras que iam pessoalmente fazer suas compras. Estas lhes eram imediatamente levadas por portadores uniformizados, em geral crianças, mais parecendo empregados de armarinhos chies e não de uma venda.

Seis meses depois de se abrir o primeiro Armazém Bastos, ele transbordava de freguesia durante o dia inteiro. Os donos dos outros armazéns estavam furiosos. Acusavam o velho Bastos "de concorrência desleal" Projetaram lima vasta boicotagem. Mas não conseguiram nada, porque o velho Bastos comprava muito e à dinheiro. Isso lhe permitia obter preços excepcionais. Outros, vendendo por atacado, não podiam competir com os seus preços, vendendo a varejo.

E assim ele enriqueceu muito legitimamente.

Ao primeiro armazém seguiram-se outros, organizados do mesmo modo.

Bastos transbordava de dinheiro.

Em que gastá-lo, se era um solteirão sem parentes? Não tinha amantes. Não sentia delas a mínima necessidade. Proclamava mesmo serem a coisa mais inútil do mundo. Mas lá diz o rifão: quem tem filhos tem cadilhos, quem não tem cadilhos tem. De qualquer modo, portanto, os cadilhos não faltam: coube-lhe em sorte um sobrinho. A irmã, casada, enviuvara dois meses após e ficara grávida. Quando lhe nasceu o filho, morreu. O velho Bastos não teve remédio senão ficar com o pequeno.

Não o trouxe, porém, para casa. Deu-o a criar a uma família muito correta, de costumes rígidos, ou como ele dizia, "de costumes à antiga".

Porque, em matéria de costumes, os do velho Bastos não podiam ser mais puros. Era intransigentemente honrado. Isso fizera aliás um dos elementos do seu sucesso no comércio. Quando lia a lista dos títulos protestados anotava o nome daqueles, com quem evitaria, daí por diante, mesmo as mais simples relações de cortesia.

O grande defeito do velho Bastos estava na sua irascibilidade. À menor falta de qualquer dos seus empregados ficava furioso, possesso, desatinado. A vasta calva tomava a coloração dos tomates maduros. Todo ele tremia de raiva.

Esse fato acabou por levá-lo a abandonar os negócios. Certa vez, após o almoço, irritou-se com um empregado a ponto de chegar a ter um ameaço de congestão cerebral. A língua lhe ficou trôpega por alguns dias. Felizmente, ele se restabeleceu, mas tomou uma grande resolução: converteu os Armazéns Bastos em sociedade anônima, de que aliás tinha a maioria das ações, mas livre da administração direta pode entregar-se à sua grande mania. Porque a outra coisa que o tornava inconfundível era ser o maior colecionador de objetos raros e raridades.

Sua casa era um museu. Certa vez quando, em um leilão, conquistara uma peça rara disputada por outro concorrente, este se afastara desesperado, a murmurar:

— Maldito carne-seca!

Aludia assim ao comércio de secos e molhados, de onde provinha a fortuna do velho Bastos. Mas este, a quem contaram a explosão do derrotado, estava de bom humor pela vitória obtida. Comentou apenas, rindo:

— Precisamente, nos meus armazéns nunca se vendeu carne seca!

O museu do velho Bastos era uma reunião heteróclita de obras raras de arte e de singularidades de todas as espécies.

Constava-lhe ter alguém uma estatueta ou quadro de artista célebre? Esforçava-se para comprar a peça notável. Mas se lia nos jornais do dia a notícia de algum grande crime na cidade, do mesmo modo buscava adquirir a arma com a qual fora levado a efeito: punhal, faca, revólver E nestes casos juntava os atestados do advogado do réu ou, quando possível, do próprio réu, para a autenticidade ficar provada.

O seu máximo prazer era quando passava pela cidade algum ilustre visitante estrangeiro e as autoridades, não sabendo mais como distraí-lo, o levavam ao museu do velho Bastos.

Ele dizia, então, com falsa modéstia ao visitante, tratar-se de uma pequena coleção de curiosidades; mas obrigava a vítima a ouvir-lhe a explicação de tudo.

Nos últimos tempos tinha trazido para casa o sobrinho. Estava ele fazendo o curso de Direito. Achava-se pelo menos matriculado. Na verdade, porém, não estudava nada. Um farrista de primeira ordem. E o tio sentia isso e andava furioso. Mais de uma vez tinham tido discussões azedas e violentas.

Todas as discussões com Bastos tomavam logo este caráter. Ficava escarlate.

Nesse dia, porém, tudo correra normalmente. O velho passara a manhã ocupado na leitura de jornais e na sua correspondência. Era o normal. Ao meio dia serviram-lhe o almoço, no qual fazia questão da presença do sobrinho. E, de fato, esse lá estivera.

O velho se achava de bom humor. Comeu bem, bebeu melhor — e isso queria dizer ter comido muito e bebido muitíssimo. Era o seu pecado predileto: a gula. No capítulo das bebidas não ia até a embriaguez, mas regava copiosamente as suas refeições com vinhos fortes e escolhidos. Acabava-as sempre vermelho, congestionado, e ia dormir a sesta.

Estava à mesa quando o criado lhe trouxe o cartão de um visitante. Leu-lhe o nome com visível estranheza e murmurou entre os dentes: "Não pode ser boa a visita deste patife!" Mas, em voz alta, ordenou fizessem entrar a pessoa e lhe pedissem que esperasse, prevenindo-a só lhe iria falar dentro de quinze a vinte minutos. Não disse, porém, alto o nome do visitante, cujo cartão enfiou no bolso, e continuou a refeição com toda a placidez.

Poucas palavras dirigiu ao sobrinho. Essa era, de resto, a norma. Aturavam-se um ao outro com um mínimo de conversa. Não sabia mesmo o sobrinho ter o tio refeito dias antes o testamento, deserdando-o inteiramente.

Mas embora não soubesse isso, sentia-lhe a hostilidade crescente.

Quando do silencioso almoço o velho se levantou, após haver acendido um grosso charuto, estava com a fisionomia de quem se fartara. E fartara-se realmente! Mas o seu ar, se era o de um homem repleto, com as maçãs do rosto atomatadamente rubras, era também o de um perfeito contentamento.

Ainda rosnou entre os dentes:

— Boa coisa não há de ser a visita deste canalha!

E entrou no salão, onde era esperado. Mas o "bandido", o "canalha", a quem ele se referia, não deu por sua chegada. Estava de pé, embevecido, contemplando uma das vitrinas do museu.

Ora, esse era o meio certo de fazer a corte ao velho Bastos. A coisa mais lisonjeira para ele era a admiração de quem mirava com entusiasmo as suas coleções.

Desta vez o admirador delas, ocupado nisso enquanto o dono da casa não vinha, merecia realmente os epítetos pouco amáveis usados pelo velho: era o dono de uma casa de penhores, emprestador de dinheiro a juros fabulosos. Bastos passava frequentemente por diante do estabelecimento dele e várias vezes o encontrara à porta. Em duas ou três ocasiões, com grandes intervalos, tivera tido ocasião de falar-lhe e sentia imensa repugnância com o seu contato. Era, de fato, um sujeito hipócrita, untuoso, cheio de fórmulas de excessiva humildade e cortesia, curvando-se a cada cumprimento. Enojava.

Bastos chamou-lhe afinal a atenção:

— Aqui me tem o Sr. David às suas ordens.

— Oh! Sr. Bastos. Estava a examinar o revólver deste armário: bela peça!

Com o revólver se cometera tempos antes um dos mais monstruosos crimes. Bastos conseguira obtê-lo. Das seis balas do seu barrilete ainda conservava duas. Complacentemente — talvez mesmo um pouco vaidosamente pela raridade da peça — o colecionador explicou ao usurário como obtivera a arma. Tinha o atestado do advogado do criminoso, afirmando a autenticidade do sinistro instrumento do crime.

Bastos fez ver como a arma se achava em bom estado:

— Ainda se poderia com ela, tal qual está, cometer algum assassinato.

David tomou uma atitude de susto, com pequenos gestos fingidos de horror:

— Não diga isto, Sr. Bastos.

— Vamos, porém, adiante, replicou-lhe o capitalista. Sou todo ouvidos.

Sentaram-se. David tirou da carteira um papel e expôs o caso: na véspera se vencera um título de dois contos, passado a ele por Bastos.

— Por mim! exclamou este.

— Eu logo vi. Só mesmo por esquecimento o Sr. Bastos deixaria de pagar. O caso não tem a menor importância. O Sr. Bastos pagará quando quiser.

Mas o capitalista, vermelho, surpreso e mais talvez ainda irritadíssimo, arrancou-lhe o papel das mãos e mirou-o avidamente. Não teve dúvida em reconhecer a sua assinatura.

Mas estava falsificada, evidentemente falsificada.

— Quem lhe deu isto?

— Seu sobrinho.

O velho hesitou um instante. Parecia que ia estourar. Mas tomou, de pronto, a única resolução possível; num gesto de cólera muda, com movimentos bruscos, incapaz de dizer uma só palavra, sacou a carteira do bolso, dela tirou quatro notas de 500$000 e, dando-as ao usurário sem lhe dizer mais nada, levantou-o pelo braço e apontou-lhe a saída. O velho Bastos tremia de raiva. Houve um momento, em que, passando junto à mesa onde estava o revólver roçou com a mão nele. David, que notou esse fato, precipitou-se quase correndo, com receio de algum tiro.

Ele não tinha tido, desde o primeiro momento, dúvida alguma sobre o título: a assinatura havia sido falsificada pelo sobrinho do velho Bastos. Mas David, reconhecendo embora isso desde o primeiro momento, fingiu-se enganado. O velho não deixaria o sobrinho ir para a cadeia, processado por uma falsificação.

E sucedeu, de fato, o previsto. Bastos pagou a dívida.

Mal David transpusera a porta, o velho fez chamar o sobrinho e teve com ele violenta explicação. Disse-lhe a sua cólera e a sua vergonha. Sabia ser ele um vagabundo, mas não imaginara a sua tão rápida decida até o crime. Falsificador! Amanhã seria um gatuno, um salteador.

Falando, o velho se aproximara outra vez da mesa em que estava o revólver. Em dado momento, sentindo-o debaixo de sua mão, tomou-o. O sobrinho tremeu apavorado, disposto a saltar sobre o tio e impedi-lo de atirar. Mas viu de súbito o velho segurar a arma pelo cano e passar-lha:

— Só há uma solução para a tua vida. Toma esta arma e estoura os miolos. Antes suicida que ladrão.

O rapaz aceitou o revólver e saiu com um ar sombrio e decidido. Era uma solução. O velho passava a mão entre o colarinho e o pescoço, meio sufocado. Nisto, ouviu lá dentro a detonação de um tiro. Acabara a história.

Previu, porém, o desenrolar dos fatos: os criados a chamá-lo, a Assistência, a Polícia. Nos estertores da agonia, o moço era bem capaz de acusá-lo. Tomou do cabide um chapéu mole, enfiou-o e saiu de casa. Só voltaria mais tarde, quando as primeiras providências estivessem tomadas.

E foi-se. Foi-se pelas ruas afora, sem rumo certo. Estava mais do que nunca rubicundo, apoplético, parecendo prestes a explodir. Passando na rua central da cidade viu pessoas aglomeradas em frente de um boletim do jornal, posto naquele mesmo instante: seria a notícia do suicídio do sobrinho? Passou de largo, apressado, para não ver; mas o fato lhe aumentou o abalo.

Diante dos olhos se lhe apresentava a cada instante a cena em sua casa: via, como em uma alucinação, o sobrinho caído por terra, com a cabeça varada por uma bala. E a consciência, às vezes, lhe exprobrava que, afinal, ele talvez tivesse sido excessivo. Praticamente, não se tratava de um suicídio e sim de assassinato. O assassino era ele. Quem segurara a mão do sobrinho para levá-la à cabeça? Quem puxara o gatilho? Cada vez, sentia uma sufocação mais forte e passava nervosamente a mão entre o colarinho e o pescoço.

Duas horas se tinham já passado, andando assim pelas ruas sem destino.

Nisto deu de frente com o usurário, seu visitante daquela manhã. Ia evitá-lo, quando o homem partiu para ele, com o seu habitual e odioso sorriso. Bastos preferia não falar-lhe, mas se fugisse dele, mais tarde isso lhe poderia ser incriminado. O sobrinho lá estava em casa, morto.

David adiantou-se:

— Ora, Sr. Bastos, se o senhor estava em dificuldade, podia adiar o pagamento para quando quisesse. Seu crédito não tem limites.

— Não compreendo, disse Bastos secamente — ou mesmo mais que "secamente": furiosamente.

— Eu recebi, há pouco, a visita de seu sobrinho levando, em seu nome, para empenhar, o revólver.

Fez uma pausa e acrescentou:

— Se o senhor não podia pagar, era apenas dizer.

Mas estas últimas palavras, Bastos não as ouviu. Então o sobrinho, em vez de matar-se, fora empenhar o revólver! Era demais. Após o almoço, após a emoção da conversa com David e a vista do título falsificado, o abalo da convicção de ter-se o sobrinho suicidado e agora, bruscamente a notícia do furto por ele feito, da arma empenhada. Era demais. Demais, sobretudo para aquele velho organismo, já uma vez visitado pela apoplexia.

Bastos sentiu uma nuvem de sangue avermelhar-lhe mais a face congestionada. Toldou-se-lhe a vista. Rodou sobre si mesmo e caiu — nem era para menos — com a mais fulminante das apoplexias.

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